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terça-feira, 15 de julho de 2008

Destino de Um Homem

No dia de Rembrandt apliquei-me na leitura da tese conscienciosíssima de Georg Simmel, a qual diz residir a especificidade inovadora do Génio Holandês na representação das figuras na sua totalidade supra-temporal que sugere enquadradas no respectivo Destino, face à Arte Antiga que isolaria um momento biográfico específico, mesmo quando representativo do Homem, tal como a Psicologia faz, ao seleccionar um aspecto como resumo da Personalidade.


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Vai ao ponto de, sempre com solidez especulativa, dar a transmissão das Essências no trabalho do Mestre de Leida, sobretudo nos desenhos, como a individualização extrema decorrente da atomização, contrariamente ao ensinamento e aceitação neo-platónicos que quereriam cada representação de um vulto humano partícipe do Belo como património se não comum, ao menos comunicável.


Foi tendo presente esta elevada mas artificiosa analítica que deparei com uma vontade tremenda de regressar a um dos trabalhos do Mestre aniversariante, o Filósofo Lendo, menos por o anonimato e a rigidez do personagem cortarem algo rente a aplicabilidade da tese, muito principalmente pelo protagonismo que o livro toma; e pela condição pensadora do retratado ser muito menos limitada na conceptualização do Destino, que pode e deve encarar numa universalidade liberta da concretização que cada biografia ilustra. Por muito bom que o comentário seja, a Obra que o motivou é sempre superior. Até quando boomerang pouco dócil contra a edificação de um sistema.

terça-feira, 8 de julho de 2008

De Olhos Bem Fechados

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Aniversário de Chagall, pintor a que reconheço alguma imaginação, mas de humor mais pesado do que a ironia que costumo prezar. Ademais, não estimo o uso que faz da cor naqueles quadros em que ela mais abunda, assim como me surge como rotundo falhanço a insistência de pintar olhos. Quando fecha as pálpebras às figuras retratadas atinge logo outra dimensão, como neste auto-retrato com a Musa. Gosto particularmente da apenas parcelar iluminação do artista pelo cone luminoso da inspiração, sendo as vistas cerradas e indistintas, respectivamente, da divindade e do pintor, uma sugestão do esforço telepático de transmitir e aceder à centelha criativa. Com a particularidade de as molduras por terra, ao fundo, aparentarem ser espelhos, o que nos conduz à convicção de terem sido perdidas as veleidades realistas de aprisionamento da própria imagem, assinando a rendição incondicional perante construções psíqucas induzidas a partir do exterior. No fim de contas a História da Arte, desde que se ligou de facto às escolas psicológicas contemporâneas. Mas há um problema, o título é Aparição. Teria sido avisado separar a primeira letra, transformando-a em artigo.

sábado, 14 de junho de 2008

Geometria Variável

A Tirania dos Horizontes de Kyle Evans

Como se sabe, também não rejeito a Arte Abstracta. A teorização original dela, por Kandinski, sempre me pareceu, porém, padecer de alguma miopia que obrigasse a perceber a autenticidade expressiva como erradicada das formas reconhecíveis para além da estrita Geometria, como, igualmente, condenar-se, ao confessar a Arte filha da sua época, quando ambiciona transmitir uma sensibilidade individual. Mas estas dúvidas não visam proscrever outra coisa que os conceitos de que esta ou aquela modalidade de Pintura são censuráveis... em abstracto. Cada caso será um caso.
Nesta conformidade, para desanuviar e afastar as vistas curtas renegadoras, segue um bon mot:
Um jovem pintor gabava a Arte Abstracta a Van Dongen, dizendo, com fervor:
- Eu sinto bem que nunca poderei alguma vez pintar que não com o meu cérebro!
Resposta do interlocutor, acompanhada de uma palmadinha nas costas:
- Ah! Seu miniaturista!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Imitações Baratas

