quarta-feira, 16 de julho de 2008
terça-feira, 15 de julho de 2008
Passado!
Qual será impermeabilização mais eficaz contra a desilusão? A renúncia à experiência com a inerente melancolia de nunca ter tentado? Ou a eliminação da Vontade levada à última consequência dos objectivos, deixando a carcaça em que nos arrastamos neste mundo sem fogachos de elevação? A meu ver, nenhuma destas vias, o pessimismo enformador, para ser consequente e não rebaixar, deve concentrar-se na aplicação de si com a naturalidade de não pretender resultados transfiguradores, pois esses seriam uma humilhante insatisfação com o que se ia sendo. Nem abdicar da acção, porque se estaria perante outra maneira de se rebaixar. Só resta a via de tentar não ficar obcecado, com uma intervenção baseada em cumprir a sua parte, que não secundarize as fruições e a observação, mas, igualmente, não esterilize a capacidade de ascender. Caso contrário a desilusão despontará, sem que possa achar melhor canto do que o de Camões:Quando os olhos emprego no passado,
De quanto passei me acho arrependido;
Vejo que tudo foi tempo perdido,
Que todo emprego foi mal empregado.
Sempre no mais danoso, mais cuidado;
Tudo o que mais cumpria, mal cumprido
De desenganos menos advertido
Fui, quando de esperanças mais frustrado.
Os castelos que erguia o pensamento,
No ponto que mais altos os erguia,
Por esse chão os via em um momento.
Que erradas contas faz a fantasia!
Pois tudo pára em morte, tudo em vento...
- Triste do que espera, triste do que confia!
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10:01
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Atalhos: Condição Humana, Coragem, Poesia
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Fazer Ondas
Não deixa de ser curioso que gente tão predisposta a rebelar-se contra o consumo aceite fazer macacadas de rua, consumindo um produto pouquíssimo duradouro como é um programa de rádio. A busca de uma voz do dono que determine por controle remoto o que os ouvintes façam, com a adrenalina de participar numa "revolução" é ironia suprema, se pensarmos que corresponde ao infantilismo de acreditar manter o controlo sobre o aparelho, enquanto se entrega a direcção do um ser humano que o poderia desligar ou mudar de canal ao Éter. A brincadeira de ontem na Baixa podia ser simplesmente uma palhaçada, caso não fosse ilustrativa dos condicionamentos de uma época. Mais perigosos e espalhados, porque mais subtis. Mas a transigência expressa na hipotecação da vontade está todinha lá.
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12:02
8
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Atalhos: Condição Humana
terça-feira, 8 de julho de 2008
Psicanálise dA Praia
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18:25
13
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Atalhos: Condição Humana
terça-feira, 1 de julho de 2008
Sobre a Cinza do Tédio
Talvez por uma interiorização espúria de que tomar posições é mais glorioso destino do que nantê-las, cada homem chega a um ponto em que, saturado do que tem, o vê como infelicidade contraposta à ditosa atracção de uma qualquer nuance. É o enjoo a que só os marinheiros são poupados, no mar, porque aptos a ver na imensidão aos outros sempre igual as particularidades de cada circunstância renovadora do elemento a que se uniram.É da incapacidade dos restantes que nasce o desejo de oposições à sua habitualidade, indução possível de rupturas e abismos, como do simples turismo de descanso, nuns casos, de conhecimento noutros. Sabendo-se feito de acordo com a Figura Divina esquece a cláusula de alteração de circunstâncias que, pelo pormenor da Queda, o Criador pode invocar. E, quanto ao Demónio, estamos com Dostoievski, se foi o Homem a criá-lo, fê-lo à sua imagem e semelhança. Não admira portanto que Neles projecte as suas frustrações, para nobilitar a incapacidade de satisfação que o aflige.
De Cruz e Sousa
SPLEEN DE DEUSES
Oh! Dá-me o teu sinistro Inferno
dos desesperos tétricos, violentos,
onde rugem e bramem como os ventos
anátemas da dor, no fogo eterno...
Dá-me o teu fascinante, o teu falerno
dos falernos das lágrimas sangrentos
vinhos profundos, venenosos, lentos
matando o gozo nesse horror do Averno.
Assim o Deus dos Páramos clamava
ao Demónio soturno, e o rebelado,
Capricórneo Satã, ao Deus bradava:
Se és Deus e já de mim tens triunfado,
para levar o Mal do Inferno e a bava
dá-me o tédio senil do céu fechado...
