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quarta-feira, 5 de março de 2008

Cacos do País

Sempre que surge a nova de se criar mais um partido volto a pensar no hoje muito pouco lembrado Jacinto Cândido. Político Açoreano importante no Partido Regenerador do Constitucionalismo, viria a demarcar-se do jogo -mas não já do jugo - das forças do Poder e a ser um dos precursores nacionalistas do nosso País. É conhecido o livro que escreveu sobre o Nacionalismo Português, onde diagnostica como uma das causas do falhanço do sistema aquilo a que chama Personalismo, numa pessoalíssima noção, que faria arrepiar o pelo todo de Mounier. Entendia por ele o seguidismo de chefias pessoais, com prejuízo da predominância da ideia gregária salvadora. Numa carta autobiográfica que escreveu ao filho, de que vinte páginas foram redigidas e publicadas pela revista «Estudos», de Castelo Branco, em 1962, explicita o que o conduziu a esse desencanto: as divisões intestiníssimas que testemunhou, dentro da própria etiqueta a que pertencera, entre os grupos de Lopo Vaz, Hintze Ribeiro e João Franco.
Pena é que, correctamente identificado o mal, não tenha tido o conhecimento farmacológico idóneo a apresentar solução diferente da criação de mais um partido, o Nacionalista, que levou a cabo. Espalhou-se assim ao comprido na tábua de trinchar que criticara. Parece extraordinária a incapacidade de, tendo vislumbrado a nefasta acção viciadora dos agentes fraccionantes que os homens eram, se aperceber da carga igual que arregimentamentos disputantes do Poder desempenhavam, face à Nação.
Como a salvação teria de passar por ilhas, um Madeirense que militou nesse grupo e com ele se desentendeu, Quirino de Jesus, haveria de, mais solidamente, realizar ser a cola dos fragmentos do vaso quebrado que era Portugal uma passagem obrigatória por poderes de excepção, como primeiro defendeu, ou, melhor, pela instauração de um modelo de carrocel partidário interdito, como seria a ossatura do Estado Novo em cuja edificação participou. Num certo sentido foi ele o elemento da estafeta que, tendo recebido o testemunho de Cândido, aumentou o avanço e o transmitiu, em melhores condições de vitória, a Salazar.

A solução para um desastre não pode passar por esmigalhar mais.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Notas de Rodapé

Pode a paciência dos Nossos Leitores estar prestes a fazer saltar a tampa com tanta parada e resposta sobre uma dúzia de Espíritos de finais de Oitocentos. Mas suponho que enquanto o filão for dando umas bifanas temos o dever de não reformar o facão de magarefe.
Meu Caro Miguel, na resposta ao Dragão diz que esperava tudo menos a chamada da Psicanálise à colação. Pois eu esperava isso e outra coisa mais - que o desafogo económico dos Vencidos & Satélites não fosse brandido como argumento. Voltamos à desqualificada propaganda marxista, que explicava sempre o pensamento de um homem pelas suas ambições de ascensão, se fosse pobre, ou pela sede de manutenção de privilégios, acaso calhasse a ser rico? Acresce que, provindo de extracção sem o problema económico de outras, abona a seu favor: não se remeteram ao egoísmo do gozo de rendimentos ou posição, lançando-se no desgaste da luta pública contra os males evidentes, apenas errando em não se lhes oporem globalmente. Admira-me que convoque Fialho, esse sim, que, confessadamente, fez presidir um interesse pessoal, o do ressabiamento invejoso, às suas tomadas de posição política. E apraz-me constatar que retira dessa pléiade que ele não merecia o Teófilo, o qual toda a vida se queixou da insuficiência patrimonial "que não o deixava ser" aquilo que achava que podia. Mas isso é um triste fado da nossa vida pública, veja-se o ataque de Alfredo Pimenta a António Sardinha, pela penúria relativa de que se queixava.
Não me meto a comparações com os intelectuais de destaque de hoje, não só por suspeitar de que não suportam acareação desse quilate, mas por entender faltar o recuo necessário para esses julgamentos. Andaríamos muito mal se déssemos em confrontar agora a Geração de Setenta com a Geração Que Se Tenta.
Há outro aspecto com o qual não posso deixar de discordar. Fala que os Vencidos - pois era a eles que Se referia - passaram o tempo a fazer lóbi. Isso foi talvez a coisa que menos fizeram. Lobbies significa trabalhar nos bastidores para convencer outros, os detentores do Poder, a uma actuação que satisfaça clientelas que para isso agenciam. Ora a experiência da Vida Nova, a tomada de um sector importante do Partido Progressista estabelecido e a ascensão à pasta da Fazenda de Oliveira Martins foram levadas a cabo inteiramente às claras, perante as galerias embevecidas e precisamente contra o lobismo representado por Luciano de Castro, defendendo os interesses de Burnay, e Mariano de Carvalho por conta da Fábrica Nacional. Era essa orientação que Martins, Lobo d´Ávila e António Cândido defendiam na Câmara dos Deputados e Ficalho na dos Pares. Assim como a constituição da regularidade de encontros célebres que tomou o nome por que se conhece o Vencidismo é posterior à intervenção parlamentar contra esse cancro e o da demagogia, que a imprensa então veiculava, à maneira das televisões de hoje. Muito mais anos haveriam de conservá-la, com Mariano no «Diário Popular» e Emídio Navarro nas «Novidades», vindo este mais tarde a retractar-se.
A decisão de juntar amigos com desencanto comum e vontade de mudança pretensamente radical começou por uma ceia desses quatro Parlamentares, no dia em que o Decano Conde produzira o discurso célebre:
O País, Sr. Presidente - não tem fé no nosso mundo político. Assiste às nossas lutas na Imprensa e nestas casas em que nos encontramos, de braços cruzados com o sorriso de descrença nos lábios. O País não compreende este nosso parlamentarismo exagerado, em que todos os defeitos do regime se agravam, e todas as suas qualidades se amesquinham. O País - Sr. Presidente - não compreende estas nossas sessões estiradas e estéreis: não compreende isso de andarmos a lançar o descrédito uns sobre os outros, nem as lutas de um dia e as reconciliações do dia seguinte, nem a utilidade do argumentarismo exótico que se estabeleceu entre nós.
Estimo que o País não faça rudemente sentir a incompreensão do Governo; se ele se pronunciar, na serenidade e tranquilidade da sua força, então eu direi que esse momento é um momento feliz, poque então, sob essa força, se poderá firmar um partido que seja seriamente e honestamente nacional.
Foi este o erro. "Partido nacional" é contradição nos termos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Porca da Vida

