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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Opressão Fugidia

Para não Se deixar abater, é só deitar isso para trás das costas, Querida Amiga.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Homenagem a Uma Progressista

O Tempo de Magritte
A uma Viajante no Tempo que Se apeou.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sibila a Três Tempos

A 25 de Junho de 1843 morreu Mademoiselle Lenormand, celebérrima deitadora de cartas que errou nessa previsão, pois vira-se para lá de centenária e deu a a alma ao Criador com pouco mais de setenta anos. Foi apenas um dos seus notórios falhanços, pois já dissera a Josefina que acompanharia no trono os esplendores de Napoleão, até ao fim. Este, aliás, hesitava entre afastar a Mulher daquela influência e a consulta dela, tendo dito em Santa Helena que ela descrevera tal exílio e os carcereiros com minúcia.
Simpatizande do Rei, foi solicitada profissionalmente por Robespierre, Marat e Saint-Just, o que não a impediu de ser presa durante o auge revolucionário, em 1794, por se haver atrevido a predizer uma contra-revolução. Talvez tenha sido a lição que a levou a só dizer coisas agradáveis à pobre Imperatriz em vias de ser repudiada, que o profeta da desgraça é também um mensageiro de más novas que urge punir, mesmo que não já matar.
A vertente desta patrona de um específico tarot que me seduz mais é a de agente informadora da Polícia de Fouché. Sabe-se que ele a inquiria sobre o Presente dos frequentadores, não sobre o porvir deles. Ora, que preciosas informações poderia ela dar nesses domínios, que não eram a sua especialidade? Não são só os treinadores de futebol que colocam jogadores fora do seu lugar natural, está visto. Mas, hoje por hoje, é o seu conhecimento do Passado que a faz mais lida, uma vez que publicou Memórias interessantíssimas do mundo famoso que conheceu. Os oráculos deixaram de ser monopólio de um tempo só.

sábado, 14 de junho de 2008

Águas Passadas

Do Passado Para o Futuro de Dmitry ZaytsevQuando deixaremos a fraqueza de pensarmos tudo em função de nós? Até a dimensão temporal, que outra coisa não é a consideração do Presente, esquecendo-nos amiúde de que o próprio vocábulo indica que não corresponde a um direito nosso. E se nos aproximamos dos elementos sujeitos aos ciclos, que trazem e levam os apogeus, por que não mantermos em mente que também toda a nossa existência é, de princípio a fim, um grão mais na refloração sazonal do Todo, em vez de sucumbirmos à vaidade de encararmos os dias que se escoam como se os contivéssemos, até ao dia último, o do esgotamento da água na corrente que nos transporta? O Presente é a Intranquilidade egocentrista.
Dedicado ao Nelsinho, Que é Camoniano, este injustamente menos conhecido do Poeta da Língua,

Com o tempo o prado seco reverdece.
Com o tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo pára o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece.

Com o tempo um louro morre, outro florece.
Com o tempo um é sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece.

Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquila um grande estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.

Com o tempo tudo anda e tudo pára,
Mas só aquele tempo que é passado
Com o tempo se não faz tempo presente.

domingo, 11 de maio de 2008

Inversões da Ampulheta

Tempo de Vladimir KalininFoi a Felicidade que nos condenou à medição do tempo? Não estou tão certo, pois o Casal Adâmico consta ter vivido nela e, ao contrário da famosa Sibila que pediu e obteve a imortalidade, esqucendo-se de solicitar a manutenção da juventude, os nossos mais longínquos Avós igualmente estavam subtraídos ao envelhecimento, antes da Queda.
Esta foi afinal, se não o contrário da Felicidade, ao menos um certo cansaço dela, como presente recebido, na medida em que ambicionaram o contrário, com o risco dos infractores, quer dizer, a Ciência, para a substituírem por um Presente conseguido. Assim o tempo verbal que tomou o lugar do brinde originou a cronologia em corrida imparável, essa suprema ironia de Deus, fazendo do anseio de apreensão de uma temporalidade o aprisionamento nas garras em fuga dela.
Por isso não se estranha que a notabilíssima Cecília Meireles tenha dado ao poema anexo o título de EPIGRAMA (2). Mas não era, como pareceria, dirigido à Felicidade, era-o à nossa Condição:

