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sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Da Barbárie à Barbaridade

O Repasto dos Filósofos de Huber

Não cesso de me abismar com a estranheza que certos comportamentos provocam nas Pessoas, como se fossem grandes inovações, quando a História está pejada deles. Ecoa a net uma ensurdecedora algazarra sobre a alteração dos verbetes da Wikipedia por entidades tão conspícuas como CIA, FBI, Vaticano e o Partido Democrático Norte-Americano. Deixemos de parte a alteração preconizada a partir da Santa Sé, uma limpeza do curriculum de Gerry Adams, última recorrência da urbanidade estabelecida para com tanto terrorista que chegou ao Governo, de todos os quadrantes ideológicos e coordenadas geográficas. Os outros casos apresentam-se como suavização de acções próprias pouco dignas e de insultos aos adversários. Em nada espanta, pois, que o gabinete do Sócrates que nos rege tenha seguido esta linha de comportamento - fez as alterações que lhe convieram na triste história das vaidades académicas, consubstanciando, em simultâneo, com a eliminação da engenharia, uma dura qualificação daquele que se revelou o maior inimigo do actual PM: ele próprio.
Entretanto, o uso e abuso de "repositórios de saber" pretensamente neutro para veicular ideias ou noções que conquistem para a parte dos autores é coisa velha de séculos. Já Diderot, D´Alembert e seus cúmplices, aqui retratados por Huber, o fizeram, através da célebre Enciclopédia, preparatória da Revolução. Que as ideias, artes e ciências tenham dado lugar a apagamentos de prisões, documentos falsos ou a classificações fáceis traduz apenas a degradação que as compilações de saber pronto a usar sofreram. Que espanta? Se as televisões e as universidades, proliferando, deram no que deram, por que raio a abertura da redacção enciclopédica a qualquer bicho careta poderia suscitar outras expectativas? Um banquete parece então muito apropriado para ilustrar as constantes de um comportamento que espera que papemos os mais subversivos cozinhados. Vandalismo informático? Talvez, mas, acima de tudo a consagração das subjectividades mais interessada e interesseiramente deformadoras.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Intimidade Desvelada

Dia do mês em que nasceu Proust. Sobre ele já falei, noutro tempo e lugar. Homenageá-lo? Talvez, a coincidir com o dia, respondendo ao (segundo) questionário a que ele se submeteu. As respostas a azul são do Autor da «Recherche». O que quer dizer muito, se virem o que contesto em sede de cromatismo preferido. Eu respondo a vermelho, como é próprio dos malditos.
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Qual a sua característica mais vincada?
A obsessão de ser amado, ou para ser mais preciso, acariciado e estragado, mais do que ser admirado.
A curiosidade canalizada para o que julgo invulgar.

A qualidade que mais gosta num homem?
O charme feminino.
A lealdade

A qualidade que mais gosta numa Mulher?
Virtudes de homem e franqueza na amizade.
A lealdade, acrescida da Melancolia sem truques; e criativa, ou inspiradora.

O que valoriza mais nos Amigos?
A ternura - desde que eles possuam o charme físico que os torne merecedores de a terem.
O gosto.

Qual é o seu principal defeito?
Falta de entendimento, fraqueza de vontade.
A preguiça.
Muitas vezes é ditada ou agravada pela desconfiança.

Qual a sua ocupação preferida?
Amar.
Ler, acariciando um gato com a mão que não segura o livro. Quer dizer, amar duplamente.

Qual é o seu sonho que corporiza a felicidade?
Não, creio, algo muito elevado. Eu realmente não tenho a coragem de dizer qual é e, se tivesse, provavelmente destruí-lo-ia pelo mero facto de o pôr em palavras.
Possuir o livro onde fosse possível ler todos os que me interessam.

Qual seria para si o maior dos infortúnios?
Não ter conhecido a minha mãe ou a minha avó.
Ser condenado a gostar de mim.

