quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Fugas Para o Êxito?

À Grande Historiadora da Publicidade que a T é devo opor que para ganhar milhões não basta uma sorte de qualquer Gama, são precisos dois dedos de Testa.


E que este Galo me parece avinhado, razão pela qual prepara a criança para o sucesso em meios que apreciam candidatos com outros condimentos...

Darwinismo Bibliófilo

Pois bem, Querida T, em matéria de leituras a Girafa é como a Mulher, lutou por um papel que não fosse meramente decorativo: ei-la, aqui, demonstrando como pode ser meio de aquilatar da elevação das escolhas...
*

E parece uma discriminação censurabilíssima só falar na tradicional girafa africana. Por que não mencionar uma outra, como tal só reconhecida pelos zooólogos após a terem dado como equídeo? Refiro-me ao Okapi, desde Sir Harry Johnston tido por parente mediador entre as girafas pré-históricas extintas e a que conhecemos. A propósito da sua identificação foram trazidos à colação zebras, cavalos e burros, pelo que não me parece descabido dar a conhecer o retrato que segue, com que alguém se lembrou de me imortalizar...

Viva a Liberdade!

A 27 de Setembro as forças do General Varela romperam o cerco vermelho ao Alcazar de Toledo.
Honra ao Mérito dos Sitiados que mostraram que viver é incompatível com rendições.

Por Falar Em Pilhas...

Mas, T, ainda que cada leitura implique aplicar um tanto de si, cortar o pescoço para a alcançar não será energia desbaratada?

Menoridade

Estranha Metamorfose de Anne Bachelier

Por que será que alterações destas não suscitam, em boa coerência, as mesmas reacções aos opositores das alterações dos transgénicos? E pais que autorizam destas estão a desautorizar-se, na medida em que concordam com uma emenda (não ditada por coisa mais urgente do que a psicologia) ao que produziram.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Monica e o Desejo

Diz que a Primeira arribou ao burgo. O outro há muito que tinha estatuto de Residente por cá. Saúde sem Fraternidade, que se não quer incestos.

Negacionismos

O Chefe de Estado do Irão não se limitou a negar o que a imagem mostra, como esta notícia e muitas outras referem. Acrescentou à afirmação de inexistência de homossexualidade na sua Pátria um sugestivo "ao contrário dos vossos países", o que traduz bem o desprezo pelo modo de vida ocidental, reputado como razão do fomento das práticas sexuais condenadas. A resposta foi à letra, com a plateia a gargalhar. Não acredito que um tão grande auditório de Norte-Americanos jovens estivesse plenamente ciente das condições do quotidiano persa, ao ponto de ter base fáctica para saber falsas as declarações. O que se passa é que tão entranhada está a vocal presença homo entre o meio que conhecem, que se recusam aprioristicamente a considerar que todos os crentes da República Islâmica evidenciem os elementos posteriores das anatomias respectivas apenas por pias razões.
Dito o que é inconcebível a atitude do reitorzinho universitário: tinha todo o direito de não convidar o orador para perorar na sua escola. É, aliás, o que eu faria, se tivesse valia para reitor de alguma coisa. Convidando-o, teria de tratá-lo cortezmente, moderando ânimos e não acirrando-os. Numa outra comunidade islâmica, a dos beduínos do Egipto, a hospitalidade é tão sagrada que obriga, sob pena de desonra, a tratar bem os próprios inimigos, ainda que criminosos, que procurem asilo (wajh) na sua tenda, enquanto lá permanecem. Mas claro que o visitante não esperava comportamentos dignos de "depravados infiéis". Digam lá que estas iniciativas favorecem o Diálogo das Civilizações!...

O Centro dos Círculos Andados

Dia que seria o de anos de T. S. Eliot. Tempo de lembrar o erro grave de Murry, ao dar a sua busca do Divino como um ramo mais da árvore cheia das conversões de Românticos e Decadentes maravilhados com a descoberta da elisão dos niilismos de que se tinham saturado. Eliot nunca foi assim. Repudiou sempre a desagregação das relações de pessoas e realizações que observava, confrontando-as com a Unidade filosófica, espiritual e literária da Idade Média dos Séculos da Construção. Mas nem no período crítico, nem na rota para a Ordem que não esterilizasse nem dissolvesse abdicou da ética elitista que bebera desde a formação.
Por isso não se ficou em Maurras, que via muito preso às vogas da turba, quer no método de acção, quer no canto da liga entre Rei e Povo. Por isso foi atacado pelo grande C. S. Lewis, o qual lhe imputava o refúgio muito High Church em alturas que se reduziam a um club fechado. Mas talvez fosse julgamento muito duro, já que se nem todos podem ser franciscanos, a substituição pelo apreço da força do Amor que S. Francisco trouxe às Aspirações Mais Altas pode bem substituir a renúncia pessoal no que toque à descoberta do Absoluto. Que, assim reflexivamente demandado, acaba por revelar-se como o despertar da Fé, congelada durante os anos da Procura, mas disponível sempre no lugar que agora passaria a ocupar de pleno direito. Por debaixo da leitura do trecho fulcral dos «Quatro Quartetos» pelo próprio, a empatia com George, fraternidade com felina criatura de Deus; e a inquisitiva interpretação pictórica da lavra de Wyndham Lewis.