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11:10
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Atalhos: Condição Humana, Fotografia, Poesia
sábado, 21 de junho de 2008
Dor em Verbo
A partir de que momento se torna a dor insuportável? Os primeiros choques que ferem podem ser trancados numa arrecadação cuja porta se teme abrir, ou simplesmente lançados à brisa, para que os afaste. Pretender superá-los pelo esquecimento é, porém, forçar-se e enganar-se, já que cada bote ficou marcado e a sua repercussão aguarda momentos de menor inexpugnabilidade para fazer a reentrada em força numa existência que, pouco a pouco, se deixou reger pelo conceito falso da luminosidade desmentida.Há sempre o momento em que todo o penoso acervo, paulatinamente acumulado, forma um texto impossível de ignorar, como, ao contrário, acontecera com os elementos soltos do Passado. E são esses regressos paroxísticos, algo descongelados, que juntam a Sobrevivência ao Fracasso. De Sylvia Plath, traduzida por Mário Avelar
PALAVRAS
Machados,
após o golpe seco a madeira reverbera
e os ecos!
Ecos partindo
em fuga de um centro, como cavalos.
A seiva
flui como lágrimas, como a
água lutando
para refazer o seu espelho
sobre a pedra
que tomba e dá lugar a
uma caveira branca
devorada por ervas daninhas.
Anos depois,
encontro-as na estrada -
palavras secas e selvagens,
o infatigável bater dos cascos.
Enquanto
do fundo da lagoa, estrelas imóveis
governam toda uma vida.
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18:20
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Atalhos: Condição Humana, Poesia
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Macacos de Imitação?
O Macaco Escultor de Watteau
O velho Aristóteles bem tentou, com a explicação do animal político, de cuja hierarquia derivou o social. As formigas, abelhas e térmitas deram cabo da distinção. Outros disseram que era o animal que ria; as hienas, de forma reflexa, mas os gatos, exprimindo contentamento, reduziram a cacos a teoria. Com o entendimento e utilização de símbolos pelos macacos, são Cassirer e o seu animal simbólico que morrem. Há que achar uma especificidade incontestável da nossa Essência. Eu proponho a de sermos o único animal a que obceca o dilema de, para não ser absolutamente repulsivo, ter de viver assombrado pela insatisfação com o que vai sendo.
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09:40
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Atalhos: Condição Humana, Símbolos
segunda-feira, 9 de junho de 2008
De Tirar o Sono
Então a culpa era do Sr. Edison, ao inventar a lâmpada fez com que cortássemos sem piedade no período em que dormimos! Nada de nos culparmos a nós, claro, somos lá dotados de livres arbítrios e primitivismos quejandos! Aliás, desorganizado o sono, nada mais fácil, toma-se umas pílulas que evitem os efeitos primários da anarquia subsequente. Quanto aos colaterais, passarmos a realizar uma série de actividades na pele sonambulizada, que importa, se a culpa não é nossa? na mente medieval, passada para o Período Isabelino, o sonambulismo era justamente o estado em que o remorso batia mais forte. Na nossa triste idade, que pretende a todo o transe alijar as culpabilidades, é a circunstância em que se liga ao automático, de modo a não sermos responsabilizados pela falta de sentido e atrofia do prazer, infelicidades eminentemente imputáveis à farmacologia. Está mal. É que o sono dos justos era o que dispensava os químicos e não era prejudicado pela Luz.
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11:26
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Atalhos: Condição Humana, Saúde, Sociedade
domingo, 8 de junho de 2008
Oceanário de Nós
Como dar préstimo a uma Jornada Internacional? A de hoje - dos Oceanos - não apresenta problema de maior. Começando por render justiça à Amiga que vive nas Nuvens, celebrando os barcos que das nossas costas os conquistaram, podemos ilustrar com a pintura supra, angustiante sugestão, não apenas de nos irem faltando as descobertas heróicas que nos redimam, como, menos imageticamente, de estragarmos sem rebuço os recursos naturais de um meio, o qual, se não acabará, pode ficar irremediavelmente comprometido. É na inconsciência que nos faça Cains deste Abel que ganha pertinência a consideração de um vínculo fraterno entre a Humanidade e as Águas, lembrando-nos - bem precisados nos mostramos - de o domínio das ondas só ser verdadeiramente grande quando não as agredimos irremediavelmente, isto é, quando não perdemos o dos nossos actos. De Baudelaire, traduzido por Amorim de Carvalho,O HOMEM E O MAR
Homem, tu prezarás o mar eternamente!
o mar é o teu espelho: a tua alma sondas
no desenrolamento intérmino das ondas;
tu´alma é qual o mar, escuro abismo ingente.