O Meu Amigo Miguel é Pessoa com Quem dá gosto debater. Depois da reserva que exprimi ao Seu criticismo à Geração de Setenta, voltou à carga, acrescentando muitas verdades, mas pecando, quanto a mim, por desculpar os principais culpados e condenar excessivamente os que apenas são responsáveis por não terem sabido vencer.
Teófilo, a bem dizer, só era da geração em critérios etários, pois breve contendeu com o aliado inicial, Antero, bem como com os Vencidos, dos quais só Eça - que tinha bom feitio - permaneceu em termos amistosos consigo. Ele sim, era um caso de estranha mescla de erudição desvirtuada pela deformação, com invenções rácicas para os Moçárabes, colocações das cadeias pirinaicas a meio da Península e símiles fonéticos caricatos como origem da canção nacional. E toda a vida colidiria com os escrupulosos investigadores, essa Carolina Michaëlis que tão soezmente perseguiu, ou Ricardo Jorge, entre outros.
Dou-Lhe inteira razão acerca da baixeza indigna do nome e do intelecto, do Quental da Questão Coimbrã. Não apenas pelos louros fáceis da mobilização da juventude contra um enfermo indefeso, como por, no duelo que seguiu com Ramalho, não ter revelado possuir prática de esgrima e ter aceite as posições de vantagem que o Adversário, generosamente, lhe concedera. Mas lá está, Ramalho era da tal Geração, de pleno direito; e em matéria de lhaneza bastaria este Couceiro para lavar a cara. Entre os dois mastins atiçados havia diferença, no entanto. Recorda a carta de resposta do Familiar Camilo a esse Castilho que lhe pedia ajuda? Cito de memória: No que respeita ao Quental não posso ajudar, porque, com pouca obra publicada, dedicou o livro que editou, com toda a admiração, ao Sr. Camilo Castelo Branco. Agora o Teófilo, não se preocupe, vou demoli-lo já. Antero foi vítima da sua própria nevrose, mas também do pior que se pode criticar a todo o grupo: querer encontrar a solução para o País numa tradução da Estranja. O que era caminho condenado.
Foi também isso que vitimou Oliveira Martins, o fulcro da questão, porque se ofereceu para chefe político. Concordo com o diagnóstico da intervenção da fantasia na História, mas não no «Portugal Contemporâneo», em que a verificabilidade o não consentia e a imprestabilidade para uma tese sobre a Nação continuada invalidava. Na «História de Portugal», sim, em que quis ser o nosso Michelet - cá voltamos ao mesmo. E nos «Filhos de D. João I», fazendo soltar ao amicíssimo Eça o desabafo mas enfim, querido Joaquim Pedro, tu estavas lá? Politicamente falhou por transigir. Depois de se pronunciar pelo Cesarismo e reconhecer que a Autoridade só é legítima vinda de cima, do Rei e do seu engrandecimento em Poder, não havia razão para se meter a conselheiro, esperançado na ração podre que o estragaria - o tumulto de São Bento.