Com o intuito de homenagear a Nocas Verde e de A ajudar a encontrar motivos da cor, que porfiadamente procura, dou aqui o coelho verde. Sem reservas quanto ao preito, com todas as que posso quanto ao processo de alteração que levou a criar esta aberração. Nem falo nos sentimentos do bicho, apesar dos problemas de "inserção social" despertados. Cinjo-me à dignidade que está presente em ser conforme ao Natural, impeditivas de se vitoriar no pobre roedor o que se condena nas experiências dos médicos hitlerianos, ou na folclórica sede de mudança do Michael Jackson.
Ao verdadeiro artista que se revelou o Sr. Eduardo Kak, inspirador do projecto, diria que a Arte imita a Vida, não é a Vida que imita a Arte. Sob pena de nos transformarmos um dia nessa cogitação de extra-terrestres popularizada como estranhos homenzinhos verdes. Seremos então outra coisa, Homens é que não.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Reabilitação do Conceito

Aniversário de Braque, pintor a que prezo tanto a personalidade com a Arte. Pela Justiça e pela tranquilidade sem acomodar-se, que sempre encarnou. A noção fundamental unificadora de todos os períodos que atravessou exprimiu-a na máxima os sentidos deformam e a mente forma. Por isso enveredou pela reacção Fauve contra os Impressionistas, para devolver ao Espaço e às Formas os direitos dissolvidos pela escola do império da Luz. A posterior suavização das cores, a influência de Cézanne, descobrindo o fio condutor da Esfera, Cone & Cilindro, mas não se deixando aprisionar; e procurando uma exemplaridade mais universalista, traduzindo-a no Cubismo, nome retirado de uma apreciação de obra sua, quase acidental, por Matisse. Mas tanto a morigeração cromática como o abandono derradeiro da hipoteca a ortodoxias geométricas iam ao encontro da acalmia do exame que sugeriu a Picasso, sobre as Meninas D´Avignon: Apesar das tuas explicações, a pintura parece querer fazer-nos engolir estopa ou petróleo, para cuspirmos fogo a seguir.
É do resultado dos anos da maturidade, emancipados da fase de pesquisa a que, hoje, as enciclpédias o parecem querer resumir, que retiro uma das melhores representações da Noite que conheço - a que lhe reconhece mais colorido que os alheios brilhos do luar e das estrelas e, em simultâneo, lhe impugna a esterilidade.

domingo, 11 de maio de 2008

A Razão no Exílio

Aniversário de Dali. Já em tempos deixei um lamiré do que me ficou dele. Hoje quero ilustrar a libertação da Psicanálise a que muitos outros Surrealistas não souberam fugir. Onde ela era a busca de um sentido momentaneamente oculto, dentro do elemento humano não premeditado, veio o incomparável Salvador substituir a ordem racionalizada pela utilização em sentido contrário, quer dizer, a transformação fantástica da lógica de obra de arte prévia e a instrumentalização da Ciência e da Técnica como ovos da Arte.
Vemos aqui no seu esplendor, em foto de Marc Lacroix, a alteração radical de uma tela holandesa "canónica" do Século XVII, segundo o arbítrio do Método Paranóico-Crítico, com a adição de narizes descomunais às figuras femininas, de uma muleta que virá a segurar o chapéu de uma delas e a conversão da doçaria certinha em géneros alimentícios inquietantes, com tortillas a invadirem as gavetas mnemónicas adulteradas.
Da racionalidade aplicada retirou também a conclusão a que a opacidade de outras visões. mesmo profissionalmente críticas, não havia conseguido chegar, descobrindo em Gérard Dou, um contemporâneo de Vermeer, a "pintura em três dimensões", introduzida pelas modificações de pormenores nos quadros de tema pintados em triplicado, traço até aí atribuído a uma anomalia psíquica do injustiçado pintor. Donde retiraria o processo similar da multiplicação de tratamentos temáticos com desconformidades dignas de um passatempo de descoberta das diferenças. Mas claro que também foi mais fácil atribuir este caminho à ainda por cima confessa avidez de dollars.


