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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Da Necrofilia Temerária

Estou mesmo a ver uma batalha judicial em que os representantes legais da Maldição do Faraó e os das autoridades arqueológicas egípcias troquem alegações sobre a possibilidade ou não de incluir a retirada do corpo de Tutankhamon do sarcófago na letra da praga Aquele que perturbar o sono do Faraó conhecerá a dor e a morte. Os antecedentes não são tranquilizadores, com os óbitos precoces e inexplicáveis dos expedicionários que entraram no túmulo, tendo-se reservado a Carter o terror continuado da ameaça num resto de vida sem fruição. Creio que, em ultima análise, o prolongamento da vigência da vingança mágica dependerá da prova da capacidade de o Soberano conseguir ou não dormir em qualquer lado, ficando as coisas mal paradas, se for decidido que tal seria possível no sarcófago, mas não fora dele...
À cautela, não publicarei a fotografia da múmia desembrulhada no blogue.
Mas ouso protestar contra a ideia plagiatória de a encerrarem numa caixa de vidro protectora. Parece que querem seguir ponto por ponto o calvário dos raptores de Huac Caspac, de «As Sete Bolas de Cristal», o livro de Tintin que me dava pesadelos, na minha tenríssima infância.
O aviso está feito. Não há por onde se queixarem. De Luxor vêm sempre novas inquietantes: o obelisco da Praça da Concórdia, os atentados contra turistas e, agora, mais esta!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Aos Nossos Mortos

Bem quizeramos nós que Deos nos abriffe o Ceo, onde habita; a nós, que já mais confideramos nelle, que contradizemos continuamente a fua Lei, que amamos mais a fertilidade da terra, que todos os tefouros da fua graça, que talvez blasfemamos o feu fanto Nome, que infultamos os feus Miniftros, e que, em huma palavra, mais quizeramos viver fempre cá no Mundo, do que ir gozar das fuas reconpenfas eternas. Então he que Deos feria injufto, fe nos recebeffe no feu peito. Elle condemnando-nos, trata-nos como nós queremos fer tratados, porque tememos entrar em fociedade com Elle, e voluntariamente acceitariamos o partido de nunca mais o ver, fe fempre pudeffemos viver com as creaturas, a quem idolatramos.Cada visita ao Cemitério, mormente em dias sinificativos, desencadeia o irremovível embate entre a Esperança de que Aqueles a Que queremos tenham alcançado a Felicidade e o egoísmo do desejo - em saudade encapotado - de Os termos entre nós. Como permitir a coexistência pacífica da urgência da proximidade terrena com a tranquilidade ancorada na Fé? Uma absoluta unilateralidade repousando na certeza de que Os que nos deixaram foram para Melhor Sítio também não seria estimável, pois demasiada candidez gera insensibilidade. Paradoxalmente a solução está no que já os melhores de nós alcançam: articular a dor sentida como peça rumo ao Ideal Revelado, sem que sofrer permita resvalar para o desespero. Eu ainda tenho muito que andar.

domingo, 30 de setembro de 2007

A Ligação

Miss Moneypenny foi, à revelia dos textos, como secretária do chefe do 007, a presença que em todos os filmes acompanhou o protagonista, muito pelo que os parcos minutos de alusões seduzidas medraram no imaginário associado à série. Lois Maxwell personificou-a mais do que algum actor interpretou Bond. Hoje que morreu, todos os que vestiram a pele deste, os dois Cavaleiros do Império Britânico incluídos, são apenas Penny Boys.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A Pantites e Aristôdamos

Dia convencionado para celebrar o Sacrifício das Termópilas. Sempre visto como um combate de nacionalidades, fica obscurecido o que mais especificadamente foi, o de um recontro de elites, entre os Imortais Persas mandados avançar por Xerxes, perante o falhanço da "tropa de linha" e a parte da Guarda Real Espartana com descendência assegurada, somando-se-lhe Téspios valentemente associados. Uma Entrega sem esperança, obliteradora das entregas vergonhosas, atestada pelo adivinho Megístias, conhecedor do desfecho da Tragédia pela via oracular e não já pela das probabilidades, que, dispensado pelo Rei Leónidas, se recusou a abandoná-lo.
Choro por ser de um tempo em que o Episódio não é já Exemplo fortalecedor que contribua para as vitórias seguintes, mas apenas objecto filmável para distracção de todos nós, espectadores potenciais, fornecendo-nos notícia de Gente cuja conduta nos é estranha. Como num jardim zoológico.
E verto ainda mais lágrimas por ter nascido já depois dos Vassalos que contra as ordens recebidas Índias deram de mão beijada, em vez de tranquilamente se deixarem matar. Ou contra os historiadores que pretendem transferir o opróbrio para uma ordem de resistir. Tão exigente era a Ética Lacedemónia que dois guerreiros dispensados, Aristôdamos por estar doente, Pantites porque enviado, em serviço, como mensageiro à Tessália, apenas por terem sobrevivido e pese a estarem isentos de responsabilidade, foram por cobardes tidos e apontados, até que um se redimiu em Platéia, numa problemática lordjimesca com final feliz na fatalidade, e o outro se enforcou.
Aqueles a que se refere a inscrição Diz aos Espartanos que aqui jazemos para obedecer às suas leis foram os que ouviram o seu Rei exortá-Los a que com ele estivessem no momento e mais tarde consigo jantassem no Inferno. Razão acrescida para não faltarem neste recanto, apesar do País que temos estar completamente carecido de "Rei e Lei", numa terra de ninguém de "nem paz nem guerra". Sobretudo a paz, que bem deve faltar à nossa consciência colectiva.
De A. E. Houseman