Com estranha alegria abraças tua imagem,
quando te banhas nele; e estremeces ouvindo
o teu próprio rumor no seu rumor infindo
- êste eterno lamento, indómito, selvagem.
Tenebrosos vós sois, recatados, discretos:
homem, ninguém sondou as tuas profundezas!
mar, ninguém te conhece as íntimas riquezas!
tanto nos ocultais vossos meandros secretos!
E os séculos, porém, passam inumeráveis,
e vós vos combateis sem piedade e remorso,
com tal ânsia empregais na luta o vosso esforço!
lutadores de sempre! ó irmãos implacáveis!
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17:30
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Atalhos: ar, Condição Humana
sábado, 17 de maio de 2008
País Em Fuga
Aqui está um resultado de estudo que me surpreendeu. Sempre pensei que houvesse mais tentativas de sucídios entre os homens, mas parece que são as Mulheres que ocupam essa duvidosa dianteira. A minha ideia firmava-se numa constatação, a de, nas minhas relações e conhecimentos, a parte masculina não admitir sequer a concorrência do Belo Sexo, o que, pelos vistos, não constituía uma amostra significativa. E num duplo diagnóstico caracteriólógico, o de Elas serem mais capazes de aguentar a dor do que nós e o de, por este lado, ser muito mais frequente a tentativa de aumentar a própria envergadura através da retumbância de um acto definitivo.A bem ver, poderia suspeitar-se, meditando nas causas. As sujeições acabrunhantes talvez ainda ameacem mais o Sector Feminino, assim como a maior propensão a depressões poderia contribuir. Mas o conformismo diante das contrariedades da vida também se suporia maior.
Claro que falo apenas da abrupta decisão de precipitar o fim desta vida, não já da desistência dela. Igualmente acreditava, pelos vistos laborando em erro, que os meios de auto-infligir-se o fim eram mais radicais no Sexo Fraco - gás, mergulho de edifícios altos, do que o manejo de armas ou comprimidos, sempre susceptíveis de falta de habilidade.
Será que ficarão outrossim abaladas as convicções de ser na masculinidade mais frequente a assunção de fracasso pessoal no desmentido do projecto pessoal que se fizera e de ser nas Senhoras muito mais rara uma segunda tentativa, falhada a primeira?
Depois desta surpresa já não arrisco certezas. Até porque lembro sempre a propalada ideia entre a intelectualidade francesa do Sécilo XIX, de que a voga moderna do suicídio era importação de Inglaterra, concluindo que os Britânicos o faziam para desenfastiar-se e exortando-se a deixar-lhes esse passatempo, que não conviria quer ao carácter, quer ao clima da nova Gália. Quando a percentagem, sabe-se hoje, era maior em França.
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20:51
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Atalhos: Condição Humana, Mulher, Pecado, Sociedade
domingo, 11 de maio de 2008
Inversões da Ampulheta
Foi a Felicidade que nos condenou à medição do tempo? Não estou tão certo, pois o Casal Adâmico consta ter vivido nela e, ao contrário da famosa Sibila que pediu e obteve a imortalidade, esqucendo-se de solicitar a manutenção da juventude, os nossos mais longínquos Avós igualmente estavam subtraídos ao envelhecimento, antes da Queda.Esta foi afinal, se não o contrário da Felicidade, ao menos um certo cansaço dela, como presente recebido, na medida em que ambicionaram o contrário, com o risco dos infractores, quer dizer, a Ciência, para a substituírem por um Presente conseguido. Assim o tempo verbal que tomou o lugar do brinde originou a cronologia em corrida imparável, essa suprema ironia de Deus, fazendo do anseio de apreensão de uma temporalidade o aprisionamento nas garras em fuga dela.
Por isso não se estranha que a notabilíssima Cecília Meireles tenha dado ao poema anexo o título de EPIGRAMA (2). Mas não era, como pareceria, dirigido à Felicidade, era-o à nossa Condição:
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.
