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domingo, 4 de novembro de 2007

Como a (Im)Perturbabilidade

A propósito de uma parecença física que noutra altura da minha vida me colaram a certo actor, episódio desenterrado do esquecimento nesta caixa de comentários, segue uma nota sobre como, recentemente, fui ludibriado. Encontrando na net a imagem de cima, não tive dúvida em crer nela captada uma das belezas da tela que mais me dizem: Gene Tierney, a da foto seguinte.
Eis senão quando me achei desenganado. Tratava-se de uma célebre fotografia de Moda da autoria do ex-marido da Princesa Margarida de Inglaterra, dando a fotografada pelo nome de Jane Quick, muito apropriado para simbolizar o carácter apressado da minha atribuição.
Fiquei então meditando genericamente sobre o Mistério da Semelhança e se ele residirá intrinsecamente nos seres aproximados por outrem, ou será traço revelador do contemplador deles...
Nesta última hipótese reduzir-se-ia a condição de mistério a mero enigma. E o próprio emblema dele à confusão de paralelos físicos intercivilizacionais - o Demónio Grego crepuscular da Morte e Destruição que punha a adivinha ameaçadora apenas por Édipo resolvida, como sósia do deus Egípcio Harmachis, divindade do Sol Nascente, protector da Perspicácia e da Serenidade, o vizinho das Pirâmides de Gizé, ambos metidos no mesmo saco por compartilharem a mistura de ingredientes animais que os compunham. Se a resposta continua prejudicada, a auto-interrogação ganha terreno, até porque a própria solução libertadora do episódio helénico assentava, afinal, nessoutra forma de simile que é a analogia.
Também por isto dedico o singelo post que lesteis à Terpsichore E. M. Psiche.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Uma Abertura

31 de Outubro foi também o dia em que conheceu o Mundo o génio russo/ucraniano do Xadrez Alekhine. Vários pontos de interesse me despertam a atenção a dedicar-lhe: a morte misteriosa ocorrida quase à porta de minha casa, numa fase da vida em que deambulações várias e a simpatia por Hitler fizeram desconfiar de trabalhinho sujo dos serviços secretos britânicos, em especulações ora investigatórias, ora ficcionadas. Também o facto de conhecer dois Netos de Xadrezistas que com ele terçaram armas, um dos quais Este Senhor, pelo que malevolamente ouso esperar que o presente postaleco o faça regressar às lides. E o génio, evidentemente.


O Mestre nosso compatriota que lhe ganhou descreveu, num romântico relato do feito, a noite que precedeu os lances decisivos, em que as peças transfiguradas pareciam, nas suas palavras, ter ganho vida própria e lhe escapavam ao controlo, obrigando a luta extenuante para os domar e à consequente perda do sono. Francisco Lupi - que Dele se trata - acrescenta como no final um dos seus peões ganhara asas e, escapando ao engenho do manobrador, travava luta directa com o Campeão do Mundo, levando-o à desistência. E como, saindo juntos, pairava no ar a incomodidade, até que, tendo entrado num café com música ao vivo, o Maestro, reconhecendo-o, fez tocar a música da canção eslava «Olhos Negros», coisa que teria libertado o Estrangeiro, o qual, depois de beber de um trago o conteúdo da chávena, proferira: Amargou-me tanto este café!
Talvez seja impossível a um grande jogador de Xadrez não se levar demasiado a sério.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

