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segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Não Se Derretam!

A língua viperina que por cá andou nos tempos de El-Rei D. João V, Merveilleux de seu nome, descrevia assim a voracidade dos nossos apetites:
Devo advertir os estrangeiros que devem usar de prudência quando recebem qualquer gentileza da parte dos portugueses. Não é conveniente precipitar-se e fazer um convite modesto, porque esta gente acha mal que não se lhe dê um banquete à sua maneira. Se é a estação dos perus devemos servir a cada um o seu peru. Vi muitas vezes um português engolir uma perdiz, um frango, uma galinha, e não deixar de comer todas as iguarias de que a mesa estava repleta...
Portanto, Meus Caros co-rivais de Obelix, atravessando o período áureo da deglutição peruesca, o meu conselho para a Consoada é simples: não consumam delícias que evidentemente Vos consomem, seja na quantidade ou na espécie. Como o boneco de neve que não olhou para o presságio que o nome comportava..

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Livre Circulação de Bens

Pois nem tudo é mau na integração Europeia: neste Natal, por louvável iniciativa de uma Prima, tenho, em companhia do Bolo Rei um Panettone autêntico, dos que fazem as delícias dos Italianos, dos de Milão, especialmente.
É manjar Cristianíssimo, herdeiro directo de um grande pão familiar, benzido e comido em conjunto, simbolizando a Santíssima Trindade e em cujos restos latejavam, diz a lenda, características taumatúrgicas.
Fosse a sua origem a de uma das versões apontadas como Pane de Toni, cabendo a este o papel do ajudante de cozinha que salvou com a sua invenção um jantar que o Duque de Milão oferecia, após o chef ter deixado queimar a ementa prevista, ou sendo o pseudónimo de um Cavaleiro que o usou para prender a sua Dama pelo estômago - e com ela os Pais, ou, pelo contrário, repousando o surgimento na Freira de pobre convento que assim alimentou as Irmãs, desde o Século XV é lembrança habitualmente trocada entre pessoas que se estimam, nas Transalpinas terras.

Ao ponto de dois amigos íntimos que frequentemente se zangavam, Puccini o Compositor e Toscanini, o Maestro, terem protagonizado uma história engraçada. P tinha o regente Arturo na lista daqueles a quem pretendia distinguir com o envio da guloseima e deu os nomes ao confeiteiro encarregado das entregas. Entretanto travou-se mais uma vez de razões com o seu compincha e foi tentar evitar o envio do presente. Nada a fazer, já tinha seguido. Mandou então um telegrama, dizendo:
Panettone enviado por engano
Ao que o destinatário respondeu com outro do seguinte teor:
Panettone comido por engano
E para não Vos enganar também, sigo direitinho para a mesa em que ele me espera.
FELIZ NATAL

domingo, 9 de dezembro de 2007

Mexer na Equipa

Fim de semana de Taça, os treinadores aproveitam para fazer descansar os elementos tocados ou mais utilizados, para revigorar a equipa. Como na Quadra em que se submerge a partir de hoje, o importante é ter bom jogo de banco...



quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Fruto Proibido?

Tendo a Cristina Ribeiro chamado a nossa atenção para as antiquíssimas festas Nicolinas dos Estudantes de Guimarães, no comentário ao post anterior, ocorreu-me espiolhar o que este eruditíssimo livrinho diz a respeito. A informação de que o culto de S. Nicolau fora introduzido pelos Peregrinos a Santiago bem como a devolução da vida a três crianças em idade escolar esquartejadas por um estalajadeiro, razão de ser patrono da comunidade estudantil, colhi-as noutro sítio, na net. Mas, a propósito dos folguedos dos Lavradores pelo São João, encontrei outra faceta das celebrações:
Curiosas são as roubalheiras (uma espécie da tradicional roubalheira dos estudantes do nosso liceu, ali por Dezembro, quando da festa do pinheiro, magusto, pregão, maçãs e danças)
Permitido pela Quadra terá surripiar o sabor não já a infracção, vindo-lhe a satisfação que dá do fortalecimento dos laços comunitários, e não do prejuízo de outrem que os enfraquee.