Sonhadora de Virgil Eliot
Segundo a confissão aqui depositada.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Chávez Para o Peito

Numa intervenção que só posso considerar como... peituda, o Presidente da Venezuela veio insurgir-se contra uma moda que também me incomoda bastante, a dos implantes mamários, essa alteração do corpo feminino muito mais submissa do que a dos espartilhos e tão perigosa como a que conduz a anorexias. Mas devo dizer que me perturba muito mais a voga da operação em jeito de prémio de participações televisivas, como tantas adolescentes vi implorar no programa fácil e popularíssimo de Howard Stern. Afinal, sendo os pais a oferecer, estão a corrigir a própria obra, não é mesmo, Coroné?

Razões da Escrita

Figura de Pompeia

Ando há vinte anos a perguntar-me por que razão não enveredei pela escolha profissional de jornalista. Nisto veio, hoje, ao meu encontro a resposta, graças à sagacidade de Sainte-Beuve. Não se é jornalista só porque se escreve, de quando em quando, artigos nos jornais. É jornalista aquele que está pronto a escrever sobre qualquer assunto, a todas as horas e a todos os instantes. Com efeito sempre procurei as notícias do dia, mas não conseguiria redigir linha de jeito sobre as que não elegesse. Daí também a minha admiração pelos Profissionais da Imprensa, sempre expostos ao imperativo ditado de fora, apesar de me encontrar consciente de que bom relacionamento numa redacção pode minorar as dificuldades com a sensatez distributiva dos temas. Nesse sentido, o bloguismo é o contrário: mesmo para os que metodicamente abordem o Actual, há sempre a escapatória da arbitrariedade - e não já mero arbítrio - criativa, com o cúmulo, ilustrado por este mísero post, de se acabar a falar do menos urgente dos temas, a personalidade do próprio escrevinhador. O que leva à velha similitude com o diário, esse género confessional a que uma vetusta ironia deu o mesmo nome que se encontra em tantos orgãos de Comunicação Social. E que dificilmente atingirá, quando se limita a espelhar e espalhar o seu autor, a mesma capacidade de interessar que uma impressão de leitura, na medida em que um livro é uma clarabóia para o Exterior, uma abertura ao que supera o círculo herméticamente cerrado da própria mesquinhez. Num certo sentido, o contrário do onanismo inteletual.

Perfeição Por Extenso

Querida T, eis, para melhorar o Seu dia, uma imagem do que seria a elegância dos seres atarracados que são as outras espécies a girafais olhos. Talvez sirva para pôr a agitação no devido lugar, o que a relatividade facilita. Repare bem, onde meio mundo pareceria andar empertigado veria o simpático e laconíssimo bicho a naturalidade discreta na perfeição. E para as Senhoras, que oportunidade para exibir colares e gargantilhas! Não já para as nossas gravatas, que obrigariam a plastrão do tamanho do lençol de banho, no mínimo...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Os Vapores do Devaneio

Lendo o que a Luar escreveu em bomfimsemana.blogspot.com/2007/09/paul-cezanne-ouvi-em-tempos-uma-amiga.html dei por mim a sobrevoar o que me resta de cada sonho que alimentei e cuja realização vi negada. Curiosa a identidade de um vocábulo que significa o que não surge por querermos e, bem ao contrário, o que mais desejamos. Penalizam-nos os seus desmentidos tanto como a romagem saudosa aos túmulos dos Mortos Queridos, com a agravante de as suas cinzas terem sido espalhadas a tais ventanias que não subsiste sequer um interior local de peregrinação.
Hayley Westenra: «I Dreamed a Dream».

Sumo Imbróglio

É evidente que pagar as quotas de militantes favoráveis é uma esperteza saloia filha da própria essência do sufrágio dentro de um partido. Quero, no entanto, ver como é que o Dr. Guilherme Silva vai punir os militantes que estejam envolvidos no caso. Duvido que a coisa esteja expressamente prevista, logo é difícil aplicar sanções disciplinares. Até porque, no limite, pode ser dito que o pagador apenas funcionou como o voluntário que regista os totolotos dos colegas de trabalho, assim como outros poderão garantir que foi uma prenda desinteressada a conhecidos em dificuldades, que queriam muito estar em dia. Vá-se lá provar qualquer dos contrários! Se correspondessem a mais de quinhentos euros ainda poderiam recorrer à regra da obrigatoriedade declaratória do presente, mas é nebuloso como isso se viria a reflectir no partido.
Pena que a prática não se estenda ao pagamento de impostos, já que o voto nas instituições republicanas de si não depende e é coisa tão sem-valor que ninguém dá um tostão furado por ele...

A Protecção Atrelada

Puxado por este incentivo da T a que proteja as cervejas nacionais, devo salientar que nada no sector supera o favorecimento da Central. E com tal anúncio, para além de intervir em favor dos animais que tanto estimo, lembro, na sequência do postal anterior, a Girafa, o único mamífero que não emite sons. Está tudo ligado...

Marceau Fala!

