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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Paixão Que Veio do Frio

Amor Num Clima Frio de Anil DayalNão me quero ir sem revelar um história comovente que resiste ao cinismo. O dia de anos de Admunsen foi o pretexto para pensar num seu colega explorador dos Pólos, Nansen, que, amantíssimo da Mulher, exigiu que dele se divorciasse, antes de uma das suas perigosas explorações, por não querer que ela corresse o risco, caso não voltasse, de ficar vinte anos sem estado civil definido, o tempo de ausência que a lei estabelecia para presumir a morte.
Voltando, foi a divorciada esperá-lo e comunicar que queria contrair segundo casamento, tendo-lhe o ex respondido que deixara a liberdade para esse efeito, caso fosse a sua vontade. Foi quando a anunciadora retorquiu que o noivo que tinha em vista era... ele.
E re-casaram, vivendo com felicidade que ainda consta até que ela morreu, sendo ele o principal diplomata da representação da Noruega em Londres.. Nos transportes do luto fresco desabafou:
Agora que já nada me liga ao mundo, hei-de chegar ao pólo. Até aqui tinha a minha mulher, que me atraía para o Sul, fazendo-me voltar das minhas viagens. Mas esse elo, que tão fortemente me prendia à vida já não existe e só regressarei se conseguir chegar vivo ao termo da viagem.
Suspeito que tão tórrido afecto terá sido o causador do início do derretimento da calota polar.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Gama de Missões

Como a 8 de Julho partiu o Grande Almirante para a descoberta da Rota das Índias, fui reler esta conferenciazinha muito bem escrita, que assenta no propósito anti-gaiola de cinco arames de conferir a esta Glória Pátria não apenas a representatividade da aptidão nacional, mas mais, o cumprimento de um mandato civilizacional tácito assente em dois pontos básicos:
- a aproximação das Religiões de Caridade do Budismo e Hinduísmo por um lado e do Cristianismo, pelo outro, contra a ameaça de um credo expansivo e belicoso.
- A contenção da propagação islâmica que encontrava quintas colunas em governos da própria Cristandade, como hoje, acrescento, procura que lhe abram a portas partidos no interior da Europa. O que presentemente são os coniventes com os influxos do Islão Radical e os que pregam a defesa contra ele foram, nos anos que precederam a nossa aventura oriental, Francisco I e Carlos V, respectivamente.
É a rememoração dos feitos algo de crucial quando não abdica de equacioná-los, de forma a identificar os paralelos, quer em sede de problemas, quer de soluções. O que é bem diferente do mero comemorativismo de pastel de bacalhau e copázio de tintol, apenas capaz para nos acharmos óptimos pela obra que, individulmente, outros realizaram.

domingo, 29 de junho de 2008

Os Irresponsáveis

29 de Junho de 1919. Foi tornado público o texto assinado pelos Quatro Grandes vencedores da Grande Guerra, que, ao contrário dos Mosqueteiros, eram três, já que a Itália foi chamada apenas para o borrão. Tudo neste documento precipitaria desgraças piores. Cegos pela Revanche, em vista à qual Rémy de Gourmont era o único dos do seu País que dizia não levantar o dedo mindinho, que lhe era necessário para abater a cinza do cigarro, os Franceses impuseram tudo o que não conviria - desmilitarização do Reich, deixando-o à mercê das revoluções e da demagogia armamentista do primeiro que aparecesse. Fractura da continuidade territorial alemã, com um inimaginável enclave nesse Dantzig que iria despoletar o conflito seguinte. Responsabilização unilateral e tentativa de criminalização de Guilherme II, a que só a intransigência do asilo holandês e algum bom senso Britânico puseram cobro. Intimação de aceitações vergonhosas a negociadores Judeus da República de Weimar, abrindo caminho ao desenfreado anti-semitismo de um País que, como estudou Hannah Arendt, não possuía longa tradição dele. Combinados com Wilson, a selectividade na auto-determinação, fazendo referendos no Schleswig, mas não na Alsácia-Lorena, para decidir os países a que pertenceriam, uma espécie de Democracia da UE que bem conhecemos. Além do draconianismo do faseamento das idemnizações de guerra, que estrangulavam a economia germânica e de uma voracidade mal disfarçada sobre o Sarre, com precursores episódios de resistência análogos aos que se verificariam no seu próprio território, após 1940.
A sede de vingança deu na total ausência de sentido de Estado. Ao invés de ficar com zonas fronteiriças e reparações aceitáveis, à Bismarck, quiseram minar completamente a ossatura de além Reno, como o Governo do Kaiser também impensadamente fizera, com a exportação de Lenine para a Rússia, deixando os seus agora ameaçaqdos pelos sequazes dos mesmos princípios. O desequilíbrio dos homens leva facilmente ao das Pátrias e diminuir o peso destas é, a prazo, votar todo o Continente a amargos de boca maiores. Mas há quem não aprenda.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Cingir