A Propriedade de Si

Abençoado dia este que tem mais do que um aniversariante ilustre. Também Paul Valéry, o mais diferente que do anterior se podia imaginar. Outro de que é de bom tom prezar mais a prosa do que a realização poética, embora nos seus dias a celebridade, seguida de vinte anos aparentemente sabáticos, lhe tenha advindo de versos célebres. Na heterogénia produção que se seguiu teve êxito em conseguir passar a aspiração a encontrar a liberdade nos cumes temáticos mais elevados que o intelecto pode abordar, sem aprisionar na racionalidade dos filósofos o sistema criativo que não o encerre em servilismos de programas ou cumplicidades. De tanto exibir a sua encarnação da lucidez necessária acabamos por acreditar que poderia, se quisesse, ser um grande da Filósofia, só não acontecendo assim por os desprezar um tanto. Não se percebe tanto é como seria compatível tanta elevação libertadora com as obrigações da rotina académica, das solidariedades implícitas numa obediência maçónica, ou até do cigarrinho alcandorado a imprescindível bordão e traindo o papel submisso de prazer.
Remetendo-nos sempre para os grandes arquétipos de espiritualidade universalizantes do Passado, de Leonardo a Pitágoras, somos candidamente induzidos a acredtar que só Valery os pode emular, hoje. Há que dar o desconto, no grande Paul há sempre a descontar a auto-suficiência, até na intervenção política, como na defesa que fez de Salazar, coincidente com a imagem sublinhada pelo Regime, do Homem obrigado a exercer o poder contra a sua vontade. Mas sem inocência ou adesão, transpira sempre a nota de superioridade auto-reconhecida do prefaciador célebre, condescendente para com essa contingência de um político, um degrau abaixo da sublime condição do Pensador, por uma vez concordante em descer até ele o olhar...
Valéry foi muito grande, mas não pela mitologia que construiu de si, a da exacta dimensão da capacidade especulativa concretizada, ícone vivo da alforria da alma pela assinatura de um discurso sem jargão ou masmorras conceptuais. Foi-o pela magistral esgrima da língua, enfim um aspecto formal, mesmo se menos construído por escola, aparentável com os princípios do Simbolismo que na maturidade fez gala de ter ultrapassado.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Influências da Civilização

Um Dandy de Tissot

Quer o Confrade Jansenista que acreditemos ter vivido uma fase Dandy. Daria de barato essa possibilidade, caso a definição comportasse apenas a componente de liderança dos hábitos e admiração alheia. Mas já se não pode aceitar, sabendo-se dos elementos de superficialidade e volubilidade geralmente associados ao conceito. E menos se admite, compenetrando-nos da origem do termo, o nome popularizado de uma moeda do tempo de Henrique VIII, daí estendido para designar tudo o que é muito visto e tem escasso valor. Não O conheci em fase anterior da vida, porém há abundantíssimos sinais na blogosfera que são como o algodão: não enganam.
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E, a propósito de um congresso a realizar em Aveuro, mão amiga fez hoje chegar ao meu mail a notícia de que sou um perigliófilo. Não conhecia o vocábulo e fiquei apreensivo, tão pouco tranquilizadoras são certas filias de hoje em dia e arriscada me aparecia a parte inicial da palavra. Estou habituado a que me dêem como bibliófilo, apesar de ser comparativamente imerecida qualificação. Afinal, tudo se resumia à minha outra condição de coleccionador - a de pacotes de açúcar.
Donde parti para uma lúgubre reflexão acerca do coleccionismo. Não versando a Arte, logo o Belo, em que medida a aplicação da curiosidade à acumulação de determinada categoria de objectos não acabará por substituir à inicial sofisticação informadora do propósito uma concentração atentatória da atenção ao Humano no seu todo, capaz de transformar em mania esterilizadora o que poderia ser pretexto para engrandecimento interior? No que se assemelharia ao Dandismo, ambos distraindo da profundidade univesalista, embora por diversas vias.

O Coleccionador de Degas

domingo, 14 de outubro de 2007

Tomadas de Ponta

Querida T, outra das minhas alergias respeita a mudanças. E está a ver os riscos? Empacotar 25.000 livros, fazê-los acartar por pessoas por vezes sem idade ou saúde apropriadas a carregamentos muito duros, e, para cúmulo, não poder garantir que as estantes, à chegada deles, se não encontrem já ocupadas? Bem diz o Meu Amigo Alce, Que, irritado por, anos atrás ter vivido a canseira de embalar os mil volumes que então tinha, me aconselhou a nunca trocar de residência...
Como sabe, a excepção que faço às tecnologias mais modernas respeita ao computador. Ora, aldrabice por aldrabice, já que me quer impingir telefones com e sem fios, antes esta mentira de 1 de Abril da Comunicação Social suíça: um elmo telepático que capte os nossos pensamentos, os coloque no computador, sendo por estes enviados, em acto contínuo, para os destinos internéticos que determinarmos...