A mais bela homenagem a Marcel Marceau está encerrada num comentário do «YouTube» a este vídeo evocativo: Ele não morreu, está apenas a desempenhar um papel. Actuou várias vezes entre nós e, numa delas, em 1960, deixou-se entrevistar pela revista «Almanaque», de cujo número de Fevereiro selecciono estas declarações:
Depois de salientar a ligação entre teatro de mimo e de verbo, apenas separados numa extinta experiência oitocentista francesa:
Fui eu quem redescobriu a tradição da linguagem no plano plástico. E esta arte não é uma arte meramente verista: há nela uma técnica elaborada que lhe dá distância, que lhe dá o valor de arte dirigida à sensibilidade do público, apresentando-lhe o homem no centro da sociedade e em luta contra ela e o homem em luta contra os elementos.
Lição de sapiência que todos devemos aproveitar para fortalecermos a resistência da nossa individualidade à erosão desagregadora de qualquer ambiente político-social e cultural atentatório que sejamos obrigados a atravessar.
Bip é um caso à parte. É um personagem em cuja volta se move uma sociedade abstracta mas que supõe visível (criada pelo homem) mas cujos elementos (do personagem) mostram uma gramática do mimo que - servindo um conteúdo humorístico ou trágico - constitui uma linguagem sintética que procura dar exactamente o sentido da vida.
Cheque em branco quanto aos factores de agressão, deixando em evidência o único reduto do concreto que importa: o da solidez pessoal.
Uma diferença fundamental separa Charlot de Bip - o primeiro, vive num universo concreto, palpável e carnal, que lhe é indispensável como espectáculo, enquanto o segundo cria um mundo poético e próprio a partir de uma realidade abstracta.
O que faz Chaplin arriscar-se a ver o seu génio mais datado, não só pela passagem do que o envolve, mas por apelar a uma emotividade menos intemporal do que a cativação poética equilibrada por um tanto de austeridade.
E, falando de influências, lembro-lhe que o mimo teve uma acção preponderante no teatro moderno. Em Beckett e Ionesco o mimo transparece, mas em Marceau ele afirma-se puro. E suponho que nos anos que se seguem essa influência se fará sentir mais ainda.
Isto porque no Teatro do Absurdo é a ausência de correlação lógica que sobressai nos comportamentos em cena, enquanto no mimo há superação dessa desagregação no esforço isolado de procura. Quanto mais imperiosa for essa necessidade, mais este tipo de arte calará fundo no Público...
Depois de elogiar os espectadores portugueses e de supor a existência de uma tradição teatral de respeito:
Não, não, não menosprezem os valores que realmente possuem. As potencialidades do vosso povo são extraordinárias e quem realmente quiser vingar nesta nova arte de teatro consegue-o. Estou a lembrar-me do vosso compatriota Luís de Lima, que comigo trabalhou em Paris. Os jovens portugueses de talento deviam seguir-lhe o exemplo: ir para fora, procurar os bons meios, aproveitá-los e voltar ao seu país a formar escola e a criar tradição.
Para alimentar uma plenamente em vigor: a de só nos conseguirmos prezar quando estranhos nos reconhecem valor. Possa a recomendação final obstar à fuga de talentos sempre tentada pelo abandono definitivo, não só da Terra, como da própria Nacionalidade.
Perdão ao Falecido e aos Leitores, pelos comentários escusados.
Bip, BIS!

domingo, 23 de setembro de 2007

Águias Depenadas

Foi a 23 de Setembro de 1943 que os remanescentes do Fascismo, após a planada e skorzenyana libertação de Mussolini criaram essa Republica Social no Centro e Norte de Itália, conhecida por Salo, que os Nacionalistas-Revolucionários, sobretudo os mais revolucionários que nacionalistas, gostam de evocar como regresso à pureza originária. Como por cá a perspectiva é diversa, de condenação de tudo o que cheire a partidos, sejam um, ou muitos, há a lamentar esse passo final, que acentuou os fraccionismos de parte, quando a prática governativa de duas décadas fora, em grande medida, de agregação nacional. Com efeito, o Partido Nacional-Fascista aglutinara aos Fasci do princípio os Nacionalistas de Federzoni, Garibaldinos, fiéis D`annunzianos e estabeleceu pontes com a Casa Real e Vaticano (De Vecchi e Constanzo Ciano) e políticos da partidocracia que antecedera, com Salandra a dizer, contra a doutrina, que o Duce tinha coroado... o Liberalismo Italiano! Também um dos aspectos mais objectáveis do regime, o carácter milicial, tinha sido algo domesticado por De Bono, ao conferir-lhe traços militares e transformá-lo no Quarto Ramo das Forças Armadas. Agora toda essa obra unificadora era posta em causa, pela agitação do republicanismo, modernismo e obreirismo da fundação. Nem referirei a miséria da manutenção devida às armas alemãs, pois a da Coroa, no Sul, estava igualmente refém das anglo-americanas, embora a defecção de grande parte da hierarquia governamental, desiludida com os azares de uma guerra impopular, talvez fizessem para ela pender o fiel da balança.
Entretanto, a violência em que se refugiou para contrabalançar os insucessos acumulados, com uma Verona percursora das execuções guerrilheiras e "justiças expeditas" do outro lado, viriam a dar espaço de atenção para delírios artísticos atribuidores de pulsões inventadíssimas, como nos «120 Dias» de Pasolini, rotulando de sexualmente condicionada uma absolutização do Poder, que, afinal era menos extenso do que nunca.
Único aspecto positivo: ter adoptado na bandeira uma Águia perdedora, que permite desviar a minha atenção de hoje de uma outra - que me vincula, essa - empatante...

Seis Meses Sob o Sol

Para não ser como Ícaro só se aguentam no Pólo Sul, com a fresquidão que esta bebida local proporciona...

E antes que surjam anti-sionistas indignados, devo dizer que interpreto a Estrela de David presente no anúncio apenas como garantia de local de promissão para... os pinguins.