Lendo a notícia da inclusão do Príncipe William de Inglaterra entre os membros da Ordem da Jarreteira, que, ao contrário da do Soberano e do Príncipe de Gales, não era forçosa, saltou-me à ideia um feixe de reflexões que o tema permite.
Primeiro, a a origem, que muitos espíritos inconformados com a mensagem erótica da lenda não querem ver apenas a galanteria de Eduardo III, apanhando a peça íntima deixada cair pela Condessa de Sallisbury. Desses, uns exergam na divisa Mal Haja Quem Mal Cuide, em francês, expressa uma afirmação dos direitos feudais do Rei das Ilhas a terras gaulesas do continente, para além da razão do baile, que seria a tomada de Calais. Outros, como Margaret Murray, obcecados por tudo explicar pela generalização de prática religisa de fundamento comum, dão o evento como uma negação da bruxaria que à Dama se pudesse atribuir, na vertente de adoradora do Deus Cornudo e de que a jarreteira seria símbolo traidor do segredo.
A explicação alusiva à sexualidade, dada a brincalhona e ostensiva alusão, parece-me, evidentemente imbatível, por mais conforme ao espírito festivo do Tempo, do que Política Internacional e Esoterismos.

Mas há uma cabala em que a Ordem releva: a da campanha insidiosa movida pelos agitadores Republicanos contra D. Manuel II, aqui representado nas insígnias respectivas. Os proopagandistas contra o Trono espalharam. na sua imprensa e pelo boato, que a viagem Real a Inglaterra fora um fracasso, com pouquíssima atenção dada ao nosso Monarca pela Corte e Realeza Britânicas. Quem leia «A Comédia Política», de Joaquim Leitão, verá o testemunho de um elemento da comitiva demonstrando pormenorizdamente o contrário. E não deixa de ser irónico que tenham sido os que viriam a mendigar recepções ao seu infeliz representante em Londres, Teixeira-Gomes, os contrafactores da mencionada falcatrua. Mas para quem ponha em dúvida testemunhos, há sempre a possibilidade de recorrer aos registos deste restritíssimo clube de Honra - o cerimonial completo da recepção no celebrado número dos agraciados, em tempos próximos, só ocorrera, para além do nosso Rei, com o Irmão, D. Luís Filipe e com o Rei da Noruega. E cabeças coroadas de Países bem mais poderosos haviam sido na mesma distinção incluídos.

Sibila a Três Tempos

A 25 de Junho de 1843 morreu Mademoiselle Lenormand, celebérrima deitadora de cartas que errou nessa previsão, pois vira-se para lá de centenária e deu a a alma ao Criador com pouco mais de setenta anos. Foi apenas um dos seus notórios falhanços, pois já dissera a Josefina que acompanharia no trono os esplendores de Napoleão, até ao fim. Este, aliás, hesitava entre afastar a Mulher daquela influência e a consulta dela, tendo dito em Santa Helena que ela descrevera tal exílio e os carcereiros com minúcia.
Simpatizande do Rei, foi solicitada profissionalmente por Robespierre, Marat e Saint-Just, o que não a impediu de ser presa durante o auge revolucionário, em 1794, por se haver atrevido a predizer uma contra-revolução. Talvez tenha sido a lição que a levou a só dizer coisas agradáveis à pobre Imperatriz em vias de ser repudiada, que o profeta da desgraça é também um mensageiro de más novas que urge punir, mesmo que não já matar.
A vertente desta patrona de um específico tarot que me seduz mais é a de agente informadora da Polícia de Fouché. Sabe-se que ele a inquiria sobre o Presente dos frequentadores, não sobre o porvir deles. Ora, que preciosas informações poderia ela dar nesses domínios, que não eram a sua especialidade? Não são só os treinadores de futebol que colocam jogadores fora do seu lugar natural, está visto. Mas, hoje por hoje, é o seu conhecimento do Passado que a faz mais lida, uma vez que publicou Memórias interessantíssimas do mundo famoso que conheceu. Os oráculos deixaram de ser monopólio de um tempo só.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Fontes da Maria

