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domingo, 27 de janeiro de 2008

Rota de Colisão

É consensual a noção de que o uso de espiões é um boomerang que se pode voltar contra os empregadores. E sempre tive por seguro que o fim do nosso planeta seria desencadeado pelo próprio Homem, eternamente à procura de ameaças exteriores que o distraiam da maior, que é ele próprio. Assim, falhadas datas avançadas por profetas para o embate do meteorito que com esta história acabaria, como distando ainda uns anos o choque que outros futurólogos, os cientistas da NASA, calculam para Fevereiro de 2019,era fatal que a técnica apressasse a coisa e levasse um satélite de espionagem descontrolado a ameaçar-nos para breve. Cairá pela Grande Lisboa? Sinto-me como os Gauleses da Aldeia Irredutível, mas sem a certeza do Chefe, o qual garante, acerca da ocorrência da temida queda do Céu sobre a cabeça, que amanhã não será a véspera desse dia.
Pode, evidentemente, o Fim do Mundo - ou de parte dele - ser visto como libertação. Basta abrir a garrafa ao lado, o que tornará muito mais fácil não falhar previsões...
No resto, ganha sentido amplificadíssimo o brocardo que diz ter a curiosidade morto o gato.

domingo, 18 de novembro de 2007

Paninhos Quentes

Detalhe
Os apavorados pela nudez têm tanta infelicidade que, ao pensarem servir a religiosidade, acabam por cair em asneiras teológicas: a 18 de Novembro de 1541 Miguel Ângelo desvelava pela primeira vez O Julgamento Final, embora a abertura ao grande público só tenha vindo a ocorrer como presente natalício. Começou então, encabeçada por Sernini, um estrangeiro, Embaixador de Mântua, uma campanha para cobrir os orgãos sexuais das figuras. Esta atitude, que foi prolongada na Campanha das Folhas de Figueira, um expediente antecessor do fio dental de hoje, remetia para a saudade das parras de Adão e Eva, após a Expulsão; e contrariava o exclusivo da temporalidade terrena em que o conhecimento do Pecado obrigava ao seu uso, inaplicável nos que iam agora ver a Eternidade ser decidida pela Presença Divina. O Papa Paulo III não foi na conversa, mas, depois do Concílio de Trento, novas exigências do exterior levaram a que se encomendasse a Daniele da Volterra a colocação de uns paninhos sobre as partes podendas. Era a fúria contra o Inventor de Porcarias, como chamaram ao Artista, quando, afinal, ele delas seria somente o retratista, devendo a responsabilidade ser endossada ao Criador, o que deixaria esses obcecados em maus lençóis...
Mas um problema perdurou. Apesar de uma cópia duplamente au naturel, de Marcello Venusti, poder ser vista em Nápoles, optou-se, no final do Século XX, por, no restauro, preservar os acrescentos, como incorporação artística que eram. Ora, pergunto, não seria mais respeitoso e curial pôr a pintura como foi concebida e ter uma cópia que permitisse examinar as alterações efectuadas? É que, assim, a autoria não pode ser somente atribuída ao Buonarrotti.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Si Non e Vero...

Leitura de um estudo de A. S. Silva Costa Lobo, PORTUGAL E MIGUEL ANGELO BUONARROTI, de 1906, em que se força a nota à escala do Mundo para tentar provar que o pormenor do Juízo Final da Capela Sistina em que se vê uma figura estendendo o que é dado como um Rosário a dois ostensivos naturais de outros continentes corresponde a uma glorificação de Portugal, paga pelo Enviado Balthasar de Faria. A tese é a de que se trataria da obra evangelizadora levada a cabo fora da Europa, com as características físicas dos gentios a indicarem as paragens por onde se moviam os missionários lusos. Alicerçando-se numa carta do diplomata português em que ele narrava ter Buonaroti insinuado a urgência do pagamento de uma "Nossa Senhora da Misericórdia", o nosso Autor lá consegue descobrir na enorme pintura uma figura apta a corresponder a Essa Faceta de Maria, contaminando, por assim dizer, o fresco inteiro com o protagonismo que convém ao defendido. Por outro lado, vê claramente nas roupagens de um dos convertidos um hábito dominicano, que igualmente é promovido a prova, bem como a animosidade do Florentino contra a Espanha e a dureza da colonização desta.
Nada tenho contra a latitude extrema na interpretação das obras plásticas, duvido é que esta exaltação da História Pátria pelo génio italiano convença muitos, tão ostensivo é o amor patriótico na formulação da teoria. Porém, meditando na grandiosidade da Obra de cristianização que os nossos Maiores empreenderam em Áfricas e Ásias, tenho de reconhecer que mereceria não menos que o ilustrador da Basílica de S. Pedro para a celebrar. E que será pecado bem pequeno guindar uma suposição agradável ao que se ama a explicação de uma obra. Também aqui a liberdade deve ser total e não se vê que a criatividade, exaltada na coisa dada a ver, possa ser censurada na visão da coisa. Desde que se não atribua ao Autor sentimentos contrários aos que tenha exprimido durante a vida. E não consta que o extraordinário artista tenha alguma vez exteriorizado hostilidade a Portugal...