E que me diz do Seu amigo com ar de mosca?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

De Perder o Sono

O Sonhador de Paul Kerr

Esta noite sonhei-me num avião, sonho mais persistente do que é costume, pois nem o chuveiro diluiu a memória dele. Algo digno de exame, a obsessão humana em encontrar no Onírico significados que influenciam a vida! Aristóteles terá definido a Esperança como o sonho de um homem que acorda, o que projecta no Futuro a produção mental. Outros, menos positivos procuraram valor profético, ou seja uma submissão da vontade humana a um ditame superior. E, para a Burguesia que se quer tranquilizar pagando, psicanálises de várias ordens tentam extrair razões ancoradas no Passado para se ter dado no que se deu, normalmente coisa pouco agradável, ou não se estaria ali. Sempre a descer, pois, na medida da decadência da Vontade, a tal que Ouspenski via insatisfatoriamente explicada pelas mil e uma escolas explicadoras.
Entretanto, para os meios populares - que não têm a bolsa ou a inclinação remetentes para consultórios, dão-se chaves para todos os gostos. O meu aeroplano seria, segundo Herbert Hespro, indício de estar prestes a ser chamado a feitos honoráveis que me cobrirão de glória. Será para tão breve o sucesso da minha tentativa de restaurar a Monarquia?
Sigo para a complexificação aventada por Soliatán Sun, a instaurar moderação: Se sonharmos com um aviador no seu avião, isto refere-se a algo muito complexo que temos em marcha, de que dependem muitas pessoas. Que se passa com o avião ou com o aviador dos nossos sonhos? Atravessa uma zona de tempestade? Sobe para um nível mais seguro? Está descendo em voo picado? Pressente-se uma catástrofe? As vicissitudes do avião dos nossos sonhos indicar-nos-ão se essa coisa complexa na qual navegamos na vida real, criada pela força de pensamentos interligados, corre bem ou corre mal. Bem, lembro uma aterragem perfeita na pista desejada. Quid Juris?
E Sybil Leek oferece perspectivas de satisfação mais personalizadas: Boa sorte inesperada, com alguns acontecimentos invulgares. À cautela vou meter dois euritos no Euromilhões...
Todas estas buscas de sentido me fazem voltar a uma indecisa hermenêutica da frase de Píndaro, segundo a qual o Homem é o sonho de uma sombra. Alusão à nossa lamentável inconsistência? Ou, pelo contrário, a exaltação de uma qualidade, a solidez, que o pobre vulto destituído dela desejasse? Ou ainda antecipação de Berkeley, imaginando a marcha da Humanidae como o sonho de um Ser Espiritual?
Qualquer resposta vai dar ao que me parece inegável - a concepção do sonho como meio de aumentar a importância do que, abstraindo de nos pensarmos à sua luz, seríamos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Real... mente?

Visão do Autor por Werner Horvath
Leitura de «A Realidade É Real?», de Paul Watzlawick. Interessante passeio pelas respostas que cada ser vivo dá, enquanto condicionadas pelos dados que lhe foram especificamente disponibilizados, partindo dos estudos psíquicos mas não se atendo às raias desse campo. A propósito dos efeitos contraproducentes que injecções industriais e repentinas de modernidade podem ter em civilizações que não passaram pelos encadeamentos da nossa, surge um trecho que me parece extrapolável para cada indivíduo na sua relação com o Mundo e informação que absorve:
Ter à disposição, subitamente, um conhecimento muito superior que lance o nosso pensamento milhares de anos para a frente sem o benefício de uma aquisição coerente e gradual de todos os passos intermédios, poderá ter consequências verdadeiramente chocantes. As experiências clínicas demonstram-nos que a súbita exposição a informação de magnitude esmagadora tem um de dois efeitos: a vítima ou fecha a mente à nova realidade e se comporta como se nada se passasse ou abandona totalmente a realidade. A última hipótese é a essência da loucura.
É a overdose de abordagens do que o rodeia que pode levar a sucumbir, desde que deixe de conseguir dar emprego a toda essa oferta excedentária, um pouco o risco que corremos com a Internet, mas também com as leituras tradicionais e com a televisão. Esse sentido é um pouco diferente do alerta de Eliot, poetica e dramaticamente formulado, com uma diferença verbal que não é inocente. Quer nos «Quatro Quartetos», quer no «Assassínio na Catedral», se encontram frases diminuidoramente traduzíveis por a espécie humana não consegue suportar demasiada realidade. Aí, contudo, o risco mental não reside tanto na Razão superlotada de grãos a ordenar, mas na estabilidade moral e da conformação com o seu estatuto, pois o Real refere-se em primeira linha à concreção humana que desilude e a via escapista - mas não alienante - que permite a salvaguarda do equilíbrio é a Arte.