THE ORACLES

'Tis mute, the word they went to hear on high Dodona mountain
When winds were in the oakenshaws and all the cauldrons tolled,
And mute's the midland navel-stone beside the singing fountain,
And echoes list to silence now where gods told lies of old.

I took my question to the shrine that has not ceased from speaking,
The heart within, that tells the truth and tells it twice as plain;
And from the cave of oracles I heard the priestess shrieking
That she and I should surely die and never live again.

Oh priestess, what you cry is clear, and sound good sense I think it;
But let the screaming echoes rest, and froth your mouth no more.
'Tis true there's better booze than brine, but he that drowns must drink it;
And oh, my lass, the news is news that men have heard before.

The King with half the East at heel is marched from land of morning;
Their fighters drink the rivers up, their shafts benight the air.
And he that stands will die for nought, and home there's no returning.
The Spartans on the sea-wet rock sat down and combed their hair.

domingo, 12 de agosto de 2007

A Outra

Perfil de Cleópatra em moeda DO TEMPO, para tentar responder à questão pertinentemente levantada pelo Carlos Portugal (acrescentado às 22.49H).

Imagem do Século XV, representando os suicídios de António e Cleópatra

Se a cobra que tentou Eva é a estrela maior de tais répteis, a que terá morto Cleópatra faz uma sombra condigna. Ambas serviram para matar e, curiosamente, prometendo a imortalidade, pois a áspide que terá servido para a rainha ptolomaica abreviar a existência era tida não só por insígnia da realeza, como a sua mordedura por garante da vida para além desta. O acontecimento é situado a 12 de Agosto e a romantização do réptil apertado contra o seio não mais do que uma projecção de desejos humanos no animal. Não só os entendidos dizem que a eficácia do veneno introduzido na face interna do braço seria maior, como os primeiros relatos afirmam expressamente que aí foram encontradas as marcas. Resta o problema da beleza, tão iludido pela frase de Pascal Se o nariz de C fosse mais curto a sorte do mundo teria sido diferente; ao contrário da leitura que hoje predomina, não é uma apreciação da atracção dos traços, mas um parecer técnico de Fisiognomonia, que sustentava poder a inexistência das dimensões e forma aquilina do apêndice, tal como nos é dado pelas moedas do tempo, traduzir-se numa obliteração do carácter forte e determinado de que seriam signos, mudando assim a História.
Resta o problema da beleza dela, desmentida desde logo por Plutarco. Considerando o que se diz dos homens de hoje, poder-se-ia afinal reiterar que o Poder é auxiliar de monta na busca e êxito das habilidades de leito. E que funciona para os dois géneros...
O que nos traz de novo à ilustração - na sua ingenuidade representativa, abstraindo de não terem sido simultâneos os suicídios da Egípcia e do Romano -, a duplicação do animal encarna a duplicidade presente na notícia dada antes do facto, na mira de ainda se reconverter em tentadora de Octávio, bem como o símbolo erótico que também é.
Na simplicidade se patenteia, às vezes a intuição mais sucedida.


segunda-feira, 23 de julho de 2007

O Pai da Nação

Perante a notícia da morte de Zahir Shah (1914-2007), Soberano deposto dum Afeganistão que manteve em paz, aqui saudado pelo Presidente Karzai, no Seu regresso ao País, tentando livrá-lo dos conflitos que, desde então, não cessaram de lavrar, enalteçamos o seu desapego ao poder e empenho na tranquilidade nacional, mas não percamos de vista equívocos catastróficos, como a cedência à legalização do jogo dos partidos e a esperança que, como Potências e mandatários delas, chegou a depositar nos Taliban. Que uma nação que tem instituída a Ordem do Sol seja suficientemente iluminada para conseguir ver a evidência de que só a Restauração Dinástica poderá afastar muitos Pashtun do radicalismo islâmico para seguirem a sua chefia tradicional, também o mais seguro meio de protecção das demais etnias.

