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sexta-feira, 14 de março de 2008

O Corte Radical

Alexandre Cortando o Nó Górdio, de BarthélemyAs prioridades do Governo vêm à tona: simplifica-se ao paroxístico nível de uma ligação à net a efectivação de um divórcio, com formalidades muito inferiores às exigidas para o casamento. Como, presumivelmente, só as dissoluções por mútuo consentimento estarão contempladas, vai ser um ver se te avias, com todo e qualquer casalinho em fase de arrufo a correr para o computador, acreditando piamente assim obter a sua preciosa liberdade. Esquecendo o que Chesterton fez ver: o que há de grande e sublime no matrimónio não é cada um permanecer livre, mas ambos concordarem em ser escravos. Não vêem os pobres recorrentes a esta facilidade, que o próprio nome do meio indica terem sido apanhados numa rede aprisionante sem a dignidade da ligação que deixam.

Os Nós e os Laços

Outra sem-razão ostensiva é a da avalanche de criticismo contra a divulgação da imagem da Mulher do Dr. António Costa na manifestação anti-governamental dos professores. Nada o justifica. Não foram facultados quaisquer dados privados, apenas a mais pública das condutas, que é uma manifestação. E o estado civil, que não me consta que seja subsumível à reserva de intimidade. Acusações de machismo e de unanimismo pretendido não pegam - a situação seria igualzinha se estivéssemos perante o desfile contestatário do marido de uma política. E, para quem ainda vote, o que não é o meu caso, pode a publicitação do facto ser um critério relevante, o de que um eleito não tenha conseguido convencer da bondade das soluções do seu partido até a pessoa a que conseguiria devotar mais tempo e pormenor de explicações, como também a que poderia, em função do afecto, mostrar-se mais receptiva à argumentação.
Na eleição presidencial de Bush um argumento pouco contestado, dizia que as pessoas que melhor conheciam Gore, os eleitores do Tennessee que representara, se aprestavam a votar, maioritariamente, no adversário. Haverá quem conheça melhor um agente político do que a sua cara-metade?
Ninguém diz que o Dr. Costa e Senhora não têm direito a amar-se muito, divergindo. O que se diz é que toda a gente tem o direito de sabê-lo, desde o momento em que eles não o tentem esconder.

terça-feira, 11 de março de 2008

O Que Deu À Costa

Dilucidação gráfica de uma prova gritante...

Posted by Picasa

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O Livro e a Vida

Já que comecei a blogação diária surfando nas ondas adulterinas de outrora, parece calhada a ocasião, não para fazer o ladrão, mas para referi-lo, na vertente da influência sempre temida da Literatura sobre a harmonia conjugal. Tempos ingénuos houve, no apogeu da Sociedade Burguesa que mediou entre meio do Séc. XIX e, vá lá, igual divisória do XX, em que se pensou extinguir a traição ao himeneu restringindo as leituras funestas que a banalizavam.
Este livro parece dar razão a tal entendimento, sob dois pontos de vista distintos: estudando o dantesco episódio do amor dos cunhados Paolo e Francesca, com o sacrifício da (Mala)testa do irmão de um e marido da outra, é-nos mostrado como, à revelia de Dante que os meteu no Inferno, desde Bocaccio aos Românticos, se glorificou a infracção, constituindo a voga temática que lá bebe uma efectiva linhagem de onde brotam Bovarys e Sonatas a Kreutzer, por muito que Flaubert se defendesse, dizendo que era a condenação e denúncia da quebra do compromisso que pretendera.
Mas também numa segunda acepção: quem lembre a história sabe que os dois amantes se lançam no beijo que tenho como parte expressiva do todo, após lerem em conjunto as aventuras de Lancelote e Genebra, assim como que à maneira de "um D. Quixote em que o risco e o desinteresse (a)parecessem mais esbatidos". O uxoricídio final do esposo traído vem contrariar essa expectativa. Convocando o quadro de um imberbe Ingres, reproduzido parcialmente na capa, podemos arriscar dois juízos adicionais: este excelente estudo cai precisamente na mesma pecha, ao não considerar os sentimentos do Gianciotto vingador, cortando o pedaço da obra plástica em que aparece. E a cedência de deixar cair o lvro, símbolo da derrocada da separação entre Leitura e Realidade, é, para qualquer bibliófilo, crime mais do que merecedor das chamas infernais...