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

As Cores do Desejo

Uma Gota dos Meus Sonhos de Shahla RosaLendo esta justaposição da actividade onírica e do cinema, tergiverso para uma questão que respeita a ambos, a de serem a cores ou a preto e branco. Os cientistas dizem que 80% dos nossos sonhos são coloridos, correspondendo aos períodos de imersão mais porfunda, contrapostos aos periféricos, nos tons sem cromatismo variado dos filmes de outro tempo. Os mais radicais chegam a contestar a possibilidade, fisiologicamente, de sonhar a preto & branco, o que, dadas as muitas confissões de experiência em contrário, remeterá para a incapacidade dem neste âmbito, memorizar certas frequências do espectro.
A meu ver a culpa cabe toda ao velho Artemidoro, que inaugurou o tratadismo de oniromância, associando significados às pedras preciosas sonhadas. Daí às cores delas foi um ápice. O que julgo não fazer qualquer espécie de sentido, já que determinar uma cor que haja ocorrido durante o torpor do reino de Morfeu parece um contra-senso, uma vez que, pelo menos a mim, elas aparecem todas misturadas, segundo a ordenação que têm na vida desperta, não me lembro de alguma vez ter produzido uma sequência num fundo de coloração única, como que submetida a um filtro fotográfico.
Pelo que me parece que a questão não será tanto física como cultural. Salvo para os que sofressem de uma qualquer deficiência de captação no sistema de distinção, de cones e bastonetes, ou no da sua transmissão ao cérebro, duvido que alguém, antes das filmagens a P&B se popularizarem, pudesse ter, adormecido, visto o que quer que fosse, reduzido ao condicionamento alvinegro com a corte de cinzentos.
O mal está na citada vontade de, sonhando, se adivinhar o Futuro; como também na Psicanálise, em que através da comunicação desses registos se tenta deslindar o Passado. Alguém que o analista E. Levi conheceu diz que, quando sonha "sem arco-íris", sabe que daí resultará um qualquer cunho profético. Aqui está alguém mais pessimista do que eu: concede a faculdade de predição apenas às tonalidades sem alegria.
A minha biografia diz-me que até aos 24 anos sonhava - ou lembrava-me dos sonhos - a preto & branco. A partir daí tornaram-se coloridíssimos. Mas nunca tentei deles retirar indicações sobe os períodos menos próximos, para a frente, ou para trás. O que faço é verificar que de cada vez que sonho com um afastamento maior da lógica, misturando pessoas, estados e épocas, a minha capacidade de concentração, no dia que sucede, está muito mais apurada.
Um campo há em que a coloração dos sonhos parece relevantíssima. É o da sinatriana canção que inclui os versos

The shadow of your smile
When you have gone
Will color all my dreams
And light the dawn

Mas aí sonho é desejo, o contrário da imposição.
E pronto, contem-me dos Vossos. Não quero bisbilhotar os factos, mas gostava de lhes ver boas cores...

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Dueto de Final de Dia

Ora, a Fugidia é que me topou! Agora vejam só como hoje de tarde sofri, apesar da Excelente Companhia, com os calores da beira-mar estorilista!
Como a Meg disse que adorava a Marlene Dietrich, cá deixo retrato dela com uma amiga comum: Mae West!