domingo, 8 de julho de 2007

A Vocação do Mito

O Funeral de S. por Fournier

Escreveu versos de valia, mas inferiores a outros da época, entre os quais os dos que o idolatraram. Até estes o reconheceram, ao celebrarem-lhe preferencialente a vida, deixando na sombra a obra. Que foram, então, uma e outra? Um contínuo e breve lampejo, tão cativante como um bater de asas, sem concretização à altura, como Matthew Arnold bem percebeu. As bases do angelismo estavam lançadas, com Trelawney deitando as mãos à chamas para recolher o coração que "insistia" em não arder, nessa cerimónia pagã que tentava endeusá-lo sem ofensa ao ateísmo notório. Nada lhe foi poupado, nem ter uma biografia mauroisiana que se definia pelo nome do barco que haveria de ser o instrumento de morte, na água em que tanto dissera pressentir o fim, sem que, fatalisticamente, tentasse aprender a nadar, para evitá-lo.
Para nós, fora do círculo íntimo, de onde surgirá a fascinção? A meu ver, da incerteza que rodeou essa morte na juventude. Desde logo quanto à causa, que nunca se apurou bem, dentro da tempestade - ataque de piratas, manobra falhada, ou concertação meteorológica e de correntes que provocasse embate nas rochas? Mas muito mais, o leitor de tantos livros finou-se com dois no bolso: Sófocles e Keats. O maior consagrador do Homem na Antiguidade Helénica, sem concesão comparativa ao Transcendente esquiliano, ou ao reducionismo de Eurípides, completado pelo que a seus olhos faltaria, a beleza da expressão íntima da sensibilidade. É esta busca da compreensão total do Humano que, abreviada, faz perdurar o prestígio único ainda hoje, quando o de outros Românticos se desvaneceu.
P. B. Shelley morreu a 8 de Julho de 1822.

domingo, 1 de julho de 2007

Di Hard

O mais detestável que a Inglaterra tem é parte da sua imprensa. No dia em que se homenageia Diana de Gales, há que pensar nas mil e uma formas infelizes de explorar o Filão que os mexeriqueiros publicados não querem largar, mesmo depois de exaurida a Mina. Sabe-se que antigamente os contos de fadas terminavam com o casamento, os meninos e a felicidade eterna subsequentes. Mas isso eram tempos em que o fracasso matrimonial não estava institucionalizado, em classes que outrora viviam na Família e hoje sobrevivem para a carreira. Claro que apelar ao não-premeditado mas inelutável deleite de seguir dificuldades conjugais no Modelo que não era suposto vivê-las era insuperável tentação para quem se vende à custa do sensacional, mas desculpável por a vida da Realeza não poder nem dever, desde sempre, ser privada. Por não ter o profissionalismo que Lhe permitisse suportar esta cortante verdade a Lady Di dos nossos sonhos votou-se ao insucesso, exactamente como, em palavras mais contidas, reconheceu o Irmão, no elogio fúnebre.
Hoje, entretanto, perspectiva-se a franquia de um degrau que a direiteza não deveria consentir. O propósito de exibir, contra a vontade dos Filhos, o corpo acidentado que foi objecto de tanta promoção e idolatria já não tem a desculpa de ir ao encontro dos gostos do Povo, entrincheira-se sim na ideia de arrastá-los para morbidismos que rebaixam. Sorver a infelicidade deve ter limites e traduzir-se em elipses necessárias à nossa dignidade, a que não dispensa o respeito.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

