Em 16 de Março de 1924 Mussolini ordenou a ocupação militar de Fiúme, no que fícou como vitória final da
Política sobre a
Estética. Até aí o jogo estava indeciso. É costume alguma vista curta crítica tentar fazer de Hitler & C.ª o predomínio do
Estético sobre o Poder, coisa que veementemente contesto. Os dirigentes do
Nacional-Socialismo não possuíam credenciais para encarnar essa aspiração e a própria concepção racial era uma abdicação de aferição do Belo, na medida em que passava um cheque em branco a todo o bicho careta e atitude que fosse "ariano", prescindindo da coincidência do Ideal no concreto, o que a Estética não consente. Tais dislates analíticos permanecem hipnotizados pelos
desfiles neo-pagãos à luz dos archotes.
No caso do irredentismo italiano de Fiúme o caso era diverso: D´Annunzio tinha
background estilístico e posições assumidas na (e com) Arte para poder sonhar a submissão, sempre perigosa, acrescento, de uma acção militar a um credo de esteta. Pegando num exército privado de seguidores foi o que fez e impôs um cânone, mais tarde, importado pelo
Fascismo, que o idolatrou mas a que recusou sancionamento total. Foi uma ocupação e
regência sem mais sofisticação institucional do que a vontade do
Comandante, sujeita aos seus versos empolgantes da «
Canzione del Carnaro», evocativa de um
raid naval sabotador da
Grande Guerra conduzido por Constanzio Ciano. Dessa experiência internacional de uma ocupação por uma guarda particular, ficaria o conflito com o próprio governo italiano que forçaria à rendição.
Do feito épico restariam o termo
Duce, lá reinventado e os
olalás dos versos desse informal mas omnipresente hino. O maior fracasso da vivência única nem foi a derrota das armas, que, por atraente no sacrifício, poderia enquadrar-se bem nos seus pressupostos motivadores. Foi-o, isso sim, a necessidade de recorrer à Nacionalidade como legitimação, conceito essencialmente político, em vez de se assumir como o que, de facto, tinha sido - a vontade de o indivíduo fazer triunfar o seu inconformismo perante a recusa do prémio devido ao sacrfício dos seus, no final desse conflito em que os vencedores tinham obsessivamente tratado a Itália como menoríssimo parceiro.
Quando os
Fascistas emendaram a mão era já um mundo estranho que prevalecia, o das burocracias militares, partidárias e diplomáticas que o entusiasmo daquele punhado de revivalistas do
Romantismo tinha alimentado a ilusão de vencer.