sábado, 6 de outubro de 2007

A Angústia da Interpretação

Quando se manifesta não já na psicanálise mas na hermenêutica é um caso sério. Não é tão fácil determinar o sentido desejado pelo Autor, como sugerir um a que o Cliente adira: a propósito deste contra-postal da T, fico sem saber se "otomana"

se refere à gaiata com que inicei a maratona blogadora de hoje. Se assim foi, penso ser uma clara tomada de parte no conflito greco-turco, pois a Jovem é Helénica e, desde o Século XIX, o seu País emancipou-se do Império Otomano.
Ou se o vocábulo é uma sátira a outro divã, o da minúscula, auxiliar das terapias psíquicas que venho aproveitando para estas brincadeiras. No caso de ser esse o rumo, e porque das bonecas se partiu para vaidades em feira, seguem, além de um dos femininos brinquedos, um móvel confortável que dá pelo citado nome de sabor turco e um espelho, onde todos os pequenos e superficiais orgulhos se podem mirar.

Mas porque a otomanice foi dada como algo de que eu seja "senhor", transportei-me de imediato à minha fantasia preferida, a da Odalisca, aqui em versão de Léon François Comerre, cujas glórias ocorreram nos haréns celebrizados pela Nação cujos destinos dependiam da Sublime Porta.

A menos que tenha a Querida Amiga ficado picada com a corda a fazer andar a Dama da imagem do post anterior, caso em que terá escorregado para um episódio adicional da Guerra dos Sexos e, para tanto, invocado as Manas Otto, nativas da Pensilvânia ao serviço do Exército dos EUA, com respectiva transposição para o Português.
Perante leque tão vasto de opções só a Artista da Blogosfera poderá fazer interpretação autêntica...

A Maldição do Divã 2: Casa de Boneca

Indaga a T qual a boneca que terá habitado uma certa caixa. Não, não foi certamente a do postal que precedeu. A resposta é tão simples como a do ovo de Colombo: aquela que tenha tido o condão de mover a Dona, ou, no caso, a Presenteada. Porque na abertura de um presente a margem de incerteza é como a do carácter aberto do Presente. E o que tem força para nos dar corda é afinal por nós decidido. A intervenção ofertante é um detonador. O que não é pouco.
Dr. Sigmund Fraude

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Maldição do Divã 1


Proponho-me hoje inaugurar uma rubrica, «A Maldição do Divã», que procure corresponder a pedidos de interpretação de postagens pouco claras para os próprios, por parte de Bloguistas Amigos.



Assim, pergunta-me a T o que acho desta bela fotografia, em que o Felino parece comungar das preocupações da Dona.




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É muito simples, Querida Amiga, a chave está nas faces viradas para lados opostos, talqualmente o Deus Janus dos antigos.
E não conteste que falta o requisito de os rostos serem iguais, dado que há um mais que notável precedente: Se é válido intergéneros, por que não interespécies? O meu diagnóstico é, por conseguinte, que sendo a divindade o Protector dos Começos, a Senhora e a respectiva mascote estão embrenhados no início dalguma nova etapa da vida.




Quanto ao espreitador da outra foto, sendo o fotógrafo o Big Brother, o observador dele só pode ser o Bigger Brother... In Law.
E para ver um cheirinho das minhas memórias de gatos romanos, não darei imagem da multidão do Coliseu, de aparência um tanto faminta, continuando a tradição dos primos mais desenvolvidos a que atiravam os Cristãos, publico é uma fotografia que tirei a um nutrido Guarda Suíço na antiga residência Papal, a Basílica de São João de Latrão. Pode chamar-me palermôncio à vontade.