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11:32
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Atalhos: Condição Humana, Poesia, Tempo
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Venda de Vendas
Ontem encontrei na caixa de e-mail, enviado por Pessoa que muito estimo, um inquérito pré-ordenado, com a questão Você acredita que o amor é cego? e as opções sim e não. Como deixei de votar em coisas sem sentido, como eleições, resolvi exercer o meu direito cívico em campos realmente importantes e que a minha consabida ingenuidade insiste em ter por intemporais.Querem crer que estive 77 minutos hesitante entre pôr a cruzinha na afirmativa, ou na sua desafiante? É que quis escolher, não sem reflectir. Finalmente percebi a vantagem do dia de defeso entre as campanhas eleitorais e o acto, mas só nestas temáticas em que os partidos não esporeiam as tomadas de posição.
O meu problema era o das juntas médicas que determinem a quantificação de perda, numa deficiência. Cego em que sentido? No de não perscrutar no leque das escolhas? Isso parecia-me Romantismo incompatível com as constatações que me acompanharam, pela Experiência, ou simples Observação. Cego quanto aos obstáculos? Isso depende dos temperamentos, além do que o que surge intransponível a uns é uma franquia escancarada para outros. Cego quanto aos defeitos do Ser Amado, que de todo se quer ignorar? Aí sim, durante um certo tempo, nunca nos perdoamos um erro de selecção, pelo que a capa da afeição pelo parceiro é muitas vezes uma sublimação do nosso amor-próprio na corda bamba.
Mas acabei por votar sim. E porquê? Porque detectei, enraizado no nosso património cultural comum, no nosso imaginário, diriam cientistas sociais chatos e compiladores, uma necessidade de fingir a invisualidade da paixão, como incitamento e justificação de investir-se. Depois, fui ver a contagem; e setenta e tal por cento tinham posto a cruzinha no quadradinho positivo.
Pelo que tiro da história uma moralidade irrecusável: o Amor é aquele cego que devemos sempre ajudar a atravessar a rua, tendo em mente que o é à maneira de Miguel Strogoff, são as lágrimas que lhe permitem voltar à clarividência.
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11:11
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Atalhos: Condição Humana
quarta-feira, 2 de abril de 2008
O Nexo dos Anjos
A Fugidia convoca a gaivota e o gato que a terá ensinado a voar para concluir que, em matéria de altos voos, no atrevimento é que está o ganho. Mas a sabedoria chinesa já tinha detectado a proximidade felina com entes alados: um provérbio sínico diz que a coruja é a irmã alada do gato.Não é vão nem fantasista adágio. Estando a ave, como o mocho, ligada à Sabedoria, urge assimilá-la ao mais belo mamífero, indiciador da Subtileza. O conhecimento sem esta é opressor. Ela sem saber é estéril.
E tudo se harmoniza.
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11:45
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Atalhos: Condição Humana
Criatividade na Alegria
A Ana Vidal quer afastar as nuvens que pairam sobre nós, através do verde que detecta nas árvores, entre outras voltas tão complicadas como sedutoras. Pergunto eu, por que razão não bebemos antes dessas formações ameaçadoras e gasosas, aprisionando-as, enquanto lhes fazemos tomar o lugar pelas verduras que nos encantam?Corações ao Alto!
PS: Assim, até a nossa Nefelibata Cristina Ribeiro poderia brincar de camuflar-Se...
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11:25
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Atalhos: Condição Humana
domingo, 30 de março de 2008
Atracção Multi-Usos
Mas nem só de fichas, dados e cartas vive a História deste equipamento, como agora se diz. Seu antecessor directo, quando Santo António do Estoril, hoje Estoril tout-court, ainda era um pardieiro, foi o Casino Internacional, do Monte, aqui dado na sua segunda morada, que a primeira foi onde ficou o hoje decrépito Hotel Miramar. Branca de Gonta Colaço e Maria Archer dizem que constituiu, até à grande Guerra, um centro mundano de primeira grandeza.
Falida a Sociedade Monte Estoril e criada a Sociedade Estoril, começaria uma nova vida da localidade como centro e propaganda e visita, mas só com a constituição de outra, a Estori-Sol, na década de 1950, se voltaria a pensar na construção de um novo Casino, o edifício que hoje nos parece lá ter estado sempre. Publicou a empresa que o explora um gigantesco album da sua vida, de onde retiro estas imagens. Mas nem só de jogadores fez o seu nome, apesar de ter levado à cena um espectáculo inspirado em 007, «Ordem Para Jogar». Cá vieram muitos dos grandes artistas internacionais, pelo que aproveito a fotografia de Amália com o grande Mário Moreno (Cantinflas), para homenagear o Filomeno, Que sei admirador deste último.