In Vino Veritas

Não continues a beber apenas água, bebe um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições.
São Paulo, 1ª Epístola a Timóteo, 5, 23

Em dia de lagarada, uma notícia me deu que pensar. A da aptidão do vinho para localizar filões metalúrgicos não quererá dizer que a ambição alquímica de aperfeiçoar a Alma e a Saúde, começando pelo domínio dos metais, teria como segredo um alimento havia muito descoberto? Património que é da Civilização Judaico-Cristã que nos gerou, com a Terra Prometida dada como vinha e o produto consagrado transmutado em Sangue do Salvador, oposto ao proibicionismo islâmico que protela para o Paraíso a corrente vinícola que teria de suportar a concorrência das 72 virgens, não encerrará, nos nossos dias, a potencialidade de nos unir contra o radicalismo maometano e o eurocrata que querem enfraquecer ou erradicar este néctar?
Das quadras da nossa Tradição:

Hei-de morrer numa adega,
O tonel é o meu caixão;
O vinho é a minha mortalha
«Prá» estar de copo na mão.

Rapazes, quando eu morrer,
Lavai-me devagarinho;
Por baixo com aguardente,
Por cima, botai-me vinho.

As Bodas de Canã, de Paolo Veronese

Uivar À Lua

Homenagem à Luar, Que, num comentário em casa do Bic Laranja, Se insurgiu contra as tarefas domésticas, esquecendo a ligação delas à cobra...
...hoje como no Genesis.

sábado, 22 de setembro de 2007

As Surpresas da Ciência

A comprovação de que o Hobbit das Flores não é exemplar duma espécie conhecida sofrendo de microcefalia, mas corresponde a ramo animal autónomo, discutindo-se a inserção na cadeia evolutiva que também a nós alegadamente conduziu, deixa-me a cismar sobre se a arrumação como fraude do Antropóide de Loys, cuja foto foi publicada em 1929, não será também fruto da pressa ou do preconceito dos especialistas...

Por Causa dos Calores

Diz a T que os homens são influenciados pelos gelos do Alasca. Nem por sombras, Ma Chère, salvo no sentido de que nos derretemos à proximidade da Chama Feminina. Que somos propensos ao calor comprova amplamente a imagem que submeto. Mas a indicação final de alívio faz com que jamais vá ser cliente desta casa. Enquanto viver quero-me acalorado.

Impotência da Infelicidade

«Le 22 de Septembre» de Brassens, melhor psicologia do que as algemas das cartilhas de diversas escolas.

Casca Grossa

Não, Querida T, não estou só a confessar o que sou. Quero é demonstrar que, em matéria de elegância, um invólucro nacional, quando portador de refinamento, é muitas vezes condicionado por uma favorita estrangeira...
Eu exortei ao proteccionismo em matéria de aderência, não de glamour!

O Povo(ao)léu

Músicos do Povo de Cruz Herrera

Surge uma série de equívocos a propósito da designação de algum interveniente público como sendo do Povo. Não falo já na mentira de Marat, pois essa reportava a um desmentido afecto por si pretensamente dedicado, mas das designações que pretendem colar a alguém a estima das Pessoas Anónimas.
Ficou a invenção dos tablóides de Princesa do Povo para Diana de Gales. Puro decalque que só a amnésia colectiva não desmascara: o epíteto tinha sido usado para o Rei Jorge VI, Rei do Povo considerado por, sem a preparação específica para assumir o Trono, ter vindo a exemplarmente cumprir as obrigações dele, lutando contra as adversidades da gaguez e das tragédias da Guerra. Eu não alinho na detracção que publicistas por mim seguidos com atenção, Vasco Pulido Valente, Manuel de Lucena & alia periodicamente exteriorizam contra a falecida Mulher de Carlos. sucumbiu decerto a um papel maior do que as possibilidades dela, mas as infidelidades e desprezo do marido em nada ajudaram. Por outro lado, sou absolutamente hostil ao vício de classificar o empenhamento em causas humanitárias como manipulação. Se assim for, gostaria de ser manipulado por todas as Figuras Públicas, começando pelos dois referidos críticos. Mas há um ponto digno de reflexão - a decadência de uma sociedade, ao ponto de ser credível dar-lhe a preferência por alguém que não conseguiu cumprir o que de Si se esperava, quando, ainda não há muitas décadas, a mesma era aplicável a Quem o conseguia, fazendo das fraquezas forças e superando-se.
Da mesma forma, as tentativas de certa Imprensa, vindas a lume nos últimos dias, de dar Mourinho como o Técnico ou Treinador do Povo. Suponho que o seja tanto como Scolari, que um jornal brasileiro diz por cá assim ser chamado, o que me faz pensar que tenho vivido noutro país... Mas concedendo que ambos dessa maneira fossem tratados, também haveria um decréscimo de qualidade, na ética massivamente estimada para que remeteria. O Filipão, conhecido por mobilizar o apoio do País contra outras selecções, num pano de fundo de alegria e reconhecimento dos craques. O nosso milionariamente desempregado compatriota, tendo-se distinguido por exarcebar os mais fragmentadores instintos clubísticos, com referências arrogantes e polémicas com colegas de profissão.
Porém, a lição maior é que não são Músicos do Povo muitos daqueles que lhe tentam dar música.


sexta-feira, 21 de setembro de 2007

De Cabeça À Roda

Pois é, T, não devemos cair na asneira de aplicar aos pneus a prova de sapatos da Cinderela, queremos uma borracha para o "pé" de qualquer veículo. O que é nacional é bom, devemos juntar o nosso esforço ao dos Outros, em prol da Nação, Logo, faz favor de usar Mabor...

