Nos «Prós e Contras» de ontem, em que os sindicalistas estavam na berra, um ex-governante socialista, Vítor Ramalho deu como uma "expressão popular" e desaconselhável
quanto mais conheço o Homem, mais gosto do meu cão.

Popular? talvez, na medida em que muita gente que da Filosofia só tem uma palidíssima ideia, à imagem nublada da de Klimt, acima, a papagueia, normalmente como mera desilusão da Espécie, sem querer por tanto reconhecer méritos especiais aos caninos amigos. São muitas vezes pessoas dos mesmíssimos meios que usam a palavra
cão para diminuir a dignidade do outro, ou troçar da fidelidade dele a alguém que não o próprio maledicente.
Curioso é que nessas mentes mais afastadas do filosofar costumo ver a frase atribuída a Schopenhauer, que não a disse. Com efeito, insistem em concorrer no que refere à autoria dela Pascal e Madame de Stäel, devendo preverir-se Blaise a Germaine, por mais antigo. Mas o Grande Pessimista de Frankfurt disse coisa muito mais radical. Censurando Espinosa por uma muito caracteristicamente semita depreciação da dignidade do mundo animado extra-humano, deixou claro que
quem nunca teve um cão não sabe o que é amar ou ser amado. É evidente que a escrita pode ser interpretada de forma a corrigir o homem que a fez e o
quasi-panteísmo espinosiano também poderá fornecer combustível ao amor às manifestações Divinas em todas as Suas Criaturas...

No que contendem a actividade especulativa e as práticas vulgares é na maior aptidão para amar, mesmo de canídeos se tratando. Podem os sábios argumentar, com razão, que
pensar com afecto uma condição animal é meio caminho para a universalidade do Amor no mais Cristão dos espíritos. Mas poder-se-á, nos menos dotados para essas subtilezas, encontrar exemplos de ligação profunda ao seu amigo fiel, e a intuição, tantas vezes tacitamente reiterada na vida social dos Humanos, de que amar necessita de um ser concreto em que se aplique, de uma individualudade que, diluída em categoria, enfraqueceria a exactidão e intensidade do conceito. São os mesmos que poderiam censurar ao Autor de «O Mundo Como Vontade e Representação» ter denominado o seu
poodle a partir de
Atma, palavra hindu para "Alma". Ao que contraporiam as claques dos filósofos que
Atman, o nome do bicho evocava chefe bárbaro de outrora, indicando a vontade de amar os menos apetecíveis.
São Francisco resolveu o problema, mas, para isso, abdicou da posse. E o Mundo não vai estando para tão grandes Santos.