Mas é um livrinho cheio de sabedoria, que deveria ser lido por certas Pessoas minhas Amigas. Como um determinado passo, para As que alimentam a incompreensível satisfação de andar descalças, mais a agressiva postura ameaçadora:
Sapato roto ou são, melhor no pé que na mão
Ou para Os que têm no seu imaginário os rabos das criadas:
Como é costume os patrões darem pelo Natal a consoada às criadas que vão passar a festa com as suas famílias, e essa consoada conste quási sempre de bacalhau, quem as vê passar diz logo: - «Aquela vai com o rabo de fora». Fica-se a saber que vai passar o Natal com a família, porque leva o rabo do bacalhau à vista.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Presentes Electrizantes

No momento em que se garante a continuidade de uma prenda de Natal à criançada, sob a forma de um eléctrico, essa espécie em perigo, conduzido por um Pai Natal, cumpre reproduzir a imagem da inauguração da tracção eléctrica em Lisboa, de 31 de Agosto de 1901, em que foram presenteados todos os muitos mirones da estreia do novo veículo, maioritariamente graúdos. Metáfora da predilecção da Infância pelo raro e da Idade Adulta pela massificação.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Do Espiritual Na Arte

Um achado que é notícia por más razões, pelo que se não pode considerar uma notícia que é um achado. Tudo o que tem voz na imprensa das Belas Artes - e em cantinhos da generalista - fala no "quadro que foi encontrado num monte de lixo e custa um milhão de dollars", sem que alguém medite em como essa redução de e ao valor pecuniário poderia desgostar o Pintor Rufino Tamayo, que a fez. De origem índia, sempre insistiu, contra as tentativas de engajamento nos movimentos políticos revolucionários materialistas, em veicular na sua Arte uma visão da Tradição, legitimada pela sua extracção étnica; e da espiritualidade pessoal e familiar, solidificada pela sensibilidade que exercitou.
Ladrão ou receptador que o tenha deitado fora, possivelmente por tê-lo como dificilmente vendável, a viúva do proprietário a quem o tinham roubado, insensível até ao facto de haver sido presente conjugal, de imediato o alianando, vieram afinal conluiar-se com os adversários da teorização estética do Fazedor da obra, na medida em que tenham considerado tão-só a sua avaliação patrimonial. Que deixa um travo de melancolia em quem goste de pintura. Para além do investimento, digo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quentes e Boas!

Lembra a Omnipresente Blogadora a tradicional venda das castanhas citadina. Atractiva como é, não deixa de ser a habitual palidez urbana da contrapartida ao que se conhece na Província, onde a síntese festiva pagã e Cristã, com a substituição do Patrono Baco por São Martinho, faz acabar os melhores magustos com as batalhas de enfarruscadelas, mais divertidas que qualquer luta de travesseiros. E na vertente citadina o que sobrou cinge-se a um pitoresco comercial, ainda que espartilhado pelas disposições camarárias com décadas, que proibiram a circulação das assadeiras popularmente chamadas Máquinas de Comboio, com formato a fazer lembrar o vulcão Etna, a cuja beira sobrevivia, não há muitos anos, o mais velho castanheiro do Mundo, dado pelo exagero da lenda com a provecta idade de 4.000 anos.
Só não digo que me pelo por elas por ser ao delicioso fruto que está reservado esse cometimento, em nossa intenção. Embora a tradição da terra da minha Avó Materna obrigasse à água-pé como companhia, por cá enviesamos sempre para o Jeropiga. E dizem-me que no Minho o Vinho Verde também é pau para essa obra. Rumor para a Cristina Ribeiro confirmar.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Aprender Com as Formigas