Numa entrevista que conseguiu alguma atenção, a Mervyn Levy, começa por resolver surrealisticamente a acusação dirigida a Pollock, de um chimpanzé ser capaz de expressar-se da mesma forma. Aceita, com a adverbial cautela, o juízo, mas faz disso um reconhecimento de promoção, em vez de uma tentativa de denegrir. Diz que a mão do colega é quase animal, enquanto a do macaco seria quase humana. E considera o primeiro um dos pintores mais importantes desse 1961 em que prestou o depoimento.

Mas não prescindirá de instrumentalizar teses científicas para servirem de meio de inspiração. Tal como a pintura de Fractal procurava correlacionar-se com Teoria do Caos, vai para o seu método pocurar em Planck a inspiração energética que evidenciará o pintor como o elo intermediamente criativo que devolve às formas figurativas a importância posta em cheque pela Abstracção. Mas indo buscar os fundamentos ao esguicho de uma por ele denominada Pistola Quântica, em paralelo com o que fizera Pietro de Cosimo ao traduzir as manchas dos escarros dirigidos a uma parede nos dragões fantásticos que povoam as suas obras. É confiar ao Acaso a sociedade na batuta, onde outros apenas a reservavam para a domesticação dele.
Um motivo-extra há para o trazer aqui: foi dele profético dom de retratar este pobre bloguista, segundo o critério que o olho certeiro da Cristina aqui pôs em destaque: Navio.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Semáforo da Tragédia

Como proliferam as ambiguidades, até num evento que deveria ser de sentido único, como uma tragédia! Nem me refiro aos inconclusivos desfechos que se prevêem para inquéritos versando insuficiências de inspecções e combate a fogos no lar de idosos ardido por umas passas incompetentes. Refiro-me à mensagem, a retirar, a qual aspirando a ser de um perigo acrescido para os fumadores poderá também, ao invés, publicitar o fumo: afinal, a involuntária e infeliz viciada tinha chegado aos 93 anos, mesmo soçobrando a esse hábito ameaçador...

Da mesma forma o conectável quadro de Dali, em duas versões: O Fumador Adormecido, dos tons mais quentes, poderá ser visto como a sinalização do perigo, mas também ilustrar o êxtase, enquanto que a luz tendencialmente verde da alternativa tanto dá para permitir a continuação na bête noire da ASAE, como sugerir a incapacidade de gozar.
Não há certezas alicerçadas em fumaça.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Ondas do Mealheiro

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O Sr. Ministro das Finanças foge com o dito à seringa, no que toca a descer os impostos. Porquê? Por causa dos submarinos há muito contratados e que têm, se não os cascos, ao menos as costas largas.
Foi sempre uma credível manifestação da riqueza dos povos o gasto com uma marinha de combate. Na ressaca do Ultimatum de 1890, fez-se uma subscrição pública para adquirir um vaso de guerra, o Adamastor. Claro que o pobre e desacompanhado navio não poderia fazer qualquer espécie de cócegas, sequer, à Royal Navy, mas ter pago uma embarcação, em todos os sentidos armada, aplacou as vaidades feridas.
Também Eduardo VII de Inglaterra perguntou certa vez a uma amante célebre se ela tinha reparado que o que lhe ofertara em jóias dava para construir um barco de guerra. A questão era impressiva, mas a resposta foi impressionante - e já reparaste que o que vazaste dentro de mim dava para o pôr a flutuar?
Por isso creio ter sido de uma premonitória genialidade esta ilustração Nave da Guerra, que o Mestre de Pádua, em 1472, fez, para enriquecer «De Re Militari», de Valturio: aquele escudo da direita não parece ter, pintado, um cifrão?

