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sábado, 12 de julho de 2008

Os Rastos da República

Há meses anunciada, põe-se finalmente em marcha a iniciativa de complementar os laivos de historicidade de que as comemorações da Implantação da República, daqui a dois anos, possam vir a revestir-se. Como o comemorativismo de vitórias de parte da Comunidade sobre outra não costuma ser bom conselheiro para desenterrar dos arquivos toda a Verdade, tentaremos lembrar factos e lutas esquecidos, que a conveniência, a candura e o psitacismo coligados possam fazer por não recordar. É a intenção deste site, servido igualmente por um blogue, para manter vivo o debate.
Com a publicação de fotografia de Machado Santos, símbolo incontestado do início do regime, das ilusões e frustrações que o fizeram e dele resultaram, como das lutas entre os que nele acreditaram e contra os que nunca se convenceram, mais ainda, da autofagia compulsiva desse momento genealógico em que se querem filiar Poderes de hoje, agradeço a toda a Equipa ter-se do meu nome lembrado para, não direi ajudar à festa, mas sim engrossar com umas gotas o caudal da Realidade omitida.

domingo, 15 de junho de 2008

Cada Um Usa as Armas Que Tem

Quem só deixa ganhar o referendo que lhe seja favorável, mandando repetir os outros, poderá censurar o facínora que diz recorrer às armas caso perca, salvo pela violência empregada? E não se torna suspeito de enveredar pelo mesmo caminho, caso detivesse uma chefia militar no bolso, como Mugabe?
Mas se é assim, para quê organizar sufrágios, caríssimos como são? Há por cá ainda bastantes necessidades a prover, para que o dinheirinho seria precioso. E apesar de tudo, as ferraduras que nos procuram calçar não são tão dispendiosas como os sapatinhos da Primeira Dama do Zimbabwe...
Coforme demonstra o anúncio que segue, a coisa, antes de estar preta, está... castanha, graças a outra graça, a do PM Britânico mais as respectivas pressões.

O resultado do referendo Irlandês foi:

Um incidente (Presidente da França).

Uma dificuldade (Presidente Cavaco)

Um paradoxo jurídico (reporter da TVI)

Uma vontade validamente expressa de acordo com as regras do jogo, sem que isso implique concordância com elas (este Vosso criado).



Deixem, não respondam, ou ainda passo eu por democrata. Não vale a pena insultarem-me assim, promovendo os habituais auto-proclamados da condição.

domingo, 1 de junho de 2008

Cozinhado de se Tirar o Chapéu

Ao contrário da Ana Vidal, também Especialista em culinária, acho que há outros picantes para além do caril em que Coco resulta muito bem...

terça-feira, 22 de abril de 2008

A Loucura do Elogio

Putti Nas Nuvens de Cristoforo Roncalli, Il PommarancioPretendendo moderar a embriaguês da vaidade que leva a apetência dos elogios, Erasmo de Roterdão escreveu sobre eles:
Quem pode felicitar-se pelos elogios que recebe, se Homero cantou as rãs; Virgílio, o mosquito; Glauco, a injustiça, Favorino, as sezões; Séneca, o Imperador Cláudio; e Luciano, o burro?
Poderíamos acrescentar: e Luciano de Samosata, a mosca, que, viva ou morta, parece agravar as coisas. Mas o que repugnou ao Grande Humanista, a fraqueza que pode levar a acreditar corresponderem os panegíricos a verdades, uma vez notada, poderá originar outra imperfeição - a rudeza que sacode as boas vontades testemunhadas.
A função que qualquer elogio deve desempenhar não refere a quem dele é objecto, mas a quem o emite. Se formos criteriosos e prudentes, saberemos analisá-los e identificar os merecedores de estima, aqueles que provêm de Quem nos queira transmitir afecto, enquanto que outros são meros assédios da lisonja.
Plenamente compenetrado de que o que me dirigiu a Cristina Ribeiro em comentário ao post anterior se situa no primeiro destes casos, o que me é gratíssimo, ofereço-Lhe - e a Todos Vós - estes Putti. Porque Ela já aqui confessou gostar dos anjinhos. Por Se ter dado (ocasionalmente) como Nefelibata. E pela suprema razão de as generosas palavras que deixou me terem levado às nuvens.

