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domingo, 2 de março de 2008

Dieu et Le Roi!

A Emboscada de Coessin de La Fosse
En 1793, la France faisait front
à l'Europe, la Vendée tenait tête à la France. La France était plus grande
que l'Europe ; la Vendée était plus
grande que la France

Vítor Hugo
Até na atribuição dos começos a História foi injusta para com a Vendeia. Diz, geralmente, que a revolta contra os Revolucionários começou a 11 de Março, quando os primeiros tumultos se deram em Cholet, a 2, numa onda de indignação contra a quebra das quotas tradicionais de serviço de sangue que a Convenção desrespeitara, ao querer lá recrutar parte significativa dos 300.000 homens que se propunha para as malfeitorias conhecidas. Foi sentimento genuinamente popular, os quadros da pequena Nobreza só reforçaram mais tarde a vontade de lutar pela Legitimidade.
O resto é o que se conhece, a erradicação de uma fatia populacional impressionante, por instrumentos vários, de que o mais célebre, tristemente, claro, foi o General Turreau, com as Colunas Infernais. Os métodos dos Chouans, os Guerrilheiros Realistas, também foram duros, mas tinham como alvo o inimigo visível, os soldados e representantes de Paris, enquanto a repressão não olhou a idades, sexo, saúde ou culpas. Reynald Sécher escreveu que a Revolução Francesa foi a matriz de todos os genocídios da História.
E foi-o, ela própria o reconheceu. Não tem cabimento a interpretação dos revisionistas favoráveis aos Revolucionários, que fazem contraditoriamente de Toureau bode expiatório, ou único culpado pela iniciativa própria. O próprio tribunal militar dos seus que o julgou, absolvendo-o, por apenas ter cumprido ordens, o reconhece, já que ainda ninguém expressamente defendeu que as instruções brotem do vácuo. E a tentativa de justificar com a "legalidade revolucionária" é uma agravante, já que uma ordem jurídica só pode ser legítima se corresponder a valores enraizados por uma continuidade cronológica significativa.
Aliás, os delegados do Governo na região, Hentz e Francastel, tinham sido claros no relatório que enviaram ao Comitê de Salvação Pública:
Dar morte, em todas as regiões insurrectas a todos os indivíduos de qualquer sexo que aí se encontrem, indistintamente, e chegar a incendiar tudo. Quando a guerra da Vendeia estiver completamente terminada não ficará habitante que se veja, pois ter-se-á destruído tudo. Assim é impossível que vos ocupeis de uma lei sobre o seu governo. É preciso declarar toda a região confiscada pela República, salvo a indemnização aos refugiados, e o número desses refugiados é pequeníssimo, face ao resto, que é culpado, que pereceu e que perecerá.
Coerentes avós espirituais dos deputados que recusam votos de pesar por assassínios!
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Memória e enjoo

Lisboa é uma terra tão extraordinária que, depois, mais tarde, quando veio a República, apareceram várias pessoas gabando-se de que tinham entrado no regicídio.
Raul Brandão

Que um governo escolha a neutralidade entre a homenagem e o crime, proibindo a força armada de prestar honras a um Chefe de Estado assassinado, define-o, como definidos estão os governantes da Acalmação, quando proibiram o desfile diante dos corpos do Rei e do Príncipe Real e contemporizaram com as romagens aos túmulos dos regicidas. As desculpas são fáceis de arranjar, mas são dos que pagam pouco e mal: "prevenir ofensas ao cadáver, evitar excitação que derramasse sangue...". Num caso e noutro, medo de usar a polícia para o que, afinal, deve servir.
Que naquele tempo houvesse demasiados admiradores dos criminosos e hoje apenas uma vintena mal contada, nada diz de emenda das gentes, apenas dá conta do ensimesmamento delas.
D. Carlos foi vítima de ter acreditado poder regenerar os partidos fazendo-os rodar, ao abrigo de uma leitura interventiva do Poder Moderador. Como Soberano, apesar de Lhe reconhecer a obra diplomática, não me é especialmente simpático, tanto pela minha fé Legitimista, como pelo anti-clericalismo que também abraçou. Nunca O serviria, mas jamais me alegraria com a morte Dele, como fizeram, arrastados na voragem do tempo, alguns outros.
O Filho foi, nos seus poucos anos, o símbolo da própria fidelidade: em 1907 ficou representando a Coroa e, numa récita no teatro D. Amélia, aos inimigos paternos que O aclamaram como D. Luís II, terá chorado e dito:
- Como me julgam capaz de por uns vivas atraiçoar meu pai? Que Deus lhe dê muita vida!
É tempo de acabar. Com o colchão do Arsenal da Marinha em que depositaram os restos moribundos da Vítima, fica a imagem da prostração de Portugal, só momentaneamente resgatada por um Génio que, posteriormente, passou. Hoje, sem Trono, cada vez vejo menos governo, salvo se por isso se entender a delegacia de poderes supra-nacionais. Que condiz perfeitamente com a receptação dos proventos das balas do Terreiro do Paço.


sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Sangue Na Noite

A morte de António Granjo, vista por Stuart

19 de Outubro leva-nos ao de 1921 em que a República levou a autofagia a extremos de carnificina desconhecidos no nosso País, fora do período das Guerras Civis. Noite Sangrenta lhe chamaram e o sangue juntou-se à saliva com que tentaram espalhar a mentira da responsabilidade monárquica pelos assassínios. Não colou porque, apesar de unanimemente reconhecidos como burros, os Monárquicos não o eram tanto que se acreditasse, caso usassem os métodos da Formiga Branca, que se voltassem contra conciliadores dentro da sua intransigência de princípios, como Granjo, ou contra os Sidonistas com quem tinham colaborado. Sobretudo não pegou porque se esqueceram de instruir convenientemente na coerência aldrabona os baixos executores: a marinhagem que urrava o desforço que tirava dos superiores e o Dente de Ouro que, anos depois, dizia furibundamente "não ser Talassa", uns e o outro rodeados de "calem-se" e "cala-te" de elementos de ligação presentes.
Noite Sangrenta lhe chamaram, assim poderiam ter chamado a toda a I República dominada pelos Jacobinos.
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segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A Felicidade Introuvable

Foi num Dez de Setembro que o anarquista Lucheni matou, com um estilete durante horas imperceptível, a Imperatriz Isabel da Áustria, a Sissi das histórias românticas. Se a Anarquia infunde hoje alguma simpatia, porque contraponto estrénuo ao estado de coisas demo-burocrático que nos rege, a obsessão contra a Realeza de fins de Oitocentos não gerava senão repugnância; e partia de equívocos originados pelas ideias feitas - e das piores, como activo tentame de denegar continuidades ditosas aos inimigos identificados como desfrutando-as. O assassino diria no seu julgamento que "pensava ter morto uma das Felizes deste mundo", ao que o presidente do tribunal que o julgava respondeu ter ele liquidado uma desesperada. A vida da Falecida, assaltada pelas tragédias familiares, havia muito tinha perdido o brilho da Esperança, abafado pelo romantismo incipiente dos ímpetos que a levaram a um casamento programado para a Irmã e que não conseguiu impor vida fora no que toca ao ambiente, apesar da constância da paixão do Imperador. Plenamente empenhada na fuga ao formalismo, a sua simpatia húngara em breve resvalava para a que tomasse por objecto os dois factores que acabariam com a felicidade dos Povos do Império, as erupções nacionalistas e as liberalizantes. Falta de afeição pelo dever de ofício da Coroa, muito bem apanhada por Cocteau - que Nela se inspirou - e por Antonioni, em «L´Aigle A Deux Têtes» e no decorrente «O Mistério de Oberwald». Neste dia ligado à celebração de diários cumpre recordar como a própria se viu: Perambulo solitária sobre a Terra há tempo, alienada da vida e do prazer; não tenho e nunca tive alma que me entendesse. Vício de época e de feitio que apenas vê amor nas erupções e manifestações exclamativas, sem o identificar na constância do serviço do Outro. Sempre o individualismo a tomar o lugar que por direito é da Individualidade.

sábado, 21 de abril de 2007

O Direito de Usar Armas

Fabricando Aristocracia, de Darwin Leon


Foi sem surpresa, mas com o desacordo habitual, que verifiquei recair a tónica maioritária das análises do último morticínio escolar estadunidense no debate sobre a restrição ou não do mercado de armas. Ninguém se deu ao trabalho de recordar que o sonho americano colhe o que semeou: generalizou o direito de andar armado, como reacção aos que na Europa o tinham, encontrando-se estes, no entanto, proibidos de trabalhar, pois era funcional a sua razão de existir: defender a Comunidade. Ao permitirem a todos acumular o sucesso profissional com a lei da bala que facultasse ao mais rápido no gatilho afirmar-se, foi criada uma nova concepção de aristocracia, fazendo reviver as antigas, mas rebaixando o conceito com o caminho do materialismo concorrencial, coisa alheia ao espírito enformador da noção de Nobreza no Velho Continente, colaboração com o Poder e não seu livre exercício. Claro que era o caldo de cultura ideal para os deserdados e desequilibrados reagirem com desesperos lúgubres. E quando as duas características se reúnem num só indivíduo, que alvo mais fácil do que os universitários, proto-elite aspirante ao sucesso, mas sem possuir ainda os meios de pagar guarda-costas e fechadíssimos condomínios protectores?