Junqueiro, que pertencia por direito, não só cronológico como convivencial, ao grupo depressa viria a desentender-se com ele, depois de ter feito o mesmo com Carlos Mayer e António Cândido, embarcando na demarcação panfletária contra a Coroa que o indisporia com os membros da tertúlia jantante que mais directamente A serviam.

Eça, não tendo desempenhado cargos de relevo, salvo na representação do País, é muito para aqui chamado pelo que o Miguel também menciona: a tal estranheza da relação entre a acidez da obra e a índole do ficcionista. Mas os seus discípulos e íntimos há muito que explicaram essa clivagem, com a necessidade de zurzir a mediocridade dominante, antes de ascender à aspiração redentora dos romances finais.

É que todos eles se acham retratados na admiração e demarcação face a Fradique Mendes: a aversão à abstenção da tentativa de mudar o estado de coisas por se entender não valer a pena; mas também o fracasso de contemporizar com o que diagnosticadamente tinham como males do país, a concesão ao jogo partidário.

É este que me faz embirrar, como diz e muito bem. mas birra que não se cimge a amuo, antes descamba numa choraminguice que espero que incomode. Eu - que nunca entrei ou entrarei em qualquer partido, mesmo os que clamam contra os partidos - não consigo aceitar facilmente que o Miguel os tolere, quando a tolerância deles tem por limite os respectivos calos, chegando à perseguição pessoal à biblioteca de um Confrade nosso. Assim como não percebo o enaltecimento do desfecho da Geração de 98 Espanhola, atolada no pungentíssimo e orteguiano lamento de fracasso em tudo paralelo: Não é isso, Não é isso!

Não, Miguel, ceder é morrer. E a vida tem de ser levada com uma nutrição diversa da ministrada pela porca do Bordalo. Não podemos encolher os ombros, ou dizer que é um mal menor. Isso é bom para a Inglaterra.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Fim de Reinado

Vale para Ramos-Horta parte do que disse para a paquistanesa Benazir. Não gosto dele, mas lamento o atentado, porque não faço parte da Esquerda Parlamentar de São Bento, a tal que se recusa a votos de pesar quando não simpatiza com os Baleados. Dito isto, lastimo uma vez mais que uma Terra e um Povo que souberam resistir aos ataques à sua Religião, passando sucessivamente pelo desinteresse dos descolonizadores exemplares, o marxismo internacionalista assassino e a revolução cultural e brutalidade ocupantes dos delegados de Jacarta tarde em ver nascer o Sol que justificaria o nome. O crime desta noite é um desespero de bode expiatório inconformado. O poder em Dili, ou a pitada dele que escapa a Camberra, depois de conhecer inenarráveis reedições de distribuição de armas a civis, ainda com o espectro das milícias bem presente, por conveniências várias reformou o imenarrável Alkatiri, apresentando como fonte de todos os males o major/ex-ministro do Interior que agora espectacularmente se vingou. O homem, por sinistro que possa (a)parecer, com certeza que obedeceu a ordens, não o vejo a imaginar um esquema desses, uma tentativa de manter o mando por força diferente dos alinhamentos externos que agora faltavam àquele bando. Vendo-se preso e abadonado, dado como único culpado, fugiu e, sbreexcitadamente, tirou desforço e abreviou a proscrição. Por uma vez terá pensado agir pela própria cabeça. O seu primeiro castigo é ver frustrada esta aspiração. Como prova a facilitada fuga que lhe permitiu este sangrento empreendimento, terá sido uma vez mais instrumentalizado por outrem.
Por quem?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Remodelar É (Sobre)Viver