domingo, 13 de abril de 2008

Confissões de Umas Máscaras

Dizia Oscar Wilde um homem investido da própria pessoa mente sempre, se quiserem ouvi-lo dizer a verdade que lhe dêem uma máscara. A só aparente contradição, que torna impossível a coexistência verbal e identitária do Vero, vem a calhar como lembrança do Artista que se definiu como Pintor de Máscaras e nascera a 13 de Abril, James Ensor. De mascaradas, com efeito, povoou ele a sua obra, numa coexistência desordenada com os demónios, muitas vezes umas e outros arregimentados em espaços repletos, o que elimina o propósito da consideração do dramaturgo irlandês. Com efeito, o mascarado só se dará ao trabalho de gritar o que normalmente não tem coragem a auditores que se não apresentem com o mesmo erradicador de responsabilidade que ele. E o sopro demoníaco de todo o lado emergente arrasta consigo a desvinculação ao Bem e ao Verdadeiro, na medida em que as revelações sob anonimato participam geralmente da intenção de fazer mal a alguém.Por isso, das suas obras, prefiro este Expulsão dos Anjos Rebeldes, em que o caos provém da luta entre os dois domínios bem demarcados, não já da hesitante atribuição da qualidade do que não é falso. Assim sou levado, em acto contínuo, para o outro aniversariante do dia, Samuel Beckett, que viu o abismo maior em redor do Homem no vazio que ele se cria em volta, ao ponto de as próprias relações e considerações de cada indivíduo perderem a nitidez lógica que a definição dos campos dá.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

O Testa de Ferro

Não tenho qualquer dado concreto que me induza a acreditar ter o Sr. Sócrates assinado projectos que não eram seus. Mas parece-me que instalar a dúvida pode bem beneficiá-lo eleitoralmente, já que gerar a atmosfera propícia à aceitação da ideia de que haja também chancelado decisões governativas cuja autoria lhe escapa poderá ser o ferro que alise as rugas do seu curriculum primo-ministerial. E maneira de ser reeleito.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Da Inconstância ao Martírio

Passou ontem mais um aniversário sobre a decapitação do Rei Carlos I de Inglaterra, o qual, vendo correctamente a Sua Real Missão de resistência à centralização parlamentar que serviu a instauração da tirania puritana, teve, no entanto, contra si a iniciatvia absolutizante e divinizadora do Direito dos Stuarts, a mudança contínua, da recusa à cedência, face às aspirações da Escócia e da Igreja, a tibieza de deixar cair Strafford e Laud, os amigos em que se podia fiar.
A fantasia de Alexandre Dumas fê-lo pôr na boca de Mazarino, numa das sequelas de «Os Três Mosqueteiros», a frase os ingleses são um mau povo, que corta a cabeça aos seus Reis. A ironia, dado o momento em que escreveu, não se circunscreve ao que aconteceu um século e tal depois da execução, em França, após uma catadupa de erros semelhantes, sem guerra de religiões, mas com guerra contra a Religião: também inventou ser o Remember gritado pelo Monarca, imediatamente antes da machadada final, alusivo a um depósito secreto de ouro que permitisse ao Filho levantar exércitos para retomar o Trono. Não o seria. Com toda a probabilidade, referia-se às palavras que proferira antes, em que assumia o seu sacrifício por defender os Direitos do Povo. Substituir a obsessão do serviço dos Súbditos pela segurança do dinheiro é a mais irónica das liberdades do ficcionista.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Verbosidade Mortuária