Dia do nascimento de Bonald, sempre essencial para pensar o que devia ser naturalmente intuído, a impossibilidade de união humana sem que seja ditada de cima, contrariando a atracção pelo esquartejamento autofágico de qualquer anarquizado resto social ou cultural. Dizia que os homens só deviam ser reunidos sob as armas ou na Igreja, por aí ouvirem e obedecerem, e não discutirem. Quer a infelicidade dos tempos que se considere isso hoje uma menorização, não fazendo, evidentemente, ideia do que se fala. Quem estude ou observe com atenção verá que a excelência na ética militar e o cumprimento ideal dos preceitos religiosos, são do mais difícil de alcançar, não podendo,por outro lado, prescindir do contributo mediano dos que cumprem mas não excedem. Mas é evidência a que os cultores da facilidade e da agitação não são sensíveis. Os melhores dentre eles chegaram a congeminar uma elite de detentores de conhecimentos seleccionados pela cumplicidade, esquecendo que para um cérebro poder ser proveitoso tem de assentar sobre um carácter exercitado. Dizia o nosso Aniversariante que a cultura faz os sábios, mas a educação constrói os Homens. E desmitificava essa ancestralidade dos intelectuais optimistas e progressistas que acreditam conseguir uma sua comunidade fechada e realmente impossível, pregando, se não ilógica, ao menos imoralmente, o gregarismo no seu grupo estrito para melhor fomentarem a cisão na colectividade que o engloba: Eu não creio mais na república das letras do que em qualquer outra república; o mundo literário está dividido, como o mundo político, em estados particulares que têm, cada um, os seus fundadores, os seus legisladores e a sua sucessão legítima de monarcas, bem como as suas revoluções e os seus usurpadores. Razão de todas as detracções assentes em grupos e escolas quando se não resumem às meras invejas e ciumeiras de egos dilatados pela importância de serem ou se imaginarem lidos.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Beef(a)eater e o Sem-Funda

Dia negro para a Tradição em Inglaterra, com dois Camerons na berra. O Leader conservador, David, porque veio uma figura importante do seu partido dizer que está a delapidar a herança Tory no que toca a impostos, Europa e Família. E a Moira, a primeira Mulher aceite entre os Beefeaters, os alabardeiros que guardam a Torre de Londres.
A primeira é uma falsa questão. O eleitorado natural que disputaria, quanto a liberalismo económico, sente-se melhor servido com os Trabalhistas da Terceira Via; e a respeito de UE pelas listas que contra ela especificamente se apresentam. E um escocês que casou aos cinquenta anos, pela primeira vez, com a Secretária, Brown, dizem as más línguas que para compor uma imagem primo-ministeriável, demonstra sempre ter a respeitabilidade familiar em melhor conta do que um jovem mimado que passou por todos os prazeres proibidos dos universitários da sua geração. Pouco importará, portanto, a alteração programática.
Já as Jóias da Coroa parece terem garantida a segurança: a neófita não será um modelo de aprumo militar na formatura, mas a expressão que arvorou fá-la assemelhar-se amplamente às gárgulas caçadas por Esta Senhora, com toda a capacidade de afastar os indesejáveis. Pelo menos.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A Difusão da Santidade

Nunca deixarei de pasmar com os paradoxos das atitudes do Poder perante o Grande Santo cuja morte se lembra hoje. Num país que atávica e acefalamente fazia por rejeitar tudo o que de Espanha viesse, ao ponto de proibir os seus Nacionais de jogar na lotaria espanhola e de recusar os auxílios oferecidos pelo País Vizinho aquando do terramoto de 1755, não houve pejo em continuar uma modificação introduzida e fomentada pelas autoridades do período de União Pessoal das Coroas Ibéricas, sob a Dinastia Filipina. Com efeito, incontestavelmente português na origem e profundamente entranhado na devoção popular de que os anseios das raparigas casadoiras eram apenas uma das manifestações, só o Amigo de S. Francisco se guindou à oficialidade de Santo da Cidade - mas não padroeiro, ressalve-se - nessa época, numa tentativa propagandística de diminuir o culto de S. Jorge, dado como agente da influência inglesa que vigorava, desde D. João I, com antecedentes remontando à intervenção dos Guerreiros Britânicos que, sob a Cruzada, contribuíram, de caminho, para libertar o Castelo. Mas chegado, ficou.
Ora, transportando-me para o Século XX, ao ler um interessante artigo de Luís Chaves sobre «Tronos» Populares de Lisboa, no Dia de Santo António, caio boquiaberto perante a diferença de atenção que o actual regime dá às marchas que o ajudem a ir passando, subalternizando o antigo hábito de erigir altares ao Taumaturgo, que eram verdadeiras obras-primas de talento popular em aproveitar os pobres materiais de que se dispunha. O Estado Novo, a par da institucionalização da espectacularidade marchística, promoveu concursos que premiavam o esforço e engenho, publicitando-os. É estranho que um novo velho sistema, tão crítico da "actualização anestesiante do Pão e Circo", sempre pronto a invectivar os usos pretendidamente análogos de Fado, Futebol e Fátima tenha justamente opções de continuidade e esquecimento tão desproporcionadas. E ficando apenas o pedido infantil do imposto antoni(a)no, desprovido da referência espiritual legitimadora, é mais um triste passo na senda do materialismo...