sábado, 19 de abril de 2008

Onirismo do Sétimo Dia

Os imperativos que permitimos condicionar a nossa acção sofrem tal desgaste da parte do mundo em que somos obrigados a mover-nos, que só para o território impreciso do sonhado podemos desterrar os fundamentos, a partir do instante em que constatamos a décalage melancólica entre a acção e o programa. Nesta alternância paradoxalmente nostálgica, porque marcada por uma simultaneidade espúria, da fidelidade e do obtido os Outros surgem-nos como selecção do nosso Tempo indexada às sensações, de forma a prejudicar a linearidade totalmente apreensível que, com a fatalidade a que não mais podemos fazer corresponder do que uma iconoclastia desvalida e morna, acabará por irremediavelmente nos subjugar. O Real é um gume duro, só incapaz de cortar o terreno imaterial dos princípios,mas desgraçadamente apto a retalhar as pautas por que se encareiraram as aplicações deles.
O Tempo Que Passa de Maryline GarbeDe Eduardo Soveral:

DECIFRAÇÃO DE UM QUALQUER SONHO

sou emissário de um rei desconhecido
cumprindo informes ordens vindas do além

e se julgam vãos
meus gestos sem sentido
e as bruscas frases que meus lábios vêem
é porque minha glória vem desse rei
cheio de não ter sido
pastor deste povo com quem lido
feito indistinto
anómalo de sentido
suado vitória humada
e de desdém

emissário sou
e emissário cumpro
sem disfarces
as ordens
amáveis
generosas
como música longínqua
como um mistério de mares

depois

depois
quando o vento acalmar
minha missão terei de esquecer
e meu orgulho
cego por não poder ver
mergulhar neste deserto de altas tradições
onde toda a gente sabe sempre onde tem de ir

para uns serei regresso
para outros serei porvir

talvez

mas só na sombra meus pés caminham
pois antes do tempo
espaço
vida e ser
de sonho nascem as minhas sensações

a paisagem longínqua só existe
para a hora em que o silêncio assiste
à intranquilidade do meu tacto
fluído num lembrar de asas
consciências
afectos
e rotas claras

esse renovar
a grande ogiva
o fim de tudo
é espaço
é tempo

se minha alma hoje beija o quadro que pintou
e a cor deste verão
é de pasmo apagado
serei de lucidez
até não me encontrar
serei abismo entre o que sou e o que serei
onde não haverá fora nem dentro

neste meu cansaço
esquecerei
meu nome
na estrada
deste silêncio em descida

e olhando como quem sorri
este silêncio com sem-nexo
despedaçado
longe do que hoje já não fui
serei horizontal
em vez de vertical

domingo, 6 de abril de 2008

H2O e Cloreto de Sódio

O Sabor das Lágrimas de MagritteLeitura consonante com o espírito, de «História das Lágrimas», de Anne Vincent-Buffault. Interessante ver como se conseguiu atrofiar a exteriorização da dor: até aos Séculos XVII-XVVIII os homens choravam em público, tão natural e frequentemente como as Mulheres. Com o advento da sociedade burguesa, confinou-se o pranto ao Género Feminino, insuflando o mito de que um homem não chora, apesar da "reacção Romântica", falhada porque caída no excesso oposto. A Autora mostra como um escritor que não conheço directamente, Senancour, distinguiu a emotividade patente da sensibilidade, reduzindo esta à abertura e capacidade de experimentar sensações, acarretando, como consequência perversa, a exclusão da assunção pública da dor desse conceito.
Poder-se-ia pensar que numa época de uniformização das condutas dos dois Sexos a proscrição do pranto teria os dias contados, mas foi o contrário que sucedeu, a extensão do proibicionismo lacrimal a Elas, fornecendo mais uma acha para a fogueira dos que censuram ao Tempo querer transformar as Mulheres em homens.
Quero crer que muita da responsabilidade pela marginalização do choro se enraizará na importação de hábitos Norte-Americanos, nomeadamente o tendencial banimento do luto e de tudo o que possa lembrar o acto de carpir, para não embaraçar as relações sociais dos enlutados malgré eux, como Ariès e Mittford nos fizeram conhecer.
Mas, nos últimos anos, também me parece em mudança esta linha de força do comportamento social, com um revivalismo das emoções extravasantes, expresso nos programas de entretenimento de reencontro de familiares ou amigos afastados, de exploração das narrativas comoventes, ou de um medíocre jornalismo de sensações, o qual, acontecida qualquer tragédia, só tem microfones para perguntar como se sentem os atingidos, melhor ainda os que lhes querem. É como se houvesse uma reabilitação das lágrimas, mas desde que televisionadas, ao jeito do critério de qualidade do antigo Melodrama, embora desprovido da criatividade que, por vezes, aquele atingia. Em tempos de crise moral a Compaixão pelo sofrimento dos que nos estão próximos é substituída pela contemplação apiedada do dos estranhos imbuídos da celebridade de três minutos. Porque permite descarregar o excesso de generosidade refreada e não incomoda em demasia.
S. Pedro Chorando Perante a Virgem de Guercino