Homenagem a Delacroix, de Fantin-Latour, sobre foto de NadarOuvida a Dr.ª Ana Gomes sobre Suharto e o que à minha consciência apetecia desbobinar sobre Habache, lutei toda a manhã com a tentação de botar faladura sobre dois recém-falecidos cujas vidas encerraram muitos actos que desaprovei. Não, o farei, porém. Não é por cedência à portuguesíssima e viciosa mania de dar todos os mortos por bons, compensando o mal que deles em vida se disse, muitas vezes por não melhor razão do que exibir-se forjando sagacidades que atraíssem cúmplices. Mas sempre vi como integrante do conceito de decência anglo-saxónico a identificação das palavras ditas nas exéquias com a Eulogy, uma universalização do elogio fúnebre que por outros lados se reserva a mortos mais ou menos eminentes. Não podendo dizer bem, o melhor é calar e reservar as forças da combatividade para ocasião mais própria do que a passagem deste Mundo a outro.
Ramalho Ortigão, transmitindo-nos impressões de França, escreveu:
Aqui há tempos em Marselha (cuido que foi em Marselha) morreu um procurador geral, cuja limpeza de mãos não era integralmente garantida. No dia em que êle se enterrou, estando já o cadáver na cova, aproximou-se um dos circunstantes e pronunciou perante a multidão silenciosa o seguinte discurso:
«Senhores! É perante a morte que a verdade se deve manifestar a tôda a sua luz. O cidadão que aí jaz exânime foi um patife. Tenho dito.»
A assembléia retirou-se abanando aprovativamente a cabeça como se fosse dizendo consigo: - O homem falou bem.
(...)
Falemos com franqueza: Para que há-de a gente malquistar-se com os vivos? Esta vida são dois dias. Esperem até depois de amanhã; deixem-lhe fechar o ôlho e saltem-lhe em cima.
Por êste modo a vítima não sofre as dores da operação, a sociedade desafronta-se e a moral jubila.
Está a ironia Ramalhal inteiramente conforme ao duelo contra Antero, em que, sacrificando as próprias sintonias de ideário, não pôde pactuar com ataque a Velho cego e doente, que, tal como os Finados, neste Mundo não tinha armas equiparaveis com que se defender. Uma razão que me leva a atacar Chávez e não já Fidel. É nesta Escola de comportamento que me filio.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

À Flor da Pele

A Calúnia de Apeles por Botticelli

Têm os políticos do PND inteiro direito de não gostar do Dr. Jardim, mas colocarem-lhe fotografias em cartazes com indicação de ser padrinho mafioso não pode ser senão difamação e, em países decentes, paga com o couro encerrado em masmorras.
Na Antiguidade, Apeles foi caluniado por um rival, que o delatou como traidor ao Ptolomeu de serviço, sendo por isso preso o pintor. Descoberta a verdade, o Rei libertou-o, fazendo do caluniador escravo e entregando-o ao ofendido. A justiça que este exerceu concretizou-se em pintar a alegoria da Calúnia com os traços do que o denegrira.
Ontem vi na televisão um dos responsáveis pela campanha madeirense dizer que, no caso, Mafia tinha sido empregue no bom sentido. A simples admissão de uma tal bondade faz do declarante o seu próprio justiceiro e demonstra que não fizeram mais do que tentar estender ao governante o que é a sua própria pele.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Jogos de Luzes