Genealogia do Swing

Cortesia da Livraria GalileuTalvez a polícia moral arábica tenha acreditado que se mantinha pelo Ocidente esta tradição, sendo o S. Valentim o indutor dela...
Miopia pura, não passa de um motor de consumismo, cujos efeitos a perseguição do postal infra tentou debelar. O pior é se, privado da alienação aquisitiva, o público se volta para um revivalismo da excepção ética...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Quem Tem Unhas Toca Guitarra

Dona T, muito obrigado pelo gato, mas, se sair à Ofertante, está a ver em que descarnado estado ficará o fio? Nas minhas pernas ainda aguento as Suas arranhadelas, agora quanto a hardware, sou muito susceptível...
No tocante às anunciadas perspectivas matrimoniais, esqueça, não tenho qualquer vocação para a riqueza. Uma promoção como a que segue, que não discriminasse os europeus, estaria muito mais em sintonia com as minhas aspirações. Gosto de comer bem!



quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Conflito de Direitos

O erro desta decisão começa por se considerar a adopção um direito dos adoptantes, quando deveria ser um acto de amor posto ao serviço dos adoptados. Tendo-se o conceito correcto do acto, não haveria margem para uma instância supra-nacional decidir existirem discriminações.
Assim não fazendo, pena é que não se considere o direito que uma criança a adoptar tem de não ser forçada a pais que nunca se poderiam assemelhar a progenitores. E que não seja deixado a cada Estado a regulação da matéria, de acordo com a sua tradição e Sociedade. A prazo, a consequência poderá bem ser impedir as uniões de facto de adoptarem. Para sofrimento de muitos mais.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Consumo Público

Hã, hã, será que foi mesmo isto que o Presidente Francês anunciou? Se assim foi, está-se a recuperar outro hábito do Trono de S. Luís, em que a consumação dos casamentos régios era até testemnhada, para que dúvidas não restassem. A página 14 nada diz, é inteiramente composta por anúncios. Pensando melhor... diz muitíssimo, está tudo ligado.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Os Anéis da Cascavel

Devo dizer que considero absolutamente venenosos, daí o título, os despropositados ataques que vêm fazendo a Sarkozy por dar o mesmo anel - ou, no mínimo o mesmo modelo dele - a Cecilia e a Carla. Pois se representa um coração, queriam que ele proclamasse a duplicidade do mesmo? Foi símbolo de transição total.
Mais grave era o caso, relatado numa carta magnífica a Ferreira de Castro, creio que por Jaime Brasil, entre as coligidas pelo Compadre RAA: um conhecido deles, viúvo, que, na iminência de um segundo casamento, derretera as duas alianças do primeiro para fazer uma só, "a dele, porque se teriam passado a usar mais grossas"!".
Num caso, o altruísmo da outorga da propriedade dos sentimentos, no outro o egoísmo da Avareza!
*
Nota acrescentada em 13/1: informa o Incansável Investigador citado, em comentário, que o relator epistolar da reciclagem da ourivesaria matrimonial foi Roberto Nobre e não Jaime Brasil. Nada como ter a chancela da Autoridade!

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Fragmentação Romanceada

Segundo a versão de D. Pedro I, teria, logo após falecida D. Constança, casado secretamente com Inês de Castro, a 1 de Janeiro de 1354. Verdade? Mentira? É o que menos importa. A mediocridade de um crime, mesmo com as invocações de serviço público que não convencem, por a assassinada não ser, ela própria, jogadora na Política, terá servido a muito escritor, de Camões a Montherlant, como pretexto para exteriorizar o génio, mas não esconde uma traição ao espírito da Monarquia, por parte de D. Pedro I.
Não poderia imaginar os problemas sucessórios que adviriam. Mas cabe-lhe inteira responsabilidade de afrontar a unidade espiritual do Reino, ao cair em traficâncias com uma sua Comadre, Madrinha do filho primeiro, D. Luís, numa época em que o relacionamento entre parentes espirituais era tido por incestuoso e o matrimónio não dispensado entre eles dado como alvo de impedimento. E, igualmente, o opróbrio de fomentar a guerra de facções que capitaneou contra o Rei, em prejuízo da Unidade Política, assente em forças levantadas pelos irmãos da Colo de Garça, D. Fernando e D. Álvaro de Castro. Era isto que distinguia o caso de todas as restantes e inúmeras aventuras dos monarcas, mesmo frutificadas. Numa época em que os partidos de rótulos e programas inexistiam, fraca prestação foi fazê-los anteceder pelos de duas cortes distintas, disputando a Nação.