E, Inventiva Júlia, eis Os Chapéus da Moda de Elena de Varda, mostrando como a excentricidade das coberturas pode deformar. Mas para fazer a prova dos noves, Erico Menczer, com Chapéus, estabelece o paralelo com o fruto proibido. Há que moderar o apetecimento, ou da viagem nada aproveitarão!

O Complexo de Robinson


Fazem os Colegas do Corta-Fitas com que sofra de tão grave mania, por isto, por aquilo e por mais esta. Os sintomas? Ficar a olhar para o PC, à coca, na ideia de ver chegar Sexta-Feira, sem dar por aparecimento real, pese desilusor, que ocorra. Mas há sempre a esperança de esbarrar com uma náufraga do género de Lianne Dauban, a Estrela de «Shipwrecked».
Agarrado a uma Lianne destas até eu era Tarzan!

Clientes Na Carteira

Por que será que cada vez me é mais difícil concordar com qualquer coisa que José Miguel Júdice defenda? Talvez porque a consciência política de um ambicioso seja tão fraca como a carne do vulgo. Ainda comprei como escrupulosa a sua justificação da passagem do Sindicalismo Nacional-Revolucionário para a Social-Democracia, por não ser liberal. Mas que dizer agora, quando vem defender a legalização e reconhecimento de lóbis, essa pedra basilar dos mais liberalões dos sistemas? A grande desculpa que aventa não tem verdade em que assente. É falso que a institucionalização dos grupos de pressão diminua a actividade corruptora de políticos, como prova o exemplo Norte-Americano, em que o aliciamento está elevado a categoria legítima do processo decisório. Os sucessivos escândalos em larga escala, de que o caso Abramoff é apenas o derradeiro rebento, aí estão, a provar o contrário. Sem falar na perversão rotineira que é a intervenção legislativa servir de trampolim para carrreiras de lobismo remuneradas a peso de ouro, em que participam até ex-congressistas afastados, porque corrompidos, como Dan Rostokowski, na era Clinton, onde foi perdoado por favor presidencial, vindo agora dizer que não faz lóbi, apenas dá conselhos de estratégia legislativa...
Para além de que em Portugal, onde os eleitos são meros escravos de direcções partidárias, sem a individualidade autónoma dos do Tio Sam, cada vitória de um persuasor desses arrastar todo um grupo parlamentar, ou um executivo de qualquer nível, em vez de se cingir a casos sigularizados.
Legalizar o lobismo nem se pode justificar com o controle sanitário que equivalente medida traria à prostituição. E introduzir um ramo desses num país em que a interacção de riqueza e política são vistas com desconfiança, salvo pelos aspirantes de e a ambas, ao contrário dessa América Setentrional em que uma é credencial para singrar na outra, viria enfraquecer uma barreira psicológica fundamental: transporia da definição para a quantidade o limite do ilegal, enfraquecendo a percepção do censurável. É como transferir a decisão de um desafio de futebol do campo para a bancada. Conhecendo as claques que espreitam, quem quererá isso?

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Apologia de Sócrates

Até Kipling reconhecia que, ao contrário do que disse - East is East, West is West, and they will never meet - o encontro poderia vir a ocorrer, no cérebro de um classificado linguísta de São Bento.
Quem nunca se enganou a indicar um caminho, trocando as Direitas pelas Esquerdas, & vice-versa, que atire a primeira pedra.
Ou então, tendo lido o postal dragoniano sobre o Grande Oriente, quis excluir-se da obediência...

Os Perigos do Presente

Chère T, muito grato, tenho estado a tarde inteira perante o dilema que me põe. Começo por estranhar o Alfa Romeo, pois sendo a Minha Amiga tão insistete no meu uso de chapéu, não ignorará que Henry Ford dizia tirar o seu de cada vez que via um carro daquela marca. E como Mussolini adorava as maquinas dela, tendo até conduzudo uma (não esta) nas Mille Miglia, é preciso muito cuidado, ou os controladores de serviço ainda acharão que me está a imputar, em código, alguma militância.
Já a viagem marítima parece-me surgir da fantasia de muito ler as aventuras da Samantha. E respondo também à Cristina: ficam as Senhoras romanticamente a sonhar com o que os cruzeiros Vos possam dar e eu, ávido da Vossa companhia... chapéu!
Desisto, é melhor manter os pés na terra.

Demanda da Sophia

Também tenho direito à minha teoriazinha da conspiração. Assim, estou absolutamente certo de que as recentíssimas medidas tomadas pelas Autoridades sanitárias do Reino Unido, no sentido de os médicos não usarem, doravante, a tradicional bata com mangas, ou o estetoscópio pendurado ao pescoço, nem têm por fim as precauções anti-bacteriológicas aduzidas, nem se enquadram na linha de preocupações que desaconselhou aos graduados militares o uniforme fora do horário de serviço ou restringiu o uso das cabeleiras dos juízes a processos criminais, como tão-pouco visa protegê-los da tradicional alcunha de batas brancas.
A razão é muito outra e corresponde a uma iniciativa de puritana camuflagem que dificulte a identificação dos clínicos e inerentes assédios como o aqui evidenciado. Pouco a pouco, o estatuto de Médico perde tudo o que o tornava invejável. Sophia Loren nasceu num 20 de Setembro.