domingo, 20 de abril de 2008

Fuga Para a Frente

Mulher e Pássaro ao Luar, de MiróDia do aniversário daquele que Breton considerou o mais surrealista de todos eles, o que se compreende, se pensarmos na própria renitência do visado em deixar-se aprisionar na escola de um só grupo, opondo-lhe sempre as influências paralelas do Cubismo e da Arte Popular. Também se perceberia pelo pendor mais submisso à alucinação que o próprio Joan Miró deu a conhecer. Mas, ao prescindir das relações paradoxais das figuras imediatamente apreendidas, ainda que reconhecíveis, como, passados os habituais erros de precurso, a preocupação da defesa contra a Modernidade ameaçadora, fazem-no voar para além da lógica (ai!) da Escola. Com boas cores, pois!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Elevação das Expectativas

Enquanto não chega o contributo pela Meg prometido, está na hora de apresentar as minhas conclusões provisórias sobre os usos e abusos do calçado feminino: a primeira reside em todas as razões e mais algumas aventadas, as estéticas, as de auxiliares da libido, as de satisfação emanada da mudança anatómica que se consegue, ficarem grandemente prejudicadas quando o objectivo, continuando muito embora numa esfera de concorrência, passe a ser o de bater records... Ora vejam os certificados "saltos mais altos do Mundo". Quem conseguirá andar com eles? Haverá alguém a sentir-se estimulado nestas e por estas andas? Conseguirá a portadora satisfazer-se com a própria imagem em tão instável (des)equlíbrio?

Sob o ponto de vista puramente estético também infunde muitas dúvidas o aproveitamento da Pintura para a decoração do revestimento dos pés, Assim, André Perugia inspirado em Braque dá-nos este peixe caminhante, que não apetecerá ao consumo. Mas pode ser aproveitado para uma ilação moral - quando uma Mulher compra um par de sapatos tem sempre um motivo a que lançar a rede.

Por fim Magritte, com o nada inocente Modelo Vermelho, dá-nos a compatibilização das vantagens do calçado velho, o de ser sentido como parte do pé, e a volúpia daquele que, de preço, foi recentemente adquirido. Para além de juntar mesma instância os apelos erotómanos de pé e suas capas.

domingo, 13 de abril de 2008

Confissões de Umas Máscaras

Dizia Oscar Wilde um homem investido da própria pessoa mente sempre, se quiserem ouvi-lo dizer a verdade que lhe dêem uma máscara. A só aparente contradição, que torna impossível a coexistência verbal e identitária do Vero, vem a calhar como lembrança do Artista que se definiu como Pintor de Máscaras e nascera a 13 de Abril, James Ensor. De mascaradas, com efeito, povoou ele a sua obra, numa coexistência desordenada com os demónios, muitas vezes umas e outros arregimentados em espaços repletos, o que elimina o propósito da consideração do dramaturgo irlandês. Com efeito, o mascarado só se dará ao trabalho de gritar o que normalmente não tem coragem a auditores que se não apresentem com o mesmo erradicador de responsabilidade que ele. E o sopro demoníaco de todo o lado emergente arrasta consigo a desvinculação ao Bem e ao Verdadeiro, na medida em que as revelações sob anonimato participam geralmente da intenção de fazer mal a alguém.Por isso, das suas obras, prefiro este Expulsão dos Anjos Rebeldes, em que o caos provém da luta entre os dois domínios bem demarcados, não já da hesitante atribuição da qualidade do que não é falso. Assim sou levado, em acto contínuo, para o outro aniversariante do dia, Samuel Beckett, que viu o abismo maior em redor do Homem no vazio que ele se cria em volta, ao ponto de as próprias relações e considerações de cada indivíduo perderem a nitidez lógica que a definição dos campos dá.

sábado, 12 de abril de 2008

Mas?

Findo o jantar, não me saía da cabeça a mais enigmática adversativa que conheço: William Morris, depois de tentar dar as feições da Mulher, Jane Burden, à Rainha Genebra, do ciclo da Távola Redonda, terá dolorosamente desistido, escrevendo na parte posterior da tela: Não consigo pintar-te, mas amo-te!
É este mas que eu contesto. Perceber-se-ia, se aplicado a uma impotência que recusasse a cosumação em acto da intensidade do sentimento nutrido. Agora, por não o satisfazer o resultado do retrato dela? Dir-me-ão que para um artista sensível, não conseguir dar seguimento ao sonho de contar a Amada entre as Musas é não pequeno sofrimento. E eu respondo que me parece todas as dificuldades entre eles terem nascido das profissões de ambos.