O que gostaria de ser?
Eu próprio - como aqueles que admiro gostariam que eu fosse.
Incapaz de magoar os que estimo, coisa que toda a vida me pareceu inalcançável.

Em que país gostaria de viver?
Num em que certas coisas que quero se realizassem - e onde os sentimentos de ternura fossem sempre recíprocos.
Como pose, metade do ano em Inglaterra, a outra em Itália. Duvido da possibilidade de aguentar em cada um mais de trinta dias, por estar longe de Portugal.

Qual é a sua cor favorita?
A beleza não reside nas cores, mas na sua harmonia.
O Azul .

Qual é a sua flor favorita?
A Sua. Mas para lá disso, todas.
A túlipa.

Qual é a sua ave favorita?
A andorinha.
O pisco de peito ruivo, porque se comporta como um aristocrata, sem se anunciar como tal.

Quem são os seus escritores de prosa favoritos?
No momento, Anatole France e Perre Loti.
Conrad, Chesterton, Eça, Musil, Sinclair Lewis, Dostoievski, Ernst Jünger.

Quem são os seus poetas favoritos?
Baudelaire e Alfred de Vigny.
T.S.Eliot, Camilo Pessanha, W. B. Yeats, Rilke.

Quem é o seu herói de ficção favorito?
Hamlet
Athos ( de «Os Três Mosqueteiros). Não digo James Bond, porque o vejo como uma tentativa pálida de mim.

Quem é a sua heroína de ficção favorita?
Fedra (riscado) Berenice.
Joana D´Arc. Digo bem, da ficção, porque a real é mais sombria. Perdoem todos o que esperavam a O da história homónima.

Quais os seus compositores preferidos?
Beethoven, Wagner, Schumann.
Bach, Beethoven, Sibelius, apesar de o Concerto para Piano nº21 de Mozart ser a minha música.

Quais os seus pintores favoritos?
Leonardo da Vinci, Rembrandt.
Leonardo, Giovanni Belini, Mantegna, Velázquez.

Quem são os seus heróis na vida real?
Monsieur Darlu, Monsieur Boutroux (professores).
Coronel Lucena Gaia (Professor de Matemática), Ernst Jünger, Martim de Freitas, Metternich.

Quais as suas heroínas preferidas na História?
Cleópatra.
A Rainha Santa Isabel.

Quais os seus nomes favoritos?
Só tenho um de cada vez.
Leonor, Isabel; Miguel, Jorge

De que é que gosta menos?
Das minhas piores qualidades.
Da traição.

Que figuras históricas mais despreza?
Eu não sou suficientemente educado para o dizer.
Eu julgo-me suficientemente educado para não o dizer.

Que evento na História Militar mais admira?
O meu próprio alistamento como voluntário.
A Batalha das Termópilas, pelo conjunto. A Carga da Brigada Ligeira, pelo desesperado e desesperante cumprimento do dever.

Que reforma mais admira?
Não respondeu.
A que não implicasse descontos.

Que dom natural você gostaria mais de possuir?
Força de vontade e charme irresistível.
Como possuo em abundância esses dois, ter boa voz para cantar e saber fazê-lo.

Como gostaria de morrer?
Um homem melhor do que sou, muito amado.
Sem causar desgosto a Humanos ou melhores animais.

Qual é o seu presente estado de espírito?
Enfado por ter tido de pensar tanto em mim para responder a estas questões.
Incerteza sobre se alguém terá paciência para ler isto até ao fim.

Para que faltas é mais indulgente?
Para as que compreendo.
Para a vaidade, desde que não encerre o propósito de ferir o Outro.

Qual é o seu lema (motto)?
Não o direi, tenho medo que me traga infelicidade.
Quando não é preciso mudar é preciso não mudar (Bourget).

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Invulgar a Qualquer Preço?