Está em cena uma peça que, pelas notícias que chegam, parece ser alegre e librérrimo desvio da História, Nada a obstar, do ponto de vista da Liberdade Artística, mas convém precisar alguns factos, para sabermos que terrenos pisamos.
Por muita protecção que D. Maria II haja dispensado ao Conde de Tomar & Companhia Limitada, na fase inicial do levantamento popular da Maria da Fonte nada se podia ouvir contra a Rainha. Pelo contrário, davam-se vivas a ela e, antes do acaudilhamento da sublevação pelos notáveis, representantes Legitimistas e, depois, pelo Padre Casimiro,o filomiguelismo, contrariamente ao de outras regiões do País, não era reportado directamente à Figura do Rei exilado, mas, despoletado pela proibição de sepultar os mortos nos templos, à rejeição das inovações legislativas abstractas, sob a divisa Vivam a Santa Religião e as Leis Velhas! Morram as Leis Novas!
Nesta viçosa guarda da Tradição por um levantamento inicialmente feminino, o problema da identificação da figura emblemática que lhe emprestou o nome acha-se razoavelmente sintetizado aqui, mas convém acrescentar que a célebre Maria Angelina, de Simães, se apresentou ao Padre Casimiro, reivindicando ser a verdadeira e única Maria da Fonte, contra outras candidatas. E disso o terá convencido, pois por ele foi considerada heroína e gratificada com a quantia notável para o temo de 4$800 réis.
A versão muito popularizada por Camilo deve ser posta de parte, porque assente nos apontamentos que Ferreira de Mello e Andrade lhe transmitiu, os quais, segundo artigo de Francisco M. M. de Oliveira publicado em 1903 afiança, foi-lhe confidenciado pelo Autor serem obra de ficção, coisa corroborada pelo filho do próprio.
Por fim, a questão da Fonte parece de facto encontrar explicação na estalagem da Póvoa de Lanhoso junto de uma, em que se reuniam as revoltosas, embora a sua proprietária Maria Luiza Balaio nunca haja integrado as insurreições, limitando-se a dar coragem às que nelas entraram, O mais provável é a designação ter sido de origem compósita, em que a noção do local de partida e sua dona se amalgamou às Mulheres de Armas que afrontaram o Liberalismo Cartista.




sexta-feira, 20 de junho de 2008

Fuga Sem Arte

20 de Junho é o primeiro do fatal acontecimento de Varennes. Não devemos lembrar tanto o folclore imaginado ou não de ter Luís XVI levantado uma cortina da janela da carruagem e ter sido reconhecido pela efigie nas moedas que corriam. São factos de que os relatos mais autorizados prescindem e, apesar do valor simbólico de a curiosidade ser fatal, para Reis como para o gato do provérbio, bem como de o dinheiro aparecer, recorrentemente como o maior inimigo da Tradição, o que devemos reter, para além da notória incompetência na camuflagem da viatura - que chamava todas as atenções e mais algumas - é que, depois de muito ceder já não rsetava capacidade mobilizadora de outros centros urbanos contra os revolucionários que dominavam totalitariamente Paris. A haver fuga, sempre pior que uma resistência heróica, que tivesse sido no princípio, como nesse Outubro de 1789 em que fora pensada. E não agora, quase dois anos depois, apesar de a mitologia revolucionária da traição cair pela base quando sabemos que a Família Real se encontrava prisioneira de facto, impedida de se deslocar até a cerimónias religiosas como a de Saint-Cloud.
A partir daqui, tudo estava perdido, porue o medo e o fracaso se prestam a todas as caricaturas, como a de a detenção se ter devido a uma permanência excessiva à mesa da hospedaria, já que a gula tinha caução expressa de Nostradamus quando escreveu deste Rei, Roy desrobé, trop de foy en cuisine, num passo próximo da expressa menção de Varennes, o que vai um pouco mais longe que o jogo interpretativo feito de literalidades e simbologias dos ditos proféticos, de modo a fazê-los encaixar.
Não era preciso ser profeta para perceber que a cedência em quem tem responsabilidades é a perda da cabeça. Literal ou metaforicamente.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Camões, Modo de Usar