As Ligações Sigilosas

Na morte de Kurt Waldheim voltei a passar os olhos por este livro que lhe é muito hostil. Foi tremendamente pouco o que os autores contra ele encontraram. Nunca pertenceu à SS, "adiou" sempre diplomaticamente a entrada no Partido Nacional-Socialista a que era pressionado, sob pretexto da prestação de serviço militar activo. As únicas organizações partidárias que integrara, antes da Guerra, tinham sido uma pouco consistente federação dita de estudantes Nacional-Socialistas, tida universalmente como não mais do que uma melhoria de nota antecipada, e uma secção de cavalaria das SA, a qual faz aceitar a justificativa de mera facilidade de acesso ao desporto hípico.
Durante o conflito, como oficial do Estado Maior, primeiramente encarregado da ligação com as forças italianas, depois nas informações militares, nunca se provou participação relevante na deportação de judeus de Salónica e de duas pequenas povoações da então ex e futura Jugoslávia. Ficava assim reduzida a eventual criminalidade a represálias e execução de reféns, permitidas ou tacitamente aceites pela lei da guerra de então para combater forças irregulares, restando apenas a análise, muitas vezes problemática, da proporcionalidade. Mas a patente era suficientemente baixa e o militar mal tinha 25 anos...
Durante a bipolarização mundial foi recuperado por um governo de coligação Socialista/Católico/Comunista, gozando da protecção americana da OSS - o embrião da CIA -, através do genro do próprio director dela, Fritz Molden, influente membro do gabinete do Ministro dos Estrangeiros, Karl Gruber. Daí em diante, de embaixador no Canadá a titular da pasta das relações exteriores, estava firmada a carreira que o levaria a Secretário-Geral da ONU, o lugar mais adequado para um criminoso de guerra que, contudo, nunca se provou ser. O máximo que os seus impiedosos biógrafos e acusadores conseguiram foi dá-lo como "um militar muito zeloso". Porém, como o arrependimento oficial do anti-semitismo austríaco atinge a histeria, quando, à segunda tentativa, se candidatou à Presidência do País, desencadeou uma catadupa de oposições, muito em moldes partidários, com Kreisky à cabeça, ganhando então um caucionante defensor na obcecada figura de perseguidor que foi Wiesenthal. Antes, a URSS tinha-se oposto à sua saída das Nações Unidas, o que é natural, pois tinha fingido liderá-las no período mais feliz da expansão mundial de Moscovo.
Foi um homem que serviu muitos amos, como tantos outros. Estes é que não tinham qualidade para ser servidos. Hitler, serviços de inteligência norte-americana, diplomacia ao serviço do expansionismo soviético, Democracia totalitariamente retractante no seu País... Se tivesse vivido sob a Monarquia Habsbúrguica teria podido pôr as aptidões que exibisse ao serviço da Tradição e tolerância. Assim, foi fraca maneira de passar à História. Mas não vale a pena bater mais. Paz à sua alma.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Contestação do Vazio

Filho Único de Csaba Osvath
Sem vocação para, com dolo, burlar os Outros, desde muito cedo me revelei exímio na arte de enganar-me a mim. Deixei para trás o sofrer próprio de ir crescendo entre adultos, com o escape de "observar para conseguir ser sensível" onde, doutra forma, não o seria. Passada, portanto, a altura própria da necessidade das partilhas infantis, exultei com a condição de rebento solitário, animadora na e da idade do egoísmo, adolescência e começos da virilidade, só mais tarde notando que o que me tentava atribuir como endurance mais não tinha, afinal, feito do que lavrar o terreno para a agudez da falta que a dor suprema da Perda viria a fecundar. Pobre momento de conflitos de nostalgias, a Do que conheci e a do que nunca tive, entrelaçando-se uma na outra e mentindo-me, por sua vez, ao sugerir-me que a situação inverificada seria génese de suportabilidade maior, droga entre tantas outras com que o nosso intelecto se entretém no vivificante jogo dos ses...
De Carlos Queiroz,
UMA PONTA DO VÉU

Nunca tive irmãos.
Assim, na minha infância, há um grande silêncio
Que vem de brincar sozinho
No lusco-fusco dos recantos
Das salas e dos pensamentos
- Terrivelmente sério,
Como os artistas inspirados.

Nesse tempo nasceu este desdobramento
E esta solidão onde ainda se cruzam
(Inquietos, calados, transparentes),
Fantasmas e fantasmas de meninos
Que se sentem sozinhos.

Era preciso alguém que de mim se escondesse
Era preciso alguém que eu agarrasse -
Era preciso alguém que tivesse a coragem
De pôr a descoberto as minhas fraquezas,
De rir das minhas precocidades ridículas
E de chorar comigo sem disfarce,
À hora fecunda dos medos.

Assim eu me escondia de mim mesmo,
Atrás das árvores, dentro dos armários,
No faz-de-conta dos espelhos.
Assim eu me agarrava pelos braços, pelas pernas
E me impedia de ser natural
Nos meus gestos e nos meus passos.
Assim eu próprio me dirigia insultos,
Sem reacções nem surpresas.

Assim compreendi, cedo de mais,
Que a alma é uma coisa que se deve esconder
- Como fazem os homens.

Nunca tive irmãos.
Nunca ninguém cresceu, hora a hora, a meu lado,
Repartindo comigo a ternura, a tristeza,
Os brinquedos, os doces, os castigos
E os mistérios do lar.

Assim, todo o imenso amor de mãe,
Toda a profunda incompreensão dos adultos,
Todo o mal que se faz por engano ou vaidade,
Todo o bem que se faz por vaidade ou engano,
Todo o mistério sem mistério,
Desabaram, inteiros, sobre mim.

E a minha infância suportou, sozinha,
O peso desse fardo maravilhoso
- Embrulhado em silêncio
E atado com fios de poesia.