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Ass. Doktorr Sigmund Fraude

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Cabeça no Ar

Perto do acto inaugural da grande exposição dedicada a Arcimboldo pelo Museu do Luxemburgo, ocorreu-me ser o momento de falar da série dos «Quatro Elementos», de longe por mim preferida à da tetralogia das «...Estações». Isto porque, por muitos antropomorfismos que comovessem os Surrealistas, até o surrealista que há em nós, a representação sazonal redunda sempre em compêndio de naturalista que o Pintor Milanês ao serviço dos Habsburgos também parece ter sido.
Enquanto que nos constituintes do Universo a coisa fia mais fino. Foi preciso alguma ductilidade para transferir as flamas para uma cabeleira, por muito que os cabelos ruivos hajam preenchido os imaginários do Ocidente.
E a evidência dos frutos do Mar na ideação da Água obrigou á profundidade de não olvidar uma homenagem merecida à nossa Colega Miss Pearls,
assim como a alusão à Terra nos traz animais de olhos fechados, que mortos ou adormecidos, não têm maneira física de despegar os ossos do chão.
O que nos transporta à genialidade da procura da sugestão do Ar. Como pintá-lo? Recorrendo a perturbações dele, como furacões, reduz-se a Essência a "deformidades" atmosféricas. Se olharmos para a figura cimeira deste post, poderemos dar como não pequeno sucesso pictórico a indicação do caminho, em vez da própria imagem da coisa. As alimárias de boca aberta remetem-nos para a urgência da respiração, de que a vida sente a falta ainda antes da água, e sem possibilidade de substituição como os outros dois componentes da síntese empedocleana.
Mas é o pavão que dá a suprema nota de argúcia, porquanto descreve bem a soberba desmedida do Homem em querer pensar e aprisionar mentalmente, como classificar, o que se lhe escapa entre os dedos. Apesar de aparências em contrário, Anaxímenes foi mais modesto, pois, ao propor o Ar como Princípio Originário, o vocábulo empregue não se referiria ao puro, mas à neblina, o que é nada desprezível confissão das dificuldades de abarcar claramente o que nos envolve.
E, para aqueles que estejam já disposinhos a dizer que fiz um postal a partir do ar, sempre citarei Thoureau, quando dizia que nenhum mal há em construir nele os respectivos castelos, desde que se implementem por baixo as fundações. É ele que permite voos e do concerto com a solidez das bases dependerá muito do nosso equilíbrio psíquico.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Homem Universal

Aniversário de Alexander von Humboldt, desde Leonardo e mais que Franklin ou Rubens, um multifacetado filão de talentos. Goethe dizia-o a cornucópia de onde brotavam todas as riquezas das Ciências Naturais e que se aprendia mais com ele numa hora do que numa semana recorrendo aos livros. E não leu poucos, como a imagem do seu gabinete de trabalho sugere. Mas todos o davam como grande conversador, atentando nos aspectos mais pequenos do Homem e do Planeta, sempre na mira de achar a Unidade Essencial da Natureza, que também o fez viajante de excepção. Magnífico a desenhar, serviu o seu Soberano como diplomata junto de Luís Filipe, mantendo um bom relacionamento com ele, o que era difícil, que o diga Liszt, o qual perdeu uma condecoração desejada por, respondendo à provocação do Orleães acerca de quanto as coisas tinham mudado desde a última vez que se tinham visto, antes da chegada dele ao Trono, ter deixado escapar que essa modificação não tinha sido para melhor.
Humboldt conseguiu ainda ser homem de família, dedicadíssimo ao irmão ministro e, coisa difícil num sábio, nem ser desinteressado como Kant, nem puritano como outros, em matéria de Saias.
Pouca gente não gostava dele. Se fosse mais lembrado, poucos não gostaríamos de ser como ele.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Da Impassibilidade

Retrato de Maquiavel na maturidade, com o
trajo de corte que sempre envergava para
redigir as suas obras