A megalomania não tem limites. Um certo personagem, falhado na deificação que lhe entendia devida, resolve tentar encarnar o Papel Divino com a expulsão de um parzinho do Eden governamental. É evidente que deixar a Saúde e a Cultura de rastos corresponde a pecados graves, mas, ao contrário da História Sagrada, as vítimas da Queda, no Portugal de 2008, tinham realmente conseguido assemelhar-se ao seu Criador.
As remodelações servem para isso mesmo, já se sabe, Sacrificar uns acessórios chamuscados para continuar prevaricando e, com a expectativa aberta no Eleitorado, meter mais um vale à continuidade. Para mais, a Substituta do Dr. Campos já veio dizer que acredita na política levada a cabo até agora; e o Reserva da Ministra Pires só não pode fazer outro tanto por ser difícil garantir que se acredita no que comprovadamente inexiste.
Ao uf! de alívio de Linos, Silvas e outros Pinhos corresponde um bem mais dilatado, o de cansaço, subjugado pelo peso deste fardo que é a gestão socrática que todos carregamos no lombo. Com aguilhão e tudo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Está Tudo Explicado!

Chávez disse que masca todos os dias folhas de coca e que esta não é o mesmo que cocaína, ao mesmo tempo que aceitou umas quantas oferecidas por Morales, por Senadora interposta. Não é o mesmo, mas esse tipo de emprego da planta era usado na religião dos Índios Andinos para se colocarem em estados de abstracção que permitissem contactar com espíritos não-terrenos. Assim, ao mesmo tempo que se estabelece de vez o interesse agrário de produtor por detrás da erupção do Boliviano na vida pública, cria-se um dilema quanto ao Presidente da Venezuela: deverá a destituição ter lugar em nome da incapacidade motivada pelo consumo, ou por traição, inteligência com o inimigo, já que algumas das entidades mitológicas com que por este meio se comunicava, na tradição local, eram malignas?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Amar o Poder

O Sultão e a Favorita de Maurice MazoA Sr.ª D. Fernanda Câncio está no seu pleníssimo direito de se atirar ( no sentido de criticar) Sarkozy, mas é estranho que, conhecidas as incidências biográficas, não tenha tido mais pudor em fazê-lo, parecendo que está a advogar causa própria. Cada um tem o direito de exibir a Companhia da Vida, ou não, do alto da cadeira que ocupe. A Articulista prefere a ocultação, Carla dá-se bem com as luzes da ribalta, Ambas devem ser respeitadas. As Mulheres que conheço, na Sua maioria, gostam de ser exibidas, mas, também aqui, a Democracia não faz qualquer sentido.
É preciso apenas ter presente uma regra - não expor os momentos maus. O que Sarko fez com decisão, quando interrogado sobre o fim da relação com Cecilia.
O resto fá-lo a vontade de ver do Povo e dos intermediários, como a mais protegida do Serralho, dada à tela por um pintor.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Apetência Dispara(ta)da

Em 16 de Janeiro de 1919 saiu a triste lei com o nome e a pompa de 18ª Emenda à Constituição Americana, que inaugurou 14 anos de terror, em que o álcool foi elevado a fruto proibido, só sendo permitido para uso médico, conforme a prescrição infra. Parece-me que a interdição do fumo em recintos fechados, mais dia menos dia, poderá vir a beneficiar de excepções similares, tantos serão os colapsos nervosos e maleitas psíquicas que o exigirão. Mas a História ensina que só a luta de rua conseguiu fazer retroceder legisladores sem jeito, os que se barricam na incompreensão das pequenas fraquezas humanas...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O Sabre