segunda-feira, 31 de março de 2008

A Dança das Horas

Com a acuidade de sempre, em cima do acontecimento mas dotado de visão retrospectiva, o Bic Laranja aproveita para nos dar uma bela imagem do relógio da Hora Legal, tema que esgotou comissões e fez correr rios de tinta. O mostrador que nos revela foi o que, com um homólogo sito na Junqueira, veio, em 1914, substituir o sistema do balão do Arsenal, engenhoca da autoria do Engenheiro-hidrógrafo Frederico Augusto Oom, a qual transmitia a exactidão horária fazendo subir o insuflável preto a meio mastro (de sete metros) cada cinco minutos antes da hora certa, ascendendo ao topo nos três imediatamente anteriores ao momento H em que caía, accionado electronicamente pelo Observatório da Ajuda. O sistema era fíável, foi estudado por estrangeiros e tudo, mas, pela localização, não servia completamente uma das principais missões que se propunha, sinalizar o instante aos navios mercantes.
O apuro técnico foi a maneira que se arranjou de ultrapassar o vexame do sistema anterior, que vigorara por despacho de 1858 e era pouco mais do que um balão atado a uma corda, obedecendo às instruções do Observatório, o que não garantia precisão, em razão de alguma insuficiência no acto de o fazer descer, pelo que foi motivo de risota nos jornais generalistas e de censura nas publicações científicas pela Europa fora.
O novo aparelho previa um tiro de canhão, que não chegou a fazer-se, embora tenha funcionado um outro, de uma pequena peça do Jardim Botânico. Mas isso é outra história.
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sábado, 29 de março de 2008

O Tempo e a Luta

Passaria hoje o aniversário daquele que considero o maior prosador do Século XX, Ernst Jünger, o qual levou a demanda da Liberdade a um ponto em que não só procurava furtar o Ser à tirania dos regimes e facções que movimentam e mobilizam as massas para combates longe dos do protagonismo aristocrático da Personalidade, mas também lhe tentava incutir a capacidade de se eximir às ordens do tempo rotineiro e contemporâneo. Daí que promovesse a significação das clepsidras e ampulhetas, por contarem um lapso temporal durante o qual se pretendia fazer alguma coisa; e rejeitasse os relógios, telefones e rádios, transmissores duma hora genérica e abstracta, a que se adstringia a obrigação de fazer alguma coisa. Como cantou uma solitude, não necessariamente associal, concretizada no refúgio florestal ou na observação e estudo sem as exigências formalistas da Escola.
Claro que o velho protestante - como se definia - visando resgatar a Individualidade das ameaças que de todos os lados impendiam sobre ela, teria de, nas suas palavras, ele que acreditava num Criador mas não era Cristão - chegar a um flirt com a Igreja Católica, por ser a única Instância actual que, consistentemente, preserva a dignidade, pela defesa do Livre Arbítrio. E, numa vida tão longa como a que o contemplou, de concluir pelo crescimento moral que a idade avançada permite.
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Noutro 29 de Março, o de 1966, escreveu, diaristicamente:
Nas nossas experiências, nas nossas tarefas, nos nossos deveres, quantas recriminações! Recriminações: quer dizer que nós não demos a resposta esperada. Recriminações aos olhos dos pais, dos mestres, dos camaradas, dos amigos, também daqueles que encontrámos casualmente. Dislates ligeiros, inconveniências, pretensões, gafes, faltas de jeito, más acções.
Seja: está longe, tudo isso, a anos e décadas de distância, ou remonta mesmo aos nossos tempos infantis. As feridas que nos infligimos, a nós e aos outros, estão há muito cicatrizadas. E há muitas coisas que nos resta saber ainda. Os parceiros, os cúmplices, os interessados estão mortos desde há muito. E enquanto vivos já tiraram a sua vingança de nós, ou nos perdoaram. Mais ninguém sabe o que quer que seja.
Nós expiámos, mas as cicatrizes são sempre dolorosas e, por vezes, doem mais do que as feridas. Os males que sofremos esquecêmo-los, mas àqueles que cometemos, não lhes vemos o fim.
Como explicar estas investigações retardadas de camadas interiores de que a vida se retirou, essa inquietude que recusa o apaziguamento? Primeiro, pelo facto de que, desde logo, nós envelhecemos e o nosso discernimento moral se afinou. Mas então a recordação das nossas boas acções deveria desculpar-nos. Ora, nada disso se passa. Nós erramos através do nosso passado, como se o bem se tivesse emancipado, assim como que através de uma passagem de que não apercebessemos senão as irregularidades, as depressões e os abismos.
Ou seja, na Memória sem auto-complacência reside o fundamento do Digno, pressuposta a linearidade do Tempo.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Dia Preguiçoso