Os textos têm interesse e não pude deixar de me comover com o de Vasco Graça Moura, igualmente avesso ao jogo, o qual confessa a sua escassa biografia no campo, integrando porém uma aposta de cinco Francos em Baden-Baden, como homenagem a Dostoievski...
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11:35
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Atalhos: Condição Humana, Livros, Sociedade
sábado, 29 de março de 2008
O Tempo e a Luta
Claro que o velho protestante - como se definia - visando resgatar a Individualidade das ameaças que de todos os lados impendiam sobre ela, teria de, nas suas palavras, ele que acreditava num Criador mas não era Cristão - chegar a um flirt com a Igreja Católica, por ser a única Instância actual que, consistentemente, preserva a dignidade, pela defesa do Livre Arbítrio. E, numa vida tão longa como a que o contemplou, de concluir pelo crescimento moral que a idade avançada permite.
Nas nossas experiências, nas nossas tarefas, nos nossos deveres, quantas recriminações! Recriminações: quer dizer que nós não demos a resposta esperada. Recriminações aos olhos dos pais, dos mestres, dos camaradas, dos amigos, também daqueles que encontrámos casualmente. Dislates ligeiros, inconveniências, pretensões, gafes, faltas de jeito, más acções.
Seja: está longe, tudo isso, a anos e décadas de distância, ou remonta mesmo aos nossos tempos infantis. As feridas que nos infligimos, a nós e aos outros, estão há muito cicatrizadas. E há muitas coisas que nos resta saber ainda. Os parceiros, os cúmplices, os interessados estão mortos desde há muito. E enquanto vivos já tiraram a sua vingança de nós, ou nos perdoaram. Mais ninguém sabe o que quer que seja.
Nós expiámos, mas as cicatrizes são sempre dolorosas e, por vezes, doem mais do que as feridas. Os males que sofremos esquecêmo-los, mas àqueles que cometemos, não lhes vemos o fim.
Como explicar estas investigações retardadas de camadas interiores de que a vida se retirou, essa inquietude que recusa o apaziguamento? Primeiro, pelo facto de que, desde logo, nós envelhecemos e o nosso discernimento moral se afinou. Mas então a recordação das nossas boas acções deveria desculpar-nos. Ora, nada disso se passa. Nós erramos através do nosso passado, como se o bem se tivesse emancipado, assim como que através de uma passagem de que não apercebessemos senão as irregularidades, as depressões e os abismos.
Ou seja, na Memória sem auto-complacência reside o fundamento do Digno, pressuposta a linearidade do Tempo.
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19:04
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Atalhos: Aniversário, Condição Humana, Liberdade, Ser, Tempo
segunda-feira, 24 de março de 2008
Domínio Que Se Esvai

Quanto mais ténues são os contornos de cada concretização da nostalgia, infirmando o carácter vago que a atenção dos observadores lhe associa, lutam sem quartel dois desejos por um espaço que tem a fenda do abismo continuamente a alargar-se: Pretender conservar uma imagem daquilo que se quis e fazer por afastar a dor da falta. É do clamor imenso desta refrega que estoira o silêncio condizente com a ausência, tornando cada vez mais longínquo o oásis propiciador de algum consolo, a memória a que procurávamos encostar-nos. Qual das duas será mais terrível, a dor pungente das imagens que nos assaltam, ou a impotência progressiva de as reconstituirmos?
De Marta Mesquita da Câmara,
SAUDADE
Alguma vez soubeste o que é saudade,
Que faz da nossa vida uma agonia?
Alguma vez no espaço dum só dia
Sonhaste percorrer a eternidade?
Perdeste alguma vez a Liberdade?
Sentiste emurchecer tua alegria,
Como ao cair da noite murcha o dia,
No derradeiro tom da claridade?...
Se nunca presumiste o que era amor,
Despindo as galas e vestindo a dor.
Se uma saudade, enfim, não conheceste,
Não saias do limite da razão
Para atender a voz do coração,
Que o maior mal ainda o não sofreste!...