Gomes da Costa no Leito da Morte por Roberto NobreQuando os Vencidos da Vida e Afins, com Junqueiro excluído, vagamente se investiram da respnsabilidade da prescrição do receituário para a salvação do País das partidices, condensou-se a aspiração no Cérebro e no Sabre. Sobejava o primeiro enquanto Oliveira Martins vivera e para o cargo se oferecia. Do segundo, nicles. Mousinho só viria brevemente a encarnar esperanças quando o grupo já se encontrava decapitado e dizimado.
Para enfrentar a desgraça maior da Primeira República Jacobina achou-se por bem não repetir o erro da impotência e começar pela escolha da lâmina, seguindo-se o tinteiro. A opção óbvia, Roçadas, caiu fatamentre enfermo poucos dias antes do movimento. Havia outro nome ilustre, combatente reconhecido de vários continentes, que oferecia três grandes vantagens: era adorado pela soldadagem, ficava muito bem em cima dum cavalo, para concitar os aplausos populares, e não era hábil, o que sossegava os chefes das facções, pouco dispostos a aceitar alguém cuja capacidade temessem. Era o ideal para trazer as tropas de Braga a Lisboa, depois se veria.
Viu-se. O Movimento triunfou e seguiu-se um período de encontrões quase cegos do e no Ocupante da Chefia do Estado, que era Homem para Guerras de peito aberto, as que dão glória, não para as manobras de bastidores que apenas se resgatam da mediocridade se houver constância e sucesso num rumo bem determinado. Tudo isso faltava ao Militar Glorioso. Não se entendia com os grupos que iam intrigando, não tinha fidelidades para além dos ajudantes de campo, procurando desesperadamente quem o informasse dos manejos nas suas costas, como esse Reporter X que, ido para o entrevistar e dele gostando, nada lhe disse por ética e deontologia jornalísticas.
Era preciso quem sossegasse a ambição da oficilidade, não já quem despertasse o sentimento das praças e o entusiasmo dos mirones. Foi afastado em benefício de Alguém a que no Colégio Militar chamavam o Macio e que sabia muito melhor as linhas com que se cosia, dando espaço para que uma Cabeça Pensante viesse salvar o País.
Gomes da Costa já não contava, mas, a bem dizer, tinha servido muito. E nos melhores dos teatros. Nascera a 14 de Janeiro.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Contradição Nos Termos

Castelos em Espanha de Alexander HarrisonA versão espanhola da mudança do nome da Ponte Salazar achava-se, até agora, muito claramente sintetizada na eliminação da letra do Hino Nacional que vinha do Regime anterior. Mas ao menos não a tinham substituído por uma falácia. Com as melhores intenções, ou sem elas, é o que as palavras propostas para acompanhar a Marcha Real impingem:
¡Viva España!
Cantemos todos juntos
con distinta voz
y un solo corazón.

¡Viva España!
Desde los verdes valles
al inmenso mar,
un himno de hermandad.

Ama a la Patria
pues sabe abrazar,
bajo su cielo azul,
pueblos en libertad.

Gloria a los hijos
que a la Historia dan
justicia y grandeza
democracia y paz.
Devo dizer que nem me parecia muito mal até ao último verso. Agora, como pode alguém acreditar que coexistam "democracia e paz"? A democracia é a guerra civil em estado latente, disse, com génio, Alfredo Pimenta. Acrescento eu o que muitos outros notaram e os próprios adeptos assumem: a sua essência é o conflito, que os defensores acreditam salutar, desde que contido em certos limites, contestando alguns dos opositores a possibilidade de estabelecer essa represa e outros a própria desejabilidade da tensão, ainda que refreada.
Uma coisa se retira de ambos os lados: oferecer a um tempo a tranquilidade e a luta é a impossibilidade de concretização que dissolve o sentido. Pobre Espanha, a Tua História não merecia destas!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Contra a Discriminação!

Andei ano e meio a meter-me com o Governo e a apregoar que um blogue é uma prisão. Como se explica que não tenha aparecido um qualquer sócio de ministro a comprá-lo?

domingo, 6 de janeiro de 2008

A Escola de Milu

Depois de muito porfiar, descobri, enfim, num alfarrábio, graças a F. Schklowsky/Flip Morton, a fonte de inspiração do mimetismo na Laicidade que vem iluminando o Ministério da Educação socrático em eliminações de crucifixos, normalização da classe docente e escolhas de nomes para as escolas...
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sábado, 5 de janeiro de 2008

Entre Totalitarismos

Leitura de um livro de memórias capital para perceber as conspirações dos meios Monárquicos e Nacionalistas Alemães contra a heresia Hitleriana, ensanduichados entre a insurreição plebeia que fez perder uma guerra e o Império e o plebeísmo de chancelaria que redundou no esquartejamento e submissão do Seu País.
A Autora, Neta do Grande Almirante v. Tirpitz, era Filha do Embaixador em Roma nos primeiros tempos do Nacional-Socialismo, Ulrich v. Hassell, um dos primeiros altos funcionários a atrever-se a criticar publicamente a hegemonia da Cruz Gamada. Simpatizante de Dollfuss, já era tido como autorizada voz da oposição ao tempo do assassinato deste,

numa época em que Mussolini desconfiava de Hitler a bom desconfiar: a fotografia acima data de 1934, do primeiro encontro entre ambos, findo o qual o Senhor do Reich teria dito e redito: estou muito feliz por voltar a Berlim e reencontrar o meu bom amigo o Dr. Goebbels; vejo-o praticamente todos os dias e passo os serões sempre com o mesmo grupo de pessoas. Ao que o Italiano respondera: eu prefiro ver todos os tipos de pessoas. O que dá uma ideia da diferença de largueza de vistas que então separava os dois homens.