.................................A. Huxley por Bachardy
Leitura do artigo de Aldous Huxley «A Vulgaridade na Literatura e na Vida». Se há caso de alguém com envergadura intelectual a quem a erudição tenha prejudicado, muito por roubar ao humor outro espaço que não o da tentativa não-consumada, esse é o autor do «Admirável Mundo Novo». Neste escrito parte da inconveniência aceite no começo do Século XIX em o Artista "falar de lenços de assoar", para assimilar essa prescrição ao Classicismo, logo determinado pela negação paramaniqueísta do corpóreo, como subalterno, chegando à concepção de que era uma manifestação do Espírito Clássico e de um ideal de unificação, posto em causa pelo plano físico que distinguiria cada indivíduo, consistindo assim numa arte comparativamente fácil, na medida em que amalgamava.
A meu ver, de tanto tentar penetrar as essências, perdeu de vista o Essencial. No começo do Século XIX a influência dominante não era a Clássica, mas a Romântica, que, essa sim, cindia Corpo e Alma, contorcendo-se na adoração e inatingibilidade desta. Mas claro que o Romantismo não serviria à tese huxleyana, porque a distinção que fazia entre cada Ser de Eleição era a mais radical que alguma vez foi tentada, ao ponto de apenas exergar o pormenor único em cada interior. Acresce que o Classicismo não era maniqueu, antes comungava do sentimento de absurdidade de cindir no humano o espiritual e a sua extensão, coerentemente com a Tradição Ocidental, fosse a do monismo Pré-Socrático, ou a do Catolicismo reabilitante da Carne, pela sacralidade do Matrimónio, a Ressurreição Final dos Homens e a Encarnação. Se se abstivera de incidir sobre a parte menos limpa da Espécie fora pelo sentimento de perda de tempo, não por sublimação, a qual existiu, mas lhe foi posterior. Ironia das ironias, o advento do Naturalismo, escalpelizador das excrescências e dejecções, viria a encontrar o seu objecto, esse sim, naquilo que está presente em todos os homens, no que os iguala e mais material não pode ser.
Como uma intuição certeira, por intelectualismo deformada, conduz a conclusões absurdas.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Moi-Même

Auto-retrato do Artista Com Halo de Guido Brink

A Zazie, além de Erudita, é uma Querida, pelo que me chama... "enigmático", o que me deixa inchadíssimo, já que tão esfíngico estatuto me faz impar de vaidade, quer por, num breve instante, me imaginar dono da importância característica dos mitos, quer por me entrever com o tamanho do nariz diminuído, o que, igualmente não é de desprezar. E lança-me um desafio em forma de corrente, o de escarrapachar aqui um meme e de passar a pasta a outros tantos Blogadores. Como não fujo de correntes desde que vi «Sei para Onde Vou», de Michael Powell e E. Pressburger, das que lá constam ou destas, desde que tenham espírito, deitei-me ao trabalho. E que coisa é um meme, afinal? Segundo a definição Dos que lançaram o desafio, «é um ”gene cultural” que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma».
Pensei, pensei e a Eureka a que tive direito deu-me:
O homem deseja mais vivamente o poder sobre os outros, à medida que o tem menos sobre si mesmo.
Louis de Bonald
E quem trazer à conversa? São mútiplos os Notáveis Bloguistas que me tentam a que Os atente. Deixei-me pois boiar nas citações do Autor eleito e penso ter encontrado cinco, capazes de seduzir ou espicaçar Outros Tantos Vultos da Blogosfera que prezo. Assim,