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Atalhos: Condição Humana, Destino, Liberdade, Poesia
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O Problema do Xadrez
A discussão que bruscamente emergiu sobre as alegadas origens africanas do Xadrez deixam-me frio: não só me parece abusivo querer fazer remontar a jogos simples de tomadas de peças a complexidade diversificada de movimentos que apelem mais imediatamente a cálculos elaborados, como a eleição do traço primordial do jogo a recair na disputa, em vez de no problema, me é estranha.A conotação da essencialidade da vitoria foi pintada por um romancista de mérito, A. Perez-Reverte, numa personagem deominada pela psicanálise de fancaria, em «A Tábua de Flandres». Mas, num plano mais longínquo, também a claque que favorece grandes Mestres em função de ideários políticos me parece de abolir. Lembro o anti-semitismo que despertou antipatias contra Alekhine e Fischer, ou a transposição da Guerra Fria para os embates entre o "dissidente" Korchnoi e o "mais alinhado" Karpov. Os génios neste jogo devem unicamente ser julgados pela sua capacidade e, fora dele, então, pela personalidade, que não se resume a convicções.
Mas a dimensão moral do tabuleiro só foi plenamente apreendida numa hostória Zen: um desiludido da abastança dirigiu-se a um velho sábio religioso, dizendo querer consagrar-se ao ascetismo e ao estudo e que na vida unicamente se conseguira interessadamente aplicar no Xadrez. O Guru mandou então vir o monge campeão do jogo e disse-lhe que jogasse com ele, sendo o perdedor, de seguida, decapitado. A pugna foi sendo dura, empenhadíssima e meritória, até que o novato, vendo no adversário tantos anos de aplicação e culto, onde a sua vida fora futilidade e dissipação, voluntariamente erra, para perder.
Disse então o Mestre:
Não há vencedor nem vencido. Não rolará qualquer cabeça.
São necessárias duas coisas: a concentração e a piedade. E hoje aprendeste as duas.
Tudo o que fique aquém deste perfeccionismo ético é impedir o peão de se transformar em peça de mais valia. E continuar com a cabeça a andar à roda, pela embriaguez de si.
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Atalhos: Condição Humana, Ser
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
A Vida A Salto
Como o final foi feliz pode-se brincar à vontade sobre esta variante de uns Pais quererem ver a Filha bem lançada na vida. Mas é situação que não deixará de tocar os mais empedernidos o dilema, sem tempo para sopesar as opções, de deixar ser afectado pelo fogo ou precipitar das alturas, sem garantias de sucesso, um ser tão frágil e tão amado. Uma coisa é certa, o catcher que deveria superar todos os vencimentos milonários do baisebol profissional encarna em agente da polícia que agarra sem tremer uma bola daquelas.
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Atalhos: Actualidade, ar, Condição Humana, Polícia
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Fantasia de Optimismo
Como ninguém leva a mal, suponho que, por uma vez e neste período, me seja perdoada a candura com que, excepcionalmente o vejo. Se costumo invectivá-lo por achar que não é preciso inventar desculpas para as pessoas se tornarem piores, já bastando o que basta, cingindo-nos à exibição da beleza dos corpos femininos, com o colorido inerente, há que reconhecer-lhe a aptidão a abstrair do cinzentismo da vida do resto do ano, em que as partidas são muito mais duras do que a de formas que não correspondam aos nossos devaneios, onde as máscaras de todos os dias são defesa e duplicidade, mais do que catapulta que projecte encaixes no desejo.Irreconhecível que me julgo ter tornado com o disfarce de optimista, dou aos que o são todos os dias a possibilidade de entrarem numa mascarada que os faça diferentes, com o poema de Silva Bastos:
CARNAVAL
Carnaval da alegria, das risotas,
Dos assaltos, dos bailes e saraus;
dos palhaços que davam cambalhotas,
E dos «chés-chés» que se fingiam maus;
Das mamãs e meninas mascaradas
De ciganas, minhotas e varinas;
E as ruas sem sol, todas fechadas
Num autêntico céu de serpentinas;
Deixa-te estar tranquilo e sossegado
Porque ao Passado já ninguém regressa!
Não perturbes a calma do Chiado...
Carnaval! Carnaval! Passa depressa
E põe de lado a máscara do engano!
Para tormento, em alta sombra erguida,
Bem basta o Carnaval de todo o ano:
Esta dança da luta pela vida!
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Atalhos: Condição Humana, Poesia