domingo, 10 de junho de 2007

In-Vocação Nacional

Dou graças aos Céus por ter como Pátria uma das raras que escolheram como Dia Nacional aquele em que se comemora o seu expoente literário máximo e não um qualquer acidente político, quantas vezes, como em França, sintomático da grande regressão que, por desditosa coincidência, tem, neste 10 de Junho, a lembrança do aniversário tenebroso do agravamento do Terror democrático-revolucionário, com a supressão do interrogatório dos acusados e das etapas da sua defesa, estabelecendo a votação de "Inocência ou Morte" que correspondia a condenações antecipadas.
No nosso País a Referência vinculante, contrariamente à prática governativa que, de tanto se tentar assemelhar à dos estranhos, passou a ser delegação dos interesses deles neste Ocidente Peninsular, manteve-se dirigida ao fenómeno cultural que detectou a nossa especificidade e permite nela buscar a reinvenção que nos torne dignos.
Neste pequeno folheto, o grande Espírito que foi Leite Pinto disse muito. Desde logo que Camões foi o primeiro poeta a ter a noção nítida de que o Português é um homem de acção que busca no passado colectivo exemplos de actuação.

E prossegue com a receita ainda válida para os nossos dias, que os ocupantes do Poder de hoje esquecem, ensimesmados na estupefaciente convicção de que o regime que desgraçadamente os promoveu é promontório insuperável e final de uma evolução:
(...) um homem existe porque sabe que um dia deixará de existir e que esta certeza deve condicionar a sua actuação.
E para os que desprezam o Passado em nome dos antolhos que façam o burro a cuja encarnação nos candidatam andar para a frente, acrescenta - poderei dizer aos novos que as maneiras de viver e reagir à vida não são muitas; que com satélites artificiais ou sem eles, os homens têm sido sacudidos, séculos fora, por paixões de bem poucos tipos? Que para os jovens as situações parecem novas, mas que os velhos lhes encontram logo analogias nos anais da história?
E nega a erecção do conforto como critério tácito ou expresso do que deva ser o Norte do nosso agir, como no passo que segue:
Mais importantes que as técnicas - que só distinguem as culturas quando exclusivas; e hoje há pouquíssimas técnicas não divulgadas - é o valor dos homens que caracteriza uma cultura nacional.
Ora um homem não é um ser isolado nem faz parte de um vago rebanho humano disperso sobre a Terra. É, sim, um ente espiritual ligado espiritualmente a outros entes: uns, vivos, com os quais comunica; outros, mortos, dos quais recebeu como herança uma missão. A existência do homem, ente social, não pode divorciar-se da missão nacional que herdou.
A missão da Nação Portuguesa, nação servida por uma cultura complexa, tem sido a expansão do ideal cristão. Nisso só fomos acompanhados pelo grande e glorioso país irmão que é a Espanha. Mas a nossa missão cumpriu-se no Brasil, na África e no Oriente de maneira a criar no mundo uma comunidade com caracterísicas que não se encontram alhures.
E termina, sublinhando a diferença entre a epopeia ultramarina lusa e a colonização de outros povos, que a tinham por aspecto menor e secundário, enquanto que os Nossos projectaram o Espaço e a Biografia nacionais nos quatro cantos do Mundo. Do reflexo deles recebido se fazendo, acrescento. Na frase lapidar do Autor, os Portugueses criaram amorosamente novos Portugais.
Ainda não é impossível recriar um Portugal novo, sobretudo quando confrontado com a decrepitude do sistema que diariamente nos desgosta. Desbaratado o Império por gente sem dimensão para entender e prezar a dele, podemos agarrar-nos à axiologia perene que os nossos Avós construíram, e, no pequeno reduto que nos resta, redimirmo-nos pela fidelidade a algo maior do que conveniências e imitações imediatas. De modo a que Aqueles que caíram em nome dessa Herança recuperem plenamente o papel de traço-de-união entre Os que nos fundaram e o que podemos voltar a ser.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