Depois foi o 20 de Julho e o Mesmo que figura entre os dirigentes do Eixo viu-se entre os enforcados do julgamento assumidamente partidário que seguiu. Sic transit Gloria Mundi, pois claro, com extensão aos familiares que nenhuma implicação tinham no coup. Diz a Memorialista: De facto, Hitler estava de tal modo obcecado pela ideia de que lhe queriam tirar a vida que deu ordem de eliminar os conspiradores e aqueles que lhes estavam unidos por laços de sangue, aí se compreendendo «os ascendentes ou descendentes directos e os colaterais», em virtude de uma antiga lei bárbara que fazia recair o castigo sobre a família dos criminosos.
Mas a coragem protege os audazes, um Irmão dela, futuro Embaixador alemão, que tentou salvar as Damas da Família apresentando-se no Quartel-General da polícia política, para garantir que só ele tinha estado com o Pai nas vésperas do atentado, foi admirado pelos SS e posto em mera residência vigiada, enquanto que as Senhoras conheceram todas as durezas de Dachau e a subtracção das crianças com o intuito de as separarem delas para sempre.
Grande lição a tirar, quando a letargia atinge as classes aristocráticas ao ponto de não as fazer atalhar as demagogias na fase ascendente, a derrota é certa, em virtude de um tiranicídio ser de duvidoso sucesso, para lá do problema de legitimidade que coloca. Além de que os Nomes Ilustres, com uma rotina de Serviço Público de Séculos, costumam ser muito menos capazes de realizar golpes de estado do que qualquer arrivista coronel centro-americano...

sábado, 29 de dezembro de 2007

O Caçador de Vampiros

Estão os Leitores habituados a que este bloguista desanque a classe política que suga o sangue do País, mas ignorarão que ele inspirou um combatente contra a vampiragem tout court. Graças à imaginação do Capitão-Mor, aí o tendes, na peugada da Buffy.
Donde terá vindo a inspiração ao Nosso Amigo? Tenho um palpite: quem siga a série americana da Slayer sabe que ela está empenhada numa luta sem tréguas contra o Mal absoluto liderado por um espírito tenebroso chamado O Primeiro. Ora, por cá o Bem igualmente tem de ser mobilizado contra as arbitrariedades do nosso Primeiro... e numa equipa que inclui um vampiro reconvertido, uma bruxa e uma ex-demónio, um réprobo não fará fraca figura...


quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Memorial

O Príncipe de Espanha expressando as condolências à Família do AssassinadoNo dia em que se lembra o infame assassinato de Luís Carrero Blanco pelos etarras o Filomeno teve a bondade de me enviar este testemunho de um Neto do Estadista assassinado, no sentido de contrariar as teses que dizem que Carrero poderia ter sucedido a Franco, evitando a Restauração.
O texto tem ainda a virtude de transcrever parte de uma entrevista que infirma o entendimento do Amigo Jansenista, acerca de ter o Rei D. Juan Carlos "traído" a obra do Caudilho. Com efeito, Franco foi um Ditador no sentido clássico do termo, que aceitou uma missão para fazer face a uma crise sanguinolenta em que a tranquilidade do culto, pessoas e propriedade dos Espanhíos não era respeitada. A Instituição da Ditadura era comissarial. E se no caso vertente a comissão se tornou de jure vitalícia foi porque o Chefe de Estado sabia muito bem que em Democratas não se confia, eles não respeitam acordos, veja-se o caso de Pinochet.
Mais ambicioso foi o Estado Novo Português, acreditando perpetuar-se, para além de Salazar. Não percebeu que é difícil encontrar dois génios de enfiada. Nem que a salvaguarda institucional contra a agitação demo-liberal só pode ser eficazmente garantida pela força da hereditariedade de um Trono. Desde que o amparo das instituições rodeie durante tempo significativo a acção do ocupante deste, o que faltou no caso Espanhol, em que do Príncipe, como sucessor designado, sem exercício no quadro legal vigente, seria facilmente previsível marca modificativa.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O Lugar do Vazio