O Rei dos Gatos, auto-retrato de BalthusÉ sempre penoso falar do dia 29 de Fevereiro, esse visitante menos assíduo do que os outros 365. Uma neblina inquietante rodeia-o, desde que a mitografia das datações lhe resolveu atribuir o começo da Fraternidade, a acção decisiva de Caim sobre Abel. Mas todos os nascidos numa dessas menos frequentes recorrências enfermam do estigma da sonegação do festejo lídimo, sem contrapartida na longevidade, fazendo imaginar que não teriam tempo próprio de celebração, o que equivale a esquecer as horas de acerto de calendário.
Um dos vindos ao Mundo nestas condicionadas circunstâncias foi Balthus, que não poderia deixar de figurar em página tão amiga de gatos. Hesitando sempre entre subtrair a biografia ao público ou dar lamirés dela com indícios de contrafacção que alimentasse a fantasia genealógica de que, aliás, não carecia, o auto-retrato em que se fez soberano amado de seres conhecidos pela independência e teimosia em escolher não é suficientemente contrabalançado pela paráfrase da ironia em dístico que os Romanos pregaram na Cruz. Tenho como seguro que o título deste quadro - que ecoou no dumas Memórias - é também uma tentativa mais de escapar a um destino imaginado pela falta dos anos de comemoração habitual.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A Chuva e o Bom Tempo

Na constatação da partida da Meteorologia aos foliões, apetece relembrar o quinhão luso de uma velha tradição popular encontrável em muitos outros países da Europa - a ligação da instabilidade atmosférica e da frialdade prolongada à duração mais curta do mês de Fevereiro, mormente na imaginação de dias de empréstimo, nas suas relações com Março.
Assim, Adolfo Coelho conta-nos que ainda no tempo dele velhinhas da Foz do Douro separavam o mito em duas partes, a de que Fevereiro teria ficado compadre de Março - e com três dias a menos - por lhe ter emprestado os seus últimos três (dois) por uma tijela de papas e que tinha a mãe desse mês abreviado pedido que ele a pusesse ao sol para se aquecer, mas que quando ela se aquecia o patife fez um grande aguaceiro que a matou. O que, quanto a mim, réprobo também nestas ligações, é uma mitificação não só da observação do clima, mas, igualmente, associação às brincadeiras (peças, dir-se-ia no Brasil) carnavalescas.
Seja como for, o calendário e a agressividade da temperatura e pluviosidade acham-se reunidos numa só fala tradicional atribuída na Beira Baixa ao mês mais curto.
A mim chamam-me arreganhado,
Mas deixai vir o meu amigo Março
Que de mim tomou quatro
(mas tomou só três)
Que não ficará ovelha nem farrapo
Nem pastor, se fosse fraco.
Uma constante se nota, a de fazer coincidir dias de empréstimo com dias sem préstimo.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Pelo Na Venta

Já vi o filme todo. Nada tem a ver com este flagelo real, que me obriga a desconfiar de que muitos químicos irresponsáveis serão culpados da alteração hormonal no corpo da Mulher. Mas, quando venta tanto, um postal cabeludo para as minhas bandas pode deixá-La assim:

Quem Semeia Ventos...