Camões. No dia Dele, uma biografia pouco vista mas bastante competente e nada enviesada, ao contrário das apropriações do Épico que, quanto a mim, ainda foi mais esplendoroso Lírico. Em baixo, o começo do martírio post mortem, com a imagem da colocação da primeira pedra no monumento da praça que Lhe tomou o nome, assemelhando-se o toldo, profeticamente, ao formato de um cadafalso. A partir do Ultimatum de 1890, transformar-se-ia, após os panos negros colocados lá pela estudantada, em local de romagem de todos os Republicanos subversivos, com campanhas para afastar das concentrações a própria Família Real que se associara à construção do Monumento. Como no Pós-Abril, se reduziu a pó a História pessoal, em tudo o que era teatro experimental transformado em revolucionário e oprimido, como hoje, celebrado pelos poderes que não quiseram morrer pela Pátria e se vão entretendo em celebrar uma universalidade sem sentido, porque desvinculada da presença auto-suficiente, com hossanas que soam a falso ao Grande que dissse ao menos morrer com a Pátria.
Pela própria perda de uma vista, aproxima-se da vidência do Poeta Cego, presente ao longo de várias fases do imaginário do Ocidente. O que celebrou foi a magia do Império e a Grandeza dos Reis. Mas do uso que Lhe deram será ele o único que não pode ser culpado.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reconhecimentos

É sempre bom ver reconhecido o Mérito. Com a fotografia da homenagem da Cidade de Guimarães a João Franco, creio que dos anos 1930´s, aquando da inauguração do monumento que lhe ergueram, sendo orador Eduardo de Almeida, além do do Estadista, que não idolatro mas reconheço ter tentado remar contra tristes marés, bem como o da Histórica Cidade-Berço, serve o presente para homenagear o da Incansável Cristina Ribeiro, Bloguista recente mas notabilíssima, que Se vem revelando infatigável na evocação do Patriota.


domingo, 1 de junho de 2008

Turismo do Passado

Suzanne Chantal, a quem o nosso País deve muita atenção e um difundido estudo da vida quotidiana setecentista, publicou, em certo número da revista «Historia» de 1963, esta gravura de Mulheres Portuguesas na Sua Casa; e o seguinte trecho, a todos os títulos surpreendente, acerca da parte feminina da Aristocracia pós-Terramoto:
Elas passam os dias agachadas nos ladrilhos dos quartos, com as portadas das janelas fechadas, mascando longamente pedaços de alcarazas que lhes dão bom hálito e lhes fazem os dentes belos, brincando com cãezinhos ou escutando um escravo salmodiar queixas voluptuosas e tristes.
Odaliscas, têm-lhes também o trajo: uns corselets de veludo muito decotados, écharpes de seda mole que lhes deixa a cintura livre, largas calças de gaze ou tafetás à turca, pés nus nas babuchas. Algumas trazem mesmo um turbante sobre os seus cabelos soberbos, soltos ou entrelaçados de fitas e pedrarias. mas uma cruz de ouro pende de uma fita de veludo ou de um colar precioso, entre os seus seios semi-nus.
Gostava de saber a que fontes terá recorrido. Isto cheira-me a impressão de algum visitante estrangeiro que haja tomado pequeníssima parte da realidade, senão uma fantasia unilateral dela, pelo todo. Muitas das fontes que lemos dão a Corte como seguindo as modas francesas e, inclusivamente, o censuram. E de reclusão, nicles, pois o que andou em voga foi abrigo em tendas e divertimento na rua, que terão feito até José Acúrcio Tavares (Bento Morganini) dizer que o que as nossas elites queriam era só barraca. Também o trajar era resolutamente europeu, conforme documenta a gravura seguinte.Só descortino duas vias de explicação - ou a amplificação de uma desconformidade de costumes com a de uma atmosfera próxima da de «As Ligações Perigosas», ela própria com valor mais vanguardístico do que exemplificativo, ou a sede de exotismo que se iniciara antes, como o Grand Tour e continuaria a seguir, com o Romantismo, desejosa de se deixar prender à fascinação da atmosfera de harém, mas inclinada a procurá-la numa franja da Cristandade, sem as repulsas despertadas pela barbárie colada às imagens de marca Turca ou Árabe.

domingo, 25 de maio de 2008

Madame De...