sábado, 3 de novembro de 2007

E Agora, Uma Coisa Completamente Diferente

Os Media vêm passando o tempo a falar da OPA fracassada do BCP sobre o BPI, do risco de lhe suceder a inversa e, finalmete do projecto de fusão amigável. O réprobo não abordou tão magno tema porque nada percebe de banca e não quis bancar o sabichão em matéria onde facilmente se atolaria. Mas, aplicado à Coisa Pública, muito mais interessante que empresas particulares, por grandes que sejam, foi precismente o que se passou com as relações entre Portugal e Castela. Depois de fracassadas as ofertas públicas de aquisição hostis de um lado e de outro, convencionou-se a osmose amigável, concretizada com o casamento da Primogénita dos Reis Católicos, D. Isabel, com o de D. João II, o Príncipe D. Afonso. Foi o enlace celebrado e 3 de Novembro de 1490,
razão mais do que suficiente para dela falar hoje. O resto da História é conhecida, a queda do cavalo, o plano frustrado, as desinteligências do Príncipe Perfeito com a Sua Extraordinária Mulher por querer alçar ao Trono, contra a Lei do Reino, o seu Bastardo...
O Povo, porém, que nessa altura ainda fixava o essencial, por não ter concursos televisivos desviantes, fixou nos célebres romances que reproduzia a impressão da viuvinha tão jovem. Fê-los nos da Guarda, não há muito musicados e editados discograficamente. Mas também na Ilha da Madeira, o meu preferido, que aproveito para dedicar a Leitores que tenha na Pérola do Atlântico, naturais ou por adopção:

Já casada estava eu
Bem sete meses havia,
E passou um pombo negro
Que más novas me trazia.

- Novas, Senhora, vos trago
Más novas, de grande mal;
Que morre vosso marido,
Infante de Portugal!
Caindo com seu cavalo
Nas ribas do arenal

............................

E daí pus-me a chamar
Tendo ouvido o meu recado.
- Ide lá físico mestre,
Ide já aparelhado
Com vossa lanceta de ouro
Sua liga de brocado;
Dai-lhe a sangria pequena
Não se sinta o coitado.

E lá me fui de carreira;
As damas me acompanharam;
Mas, por muito que corressem,
As damas não me avançaram.
Os meus ais, quando cheguei,
O meu infante acordaram.

- A que vindes cá infanta!
Estou aqui, ´stou a acabar;
Ficareis menina moça,
Cedo vireis a casar.

.............................

O meu infante morreu,
Infante de Portugal,

Ali perto das águas frias,
Nas ribas do arenal.

À atenção dos analistas, há que contar com os acidentes que impedem projectos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Nó do Problema

Abandono de Robert G. Gardner

Antes de discutir se o principal ponto do abandono pelo Presidente Sarkozy da entrevista em que uma jornalista o interrogou sobre a solidão em que Cécilia o deixou é ou não o problema do nó, gostaria de chamar a atenção para o papel precursor de Santana Lopes, quando se retirou por lhe ver preferido nas prioridades Mourinho; e para a notícia do fim de semana, em que o jogador italiano Cassano saiu dum jogo por não concordar com uma decisão do árbitro. O que os três episódios têm em comum é remeterem para questões de estatuto. O do atleta transalpino é censurável, na medida em que consiste numa subtracção a autoridade que se tinha comprometido a aceitar. O do Político Luso, já por mim abordado, muito compreensível, por recusar que fosse levada às últimas consequências a inversão de hierarquia entre quem tem a incumbência de noticiar e quem tem a capacidade de tomar decisões a que seja dada relevância noticiosa, apesar das transigências que a dependência dos votos e das câmaras impõe.
E o Chefe de Estado Francês? Claro que está no seu pleníssimo direito de não expor detalhes da vida matrimonial, como qualquer outro cidadão. Mas não assim no "profissionalismo" dos membros das Famílias Reais, sabedores de que a privacidade que podem reivindicar é muito mais reduzida do que a do vulgo, desde os tempos em que as Rainhas de França davam à luz em público. A medida da incompetência da jornalista esteve em não se ter apercebido de que inquirir um político eleito é incompatível com a nostalgia da Royauté. E de que a postura dos entrevistados está longe do sonho dos entrevistadores, de um abandono à sua condução, num relacionamento frio e sem afecto.