Excelentíssima Senhora, muito pano para o gosto de hoje, muito pouco para enfrentar o vendaval que a Sua insistência originou. Até fez voar a leitura!

domingo, 13 de janeiro de 2008

Fungagá da Bicharada

Com a desculpa do estado do tempo, T convida-me para a cama, mas, infelizmente, apenas para dormir. É um desaproveitamento. Concordo em que estes dias de chuva devem ser aproveitados para ficar em casa, porém qualquer crocodilo sabe que o ideal é ler à lareira... E se a ASAE aparecer cá no blogue, é dizer que aquela coisa fina e comprida apenas serve para palitar os dentes...

domingo, 6 de janeiro de 2008

Sem Futuro

Sempre desconfiei de quem usa a Matemática para explicar o Mundo, por me parecer uma preocupação excessiva com a abolição do acaso. Mas se o universo constatado é, em última análise, redutível a um modelo numérico, não acredito na capacidade humana de utilizar um cálculo do ramo para conhecer o Futuro, seja na versão modesta, porque indiciária, que é a Estatística, seja na arrogância da vertente divinatória das numerologias.Menos ainda posso considerar a fantasia de um americano contemporâneo cujo negócio é números, ao vender-se como paralelo de um profeta célebre, alegando que apenas recorre ao cálculo para prever. Apesar de versado em Matemáticas e de, possivelmente, as ter aplicado na investiação astrológica, não foi nessa disciplina que Nostradamus fundamentou as suas predições, o seu método assentava na contemplação nocturna do que os reflexos de uma chama na água lhe sugeriam, como ilustra a imagem que fui buscar aqui. E, voltando ao caso em apreço, prever a vitória de um Democrata nas Presidenciais dos EUA, ou a não-utilização iraniana para fins bélicos de tecnologia nuclear a que aceda, parecem-me antevisões muito rascas: não sei se será ou não esse o desfecho eleitoral, mas é fácil constatar que é aquele que a grande maioria dos observadores prognostica, mesmo sem as credenciais do sapiente opinador; e a segunda certeza é das que nunca poderão ser infirmadas - ou os Persas não desencadeiam a catástrofe, o que lhe dará razão, ou desencadeiam. E, então, não sobrará quem quer que seja para lhe cobrar o erro...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Paradoxo Entradote

A Anunciação, de El GrecoOu "Entradita Paradoxal". Não deixa de ser curioso que quando a Inglaterra se regia por um calendário pagão, o Juliano, o primeiro dia do ano fosse celebrado a 25 de Março, Dia da Anunciação, e tomasse o nome de Lady´s Day, enquanto que, a partir de 1752, se perdeu tão grande Significação religiosa, justamente sob a alçada do Cristianíssimo Calendário Gregoriano, introduzido por um Papa.
Devo dizer que prefiro assim. Dado o desespero dos nossos dias que nestas datas procura negar-se com buscas de alegria e festejo obrigatórios, bom será não conspurcar Celebração tão assinalável como a da antiga Tradição Britânica, está muito mais conforme com os tempos o anúncio profano Ladies` Night, permitindo ao Belo Sexo consumo livre. Se encontrarem algum bar que o faça, hoje.

Começar Pelo Princípio

Esta Lembrança da T é só para depois da Meia-Noite. Antes há que cumprir certa formalidade...
Não faço balanços para não perder o balanço.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Quente-Frio

Quem disse que frieza não pode trazer coisa boa a uma relação?