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segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Iberismo da Ignorância

João Franco por Júlio CostaAssim como por cá ficamos furibundos de cada vez que se esquecem - como na célebre questão das moedas de euro - de desenhar um traço fronteiriço com a Espanha, pergunto-me se Nuestros Hermanos gostarão de ver-se confundidos com os vizinhos que somos, dados, no dia de que se celebra mais uma passagem de ano, por um site de efemérides como tido sido governados por um político luso. Não deve ter havido acinte, confusão de Francos, um Francisco por um João, isso sim, em responsáveis por cronologias carecidos da noção cronológica.
Mas quem sabe tão pouco dificilmente pode ser industriado do facto de os "poderes ditatoriais" aludidos serem prática institucional corrente no Rotativismo Monárquico Português e limitar-se à governação por decreto, à espera que novas Cortes ratificassem. Uma correcção de emergência das eleições viciadas que os governos nunca perdiam, papel que passou, na I República, com o inerente derramamento de sangue, a incumbir ao Exército, mantendo-se o acaudilhamento votante.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

A Partida dos Partidos

Sim, escolho este título ciente da multiplicidade dos sentidos que encerra: a brincadeira de mau gosto continuamente infligida ao Todo Português pelos rótulos partidários e a retirada de tais núcleos de cumplicidades, que se deseja célere e irrevogável.
Na sequência deste importantíssimo postal do Corcunda ocorreu-me ilustrar duas breves notas sobre o tema através dum esgotado protesto panfletário de 1808, pelas semelhanças que apresenta com a situação que atravessamos. Sem a intolerável monomania sanguinária da Primeira República, esta, de Segunda ou de Terceira, que suportamos ostenta pontos de contacto evidentíssimos com o cansaço que no fim do Constitucionalismo Monárquico se oferecia na pele de forçada ementa do País. O progresso material estava lá e, apesar da ascensão dos agitadores Republicanos, o Poder não participava da violência conflituosa conhecida da Guerra Civil, ou do jacobinismo costista que viria a seguir-se. Mas o seguidismo parlamentar, a ficção da representatividade, traída pelas listas eleitorais e pelo uso dos mandatos, o descrédito de uma classe política preocupada sobretudo com a auto-promoção e os favorecimentos, numa destravada ânsia de subir que, impune, contagiava também, aos olhos do Observador, pouco a pouco, a Justiça e as Armas obrigavam à necessidade de reagir, em nome do Patriotismo e contra a fragmentação.
O momento estritamente institucional diferia do que presentemente vivemos num dado essencial: estava-se perante a obra demoníaca da multiplicação dos partidos políticos, ou por cisões dos titulares do Rotativismo, ou por reacção a este. Não é o que se verifica hoje, se exceptuarmos a contudo relevante singularidade do Bloco de Esquerda. Mas se a proliferação não obra, verifica-se uma generalização do sentimento de indiferenciação dos disputadores do Poder. Eles são todos iguais deixou de ser "conversa de taxista", uma Classe por dever de ofício com a sensibilidade sempre à flor da pele. Quando esta percepção alastrar aos estratos sociais com influência mas sem participação na gamela da Administração estarão criadas as condições para se concluir que a solução reside no derrube do regime e não nas pretensas escolhas que ele oferece, como isco escondendo o anzol.
Uma chamada de atenção final: o Autor do panfleto com capa reproduzida, embora escrevendo como se de fora do movimento estivesse, mostra simpatia pela reacção nacional e moderadamente anti-parlamentar dos Nacionalistas de Jacinto Cândido. Não pode ser essa a via. O monopólio partidário não se combate sentando mais um jogador à mesa, mesmo que este proteste não vir a entrar na batota generalizada. Só proibindo a sala de jogo que arruína o País se poderá chegar lá.
Copio os versos dum Costa Lima no folheto citados, sobre a trindade que regeria o Portugal de então, a Propina (subvenção), o Empenho (cunha) e o Voto (o totoloto que nunca premeia):
Não vês aquela dama, em trajes insolentes,
seguida, logo atraz, de imensos pretendentes,
a bôlsa sempre aberta, a mão sempre estendida;
portuguêza a valêr, frêsca. bela, garrida,
com lábios côr de rosa e a voz pura, argentina,
sonora do metal... vês? Chama-se Propina!
Propina, a bela dama, a fada seductôra,
rainha da belêza, a deusa ecantadôra,
quando meiga e sorrindo, em alguem põe a vista,
adeus justiça e lei! Não há quem lhe resista!
*
Agora mais alem... Vês um homem sisudo
vestido com decência, um tanto barrigudo,
de fita a tiracol, comendas a brilhar,
direito como um fuso, ou taco de bilhar,
falar pausadamente á súcia, que o rodeia,
mexendo no berloque, apenso na cadeia,
com ar aristocrata e pose de empreitada,
sorrindo por disfarce, ao som de uma pitada?
Chama-se Dom Empenho, o tipo verdadeiro
de quem já foi ministro e agora é conselheiro
.............................................
Propina mais Empenho egual a coisa feita:
Não há nêste torrão ninguem que o não respeite;
do luso maquinismo Êle é mola, Ela azeite.
*
Passemos ao terceiro, aquêle outro burguêz
de um tôdo espertalhão, que junto dêle vês.
Oh! êsse... é mais! é tudo! é grande potentado,
que faz de um badameco um par, um deputado;
e quando está de veia agarra um boticário,
e fal-o sem c´remónia um alto funcionário.
Amigo do vadio e protectôr da pândega
faz do Estado uma creche e um asilo da alfândega;
faz tudo quanto quer, quer tudo quanto faz:
na fúria do querêr, crê tu que êle é capaz,
sem licença da carta, ou permissão de alguem,
da pasta dar da guerra ao Jaime de Belem.
Pois êsse... meu amigo, êsse... chama-se o Voto,
que tem sido e será peor que um terramoto;
por onde quer que passa arraza, e faz caliça...
de casas? Não... da lei, da honra e da justiça.

Mas onde é que nós já vimos este filme?!