Validade No Verso

O Acordo de Casamento de Hogarth

O Islão não tenta só avanços nos planos estratégico e demográfico. Também no cultural instituições características dele vão tentando insinuar-se no Ocidente. Assim o casamento temporário, que uma autarca alemã, Frau Pauli, propõe, por um prazo de sete anos, renovável. Imagina-se que os filhos eventuais sejam os juros da aplicação, o que até traria alguma esperança, se ficassem os casais vinculados a uma taxa (de natalidade) a impor por algum organismo central europeu. Não digo banco, com receio de que entendeis "de esperma"...
O certo é que o quadro que acompanha ganha agora um novo alcance, com solicitadores nos lugares dos familiares. E estou certo de que a política bávara só não defendeu também outra característica civilizacional muçulmana, a poligamia, porque incompatível com a imagem de dominadora em que, complacentemente, permitiu que a publicitassem.

Mouros, Mourinhos e Alguns Mais

1- Até os Drusos de Jumblatt - que conhecem bem a família Hassad, por, noutra encarnação, lhe terem servido os interesses, sabem da cobardia de Damasco. Perante isto choca ver alguns portugueses calarem-se quando um Cristão é morto à bomba e chamarem lacrimosamente criminosos Aos que estragam os ingredientes de bombas maiores, na posse dos autores do feito.

2- O Special One não se furtou à despedível condição de everyone, no ofício de treinador. Não gosto nem um bocadinho da personalidade do nosso compatriota, mas a satisfação mafiosa do dono do Chelsea quando o clube perdia e a desilusão aquando do empate, contra o Rosenborg, ainda me inspiram piores sentimentos. Pobre público britânico, a Pátria do Desporto, com dirigentes que torcem contra os próprios clubes, sabe-se lá em função de que perspectivas negociais!

3- Um Belga pôs, na net, o seu País em Leilão, obtendo "licitações" de vulto. Impossível de importar para Portugal o exemplo. Para além de ser duvidoso que o estado actual despertasse interesse comprador, já foi vendido, há 33 anos, por tuta e meia. Culpem o atraso da informática de então, culpem.

4- Por vezes, a imitação do estrangeiro faz bem. Ninguém me tira da cabeça que os aplausos a C. Ronaldo e Nani em Alvalade, ontem, vivem muito do exemplo dado em Milão, pela recepção entusiástica a Rui Costa, por parte dos adeptos locais. Cá, como se sabe, o hábito era assobiar ex-jogadores da cor, como os meus consócios fizeram a João Pinto, despedido pelo próprio Clube...

5- O Grillo falante, Beppe Grillo, de seu nome, quer extinguir a corrupção e a impunidade da classe política e não esconde que tal só será plenamente conseguido em Itália com a abolição dos partidos. Centenas de milhar de assinaturas às petições que promove, 50.000 participantes num comício, em Bolonha, um milhão de visitas ao seu blogue, em Julho. Por cá sofremos do mesmo, mas falta-nos a consciência que nos impeça de ser bonecos de madeira marionetados por directórios vorazes, mentindo eternamente a nós próprios sobre a liberdade de que nos gabamos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A Pantites e Aristôdamos

Dia convencionado para celebrar o Sacrifício das Termópilas. Sempre visto como um combate de nacionalidades, fica obscurecido o que mais especificadamente foi, o de um recontro de elites, entre os Imortais Persas mandados avançar por Xerxes, perante o falhanço da "tropa de linha" e a parte da Guarda Real Espartana com descendência assegurada, somando-se-lhe Téspios valentemente associados. Uma Entrega sem esperança, obliteradora das entregas vergonhosas, atestada pelo adivinho Megístias, conhecedor do desfecho da Tragédia pela via oracular e não já pela das probabilidades, que, dispensado pelo Rei Leónidas, se recusou a abandoná-lo.
Choro por ser de um tempo em que o Episódio não é já Exemplo fortalecedor que contribua para as vitórias seguintes, mas apenas objecto filmável para distracção de todos nós, espectadores potenciais, fornecendo-nos notícia de Gente cuja conduta nos é estranha. Como num jardim zoológico.
E verto ainda mais lágrimas por ter nascido já depois dos Vassalos que contra as ordens recebidas Índias deram de mão beijada, em vez de tranquilamente se deixarem matar. Ou contra os historiadores que pretendem transferir o opróbrio para uma ordem de resistir. Tão exigente era a Ética Lacedemónia que dois guerreiros dispensados, Aristôdamos por estar doente, Pantites porque enviado, em serviço, como mensageiro à Tessália, apenas por terem sobrevivido e pese a estarem isentos de responsabilidade, foram por cobardes tidos e apontados, até que um se redimiu em Platéia, numa problemática lordjimesca com final feliz na fatalidade, e o outro se enforcou.
Aqueles a que se refere a inscrição Diz aos Espartanos que aqui jazemos para obedecer às suas leis foram os que ouviram o seu Rei exortá-Los a que com ele estivessem no momento e mais tarde consigo jantassem no Inferno. Razão acrescida para não faltarem neste recanto, apesar do País que temos estar completamente carecido de "Rei e Lei", numa terra de ninguém de "nem paz nem guerra". Sobretudo a paz, que bem deve faltar à nossa consciência colectiva.
De A. E. Houseman

THE ORACLES

'Tis mute, the word they went to hear on high Dodona mountain
When winds were in the oakenshaws and all the cauldrons tolled,
And mute's the midland navel-stone beside the singing fountain,
And echoes list to silence now where gods told lies of old.