Uma Cidade Medieval à Beira dum Rio de Karl Friedrich SchinkelComo dois Espíritos que muito prezo, a Cristina Ribeiro e o FSantos, se deram ao incómodo de abordar a atribuição das Trevas ao período que chamamos Medieval, quero deixar aqui duas notas.
Primeiramente, sublinhar que foi um feitiço que se voltou contra o feiticeiro. A expressão foi cunhada por um intelectual do período tardo-medievo, Petrarca, para apostrofar o barbarismo a que o emprego da língua latina tinha chegado na Alta Idade Média, grosso modo nos cinco séculos que precederam a passagem do Milénio, para o diferenciar do espírito que queria para o seu tempo. Os Historiadores gostaram muito da expressão e modificaram-lhe o sentido, designando como Idade das Trevas o mesmo lapso temporal, mas referindo-se à relativa escassez de fontes onde o descobrir.
Foi com os Iluministas, querendo-se monopolistas das Luzes, que outros contornos foram atribuídos à designação - o de tempos política, social e culturalmente sinistros, cheios de jugos opressores e desprovidos de alegria. E, castigando o inventor, adicionaram mais cinco séculos à "escuridão", nela englobando o momento que originalmente se queria contrapor à noção.
Depois da reacção Romântica, que sentia não ser assim, mas era incapaz de detectar cientificamente a base real da edificação da Comunidade, os historiógrafos orgulhosos que só viam progresso na Ciência - e ciência nas suas conclusões - retomaram a hostilidade dos Setecentistas, substituindo a animosidade declarada e algo legítima, porque assente no sentimento pessoal, pelo desprezo ensinado, ao popularizarem o termo "Média", inculcando não se ter tratado senão de um hiato entre os expoentes civilizacionais da Antiguidade e do Renascimento Tardio e Descobertas.
Contra estes lugares-comuns se insurgiu nobremente Cantu. E a investigação contemporânea tem vindo a desmentir a preguiça e má vontade que conduziu a tão grande falsificação da História. Para além da harmonia do Político com o Espiritual e da organização do grupo edificada de acordo com as necessidades de segurança e abastecimento da Época, floresceram centros culturais de primeira grandeza, não só nos conventos como hoje é geralmente reconhecido, como também na invenção da Universidade, a qual era, ao tempo, uma ministração do saber e do método à medida do aluno, não um pronto a vestir para um mercado concorrencial, como nos nossos dias.
Claro que na Contemporaneidade também surgiu uma oposição ao significado desses mil anos, em filhos bastardos do Iluminismo, como o importante Malraux. Escreveu ele que a Idade Média nos deu as duas piores invenções da Humanidade, o Amor Romântico e a Pólvora. Não é bem assim. O Amor dos Castelos e da Cavalaria não era o das lágrimas e desmaios do princípio de Oitocentos. E comparando-o com o que resta hoje, o das mensagens encomendadas para telemóveis, talvez não fosse mau de todo. Resta a Pólvora, mas essa não foi muito usada senão posteriormente. E é outro assunto.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Branquear a Luva

Desde Nordau que se estudou a importância das mentiras convencionais. Mas claro que a vida social seria impossível sem elas. Porquê, então, dar asas ao pior que há em Si, quando, à maneira das noivas e das Rainhas, o problema se resolveria com uns caudatários? E, apesar das luvas lembrarem as da Gilda, tome lá a de branca factura...

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O Génio Mau


A T fala aqui no "génio" de Marilyn. Referir-se-á à capacidade de entrar no imaginário - eis uma palavra mesmo a calhar para a série das odiadas pelo Pedro Correia - masculino e, por tabela nas apreciações femininas. Acho que, comparativamente, não tinha qualidades para tanto, mas em matéria de gostos cada um tem direito ao seu, respeito. A mim, irrita-me a cor do cabelo impossível, a voz de falsete, a incapacidade de olhar com profundidade para o outro do tipo que, reconheço-o, encarnou convincentemente no ecrã.
Mas o que me desagrada mais é a tentativa de se fazer passar por coisa diferente do que era. Aludo às tentativas de exibir-se como intelectual, fazendo-se fotografar a ler Joyce, pondo uns óculos grossos auto-proclamativos de cansativas leituras e semeando referências por tudo e por nada ao muito inteligente Miller com quem tinha casado. Só quem seja demasiado angélico pensará que um escritor mais velho procuraria no casamento uma fotocópia de si e não a sua parte de sucesso no Mundo em que os jovens cantores e atletas triunfam...
Mas o pior foi quando, ao filmar com Montand, quis armar ao pingarelho e mostrar que conhecia Descartes, falando do seu contracenante amor de então:
Francês, ele tem alguma coisa de Descartes (o Descartes de Franz Hals) nos olhos, alguma coisa da maneira clara como se exprime. Francês, ele tem ainda um pouco desse espírito que anima os romances de Colette. Pois não é verdade que ele adora os gatos e que esse amor pelos gatos é uma das grandes constantes da civilização francesa? Baudelaire, Montaigne, Lautréamont...
Ou seja, fisicamente, Montand, filho de imigrantes italianos, era francesíssimo. A clareza? Ui! Gosto de Montand, mas a leveza da sua postura em palco e na vida é a coisa mais contrária que conheço ao processo mental cartesiano. Restam os gatos. Não Se admirem os Leitores de que, amanhã, este blogue apareça redigido no idioma de Moliére... com esse critério só pode!
Eu tenho uma explicação: ela queria que o entrevistador pusesse em dúvida o seu conhecimento do Autor do «Discurso do Método». Não mordeu o peixe nessa ocasião, um outro acabou por o fazer, mais tarde. Noutra entrevista atribuiu ao grande Renato a frase a falta de senso é a coisa mais bem distribuída deste mundo, conseguindo que o interlocutor caísse na esparrela de perguntar superiormente quem ele era.
A resposta: um jornalista do século XVII que em vez de pôr em dúvida o saber dos outros tinha a modéstia de pôr em dúvida o seu próprio saber, o que nem sempre hoje em dia sucede. Tenho a certeza de que a frase foi preparada por outrem, para ser recitada por ela, na previsão de circunstância deste género. Querem saber porquê? Por causa do termo "jornalista". Nunca ela se teria iniciado a Descartes sob tal qualificação e considero impossível o salto de espírito numa pessoa sem a segurança de uma reputação anterior no campo.
Publicidade do inexistente, quando o que havia ainda hoje vende tão bem...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Inércia Desprotegida