Ainda para ilustrar, de forma pouco antecipável, como o espartilho pode corporizar a luta entre a liberdade e a escravização de uma Mulher, cumpre lembrar uma história curiosa. Kitty Schmidt, a proprietária da mais célebre casa de meninas da Berlim do tempo de Hitler, tentou passar-se, com a astronómica soma de mil libras escondidas no corset, para fora das fronteiras do Reich. A razão? O medo de aceder ao ultimatum de Heydrich, o qual queria utilizar o estabelecimento e algumas seleccionadas profissionais dele para recolha de informações sobre as elites nacionais e estrangeiras que o fequentavam. Apanhada, teve de ceder, sendo instalada na sua afamada pensão, pelos inevitáveis expoentes da Gestapo e SD Naujocks, Schellenberg e Schwarz, um sofisticadíssimo sistema de escutas, que deu para, entre muitos outros, ouvir as confissões de Ciano e de um falador diplomata da Embaixada Italiana. O próprio Heydrich foi escutado, numa distracção do responsável pela espionagem do local, que custou a este a ida para a Frente Russa num batalhão disciplinar SS. Em 1942 uma bomba aliada destruiu o confessionário, ultra-eficaz porque involuntário. Foi reconstruído o prostíbulo noutro local, pelos SS, mas o seu melhor tempo tinha passado.
Para os cinéfilos, foi esta uma das fontes em que se inspirou Fritz Lang para o derradeiro filme da série «Mabuse».

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Iberismo da Ignorância

João Franco por Júlio CostaAssim como por cá ficamos furibundos de cada vez que se esquecem - como na célebre questão das moedas de euro - de desenhar um traço fronteiriço com a Espanha, pergunto-me se Nuestros Hermanos gostarão de ver-se confundidos com os vizinhos que somos, dados, no dia de que se celebra mais uma passagem de ano, por um site de efemérides como tido sido governados por um político luso. Não deve ter havido acinte, confusão de Francos, um Francisco por um João, isso sim, em responsáveis por cronologias carecidos da noção cronológica.
Mas quem sabe tão pouco dificilmente pode ser industriado do facto de os "poderes ditatoriais" aludidos serem prática institucional corrente no Rotativismo Monárquico Português e limitar-se à governação por decreto, à espera que novas Cortes ratificassem. Uma correcção de emergência das eleições viciadas que os governos nunca perdiam, papel que passou, na I República, com o inerente derramamento de sangue, a incumbir ao Exército, mantendo-se o acaudilhamento votante.

domingo, 11 de maio de 2008

Vândalos Sem Arrojo

Lendo sobre a restauração no respectivo pedestal da estátua do Infante D. Henrique, em Cabo Verde, não posso deixar de meditar na mediocridade impotente de todos os que tentam destruir as representações plásticas do que não gostam. Toda a iconoclastia é desprezível, mas a da estatuária só apequena quem faz e engrandece quem a sofre. Sem precisar de ter em mente esta prevenção, nunca me passaria pela cabeça apear ou decepar a homenagem republicana da Rotunda a Pombal, apesar de a simples menção deste nome me causar uma platónica urticária...
É bom ver arrependimento pelo mal feito à monumentalidade contra a qual se atentou; e na benevolência para com a iniciativa reparadora se faz igualmente repousar uma exortação a igual receptividade para com queimas de efígies outrora empreendidas por influência religiosa, as quais não tinham a agravante de atentar contra a Arte.No caso do Infante houve a sorte de ter sido perpetuado em medalha de boa factura o seu contributo ao engrandecimento do País e ao conhecimento do Mundo. E sou obrigado a reparar no facto de o tamanho do instrumento celebrativo ter resistido melhor, quando a sua subtracção pareceria mais fácil. A dimensão da tiragem não explica tudo, há que levar em conta que os frustrados que atentam postumamente contra os Fautores da História tentam sugar alguma vida da espectacularidade de um acto que uma sonegação no campo da medalhística não faculta.
Foi O Navegador filho de D. João I muito bem servido na escultura portátil e circulante. A concepção coube a João da Silva, o maior talento da disciplina em Portugal e, nas anedotas da sua vida, uma encarnação lusa e tranquila da figura do Génio Distraído. Tendo falecido antes de ultimá-la, foi o acabamento confiado a Vasco da Conceição, uma digna escolha para o efeito.