I took my question to the shrine that has not ceased from speaking,
The heart within, that tells the truth and tells it twice as plain;
And from the cave of oracles I heard the priestess shrieking
That she and I should surely die and never live again.

Oh priestess, what you cry is clear, and sound good sense I think it;
But let the screaming echoes rest, and froth your mouth no more.
'Tis true there's better booze than brine, but he that drowns must drink it;
And oh, my lass, the news is news that men have heard before.

The King with half the East at heel is marched from land of morning;
Their fighters drink the rivers up, their shafts benight the air.
And he that stands will die for nought, and home there's no returning.
The Spartans on the sea-wet rock sat down and combed their hair.

Exercício de Licantropia

Estereótipo de Lauri Svedberg

Nunca tendo praticado Rugby, desde pequenino que nutri um certo gosto pela modalidade. Talvez porque nesses tempos de iniciação o melhor Desporto que a TV dava era composto pelas transmissões do Torneio das (então) Cinco Nações, com os apaixonados comentários de Cordeiro do Vale, Alguém que exalava perdição pela modalidade, um pouco como o Coronel Matias no Hipismo, ou até João Coutinho, no Basquetebol. Mais tarde novas visões daquela prática me foram facultadas pela devoção absoluta, literariamente servida com génio, de Antoine Blondin e Kléber Haedens. Acima de tudo sempre me ficou a noção, por um Colega Universitário traduzida, em frase antiga que sempre reiterava - tratava-se de um jogo de brutos praticado por Cavalheiros, onde o Futebol muitas vezes é um jogo de Cavalheiros praticado por brutos.
Avesso que sou a ver no Desporto outras realidades que não as que nele se esgotem, por achar que embarcar nisso é fazer o jogo dos poderes que dele se servem, não posso, todavia, deixar de denunciar uma indignidade e lamentar uma fraqueza.
A primeira - que em mérito última é - passou-se na última edição do programa televisivo «Eixo do Mal», onde os intervenientes troçaram da participação dos Lobos, o Quinze Nacional que ora se bate com os melhores. Eram três os vectores do desinspirado escárnio: os nomes porventura ilustres dos Seleccionados, a maneira fervorosa como entoaram o Hino e as diferenças pronunciadas nas derrotas que lhes foram infligidas. Ou seja, velhíssimas pechas da Esquerda, os fumos de inveja social, como o desconforto perante a União em volta dos símbolos da Pátria. Mas a terceira ainda é pior, porque define a falta de qualidade dos intervenientes, não já a de um campo ideológico. Não prezar a progressão, o cerne da prática desportiva, é bem típico desses amigos do Progresso, o género de gente que só se cala quando há medalhas, como bons materialistas que se revelam. E, se essa superação que leva a um patamar superior é aferível mais patentemente nas marcas, de Atletismo e Natação, por exemplo, a ascensão a um grupo restritíssimo como o dos participantes no actual certame raguebístico é critério seguro de equivalente aperfeiçoamento, impossível de verificar-se no meio boleiro, em que, independentemente das qualificações, é mais fácil todos jogarem contra todos.
Um tanto desculpável, por outro lado, mas não credora de aprovação, é a alegria com que Alguns Bloguistas que estimo, entre eles Amigos também fora da Blogosfera, se demarcam dos gostos predominantes na Colectividade, relegando para as "massas acéfalas" o apreço pela bola, reservando para os Eleitos o culto do melão. Não penso devermos procurar motivos de afastamento dentro do Todo Nacional, já basta o que basta. E amarmos um sector desportivo não obriga a denegrirmos os outros, nem a promovermos uma pontinha de snobismo pela consideração em voz alta de virtudes não estritamente atléticas dos praticantes.
Seja como for, perante os estereótipos dos televisionados opinion makers, que tentaram apresentar os Lobos como indesejáveis, confesso que contra a Itália me irmanarei a eles, seguindo a letra do Exemplo Franciscano.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Evitando as Pi(c)adas

Querida T, nada tenho contra sorrisos Binaca, mas um artista português não se contenta com menos do que o único remédio contra a ceifeira molengas dos dentes. E quanto a evitar inobservâncias de horários, lembro que uma Vespa é insusceptível de evitar as picadas dos bicharocos homónimos. Enquanto que se me deixar conduzir o Buick que, pela descrição dos proprietários, se adequa por inteiro a V. Ex.ª, o duplo problema ficará resolvido. Além de permitir potenciar a atenção prestada a Velhinhas em autocarros, dando-lhes uma generosa boleia...

Pele de Galinha

A Água de Rosas convirá a peles delicadas, mas dela também tiram proveito mais calejadas, como as das velhas raposas milanesas. A Água que os Rosas, meteram, ao fazer livre escusado contra uma equipa que tem Pirlo, para não falar já na ingenuidade da entrega, sem recuperação, no segundo tento, a verduras de juventude atribuível. A questão, porém, é que todos, excepto Léo me pareceram entrar com medo do nome do adversário, o que me sugeriu o título do presente.
A sondagem que lateralmente disponibilizei, nos últimos dias, foi inconclusiva. Seis votantes, repartindo-se por igual entre os que queriam Katsouranis na defesa e os que o preferiam no meio-campo. O meu juízo é que esta última era a melhor solução, aliás Camacho pôs de início precisamente a linha que eu colocaria. No reino dos ses poderá ser dito que se Miguel Vítor tem sido sacrificado, não ocorreria o segundo golo italiano. Mas também se pode dizer que provavelmente a velocidade teria sido outra e haveria muito mais probabilidades de a diferença se dilatar. Não gosto de me alegrar por perder por poucos, contudo teria um piadão se nos qualificássemos graças à diferença de um golo, o que foi marcado no último minuto...