Ainda o Confrade Jansénico pega no protesto do Je Maintiendrai contra a promoção de uma oliveira a memorial de célebre matança de judeus, pondo em equação os conhecidos costumes vandalizadores dos alfacinhas. Do facto a guardar memória não direi mais, para além de considerá-lo uma vergonha da Democracia. Foi a ralé excitada por dois agitadores Dominicanos do Baixo Clero que, provocada, caiu na desproporção assassina; contra a direcção da Ordem, que expulsou os instigadores e o Rei, que os enforcou. Essa e outras acções populares, precedentes e menos lembradas, viriam a estar na lamentável cedência, embora admita que com propósitos de contenção, que foi a importação do Santo Ofício. Mas a oliveira é que não lembra ao Mafarrico, pois, apesar de na tradição judaica também simbolizar, desde Noé, a Paz, ganhou uma carga diversa, a partir do momento em que se deu a Cruz da Salvação como feita da madeira dela e de cedro, vindo a ser usada como emblema da repressão do Judaísmo, precisamente.
Claro que não é exclusuvo lisboeta o atentado contra as estátuas. Talvez por mais conhecida, a que é dada como recordista do sofrimento é a Pequena Sereia de Copenhague. Quem sabe se a explicação não residirá em despeitos sem conta, por serem ignorados pela que se sentou à espera do seu amor?
Sem essa desculpa temos a persistente amputação dos braços da Verdade da estátua de Eça, que obrigou à substituição por uma réplica em bronze. Quem assumirá que não gostaria de ser abraçado por ela? Ter-se-ão em tão má conta? E já António Arroyo protestava contra esse vício, escassos meses após a inauguração do monumento. A menos que os mutiladores não consigam identificar a figurada... Um velho criado da família dos Condes de Resende, donde provinha a Mulher do Escritor, levado a conhecer a imortalização pétrea, ter-se-á descoberto e exclamado: lá o Patrão, está bem. Mas nunca pensei que a Senhora D. Emília se prestasse a estas coisas... Ao Sr. Manuel, porém, nunca ocorreria estragar a escultura.

Claro que sob o ponto de vista estético a estatuária desta urbe à beira-Tejo plantada deixa muito a desejar. Excepção feita à equestre de D. José, como unanimemente se reconhece. Também esta não escapou e a barbárie da plebe está na origem da retirada célebre do medalhão pombalino do pedestal dela. Sabe-se como não gosto desse tirânico ministro. mas não acho nisso razão para apedrejarem a efígie, quando não conseguiram fazê-lo ao original. E foi a razão da remoção desse pormenor iconográfico, não uma sanção acessória da Viradeira. Tantas foram as pedras e bolas de lama que as vítimas do valido atiraram diariamente e durante tanto tempo ao poderoso decaído, que o senado da Câmara mandou retirá-lo, substituindo-o pelas consensuais armas citadinas, não fosse alguma pontaria desastrada atingir, por engano, o Soberano. Mais tarde, já mortos ou em vias disso os protestatários, D. Pedro IV, para agradar ao neto Saldanha, lá mandou repor a imagem.
Ou seja, atacar os símbolos é sempre sinal de impotência.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

São Papoilas, Senhor!