A defesa mais sólida e constante de Maquiavel diz que ele não desejava, do coração, a amoralidade do Príncipe, apenas enunciava a condição do êxito dele, dentro do universo político que observava. O perigo maior, todavia, não se reclinava nesse princípio da falta deles, viria com a idade, através do esbatimento das adesões e repulsas que Bem e Mal despertam, ou devem despertar. Com efeito, o Tratadista escreveria que um homem de merecimento, que conheça o Mundo, à medida que o tempo passa, sente-se menos tocado pelo Bem e menos ferido pelo Mal que vê no mundo. É este daltonismo moral que eu recuso. Não gostaria de que, progressivamente, a evaporação das surpresas ditada pelo pessimismo quanto ao que a Espécie nos reserva viesse em redundar em indiferença sentimental.
Mas ocorre-me que a frieza marmórea é um traço dos formalistas. O reputadíssimo Maestro Von Büllow, se não envergava de forma extraordinária farpela de gala para produzir, pois era essa a habitual exigência de indumentária para um chefe de orquestra, calçava sempre negras luvas para dirigir a Marcha Fúnebre, de Beethoven. E também era homem de renúncia às reacções apaixonadas. Se faz impressão a forma como abdicou da Mulher, por reconhecer os Direitos do Génio a esse Wagner que lha surrupiou, já fica muito melhor na fotografia pelo que retorquiu aos incorrectos que vaiavam uma obra de Liszt por si conduzida: Não é costume nestes concertos assobiar. Os Senhores assobiadores tenham a bondade de retirar-se. O que insinuava não estarem os manifestantes a ensaiar um protesto, mas a tentar fazer música, irremediavelmente inepta.
Conclusão a retirar: a fleuma vai tanto melhor quanto menos substantivas forem as circunstâncias.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Imagens da Leitura 5

O Filósofo (O Leitor no Parque) de Carl Spitzweg
Habituados estamos a ver pelos jardins públicos que teimam em contrariar o cogumélico betão pessoas imersas nos seus livros. Fazem-no na mira de se impregnarem da calma e beleza dessa natureza podada e circunscrita, para melhor aproveitarem o que vão lendo. Poder-se-ia porém esperar de um filósofo atitude diferente, com idênticos elementos. A saber, a utilização dos escritos problematizantes como doping, na actividade de interrogar e explicar a Natureza. Por isso mesmo uma representação de um desses porteiros do intelecto talvez ganhasse em pintá-lo com um livro entreaberto e olhos fixos na vegetação circundante, não de costas voltadas para um busto feminino incerto, ao qual podemos atribuir a carga simbólica da Sabedoria.
Contudo, tendo em conta a proximidade das posições, variando apenas o momento eleito para a captação, podemos repousar sobre a conclusão de que os portadores de textos editados, quando em encontros imediatos com o mundo vegetal, tanto podem ser homens procurando ser sábios, como sábios empenhados em não fazer esquecer a sua condição de homens. E quem sabe se uns e outros não se encontrariam no escapismo, caso as leituras empreendidas pelos representantes de ambas as categorias, no caso, fossem, por exemplo, romances policiais?
A Leitura tem como principal propriedade garantir a suportabilidade da Vida. Cowley disse:
Deixem a Natureza e a Arte fazer o que lhes agrade,
Depois de tudo feito, a vida é doença incurável.
O que nos leva à certeza de que a escrita não é mera prescrição contra as dores, mas verdadeira condição da sanidade. E que a desistência de a redigir ou consumir será o começo do arrastamento para o fim certo.

domingo, 12 de agosto de 2007

A Carga dos Burros

Estou sempre preocupado com o bem-estar da T, logo fiquei angustiadíssimo com a possibilidade de dois belos posts Dela poderem vir a ser alvo dos policiadores da correcção política.

Assim, dou em alternativa de trabalhador braçal esta marca que tanto alimenta o meu imaginário; e, desprovida de força muscular profissionalizada substituta da minha, descreve bem algumas saídas de livrarias a que mal sobrevivi. Recomendação, a propósito do postal concernido: jamais dar alguém de origem africana como carregador, sem pôr ao lado um médico ou um professor com características étnicas similares, pois o delírio interpretativo logo verá uma concepção de incapacidade para a actividade intelectual dos provenientes do Continente Negro...

Nunca, mas nunca, falar da tracção animal de veículos no mesmo plano do dos elementos mecânicos; a alternativa passável é demonstrar a confraternização entre bípedes e quadrúpedes, pelo que uma representação de Americano, dos tempos em que significava ser puxado por burro, em vez de, como hoje, arrastar os burros atrás de si, deve alinhar por este diapasão...

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Farsália e os Farsantes

Representação do Séc. XVI de Pompeu, fugindo após o desenlace do combate.