Dilema dos Diabos

É tão complicado atribuir ao Dr. Kouchner desígnios de desamor ao Próximo, depois do seu protagonismo à frente dos Médicos Sem Fronteiras, que os protobombistas nucleares de Teerão, para dizerem alguma coisa, tiveram de apontar uma ultrapassagem no discurso do que até aqui vinham dando como Satan. Para além da perda de credibilidade de um regime clerical que apregoa agora uma maldade maior do que a do Demónio, esvai-se, igualmente, muita da força de dar todos os duros como seguidores de Washington. É tão impossível nas tomadas de posição como no plano físico algo mover-se à frente e atrás de outro corpo, em simultâneo...

Ghost Writer

Conhecimento Oculto de Michel Verplank

A Língua está condenada a camuflar, moderando a integralidade de cada pensamento. Ao adoptar a forma de Poesia, contudo, faz mais, por escolher a expressão menos imediata, furtando a intenção patente de significar, através da transmissão velada de um sentido. Em vez da mutilação da personalidade residir na amputação que qualquer delaração parcelar dela implica, há uma tentativa de ampliar o alcance do Poeta, projectando uma grandeza que só corresponde aos anseios que da própria dimensão desenvolve. É furtando a aridez condensada que os "vizinhos" conhecem que, catapultando-se num desmedido conjunto de caixinhas chinesas, quais as salas escancaradas e sucessivamente percorridas da Vida, se procura dar a ilusão de dimensão maior ao Leitor e, em ricochete, a si próprio, sendo certo o desmentido realista que cada falhanço troveja, reduzindo o solipsismo ambicioso de negar-se à percepção dura da inescapabilidade do que se é. O que é o contrário do esperado, ou como a marca do Prisioneiro se confunde com o símbolo da Liberdade.
De David Mourão-Ferreira

ARGUMENTO

De versos em que me escondo
encho os meus próprios ouvidos

Digo abrigo em lugar de ombros
rua em vez de paraíso

dádiva em lugar de roubo
em vez de pólvora vidro

rosto rasto ruga rogo
em vez de polen e cisco

Só vivo se me prolongo
Caminho se não caminho

Sempre uma deusa bifronte
esta língua em que me exprimo

Digo remos vejo sombra
Chamo ramos ao que é vivo

Sonho que sonho o que sonho
E recomeço E desisto

É não indo ao meu encontro
que me encontro a sós comigo

Ah no incesto das ondas
com que pânico me atinjo


A Solidez da Estrada Para a Metáfora e a Memória de Misha Reznicoff

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Ó...Ciosos dos Livros

O Ócio de Sísifo de Sandro Chia

Chamo a atenção da T para que montanhas de papel para ler podem constituir uma forma de ociosidade. O que me leva a atribuir à postagem a significação de que se escusa de estragar duas casas... Mas o pobre Sísifo não pára nem pode ser aliviado por doces companhias enchapeladas...

Cabeça no Ar

Perto do acto inaugural da grande exposição dedicada a Arcimboldo pelo Museu do Luxemburgo, ocorreu-me ser o momento de falar da série dos «Quatro Elementos», de longe por mim preferida à da tetralogia das «...Estações». Isto porque, por muitos antropomorfismos que comovessem os Surrealistas, até o surrealista que há em nós, a representação sazonal redunda sempre em compêndio de naturalista que o Pintor Milanês ao serviço dos Habsburgos também parece ter sido.
Enquanto que nos constituintes do Universo a coisa fia mais fino. Foi preciso alguma ductilidade para transferir as flamas para uma cabeleira, por muito que os cabelos ruivos hajam preenchido os imaginários do Ocidente.
E a evidência dos frutos do Mar na ideação da Água obrigou á profundidade de não olvidar uma homenagem merecida à nossa Colega Miss Pearls,
assim como a alusão à Terra nos traz animais de olhos fechados, que mortos ou adormecidos, não têm maneira física de despegar os ossos do chão.
O que nos transporta à genialidade da procura da sugestão do Ar. Como pintá-lo? Recorrendo a perturbações dele, como furacões, reduz-se a Essência a "deformidades" atmosféricas. Se olharmos para a figura cimeira deste post, poderemos dar como não pequeno sucesso pictórico a indicação do caminho, em vez da própria imagem da coisa. As alimárias de boca aberta remetem-nos para a urgência da respiração, de que a vida sente a falta ainda antes da água, e sem possibilidade de substituição como os outros dois componentes da síntese empedocleana.
Mas é o pavão que dá a suprema nota de argúcia, porquanto descreve bem a soberba desmedida do Homem em querer pensar e aprisionar mentalmente, como classificar, o que se lhe escapa entre os dedos. Apesar de aparências em contrário, Anaxímenes foi mais modesto, pois, ao propor o Ar como Princípio Originário, o vocábulo empregue não se referiria ao puro, mas à neblina, o que é nada desprezível confissão das dificuldades de abarcar claramente o que nos envolve.
E, para aqueles que estejam já disposinhos a dizer que fiz um postal a partir do ar, sempre citarei Thoureau, quando dizia que nenhum mal há em construir nele os respectivos castelos, desde que se implementem por baixo as fundações. É ele que permite voos e do concerto com a solidez das bases dependerá muito do nosso equilíbrio psíquico.