Como tudo está ligado, as velas do meu pensamento dirigem-se a velocidade de cruzeiro para Outro Vulto que, como o Criador da Escola de Sagres, sacrificou a constituição de uma família, com as inerentes compensações, para assegurar o Império à Lusitaneidade. Também Ele viu a pequenez recalcada estragar as imortalizações que O honravam, como se o acto não atestasse que, se a cópia ficou sem cabeça, os autores da façanha confessaram serem dela desprovidos os seus originais.

terça-feira, 6 de maio de 2008

De Cara Alegre

Cristina da Suécia, por Jacob Ferdinand VoetNa visita dos Reis da Suécia poderia lembrar a triste intervenção que a Social-Democracia daquele país teve contra a nossa luta pelo Ultramar. Mandam porém os deveres de anfitrião, a actual governação Conservadora da Nação Escandinava, como o meu feitio pouco dado a hostilizações, que, a propósito, fale de episódios históricos mais agradáveis.
Assim, deixarei para os que viveram a felicidade correspondente o cuidado de evocar a mini-revolução sexual que as jovens turistas nórdicas trouxeram à pacata Liscoa da década de 1960´s. Falarei antes dum relevantíssimo e solitário papel da Coroa Sueca, com os conselhos de Oxenstierna em ponto, a única que inquebrantavelmente defendera a nossa independência e os direitos de D. João IV, no Congresso de Munster.
Por isso, o Restaurador ordenou, em 1651, que em Lisboa se dessem salvas de Artilharia e o Senado pagasse as danças, charmelas e folias do estylo «para alegrarem a cidade», e se déssem, emfim, todas as demonstrações de regosijo, pela notícia da coroação na Suécia, do ano anterior da rainha (Cristina) «minha boa irmã, prima e confederada».
Ora, a cidade tinha vivido, dois anos antes, peste mortífera, perdera-se uma armada vinda do Brasil, fora recentemente ameaçada pela marinha do infame Cromwell, cheio de rancor pela hospitalidade dada aos Príncipes Palatinos; e mal saíra ainda de uma fome gerada pela retenção gananciosa de cereais dos atravessadores cadimos, que, em 1650, colocara a capital em artigos de Sancta Unção, segundo os documentos oficiais. Assim se gerou a expressão dar vivas por Cristina, como sinonímica de ter de festejar algo sem vontade de o fazer.
Como está tudo ligado, não resisti a lembrar esta história, em que nem falta o episódio famélico, no momento em que se prefigura um espectro de escassez alimentar. Mas para a queda da voga do anexim que é a base do postal, tenho outra explicação - por estes dias a Cristina festejada é a Ribeiro, nossa Amiga e Madrinha desta casa. E Essa toda a gente por cá festeja, cheia de ganas!

sábado, 3 de maio de 2008

Condenação das Propagandas

O Sr. Lavagem ao Cérebro, mural da CalifórniaEdmundo Pedro, homem de mão em vários fretes ao regime, vem opinar que o Parl(a)amento deve explicar às gentes o que foi - na sua óptica - a dita dura. Ou seja, que, em vez de fazerem aquilo para que idealmente são pagos, legislar, os deputados passem a anunciantes de uma imaginada bondade comparativa deste sistema, quando confrontado com o anterior; e que não tenham de pagar por esta publicidade.
Mas a intenção está condenada: se insistirem na tecla de que o regime anterior foi o contrário deles, estarão a presenteá-lo com a mais eficaz das promoções, tamanho o desprestígio que lograram atingir. Ao contrário da associação ao Hitchcock da imagem, não há suspense que lhes possa ser benéfico.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Outro Maio

Capitão Laureado Santiago Cortés González, O Paladino da Virgem

Menos conhecida do que a heróica defesa do Alcazar de Toledo, até por não haverem os resistentes sido a tempo libertados, outra epopeia nos deu a Guerra de Espanha, digna de ser hoje lembrada. Com efeito, foi a 1 de Maio de 1937 que finalmente cederam os heróicos Guardas Civis que, sob o comando do Capitão Cortés, haviam resistido a cerco e bombardeamentos prolongados, reabastecidos apenas por via aérea, tendo-se entrincheirado, com muitos civis fugidos aos Vermelhos, nesse Sanctuáro da Virgen de la Cabeza, na Sierra Morena. Cedendo apenas a um ataque final numa desproporção de 150 para 1, permitiram ao seu excepcional Comandante, ele próprio ferido por uma granada de Artilharia que O levaria para o Céu poucos dias depois, responder ao interrogatório que acreditava não haver mais resistência, por se encontrarem mortos ou feridos todos os defensores. Antes, desaparecera a imagem sagrada da Virgem, muito possivelmente ocultada por ordens suas, o que evitou que sofresse a sorte de outra iconografia santa, ali mesmo fuzilada simbolicamente pelos Rojos.
Há que reconhecer que o comandante Republicano Martinez Cartón tratou os prisioneiros com humanidade, protegendo-os dos milicianos que os insultavam e queriam matar os graduados, apesar de alguns subordinados terem morto feridos e desarmados, claramente contra as ordens. Mas não resistiu a dar um sermão em que dizia ser uma ironia que os outros, crentes, tivessem caído nas mãos deles no Dia do Trabalhador. Como se este fosse propriedade prvada dos ateus.
Neste local de aparição medieva de Nossa Senhora a um Pastor, claro precursor de Fátima, o Glorioso Militar Caído comunicava com o Campo Nacional através de pombas que ele próprio lançava. Mais ainda do que a paz por que lutou, eram estas o símbolo perfeito do Espírito Santo que O iluminava.
Imagem original da Virgem da Cabeza, que creio ainda não ter sido encontrada.
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Ajudem-nos!


