
Na morte de Kurt Waldheim voltei a passar os olhos por este livro que lhe é muito hostil. Foi tremendamente pouco o que os autores contra ele encontraram. Nunca pertenceu à
SS, "adiou" sempre diplomaticamente a entrada no Partido Nacional-Socialista a que era pressionado, sob pretexto da prestação de serviço militar activo. As únicas organizações partidárias que integrara, antes da Guerra, tinham sido uma pouco consistente federação dita de estudantes Nacional-Socialistas, tida universalmente como não mais do que uma
melhoria de nota antecipada, e uma secção de cavalaria das
SA, a qual faz aceitar a justificativa de mera facilidade de acesso ao desporto hípico.
Durante o conflito, como oficial do Estado Maior, primeiramente encarregado da ligação com as forças italianas, depois nas informações militares, nunca se provou participação relevante na deportação de judeus de Salónica e de duas pequenas povoações da então ex e futura Jugoslávia. Ficava assim reduzida a eventual criminalidade a represálias e execução de reféns, permitidas ou tacitamente aceites pela lei da guerra de então para combater forças irregulares, restando apenas a análise, muitas vezes problemática, da proporcionalidade. Mas a patente era suficientemente baixa e o militar mal tinha 25 anos...
Durante a bipolarização mundial foi recuperado por um governo de coligação Socialista/Católico/Comunista, gozando da protecção americana da
OSS - o embrião da
CIA -, através do genro do próprio director dela, Fritz Molden, influente membro do gabinete do Ministro dos Estrangeiros, Karl Gruber. Daí em diante, de embaixador no Canadá a titular da pasta das relações exteriores, estava firmada a carreira que o levaria a Secretário-Geral da ONU, o lugar mais adequado para um criminoso de guerra que, contudo, nunca se provou ser. O máximo que os seus impiedosos biógrafos e acusadores conseguiram foi dá-lo como "um militar muito zeloso". Porém, como o arrependimento oficial do anti-semitismo austríaco atinge a histeria, quando, à segunda tentativa, se candidatou à Presidência do País, desencadeou uma catadupa de oposições, muito em moldes partidários, com Kreisky à cabeça, ganhando então um caucionante defensor na obcecada figura de perseguidor que foi Wiesenthal. Antes, a URSS tinha-se oposto à sua saída das Nações Unidas, o que é natural, pois tinha fingido liderá-las no período mais feliz da expansão mundial de Moscovo.
Foi um homem que serviu muitos amos, como tantos outros. Estes é que não tinham qualidade para ser servidos. Hitler, serviços de inteligência norte-americana, diplomacia ao serviço do expansionismo soviético, Democracia totalitariamente retractante no seu País... Se tivesse vivido sob a Monarquia Habsbúrguica teria podido pôr as aptidões que exibisse ao serviço da Tradição e tolerância. Assim, foi fraca maneira de passar à História. Mas não vale a pena bater mais. Paz à sua alma.