O tempo que atravessamos é como todos, feito de pulsões contraditórias. Quanto mais nos enterramos na indiferenciação característica das vendas nas grandes superfícies, mais permeáveis nos mostramos à aspiração da individualidade nos percursos diários, preferindo tantos o automóvel ao transporte colectivo, em funções que este desempenharia sem os óbices do desgaste da condução, ou do estacionamento. Uns dizem que relaxam ao guiar, outros que não gostam de ser conduzidos por outrem. O segundo problema tem agora uma solução que nos meus tempos de adolescente seria apanágio da ficção científica: o Cybercar, um veículo eléctrico sem condutor, que se quer introduzir em andanças hospitalares mas se prevê já para a circulação citadina. Por enquanto só anda a dez à hora, mas é dar-lhe tempo, foi essa a primeira velocidade registada em automóveis. Além de que a lentidão começa a ser apetecida em jeito de anti-depressivo, contraposto à correria quotidiana como causa dos colapsos nervosos. Indica-se que a pré-programação ou o telecomando poderão permitir a paragem à porta de cada utente, consoante os endereços fornecidos. E eu, tão contrário à automação, subitamente vejo grandes virtualidades no sistema político que substituísse o actual timoneiro de S. Bento por uma engenhoca que cumprisse exarcebadammente as promessas do Poder, diminuido generalizações abstractas e fazendo-nos prescindir de eleições...
A época em que se via o Progresso num meio urbano de locomoção a vapor, entre Cais do Sodré e Algés, orçava por 1889. Já vai tão longe e parece tão pequena a esperança que despertou!

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A Mão Que Guia

Dia do nascimento de Franco, o Quatro de Dezembro. Muita da Sua acção pública está condensada na frase que proferiu são aqueles que não gostam da Política que a fazem melhor. Tido por relativamente pouco subversivo entre a Generalidade Espanhola, foi precisa muita atrocidade para que interviesse. E, depois de vencedor, a neutralização de Fal Conde, de Hedilla e dos seus Companheiros, como o desentendimento com Gil Robles e, até, com D. Juan de Bourbon, consubstanciam a hostilidade de quem exerce o poder como um serviço e um sacrifício, face aos que o procuram activamente. Com a necessidade de justiçar os culpados de horrores conhecidos, por cá mais localizados e de dimensão incomparavelmente menor, tentou a devolução da tranquilidade que Salazar também conseguiu, com o seu viver habitualmente. Não deixou que a Espanha se afogasse nas ondas das alianças, durante a 2ª Guerra Mundial, ou nas do isolamento, depois dela. Toda a devoção a uma Missão superior se acha bem expressa quer no modo como os empossados ministeriais juravam, ajoelhados, quer na operação militar que decidiu, para resgatar a Mão Incorrupta de Santa Teresa de Ávila, impedindo que os Vermelhos a controlassem.
Falou-se há tempos da designação de "cobardes" que teria aposto, no fim da vida, aos Portugueses. Não se fala do contexto, que era apenas o da equivalência à que nos gostamos de repetir, a dos Brandos Costumes. Era o modo de exprimir-se natural de um combatente valoroso, em Marrocos proposto para a Laureada de San Fernando, que soube honrar os Viriatos, os Voluntários Lusos que Consigo juntaram esforços.
Uma coisa é certa, Desses Homens já não há.
Com um abraço especial pelo Dia, agradeço ao Filomeno a chamada de atenção para o episódio da Relíquia.

domingo, 2 de dezembro de 2007

O Papel de Ogre

Não me deixo levar pela onda que quer colocar Putin e Chávez no mesmo plano. Não verto uma lágtima pelos perigos para a Democracia, porque não gosto de sistemas de partidos, sejam de um dominante, ou de vários alternando. A forma como tratem os opositores não me comove meia, porque um opositor não pode queixar-se de ser maltratado por um regime que, consequentemente, conteste. E os que se queixam deles não se limitaram a mandar bitaites, organizaram-se e manifestaram-se contra. As origens de ambos poderiam até concitar a minha simparia, pois os serviços de informação e as tropas especiais são das raras reservas de escol a que pode recorrer um Mundo tão desprovido dele. Também não me oriento por critérios de eficácia económica, próprios de tecnocratas. Agora, as linhas de força que veiculam fazem-nos divergir completamente, no meu apreço: no plano interno o Russo apresenta-se com a proposta de unir a Comunidade Nacional, contra as agressões externas e as clivagens domésticas. O Venezuelano, ao contrário, quer atirar os seus compatriotas uns contra os outros, através da sempre hedionda vingança com que atiça os desvalidos.
Na Política Externa o Senhor de Moscovo não verga aos interesses norte-americanos e oferece-se como possibilidade de outra aliança à Europa. O de Caracas pensa que a retórica desequilibrada contra o vizinho do Norte colhe mais se meter os Europeus no mesmo saco e os afrontar com insultos e abraços aos inimigos declarados da nossa Civilização, por coincidência comungando dos valores dos mais conhecidos adversários armados do Grande Vladimir.
Dizer que estão no mesmo plano ou é masoquismo ou areia para os olhos. Gosto do da Direita, nem um poucochinho do outro.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A Persistência do Dia