Não no sentido em que hoje é comum, com o cansaço a estimular a irritabilidade dentro do conúbio, ou com as exigências do trabalho a concorrerem com as prestações de cada casal. Antes porque penso que no respeitante à consorte, o métier morrisiano não era o de pintor ou designer, nem sequer escritor, que eram os que declarava na vida civil, sendo-o, ao invés, o de escultor. Com efeito, antes de casar com ela, moldou-a, qual nova Galateia, com o adestramento nas várias matérias da ascensão social, da Etiqueta à Literatura, dos idiomas estrangeiros ao piano. E com êxito.
No que a ela toca, revelou-se profética a pintura na pele dessa Guinevere escapando do Himeneu com um íntimo do Marido, Dante Gabriel Rossetti, tal como a medieval caíra nos braços do melhor amigo do marido, Lancelote do Lago. E porquê? E para quê? Modelo que fora, para ser pintada e amada por ele, como efectivamente foi, parece que abundantemente.
Morris, se foi bem sucedido em criar uma nova mulher, revelou-se incapaz de satisfazer as vontades que nela semeara. São célebres as distracções de poeta que frustraram muitos pequenos projectos da vida em comum, como aquela em que procurou satisfazer-lhe o desejo de uma temporada termal em Baden-Baden, tomando caprichadamente todas as medidas necessárias, com a pequena excepção de fazer as reservas do hotel...
Mas ela não compreendeu - ou não quis compreender - aquilo em que coincidiram na percepção as Mulheres que li e As Que conheci: que um homem distrair-se em face Delas é sinal seguro de que o perturbam.
Estavam reunidos os condimentos para um Pigmaleão que não acabasse bem. Burden, apelido de solteira, significa tanto fardo como ónus. Qualquer dos sentidos era mau presságio.

domingo, 6 de abril de 2008

Diálogo ao Espelho

Dia do Nascimento e da Morte de Rafael, coincidência tida por alguns como sinal seguro dos destinos excepcionais. Altura para relembrar a sua representação da Prudência, a mais discutida Virtude Cardeal, por alguém que ambicionava o chapéu vermelho do Cargo do mesmo nome. Não estranho que haja escolhido esta. A Justiça seria mais espartilhante, a Fortaleza menos subtil e a Temperança pouco sedutora para quem morreu no 37º aniversário, de excesso sexual, numa Sexta-Feira Santa, em voltas paroxísticas com a famosa e formosa Padeira.
Muito Boa Gente discutiu se ser Prudente é participar duma Virtude. Jesus tinha mandado não pensar no dia de amanhã, exortando os discípulos a desfazerem-se de bens e laços familiares para O seguirem. No entanto, S. Tomás e os seus seguidores contemporâneos redescobriram a significação da enjeitada Qualidade, como factor correctivo da Justiça, segundo Aquino, das outras Três, em escritos como os de Pieper. Tudo nasceria de possibilitar a Equidade, quer dizer, o equilíbrio entre abstracção e circunstância.
Ora, o que me salta à vista é o Génio Renascentista ter imaginado a figuração desta Força Moderadora mirando-se num espelho. Que me faz concluir: via como sua principal prerrogativa o conhecimento de si por Ela infundido, no sentido de percepção dos limites próprios, tal como aconselhado pelo Oráculo de Delfos, verdadeiro pressuposto de amestramento da Hubris.
Haverá caso mais concreto do que a personalidade de cada indivíduo?