domingo, 28 de outubro de 2007

Teleologia dos Paladares Apurados

Quem julgue estar só esta peça do DN na linha das que querem dar do papel da Mulher uma visão correcta em que é Ela Chef e eles aprendizes de culinária está apenas a ver metade do filme: o que está verdadeiramente em jogo é a descoberta do ovo de Colombo para as Senhoras manterem em casa os seus mais-do-que-tudo. Enquanto se dedicam à confecção de manjares cada vez mais elaborados, passa-lhes a vontade de empreender incursões em vista a outra vertente de "realização pessoal". Doravante, muda o sujeito activo da expressão prender pelo estômago como instrumental da conquista. Este livro deve estar quase esgotado!

domingo, 7 de outubro de 2007

A Pista Búlgara

Como é irónica a vida de um Estadista! Este cartoon referia-se ao prolongamento no cargo da tentativa do candidato presidencial Sarkozy disputar ao futebol as atenções da Imprensa para a reconciliação matrimonial com Cecília, o que reforçaria a sua imagem presidenciável. Hoje, pelo contrário, deve estar a torcer com unhas e dentes para que a vitória dos ragbistas franceses sobre a Nova Zelândia afaste os olhares da ruptura de que se fala. Nada disto teria importância se não evidenciasse a areia atirada para os olhos públicos, tanto pelo vencedor como pela derrotada Ségolène, duas figuras com que até simpatizo, de compor o perfil, negando que as suas relações estivessem tremidas. É esta fraqueza uma manifestação mais da falta de fiabilidade que caracteriza a palavra dos políticos. Sobre factos, porque o "sempre" referido ao Futuro do casal não é senão uma promessa mais de que não admira o incumprimento. As crises são privadas, a sua ocultação em eleitoral proveito é pública e relevante.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Imagens da Leitura 13

A Leitura de Molière de Troy

A leitura partilhada é hoje, tal como foi ontem, propiciadora de fortalecimento das relações estabelecidas entre as pessoas. No entanto, perdido o hábito de a família se reunir para ouvir um dos seus ler, passou-se ao incremento do que já existia fora dos penates tranquilos que facilitam a assimilação. Hoje, quase exclusivamente, o intercâmbio das preferências literárias é mais um ramal do processo de progressão e conhecimento nas relações amicais ou amorosas. Assim, em vez de interpretar o papel da semente lançada no solo adubado da calma instituída, passou a ser o adubo - mas não o estrume - que ajudará a tornar fecundo um solo recém-adquirido. E nesta diferença vai residindo muito do fundamento de, fora do meio profissionalmente ligado ao livro, diminuir a capacidade de aproveitamento do lido, apesar dos progressos nominais da alfabetização. A instrumentalidade na solidificação de laços entre estranhos que querem deixar de o ser, por muito desejável que se evidencie, joga de forma diversa com as disponibilidades e expectativas. O proveito virá dos entendimentos que gere nas sintonias e atracções pessoais, em vez do entendimento facilitado pela atmosfera adquirida e menos dinâmica do lar. É a diferença entre um digestivo e um tempero.

sábado, 4 de agosto de 2007

O Final Suplente

A Declaração de Amor de Jean François de Troy

A reacção contra o fatalismo da escola Romântica, que só se confessava sentir bem fingindo assumir-se desditosa, fez com que toda a dificuldade a vencer nas lides do coração terminase com o nó a que se convencionou filmicamente chamar final feliz. Difundindo-se assim a excepção do fundamento matrimonial residente no Sentir exacerbado, espicaçava-se a vontade para aí direccionada com os óbices que precedesssem, pois desde sempre se soube que o acicate de uma relação ganha com as barreiras levantadas no percurso. Eliminava-se a nociva sentimentalidade da "paixão exemplar na morte terminada", salvando-se a eternidade do sentimento. Mas foi sol de pouca dura. O matrimónio não conseguiu suportar durante muito tempo o peso da nova tarefa que lhe cometiam. E, assim, desabou, como instituição, deixando na missão de única perenidade afectiva a parcela de memória que há numa desilusão. Paradoxalmente, ao desmentir a parte de felicidade que integra a expressão happy end, sublinhando o vocábulo final, em anunciado e diferido momento, reconheceu-se o quão certa estava a mais lacrimosa das correntes artísticas na detecção da infelicidade íntima. E massificou-se o conceito, antes restrito à elite.
Escreveu Carlos Drumond de Andrade

BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS IDADES

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei,brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro
flagelo da tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
p´ra te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou ser freira...
fiz tudo para impedir.
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Míngua da Sogra

Depois da revolta das sogras que levou a retirar do mercado um anúncio da Peugeot em que era sugerido por um marido à Mulher o alívio do peso do carro pela junção da Mãe dela a um acervo de trastes prescindidos, deitei-me a pensar em como na minha esfera amical não há tensões entre genros e progenitoras das caras metades, o mesmo já não podendo dizer do que se passa com algumas noras que conheço. Seja como for, o desapreço enunciado faz parte do folclore universal. Variam é as maneiras de o resolver: Ficou célebre no começo da década de sessenta do Século XX o expediente de um mecânico egípcio, Abd-al-Mutalib, nome compartilhado com o do Tio do Profeta, que mandou a Mulher para uma cura, aproveitando para casar com a Mãe dela, apenas a segunda das quatro consortes permitidas. A sua argumentação era muito lógica: disse pensar que com tal matrimónio a sogra não o maçaria mais e que, como era boa cozinheira, poderia gozar a juventude da filha e a cozinha materna. Além de "que gostava realmente de ambas". Quem não gostou do caso foi a primeira desposada, a qual pediu a anulação do enlace. Desconheço impedimentos islâmicos aplicáveis, pelo que a melhor argumentação teria sido a de que, ao dar o nó, a rapariga esperara livrar-se da proximidade que, pela segunda boda, seria reintroduzida, frustrando as suas legítimas expectativas...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Contestação do Vazio

Filho Único de Csaba Osvath
Sem vocação para, com dolo, burlar os Outros, desde muito cedo me revelei exímio na arte de enganar-me a mim. Deixei para trás o sofrer próprio de ir crescendo entre adultos, com o escape de "observar para conseguir ser sensível" onde, doutra forma, não o seria. Passada, portanto, a altura própria da necessidade das partilhas infantis, exultei com a condição de rebento solitário, animadora na e da idade do egoísmo, adolescência e começos da virilidade, só mais tarde notando que o que me tentava atribuir como endurance mais não tinha, afinal, feito do que lavrar o terreno para a agudez da falta que a dor suprema da Perda viria a fecundar. Pobre momento de conflitos de nostalgias, a Do que conheci e a do que nunca tive, entrelaçando-se uma na outra e mentindo-me, por sua vez, ao sugerir-me que a situação inverificada seria génese de suportabilidade maior, droga entre tantas outras com que o nosso intelecto se entretém no vivificante jogo dos ses...
De Carlos Queiroz,
UMA PONTA DO VÉU

Nunca tive irmãos.
Assim, na minha infância, há um grande silêncio
Que vem de brincar sozinho
No lusco-fusco dos recantos
Das salas e dos pensamentos
- Terrivelmente sério,
Como os artistas inspirados.

Nesse tempo nasceu este desdobramento
E esta solidão onde ainda se cruzam
(Inquietos, calados, transparentes),
Fantasmas e fantasmas de meninos
Que se sentem sozinhos.

Era preciso alguém que de mim se escondesse
Era preciso alguém que eu agarrasse -
Era preciso alguém que tivesse a coragem
De pôr a descoberto as minhas fraquezas,
De rir das minhas precocidades ridículas
E de chorar comigo sem disfarce,
À hora fecunda dos medos.

Assim eu me escondia de mim mesmo,
Atrás das árvores, dentro dos armários,
No faz-de-conta dos espelhos.
Assim eu me agarrava pelos braços, pelas pernas
E me impedia de ser natural
Nos meus gestos e nos meus passos.
Assim eu próprio me dirigia insultos,
Sem reacções nem surpresas.

Assim compreendi, cedo de mais,
Que a alma é uma coisa que se deve esconder
- Como fazem os homens.

Nunca tive irmãos.
Nunca ninguém cresceu, hora a hora, a meu lado,
Repartindo comigo a ternura, a tristeza,
Os brinquedos, os doces, os castigos
E os mistérios do lar.

Assim, todo o imenso amor de mãe,
Toda a profunda incompreensão dos adultos,
Todo o mal que se faz por engano ou vaidade,
Todo o bem que se faz por vaidade ou engano,
Todo o mistério sem mistério,
Desabaram, inteiros, sobre mim.

E a minha infância suportou, sozinha,
O peso desse fardo maravilhoso
- Embrulhado em silêncio
E atado com fios de poesia.