A Carta Roubada

A França Recebendo a Carta de Luís XVIII por Merry Joseph Blondel

Aniversário muito menos estimável do que o anterior, o da outorga da Carta Constitucional por Luís XVIII, em 4 de Junho de 1814. Cntaminado pelos fundamentos do Liberalismo, acabaria a restauração Borbónica no Trono por ser apenas uma máscara de beleza enganadora para o rosto devastado do País dominado pelos partidos e pelo dinheiro. Mais do que os poderes concretos atribuídos à Câmara Eleita - que não eram muitos -, a cedência no princípio de partilha da função legislativa entre Soberano e eleitos, como a amnistia dos Revolucionários, constituía uma legalização da rebelião, apenas susceptível de ser ultrapassada se a decisão residisse em mãos hábeis e fortes. Aquele Rei não as tinha e ficaria para sempre estigmatizado por dever o regresso e a Coroa às tropas russas, como pelo desprestígio de ser visto demasiado de costas, impressão consagrada num célebre filme de Gance. Os Legitimistas, desautorizados, ficariam remetidos a lutas importantes mas menores como a suavização do aspecto censitário do sufrágio, imposta pela Burguesia parisiense liberalona que, assim, desejava perpetuar a sua imagem de exclusiva força viva da Nação. Galicanismo, irreversibilidade da expropriação dos bens clericais, centralização governativa, recusa de regresso à enformação orgânica do Estado, mitificação do Exército segundo a estruturação republicano-napoleónica, nada faltava para sublinhar o erro maior, o da concessão de um forum em que o encarrilamento pelos gangs de cumplicidades que são os grupos partidários triunfasse. Daí para cá o Mal não conseguiria ser revertido, com carácter de permanência. Era a traição à Constituição Essencial da França, assim alienada num pedaço de papel, disfarçado pelas pinceladas cortesãs.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Barbas de Molho

Aniversário do nascimento de de Pedro O Grande. Altura que parece boa para sublinhar a indissociabilidade desejável na ligação da Coroa à Tradição. Na Rússia, que ele à força e por influência estrangeira de favorito e de viagens reformou, não havia, como cá e em França, o historial de aliança entre o Poder Real e o Povo contra os abusos dos poderosos que quisessem subverter a ideia da Nobreza, edificada ao longo de séculos, pela reintrodução de uma aristocracia que justificasse tipologicamente o nome. O que lá existia era, apesar do despotismo potencial de cada átomo da terratenência, uma intimidade entre Senhores e Servos, repousando estes nos seus amos para não serem absolutamente escravizados pelo Czar. O conhecido episódio do corte das barbas não vê proclamada com igual êxito a sua significação. Foi a resposta expressa do soberano a um protesto dos Nobres pela centralização, traduzida em medidas substantivas, bem como na meramente formal abolição da fórmula dos decretos "Decide o Príncipe e os Boiardos concordam...". Foi o começo de uma tragédia que se repercutiria no Século XX. Ao lançar-se nessa prova de força que procurava opor ao tépido levantamento motivado pela quebra da tradição governativa, acabou por separar os hábitos da elite, em breve domesticada na Corte, que não voltou à ortodoxia capilar facial, enquanto que as classes humildes campesinas, mal Pedro entregou os seus dias ao Criador, libertas dos impostos que ele sobre cabelos do rosto e banhos lançou, logo regressaram às pilosidades cujo corte tinham por sacrílego. O remanescente dos menos favorecidos em breve viria formar o embrião de um proletariado urbano, sem raízes ou afectos, a base da Reestruturação, para falar à Gurvitch - de 1917. O outro hábito introduzido pelos estrangeirados que passaram a rodear o Trono igualmente contendia com as convicções religiosas dos "não-conformistas" mais fanatizados, o que não melhorou a situação. Era o tabaco.
Um último pormenor: muitos de nós se chocaram com o descaramento com que as autoridades Soviéticas decidiam ser quem lhes não obedecesse cegamente "psiquicamente perturbado". Pois também esta perversão decisória teve origem no mesmo protagonista. Um dos entretenimentos dele era determinar quem era louco ou não, passando o diagnosticado a ostentar um trajo identificativo e a ser obrigado a comportar-se como tal!
Pelo que se impõe dizer, quando haja desvio à Tradição Política, "Se vires as barbas do vizinho a arder põe as tuas...