domingo, 30 de março de 2008

Uma Data de Virtudes

Os mais dados a considerar as concidências astrológicas, na vertente solar, muito embora, poderão bem encontrar pano para mangas no facto de 30 de Março ser o dia em que vieram ao Mundo Van Gogh e Verlaine. Dois Autores, cada um no seu campo, cujas vidas tormentosas talvez tenham ajudado a promover as respectivas formas de expressão, contudo de qualidade inegável, qualquer delas. Mas a mitificação dos golpes auto-infligido ou dirigido contra uma relação em fuga, parecem-me ter assegurado uma perenidade a talentos que, sem elas poderiam ser sujeitos às sombras da datação estilística.
Neste dia de comemoração interessa-me ver como se projectaram no tratamento dos livros, assunto que me é sempre tão caro, as duas excessivas personalidades. Nos da pintura do grande Vincent, assim simplesmente intitulado, os seus três principais traços parecem-me poder ser encontrados. A pobreza que o afligiu encontra o alívio na abundância do acervo exposto; a solidão é contrariada pelo contacto espiritual com os autores de tantos escritos. E a procura de alguém com quem partilhar uma visão do Belo, visível nas transmissões estéticas que encerram, como na disponibilidade que a sua ordenação na tela evidencia. Querem algumas escolas psicologistas que a arrumação dos volumes traia carências afectivas. Neste caso, as proclamadíssimas e atestadíssimas do brilhante pintor terão encontrado a sua catarse na relativa desordem.

Já o Poeta, que desesperou de não poder controlar o Futuro, aproveita os amigos encadernados como imagem do reviver da parte de felicidade afectiva que lhe coube, através do renovado interesse das linhas outrora percorridas.:

BIBLIOPHILIE

Le vieux livre qu´on a lu, relu tant de fois!
Brisé, navré, navrant, fait hideux par l ´usage,
Soudain le voici frais pimpant, jeune visage,
Et fin toucher, délice et des yeux et des doigts.

Ce livre cru bien mort, chose d´ombre et d´effrois,
Sa réssurrection «ne surprend pas le sage».
Qui sait, ô Relieur, artiste ensamble et mage,
Combien tu fais encore mieux que tu ne dois.

On le reprend, ce livre en sa toute jeunesse,
Comme l´on reprendrait une ancienne maîtresse
Que quelque fée aurait revirginée au point;

On le relit comme on écouterait la muse
D´antan, voix d´or qu´éraillait l´âge qui nous point:
Claire à nouveau, la revoici qui nous amuse.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ristauratore Traditore?

6 de Março, dia do aniversário de Miguel Ângelo. Gostaria de ver associado ao escrutínio da exactidão biográfica uma igual vigilância versando a incorruptibilidade da obra, numa altura em que a febre dos códigos secretos ameaça contagiar o Buonarrotti, descobrindo-lhe por detrás da representação do Princípio e do Fim da Humanidade criada algo tão funcional como um Atlas de Anatomia.
Mas esse é o mais pequeno e resolúvel dos problemas que a herança dele deixou. Já me referi ao aparato comentarista que lhe preserva o valor simbólico e sentimental da obra, assim como dei conta da desvirtuação que o pudor arriscaria acrescentar-lhe.
Hoje mencionaria a polémica que dividiu os especializados cultores da obra do Génio, alinhando-os no partido favorável aos trabalhos de restauro, considerados reveladores de riqueza perdida por acção do tempo e das agressões do meio, segundo o critério decidido em 1964, tendo Carlo Pietrangelli na liderança, e os que os rejeitavam, capitaneados por Venanzio Crocetti, os quais consideravam adulteração o uso de diluentes à base de bicarbonato de soda, que não distinguiriam entre as tintas de cola de reparações anteriores e as usadas pelo próprio Renascentista, além de alterarem as cores. Esta acusação não colou ao outro lado, contra-argumentando que M. A. não retocava com tintas dessas, após a conclusão da pintura a têmpera, embora não explicando a razão desta necessidade de mexer em frescos que considerados pelos estudiosos em excelente estado, aumentando as suspeitas de ser cedência à estratégia publicitária da produtora televisiva japonesa que patrocinaria os cuidados, em vista à garantia da concessão dos direitos de filmagem detalhada.
O Artista, ao reconhecer um erro na concepção da abóbada da ala Sul da Basílica de S. Pedro, conducente à destruição do que já fora edificado, escreveu se se pudesse morrer de vergonha e de dor eu já não estaria vivo. Que diria ele das tropelias que a sua obra sofreria e do engano de acreditar que elas perpetuariam, sem trair, a sua concepção?
Junto a medalha que Leone Leoni mandou ao Mestre, com a efígie, que lhe esculpira.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Imortalização do Instante