Iluminura de FouquetDia de Santo André. O facto que ainda hoje mais celebrado é na memória das gentes, o da cruz do Seu martírio, em X, bem poderia contribuir para uma popularidade maior, na época em que esse sinal é impingido como realização das esperanças, seja em votos, testes, inquéritos ou totolotos. É evidente, aliás, que muito do prestígio que ainda resta ao sufrágio advém da renovada confiança que as cruzinhas da Santa Casa povoam nas nossas mentes receptivas. Isto apesar de na sabedoria enraizada se dar conta da inquietação associada à diminuta durabilidade da luz: Pelo Santo André todo o dia noite é.
Pena que se haja perdido o rasto ao Apóstolo. Na fabulosa oferta pictórica da Grande Espanha estalou uma polémica sobre o bem fundado das representações do Mártir, a de Zurbaran, em sereníssima Leitura, contraposta à de Ribera, com a sombria agonia da crucifixão.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Esmiuçadamente apreciado o episódio sagrado, ambas, porém, encontrariam o seu fundamento, pois O Primeiro Chamado teria tido durante o suplício um período de permanência em vida longo, durante o qual, pregado, pregou à multidão, sem esmorecer.
O que faz com que a ligeireza bloguística que gostaria de pensar como agilidade me leve a lamentar que não haja sido tão resistente um dos belos arcos que Lisboa tinha, o de Santo André, precisamente, atestado de que o Exemplo do Patrono da Escócia e da Ucrânia não entrou nas cabeças nem nos corações dos responsáveis da Cidade...

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A Recompensa

Um dia que correu mais do que bem, com duas alegriazinhas de tomo: a primeira foi encontrar um livro que buscava há 25 anos, «Hitler e Eu» de Otto Strasser, em versão francesa, procuradíssima nos dois Países. Irmão de Gregor, rival do que veio a tornar-se o Führer, depois da morte do mano na Noite das Facas Longas, assumiria a liderança da facção dissidente do NSDAP, partindo para vários exílios, com passagem por Portugal, onde Schellenberg lhe deu caça, infrutiteramente.
Assalta-me desde logo a memória do relato de Jacques Bergier, o qual, prisioneiro num campo, perguntou a um colega de cativeiro a razão das suas férias forçadas na mesma estância, obtendo, para total espanto, a resposta de que tal se devia a ser um verdadeiro SS, sendo os guardas que os vigiavam impostores. Era um militante da Frente Negra, dos Strasser.
Depois da compra fiquei a cismar sobre se o Mundo teria sido poupado a tanto desastre, caso a luta interna no Nacional-Socialismo tivesse pendido para o outro lado. Isto apesar de a tendência strasseriana ser, prospectivamente, "mais totalitária" do que a vencedora. Mas menos expansionista. Talvez... nunca o saberemos.
Como me pus a reflectir em mais um caso de traição, a de Goebbels, um protegido deles que se passou com armas e bagagens para o estatuto de fiel dos fiéis entre os dirigentes do III Reich. Caso tivesse ficado entre a minoria alfim expulsa, Hitler teria conseguido ganhar, nacionalmente?
E espreitando algumas páginas do volume, não deixei de sorrir ao ver um responsável pela alegada ala esquerda do partido recordar que emendara o emergente Adolfo, o qual achava serem os Três Impérios o de Bismarck, o do Tratado de Versalhes e o próprio, lembrando-lhe que Möller van den Bruck criara a expressão para designar o Sacro-Império Romano-Germânico, o bismarckiano e o que lhes retomasse os valores, ainda a fundar. Ou seja, um esquerdista a remeter para um dos pólos de contacto da Intelectualidade Germânica com a Tradição.
O volumezinho que adquiri vem em encadernação engraçada, com as capas de brochura preservadas. Na lombada as iniciais C. M.. Inquirido o Livreiro, não me soube responder, por, aparentemente, não corresponderem à identidade que vendera a biblioteca. Fiquei-me interrogando sobre o trajecto da compra, antes de à minha mão chegar.
A outra alegria? fica para amanhã, quero variar no próximo postal.