Ignoro se Cocteau, ao dizer que acreditava na sorte por de outra forma não poder justificar os êxitos daqueles de que não gostava, tinha em mente o caso de Bruto. Mas este, na miséria de Filipos, ao eliminar-se, enfim, teria, mau perdedor como a maioria das mentes sombrias, exclamado que a Sorte vencera a virtude. Sabendo-se que estivera presente entre os vencidos de Farsália, a 9 de Agosto comemorada, a conclusão que se nos impõe é que conspirar contra o César que então lhe perdoou é que deveria ter parecido ser abusar da sorte que então tivera. Mesmo para aqueles que neguem o estatuto virtuoso à grandeza do Perdão, como todos esses derrotados da batalha que se preparavam para, vencedores, justiçar o inimigo, sem transigências. Por não ter querido confiar à Sorte o seu destino, Pompeu entregou-se ao azar egípcio do assassínato traiçoeiro, o que lhe permitiu manter uma certa aura, como o apunhalamento do que sobre ele triunfou concorreu para a sua parte dela. É que como dizia Baltasar Gracian, a sorte que muito dura torna-se suspeita. Foram essas impressões da violência que fizeram a História, por muito que os hipnotizados pela Luta de Classes tenham, aliás justamente, batido, de aí em diante, na tecla única da oposição entre o partido Aristocrático e o Popular revigorado no Cesarismo. Era isso,mas não o essencial, porque se, no espírito, estavam presentes essas heranças, nos corpos combatentes imperava uma transversalidade diluente. A verdadeira grande oposição que pelo evento conformaria mil anos de obra e domínio era confiar num modelo de homem capaz de assumir responsabilidades diversas conforme as ocasiões, ou passar a prestigiar e entregar os destinos aos veteranos de guerra, constituintes a partir deste momento, de um grupo específico da Sociedade. Foi o segundo que fez valimento, até que, paulatinamente, viu o seu papel incarnado por hordas romanizadas mas não Romanas. É porém muito duvidoso que a emergência do entendimento contrário tivesse assegurado a grandiosidade subsequente.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

As Ondas

Charlize Theron faz anos. A vestimenta com Einstein é dificilmente não-comparável a Marilyn lendo Joyce, tentativas de infirmação da imagem de loura burra, pela colagem a dois cérebros que se fornecessem como caução de os crânios das Meninas serem tão admiráveis por dentro como por fora.
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Nem se pense que a pose de leitura quase acabada difere muito da passagem de modelos com a reprodução do cientista. Este, em vida, submetera-se a testes que mediam as ondas emitidas pelo seu cérebro. Nada de espantar que se tivesse pensado que da colocação de uma cópia colada ao corpo também resutasse algum ganho. Coisa, afinal, não tão diferente do que homens de ciência fizeram aos miolos do formulador da Teoria da Relatividade, sob o pretexto de aferições, um roubo e um esquartejamento quase similares aos procedimentos da indústria de talismãs...

sábado, 4 de agosto de 2007

O Mito Na Sua Razão

Alcácer-Quibir, por Manuel de Macedo

4 de Agosto, dia da hecatombe. Muito por culpa do que nos tornámos é hoje o Sebastianismo saco para toda a pancada, a antítese mais radical do pau para toda a Lusa Obra que os seus cantores queriam. As contrafacções da História da Mentalidade ajudam a tanto, segundo a conveniência do momento. Guerrear a moirama no Norte de África não era mais do que a continuidade estratégica e doutrinária do que os Antecessores da Dinastia de Avis haviam feito. E, de resto, era o que concitava a concordância de Povo e intelectuais, irmanados na opção, um pelo sentir palpitante da necessidade de dar luta ao inimigo conhecido e os outros pela tangibilidade pensável desse teatro de guerra, numa altura em que as Descobertas eram domínio reservado da Ordem de Cristo, alfim encaixada na Coroa ponto por ponto, sem extensão ao entusiasmo coevo da Grei.
Aontecido o desastre, ergueu-se a esperança no regresso do Desejado não como mais tarde se tornou, e já o Grande Je Maintiendrai, em texto inesquecível, zurziu - a demissão patética do esforço, vivendo do sonho irrealista. Na altura, sem quadros militares, era o refúgio possível para não aceitar a derrota. E onde a minha própria família política quer ver uma manifestação da subsistência da Ideia Nacional, projectada numa grandeza sorelianamente mítica, a informar a acção futura, vejo eu apenas a fidelidade ao Senhor, que já não pouca honra seria: os povos não costumam amar os venidos, por que o fariam neste caso? Porque a construção da biografia real pós-batalha dava o Rei como penitente, coberto das culpas da Derrota, não desejando reocupar o trono por se dele crer indigno. Na atmosfera ultra-cristã daquele fim de Quinhentos a expiação pessoal em prol da felicidade do seu Povo encontrava a retribuição imediata na assimilação ao Salvador e correlata recusa da adoração dos deuses impostos de fora. Para os menos piedosos, a comoção em face do sofrimento auto-imposto e arrastado gerava o perdão. Durante dois séculos a acção própria não foi travada pela Referência sempre viva, apesar da sobrevinda impossibilidade física do Resgate do Regresso. Só ao vitimar-nos o internacionalismo centralista e ávido de comparação e seguidismo em face do Alheio é que a Referência Sebástica deixou de ser estímulo do esforço para se transformar na nostalgia lunática que artificialmente permitia abstrair da decadência que entrava pelos olhos dentro.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