Descontemos a malandrice do Autor da pintura de fazer aparecer uma coisa suja como é o dinheiro corrompendo um ideal construído e aplicado como se quer o Beijo. Por toda a reflexão que vem fazendo sobre este, apetece dar esta Bolsa, uma vez depurada, à Fugidia, como objecto de toilette que sirva de prolongamento do efémero. Quem pintou foi Vladimir Kush.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Ambiguidades do Captar

Embora as minhas preferências absolutas vão para Velázquez, G. Bellini, Mantegna, Turner... se me perguntarem por pintores grandes da França Oitocentista, não posso deixar de pôr à frente um nativo de 25 de Fevereiro, Renoir. Não o louvarei pela mestria técnica, ou sequer pela dissolução das formas na luz, para o que há gente mais preparada. Quero destacar a Atenção, essencial em qualquer artista plástico que não enverede pela pura fantasia, mas em que é difícil de encontrar imortalizador da dos modelos, com felicidade.Uma obra-prima de referência obrigatória, O Camarote, merece toda a fama que tem. Muito do que torna a obra tão conseguida é o contraste entre a figura feminina, que, certa das armas que tem, se oferece placidamente para ser olhada, enquanto o homem, em muito menos destaque, assenta os auxiliares da vista curta a outro ponto, desinteressando-se daquela que tem tão próximo e, presumivelmente, muitos outros olham. Mirará as reacções à sua companhia? Ou procurará uma rival dela, querendo acrescentar conquista ao território incorporado? Para o espectáculo é que não olha de certeza, como o olhar dela também, aliás, parece muito pouco concentrado para fazê-lo.
Menos conhecido, A Primeira Saída é um prodígio pelo que revela de deslumbramento e descoberta de um mundo novo, com um minimalismo de exposição dos traços. Do jogo do título com a absorção sugerida pela suavidade de um perfil escassamente sugerido, com as costas que nos vira a indicarem a fixação em qualquer sensação que lhe sabemos nova. Leveza e aplicação só possíveis no "interesse desinteressado" quando a inexperiência ainda impera.
E por fim, O Baloiço, talvez o menos comentado, que considero absolutamente genial. Na indissociabilidade da Mulher e da Criança, logo infundindo uma percepção de maternidade, o que poderia ser a experimentação da segurança do baloiço para o rebento é desmentido pelo coquetismo do gesto com que compõe o cabelo. A miúda olha, surpreendida pelo roubo do brinquedo, mas com a admiração de quem quer ser como ela. E o triângulo amoroso sugerido pelos dois homens... quem será o legítimo, quem será o intruso? Quer a superstição que esteja encostado ao casamento como à árvore o que tem títulos sociais, enquanto que o rosto rapado e o facto de se dirigir à que desvia pudicamente o olhar sugere o piropo que desencadeia a afectação do pudor. Pode também não ser nada disto, por exemplo um pai que vigie o pretendente à filha, acompanhado pela irmãzita dela, que tenta perceber se gosta do futuro cunhado, aquele senhor que lhe disseram ser muito querido à Mana... mas uma vez mais o que se destaca é o direccionamento para o que prende. No célebre «Peeping Tom» Michael Powell filmou a macabra defesa da tese de que o que mais gera o medo é o medo alheio. Com Renoir podemos concluir que o que mais evidencia a atenção de quem pinta é a dos que retratou com génio.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Antecipação

O Fumador por Philippe Le Bas, na esteira de David TeniersA isto chamo eu o génio no estilete! Imaginar, com séculos de antecedência, uma característica cena do Portugal Socrático - o fumador som ar sorrateiro, fazendo por que a ASAE não tope e o profissional de restauração virando ostensivamente as costas, a modalidade mais decidida de fazer vista grossa...