Sabe-se como nos Estados Unidos se mudou o Dia do Trabalha-dor para a primeira semana de Setembro, com a justificação de o 1º de Maio ter sido apropriado pelos Socialistas e Comunistas. Aqui entre nós, é uma desculpa algo fajuta, como diriam os Nossos Irmãos Brasileiros. Lembre-se que Regime de Vichy instituiu a data como feriado, o da Festa do Trabalho e da Concórdia, por influência do Secretário de Estado René Béllin. Cá vemos o Marechal no célebre encontro com os Operários do Loire, em que, discursando, lhes pedia, como aos patrões, para não acolherem mais os demagogos, abolindo a Luta de Classes.
Ná, a explicação para a transferência do festejo norte-americano tem de ser outra. Talvez o peso na consciencia de ter dado origem a muito conflito, com os acontecimentos que formaram o mito do dia, no Haymarket de Chicago. Mas o massacre dos polícias, a condenação sem prova suficiente e o apelo dos anarquistas à violência ocorreram nos dias posteriores, a manifestação de dia 1, por um horário equilibrado, tinha sido pacífica.
May Day, juntas as palavras, dá pedido de socorro, em Inglês. Nesta dicotomia de dias celebrativos também é uma questão de espaço que marca a diferença - o da preponderância do Capitalismo selvagem versus o da desconfiança dele.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Visto de Fora

Entretanto, a propósito da duvidosa efeméride, ignoro se terá chegado a ser editado este livro, que possuo em 336 páginas dactilografadas. São as recordações do Embaixador Belga em Lisboa, à data da instauração do regime vigente. Apesar de os factos serem mais do que conhecidos e de o Autor ter sido fiel executante da política oficial do seu País, de uma aliança formal minada pela crítica da nossa presença ultramarina, traz alguns pontos interessantes, como uma panorâmica dos principais diplomatas cá acreditados à data, informação pouco reproduzida, com crueza equivalente, das origens ideológicas dos jovens governantes que Caetano levou para o governo e a escassez de efectivos do MFA, como a acentuação do carácter de defesa dos privilégios de casta postos em causa por decreto marcellista completamente tosco, apesar da aspiração de justiça.
Paralelamente, dá-nos pontos de vista interessantes
- sobre a macabra questão de Wyriamu, acentuando serem os autores das mortes forças indígenas com um quase inexistente enquadramento de oficialidade da Metrópole, o que raramente é sublinhado, deixando no ar a possibilidade de conflito tribalista na sua génese. A reacção diplomática, de solicitar ao Governo de Lisboa que assumisse as suas responsabilidades, foi completamente diversa do tom grandiloquente da campanha de imprensa.
- salienta a autorização dada a Soares, indiciado de crimes de traição, de vir a Portugal, sem ser molestado, assistir aos funerais do pai, coisa que nenhum regime totalitário, a começar por muitas Democracias, faria com facilidade.
- dá conta de que a oposição à guerra de África grassava sobretudo numa burguesia pouco disposta a põr em perigo a pele dos filhinhos. Diz expressamente que nas famílias humildes o sistema de pagamento do soldo, metade ao recrutado, a outra à família, era vista como uma fonte de rendimento alternativa à emigração, apenas com dose de risco maior, o que, acrescento no epírito do passo citado, não assustava gente dura, habituada a perdas de colheitas e outras catástrofes.
- mostra como a aclamação popular dos libertadores do Carmo tinha tido equivalente ainda mais concorrido na saudação a Marcello, às antevésperas do golpe.
- num parágrafo memorável sobre Caetano, conclui que a sua vontade não estava à altura da sua inteligência. O que, na seráfica linguagem das chancelarias, quer dizer era um incapaz para a função.
Lá que merecia o livrinho em devida forma, merecia.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Buffet