Schwarzenegger por Renato Cunha

Das duas, três: ou o Governator da Califórnia viu a respectiva sensibilidade afectada pelo drama das enormes extensões de vegetação queimadas, ou está apostado em adoptar todos os hábitos, até os maus, do País de acolhimento. Confrontado com declarações à «CQ »em que dizia nunca ter experimentado drogas e imagens da década de 1970 onde aparecia a fumar marijuana, terá respondido isso não é uma droga, é uma folha. É, evidentemente um refinamento do sexo oral não é sexo clintoniano, cujo autor não se havia atrevido a extrapolar para a mesma substância agora reabilitada, limitando-se a dizer que nunca travara o fumo. Interessante seria ver os consumidores de ópio americanos, representados aqui numa gravura não muito nova, defenderem-se dizendo: não é droga, é uma flor! A integração de um emigrante que escolha a política como carreira implicará fazer dos outros parvos?

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Não é Branqueamento,

pois não! O que é, não sei se conscientemente ou por deixar-se ir, esta notícia do DN de hoje? As aspas estrategicamente colocadas em Mártires, a relativizar o significado de quem foi morto inocentemente, apenas pela sua Fé, proclamado como tal pela sua Igreja. A comparação do incomparável, de uma lei que impõe destruições simbólicas em casa alheia a uma distinção que apenas respeita aos que estão dentro da Igreja, num zapaterismo mais zapaterista do que o do próprio, o qual enviou uma delegação. Que virá a seguir? Dizer que o "fuzilamento" do Cristo-Rey pelos Anarquistas era um contributo para a arte sacra tão grande como a confecção de Imagens? Quem diz que uma beatificação contribuiu tanto para uma polémica como uma imposição do Poder actual...
Não é branqueamento, é avermelhamento.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A Culatra de Saída

Lá vai a caminho do esgoto o Orgulho Gay. A partir de agora não poderão os homossexuais alinhados com esta pesquisa pedir respeito pela sua vontade, ou orientação, na medida em que querem forçar à outrance a descoberta de uma causa determinante que preclude a opção e respectiva consciência. Objectivo de inspirar comiseração porque portadores de deficiência? Claro que é uma tentativa de branqueamento, como o desenho de Enrico Verde, em que a expressão de felicidade e o livro nobilitantes são levados com homo, cabendo ao hetero os sinais exteriores do assassínio. Mas, no fim de contas, a nova investigação "científica" vem trazer conteúdo às notícias que, nos últimos dias, davam os EUA como buscando extraterrestres.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dúvidas Existenciais

Verdade e consequência? Quem leia os comentários da T a este meu postal copreenderá, com a imagem que segue preenchendo aparentemente todos os requisitos e a agravante da companhia se chamar Boneca...
...que eu esteja aflito por poder ser tido por mentiroso, na ordem de sugestões ilustrada por este desenho,
até porque tenho sido vítima de alguns momentos de falta de caridade: como não demonstrei grande entusiasmo por uma viagenzita marítima exaltada pela Mesma Bloguista, pela Cristina Ribeiro e pela Júlia, vejam como Elas me fazem o funeral na imprensa gratuita de hoje!
Chuuuuuiiiiiiif!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Fugas Para o Êxito?

À Grande Historiadora da Publicidade que a T é devo opor que para ganhar milhões não basta uma sorte de qualquer Gama, são precisos dois dedos de Testa.


E que este Galo me parece avinhado, razão pela qual prepara a criança para o sucesso em meios que apreciam candidatos com outros condimentos...