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Olhos Na Cara?

Dia em que aniversariava Francis Picabia, o ideal para publicar a obra que mais lhe prezo, Os Seios, sem que seja (ou seja apenas) pela perversão que tomou o nome de Parcialismo. O que os historiadores e curiosos da Arte tomam como uma boutade, o entendimento de que o público precisa de ser violado nas posições menos comuns, é toda uma teoria estética, a tradução, em linguagem do Século XX, do épater le bourgeois baudelaireano.
Os presupostos são diferentes dos da ortodoxia Surrealista que também avizinhou, apesar da vacina, sob confessada forma de contrafogo de Dada. Nesta pintura nada está por acaso ou arrepio da lógica. Peitos transformados em olhos melancólicos no corpo rodeado pelas fatalidades de signos que excluem, como o X, ou debilitam, à maneira da ampulheta; são, contudo, o radar da Mulher para a vida externa que A contagia, como o sinal luminoso da que gera. Ao lado, caídos, outros, desta feita assemelhados a arregaladíssimos globos oculares, metáfora de todas as espreitadelas do Mundo. E, poucas vezes notada, aquela vista que encima a máscara, em pose de lâmpada, desmente, pela remoção daquela, o brilhantismo da ideia de disfarçar a obediência aos sentidos...
Homem de muitos ofícios, também Poeta, dedicou aos amigos os longos versos de «Pensées Sans Langage», deixando claro que aos que se atrevessem a pensá-los Langage sans Pensée sugeriria a visita perigosa ao Jardim Zoológico. O que, apesar das aparências, é a frase menos surreal que se pode conceber. E endossou-os em nome das sympathies electives, coisa que não pode deixar de ser bem vista nesta casa...

domingo, 13 de janeiro de 2008

Os Sete Pecados na Capital

Robert Delaunay era um visionário abrangente: duas das suas variações sobre o tema da Torre Eiffel correspondem às visões das partes em conflito no recente episódio de putativa ameaça terrorista contra tão emblemático ícone turístico da Mais Prodigiosa Cidade do Universo: o vermelho da Torre da mesma cor, correspondendo ao alerta em que se encontram as autoridades; a desconjuntada visão cinzenta do monumento, à que os sonhadores do atentado desejariam ver triunfante.Mas é possível detectar nesta notícia ecos dos Sete Pecados Capitais: a Avareza por a Al Qaeda parecer desejar a reserva para si do monopólio o terror, ao ponto de assinar um projecto não concretizado, pouco importando que o resultado ficasse comprometido; a Gula dos escutadores nacionais, ávidos de mostrarem serviço que os promova a salvadores de uma referência estrangeira célebre; a Ira, que todo o Mundo Civilizado sentirá despertar, face a um rumor sem confirmação suficiente; a Soberba, inscrita na construção que se quer Nova Maravilha do Mundo e, não esqueçamos, nos minaretes tão queridos aos que desejam deitá-la abaixo; a Preguiça, das Forças da Ordem gaulesas, as quais decerto chamarão a si os méritos do impedimento da catástrofe, referindo o mínimo que possam o contributo externo na descoberta da possível lebre; a Luxúria, expressa na edificação altaneira e pontiaguda, como símbolo fálico que é, maravilhosamente apta a ilustrar a preocupação dominante na França de hoje, com a virildade presidencial bem orientada; e a Inveja - o pecado de que menos gostava, mas a que Carla Bruni veio fazer com que me afeiçoasse, passando, concomitantemente, a prezar um bocadinho menos esse Sarko que tanto apreciava...