Papalvos & Papões
O mal das conversas na blogosfera é este e só este: há sempre a ameaça de um réprobo se meter nelas. Assim com a que versa o Iberismo. Do que gostaria que fossem as nossas relações com Espanha já falei em tempos melhores. E o respeito que me merece Quem lê não deixa que me repita. Para maçada basta uma vez.
Porquê, então retocar e retomar este tema batido? Porque ele está, de novo, na baila. Primeiro foram figuras públicas, à custa de publicitadas, quais Lino e Saramago, essa Sociedade Anómala de Irresponsabilidade Ilimitada, a defender como benéfica a integração peninsular. Para os que acreditem que daí viria algum bem à Nação, os papalvos que mergulham de cabeça na primeira atoarda televisionada, gostaria de lembrar que para um País querer anexar outro é preciso que ele tenha alguma coisa de desejável. E o estado a que a República abrilina nos conduziu faz duvidar de que em nós exista essa qualidade. O interesse económico que se denotasse, exíguo até pela diminuta dimensão do nosso mercado, cumpre-se no estado actual de coisas. A pujante economia vizinha entra onde e quando quer na imitação aleijada que é a nossa.
No entanto, o ribombar dos altissonantes bitaites ministerial e nobelizado fizeram por Gente Estimabilíssima soar o grito de alarme. O Miguel Castelo-Branco veio gritar, literalmente, Aqui d´El Rei perante o ressurgir do velho papão. Creio que o Nosso Amigo está sobre brasas no tema porque Discípulo do Embaixador Franco Nogueira, para Quem o Perigo Espanhol era uma obsessão a tempo inteiro. A essa canalização do indiscutível Patriotismo de semelhante Mestre respondeu, num jeito de desagravo, Pequito Rebelo na vertente em que o Grande Diplomata atacara o pensamento de António Sardinha. Porém, o nosso Comburente Confrade não se coíbe de retomar a acusação de "ingenuidade" que, na sua época, fez carreira contra o Doutrinador de Monforte. A mesmíssima que, neste folheto desgraçado em que lança mão de tudo o que possa apequenar o Conhecido Integralista, Alfredo Pimenta lavra, confundindo alianças com osmoses nacionais, deificando a sincronia ocasional, presumivelmente para untar Salazar, mas increpando a conjugação sistemática, por dela precisar para conjurar adesões da forma mais fácil que há, por quem doutra forma não consegue ser amado - brandir um ódio velho como inimigo comum. Hoje por hoje a tese perdeu a sua viabilidade literal porque nem Portugal tem já um Império que o faça contar, nem a Espanha tem a independência de acção que lhe permita disputar o Mediterrâneo a quem quer que seja.Atenção, o perigo maior de nos diluirmos numa Ibéria dominada por Madrid não provém dos ocupantes dos farrapos de Poder que subsistem na Moncloa, mas na facilidade com que Bruxelas encare os dois ramos peninsulares como uma unidade a ser dirigida em comum. Aí sim, o mais proeminente do Par tomará primazia, na função de rédea, sendo o dono a Eurocracia e o animal a pobre Lusitânia desditosa. Por isso disse ser a conjunção de resistências nacionais dos dois Estados mais ocidentais deste Continente contra a padronização centro-europeia de matriz materialista a actualização possível do ideal de Sardinha.
Tenho, enfim, de responder a Outra Grande Voz, o Jansenista, que não foi a Monarquia que causou os perigos maiores de perda da nacionalidade. Esses casamentos Reais que refere contribuíram para a alternância de muitos anos de Paz, contraposta às crises conhecidas. Estas não resultaram dos matrimónios, mas da incapacidade de gerar descendência directa suficiente e desimpedida, por dois dos nossos Reis. Mas as Leis Nacionais constituíam salvaguarda jurídica bastante, com a interdição de soberanos estrangeiros e seus familiares mais chegados cingirem a Coroa Nacional. Pois bem, no momento em que a infecundidade se propaga à População em geral, não seria de pensar o regresso da Realeza, insuspeita de transigência com a fusão de fronteiras, ao contrário do risco sempre patente da eleição como Chefes de Estado e de Governo de políticos iberistas? Concordo Consigo que da parte da População Espanhola não virá perigo de maior. Mas poderá dizer o mesmo da nossa Classe Política?