É T.

Não me refiro a Spielberg, não. Há que atentar no acento e na falta do pontinho. O anúncio é síntese do que já se podia tirar: quem lesse o comentário da T. a este post perceberia a razão de ter publicado estoutro... Está tudo ligado.

A Insaciável Procura

Agosto, tempo de sede. A física, decerto, mas, ainda mais, a devoradora da curiosidade. Releio as «Viagens de Gulliver» e não cesso de me espantar com o facto de apenas ter sobrevivido no imaginário universal, o comum aos que as leram e aos que o não fizeram, o episódio de Lilliput. Sinal, crê este psi-réprobo, de que a nossa pequenês actual procura escusas inconscientes nas ficções que considerem uma dimensão maior como forçosamente extravagante.
Muito mais pano para mangas fornece o passo de Glubbdubdrib, onde os dominadores feiticeiros da região permitem aos convidados escolher os personagens históricos falecidos e por eles serem servidos. O viajante de Swift optou, entre outros, por Alexandre O Grande, que lhe garantiu ter morrido de febre e não envenenado, Bruto e César, em excelentes relações por haver o primeiro libertado o seu apunhalado Pai Adoptivo das grilhetas do exercício do Poder, Homero e Aristóteles, absolutamente impossíveis de identificar pela multidão de comentadores seus com quem o protagonista das viagens os queria confrontar...

De repente parei de ler e dei comigo a cismar: quem escolheria da História para interrogar sobre alguma coisa? Salazar, para que aconselhasse os actuais governantes? Nem pensar, tenho sempre presente o Evangelho segundo São Mateus, no passo das "pérolas aos porcos" atiradas. Algum dos muitos vultos que se pensa terem sido vítimas do veneno? Nem por sombras, nutro dúvidas persistentíssimas inclinando-me a não admitir que a maior parte dos assassinados por esse processo se tivesse dado conta da causa do seu fim, ao contrário da confiança na ficção alexandrinamente depositada. Invocar um Santo? Nunca, precisamos de Todos Quantos haja para que rezem por nós. O Infante D. Henrique, então? Seria o cúmulo do sadismo, obrigá-Lo a ver o rumo que a Obra de Sagres tomou.
E, assim, cingia-me a:
- D. Sebastião, cuja identificação do respectivo corpo aqui se dá, pintada por Cândido Costa Lima, para que dissesse se tinha realmente ficado no Norte de África.

- António Sardinha, pois gostaria de saber se teria aderido a Salazar, ou, como julgavam os seus companheiros Integralistas e a viúva, se oporia ao Estado Novo.

- Martim de Freitas, para lhe dar um abraço.

- William Shakespeare, visando esclarecer se escreveu, de facto, o que lhe foi atribuído, ao contrário do que tanto investigador conclui, distribuindo os seus livros por Bacon, Rainha Isabel, Raleigh, Marlowe, Spenser, academias de sábios e tudo o que seja bicho careta isabelino.

Não me sinto com forças ou legitimidade para inaugurar nova corrente. Convido é os Amigos desta casa a, nas caixas de comentários ou nas suas páginas, darem conta de quem gostariam de trazer do Passado para interrogar. Agosto é o tempo ideal para o efeito.