Tendo em mente que foi a 18 de Abril de 1909 que S. Pio X, correspondendo aos esforços de Monsenhor Touchet, beatificou Joana D´Arc, deitei os olhos a esta excelente conta das implicações religiosas do culto Dela. Muito se tinha andado, até que a simpatia manifesta de Leão XIII pela Sua causa levara a declaração da venerabilidade, o primeiro passo para a canonização, que só vingaria com Bento XV. Curioso é este Ex-Libris do Patriotismo Francês ter sofrido a maior oposição ao reconhecimento da Santidade pela própria Universidade de Paris, a qual, no Século XV, a proclamou "herética" e aconselhou a queima dos populares devotos.
Na primeira fase da reabilitação pelo Vaticano foi bonito ver os Cardeais Ingleses Manning e Newman, tidos por rivais e defensores de variantes teológicas opostas, defenderem-Na e ao reconhecimento pleno da Grande Inimiga do Seu País, num exercício verdadeiramente Cristão de perdoar. Como terá sido belo ver os edforços conjugados se todos os que sentiam a Nação Francesa, desde o Conde de Chambord ao Embaixador da maçónica III República, no sentido de se consagrar a glória Daquela que, já depois da Grande Guerra, veria o parlamento votar o seu festejo solene pelo regime.
Tal qual o divisionismo anti-religioso de hoje, em Portugal.

Os sites de efemérides dão o dia de hoje como equivalente ao do casamento entre Grace Kelly e Rainier do Mónaco, pelo que me parece de oportunidade não enjeitável a publicação da respectiva visita a este Estoril donde vos falo. Grace era, verdadeiramente, uma beleza canónica!

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Ai os revisionismos! Querem estragar de vez o James Bond! Dizem que neste filme manco que se prepara aparece uma Bond Girl relevante que o 007 não beija! Conjugando esta catástrofe com o que se concluiu dias atrás neste blogue, só faltava o agente perfeito transformado em analfabeto!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Memórias do Matadouro

Na duvidosa efeméride de tanto sangue inutilmente vertido, dois livros esclarecedores. Um, anárquico, repleto de lugares comuns nos fundamentos, mas importante na transmissão do que observou, o de Ferreira do Amaral. Na torrente de ideias e palavras atiradas aos olhos de quem lê falhará na identificação do que estudos científicos insuspeitos e actuais demonstraram, a utilização sem escrúpulos pelos Democráticos de Afonso Costa e Evolucionistas arrastados da entrada na Guerra Europeia como forma de legitimação que conduzisse à aceitação do regime. Mas, para além de um psicologismo pouco consequente, o de atribuir essa obsessão a uma tesura, ou conversa de valentões que nada arriscam do que lhes é próprio, põe a nu um outro aspecto, o da tentativa de justificação de um governo saído de uma revolução contra Pimenta de Castro e carecido de outro título de legitimidade.
Essa diplomacia sem escrúpulos, que fingia defender a preservação do Ultramar enquanto mandava para as trincheiras francesas tropas essenciais à sua defesa, era A Grande Mentira. E prossegue, condenando o Sidonismo, por apenas ter parado o envio de carne para canhão, sem coragem para retirar as tropas insubordinadas por faltas de toda a ordem.
Embarque do Gado, é como é chamado o sinistro envio dos nossos militares...


A outra obra, de um comandante no terreno, Gomes da Costa, é mais documental, embora menos indignada apenas no tom. Nela encontramos os pedidos de material, quadros e rotações que, não correspondidos, tornaram praticamente permeáveis as defesas consignadas aos Militares lusos. A derrocada explica-se por essas fraquezas, pura culpa do governo, como pelo moral enfraquecido que gerou a incompetente leitura das informações de concentração de efectivos inimigos, de identificação do bombardeamento preparatório, da garantia das comunicações e da própria capacidade de perceber a penetração da vanguarda alemã, a qual cortou o arame farpado e conseguiu chegar às nossas posições sem que alguém desse por ela. Daí a debandada, com os muitos nichos de bravura à moda de enclaves. Uma única Arma funcionou como bloco e eficazmente, a Artilharia, o que é uma pálida consolação para mim, por ser onde servia o meu Avô.
Ao primeiro ataque sério, o C.E.P. teve a sua débâcle. As culpas cabem inteirinhas à tríade Costa, Chagas e Norton, que pouco se importaram com a previsível carnificina, desde que se promovessem...