sábado, 1 de setembro de 2007

Imagens da Leitura 14

O Velho Erudito
Nem tudo são rosas, todavia, na dedicação porfiada à Leitura. Há dois vícios de sempre que, fazendo o sujeito alojar-se nela, acabam por lhe perverter as virtualidades. Trata-se da imitação, força motora de tantas deglutições de páginas, que pode incidir apenas sobre a selecção das obras a ler, ou ir até às conclusões a tirar; e da avareza, o Leitor sério que procurou satisfazer aspirações intelectuais autênticas, mas se torna tão cioso do que sorveu que o quer guardar para si, sem o pôr sobre a mesa dos contactos sociais, como tentativa de interessar, melhorar os que com ele convivem, pelo conhecimento e sensibilidade que directa ou indirectamente acrescente, bem como a si, através dos contributos que aqueles com quem contacta possam somar ao proveito que tirou. É o ciúme, esse shakespeareano monstro de olhos verdes dirigido aos livros e não suportando outras proximidades que a dual entre volume e possuidor, no sentido físico como no espiritual do termo.
Ambas as degenerescências mencionadas são macaqueações. A que cegamente decalca o comportamento, pela característica principal atribuída aos símios. A dos Tios Patinhas livrescos pela impossibilitação de usar a linguagem logicamente organizada, restringindo a parecença com os comportamentos humanos aos gestos, desprovidos de essencialidade discursiva.
*
Neste domínio, como em todos os da vida, há que seguir a velha regra legada pelos Árabes de tempos mais civilizados: O homem que não sabe que não sabe é um tolo, evita-o; o que não sabe e sabe que não sabe é um ignorante, instrui-o; o que sabe e não sabe que sabe é um adormecido, acorda-o; o que sabe e sabe que sabe é um sábio, segue-o.
Resta tentar não fazer diagnósticos errados. Sobre os outros e sobre nós.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

As Ilusões das Aparências

Impressionadíssimo com a abertura demonstrada pela Júlia ML às mensagens que acompanham os cosméticos, atrevo-me a redigir umas linhazitas de férias sobre o tema. Todas as comunidades do Extremo Oriente se celebrizaram pelo seu uso consagrado, mas este é um âmbito em que não divergem de outras civilizações, conforme demonstra a reprodução desta maquilhada suméria. Mais, o recurso a tais artefactos e artifícios, para agradar, era, na Antiguidade, extensivo ao género masculino, nos últimos dois séculos restringido ao after shave , pasta de dentes, sabão e fixador. Quando, nos nossos dias, se dá como "adição da personalidade" um perfume está-se a sugerir a fragrância como individualização, dentro de uma roda estrita, porque é difícil pretender que uma marca produza em exclusividade, coisa aliás contraproducente em matéria de reconhecibilidade do estatuto emergente dos odores conceituados. Mas não assim na Judeia Antiga, em que Salomão, David e os seus ministros tinham, cada qual, o seu cheiro único, pelo qual esperavam ser precedidos, notados e identificados.
Na Assíria-Babilónia-Caldeia inventou-se a máscara de beleza nocturna. As más notícas para as minhas Leitoras é que essa garantia da juventude da pele era obtida à custa de untar o rosto com gordura de cabra, durante o descanso. Não farei piadas duvidosas sobre a influência que as conotações caprinas possam ter tido nas condenações puritanas posteriores.
Os Etruscos deram especial atenção às modificações e acentuações das linhas dos olhos, que eram famosos, pela intensidade e forma, em toda a Península Itálica. E Roma viria a fazer com este ramo o que fez com as religiões: incorporar e disponibilizar ao público todas as importações dos países com que contactava.
Há a salientar uma oposição curiosa. Na Grécia Clássica ricos e pobres eram pressionados a não comparecerem nas festas em honra de Niké ou de Minerva sem que tivessem tomado um banho perfumado. Já na Inglaterra Isabelina lavar-se era gesto suspeito, dando-nos as crónicas como uma higienista a Rainha, por insistir em ter uma banhoca de quatro em quatro semanas, quer fosse necessário, quer não. Mas os perfumes desfrutavam de grande voga e um dos votos pios que a Virgem anglicanamente Coroada fez, no leito da morte, foi o de renunciar aos seus.
Nas mesmas Ilhas, aliás, em época tida por pouco constrangedora, o Parlamento votou uma lei, de 1770, que permitia anular todos os casamentos que uma Mulher tivesse conseguido com o auxílio de cremes, perfumes, saltos altos e outras artes do Demónio. Para além de ser uma universalização da liberdade de dissolver o matrimónio muito mais ampla do que o divórcio litigioso de hoje, é de notar que a condenação da publicidade enganosa se direccionava para os produtos de beleza, no seu conjunto, não já para aqueles que prometessem falsamente resultados.
Concepções da Verdade variando pelas realidades em que se quer confiar, hoje o consumismo, ontem a Pessoa, no seu todo...