Um deísta é um homem que ainda não teve tempo de tornar-se ateu parece-me adequado a fazer o Caro Jansenista dizer das Suas.
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O homem nasce perfectível, o animal nasce perfeito levou-me de imediato a pensar em alguns afectos da Charlotte.
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As parvoíces feitas por pessoas hábeis, as extravagâncias ditas por pessoas de espírito, os crimes cometidos por pessoas honestas... eis as revoluções parece-me poder corresponder ao pensamento do F.Santos.
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Pode-se ser moderado com opiniões extremas talvez diga alguma coisa que evite "condenações" amigáveis do Miguel Castelo-Branco.
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A revolução começou pela declaração dos direitos do Homem, ela não findará senão pela declaração dos direitos de Deus é verdade que creio capaz de trazer à jogatana o Rafael Castela Santos.
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Se tiverem pachorra, além de responder, vinguem-se em inocentes.

terça-feira, 17 de abril de 2007

e Reverso

Onde não se concebe refresh que valesse é no que tocasse a um acidente sucedido no Século XIV, a tristemente célebre Margarida da Caríntia, concorrente séria ao título de Mulher Mais Feia de Sempre. Não se pense que a involuntária característica a teria levado a procurar na Virtude a compensação que a tornasse admirável. A sucessão de infidelidades ao contudo apaixonadíssimo primeiro marido, João Henrique da Boémia, vai para além das baronias que distribuía pelos camponeses vigorosos que desejava e possuía - terminou no abandono final, para casar com o Imperador Luís da Baviera, por cima de recusas de anulação e da excomunhão papais. Se o segundo esposo começou por cobiçar os ricos e estratégicos teritórios que a aliança traria, não tardou a ficar perdidíssimo pela mulher. Redenção por um casamento harmonioso? Nem pensem. Acabou envenenado por ela, talqualmente o filho, nos seus vinte anos, dado a megera ser tão pouco escrupulosa sentada no trono como movimentando-se no leito. Trata-se, como se entrevê, de coisa bem diferente do expresso na moralidade do nosso ditado popular "casai as filhas bonitas que as feias saberão casar", ou da preferência de Benjamin Franklin pelas amantes velhas e feias, face às novas e belas, porque, dizia, "as primeiras se esforçam muito mais". Aqui o esforço era todo destrutivo, condizendo com a ameaça visível. Quem nunca se conformou com a monstruosidade foi o Pai da evocada, o que se justifica, pois se uma perversão pode fazer viciar, a autoria de algo deformado nunca deu bom nome a ninguém. Têm os psicólogos pano para mangas para desculpar as falhas de carácter em virtude desta rejeição.
Já quanto à falta de harmonia física temos de recorrer à pena dum pensador de eleição como Ralph Waldo Emerson, para negar o que parece, à primeira vista, evidente: dizia ele que "o segredo da fealdade não reside no irregular, mas no desinteresse". Consultando esta biografia, vê-se pois evaporada a possibilidade de apelidar de "feia" a que foi assunto deste post. À cautela, junto o retrato, para demonstrar como um grande escritor deixa, por vezes, a Realidade em maus lençóis...

Verso

Duas reconversões que se saúdam: a de Sharon Stone, cujo rosto marcado de há meses me fizera soltar uivos de dor e cuja publicitação entendo agora, ao ver o anúncio da Dior que propagandeia a sua proteína da longevidade - aparece melhor do que nunca. Melhorar o que, por tão Bom, parecia impossível foi o que se fez, outrossim, à imagem emblemática de Miss Pearls, com o que igualmente me regozijo, bem merecedora que a vejo da trabalhada moldura que a serve e realça. As duas transformações provêm de químicas diferentes: a do engenho e escolha do Artista que retrata, no caso da Bloguista, o uso de besuntices atentatórias da naturalidade, no que se constata na Actriz. Tudo bem quando acaba bem, no entanto.
Sei bem das diferenças: a SS que mudou do vermelho para o negro tem neste cartaz - que desde já proponho para a Rotunda e em permanência ilimitada - uma frase de fecho que diz "Melhor agora que aos vinte anos". Poder-se-ia dizer o mesmo da nossa Ilustríssima Colega, não fora o facto de ser muito mais nova e de os vintes, Nela, parecerem perdurar, inamovíveis...