O Livro de Poemas de Russell Flint
Não é da tentativa de
poetar que falarei, pois já Chesterton dizia que ela era universal no Homem, desde o mais empedernido erudito ao mais espontâneo e iletrado pastor. Refiro-me, sim, à voga que teve a publicação de poemas entre tanto amador, nos múltiplos sentidos do termo, quantas vezes em "Edição de Autor". A razão tem uma origem interna e outra funcional. A primeira estava em a nossa cultura da segunda metade de Oitocentos e primeira do Século XX ter infundido a crença de que toda a alma tinha o direito a expressar artisticamente o
Único presente no que sentisse; e que a poesia, por não enfronhar em noites de vigília e métodos outros que os dos manuais de versificação seria o expediente idóneo para o concretizar. A segunda motivação era a de ser tido como o meio por excelência para chegar ao coração da Mulher. Poucas seriam as que teriam paciência para estimar a dedicatória de um romance, ou de um tratado, em que muitas personagens ou ramificações temáticas lhes disputariam o papel de
Centro das atenções. Enquanto que meia dúzia de estrofes eram fácilmente postas a falar
apenas da
Amada. E, com arte muito variável, grassaram os exemplos dessa preocupação.
Acresce que a ficção era tida, tanto em manifestações dos
direitos do coração no Romantismo, como na relativa abjecção ditada pelo cansaço, do Realismo, como eventual força desagregadora do Matrimónio, enquanto que os versos apareciam como a natural declaração que poderia a ele conduzir, ou legitimar "com algum contributo estético" outro tipo de relação, em caso de impedimento proibitivo.
Deste império do sentir brotou a necessidade da resposta feminina. À conquista no sentido de acção sucedeu a necessidade de dar voz à Conquista, no sentido do Bem Requisitado. Daí que as Mulheres tenham começado, igualmente, a editar o que na alma lhes ia. Garantiu-se assim o efeito poético multiplicador, pois na
boa sociedade não tardou a considerar-se a habilidade de versejar como um predicado mais, talqualmente saber tocar ou pintar. Realizando do melhor que conservamos, como muito lixo, porque, evidentemente, em Arte é a Forma o critério de qualidade, enquanto que a Sinceridade apenas o será na esfera do afecto.