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domingo, 6 de julho de 2008

Cruz Sobre o Cruzado


Morreu anteontem Jesse Helms, o brilhante ex-jornalista que saltou para o Senado Federal dos EUA e para a refundação Conservadora, nos trinta anos que lá esteve. Os Media romanceadores disseram ter sido ele o inventor de Reagan, ao dar-lhe decisivo apoio na promária contra Ford, na sua Carolina do Norte. Não é verdade. O Governador da Califórnia tinha currículo e base suficientes para não precisar de ser inventado e a derrota contra um Presidente em exercício nunca deslustrou, servindo como trampolim para próxima aventura. Além de que Helms, apoiando-o, considerava-o insuficientemente doutrinado.
O grande legado do Legislador ficou na tenaz oposição ao enturmanço na cedência ao intervencionismo e à contemporização com a retórica igualitarista. Opôs-se a acções militares na ex-Jugoslávia, o que coincide com a minha preocupação de resolver problemas no Velho Continente sempre sem a ajuda do Amigo Americano. E não criticou, como é hábito, as quotas pelo que também são - um insulto aos beneficiários delas, mas, abertamente, pela injustiça de retirarem a pessoas mais qualificadas postos de trabalho de que necessitem, por não pertencerem a minorias dadas como desfavorecidas.
Ancorado na fidelidade aos agricultores do seu Estado e na influência que exerceu no Comitê senatorial que lhes respeita, faleceu a 4 de Julho, dia da Fundação e da morte de Washington, permitindo-lhe chegar-se ao simbolismo patriótico numa coincidência que os compatriotas têm por significativa. Senator No se orgulhava de ser, sempre assimilado pelos adversários ao vilão de Bond e ao exasperante Gromiko que ostentaram similares designações. O País que deixou é bem diferente do que encontrou quando eleito, com a desmoralização vietnamita, a quase guerra civil racial e a acabrunhante demissão escandalosa de Nixon.
RIP

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A Paráfrase Que Facilita

O cadáver do rei deposto volta agora, por nossas mãos, à Pátria comum. Quem nos diz que este facto que da nossa parte, da parte do governo, não tem intuitos reservados, não sarará aquela ferida e não promoverá uma união mais íntima de todos os portugueses, fechando, definitivamente, o ciclo das convulsões em benefício da Pátria?
Salazar
A 2 de Julho de 1932 faleceu no exílio o último (por enquanto) Rei de Portugal. Acabadinho de chegar à liderança formal, o genial Chefe da Situação honrá-Lo-ia, dessa forma Se honrando e ao regime, Na própria nota em que assumia a realização das exéquias, as justificava pelo desejo do Monarca de descansar para sempre em solo luso e pelo Patriotismo que, na Guerra e na Paz, sempre evidenciara, nessa Inglaterra que o acolheu.
D. Manuel caiu vítima do regresso em força do multipartidismo, com seis presidentes de Ministério em dois anos, como doutra forma caíra Seu Real Pai, por não ter prescindido de um partido para apoiar uma ditadura, ao contrário do que tanto desejava, propunha e peparava o enorme Mousinho. Os partidos, um ou muitos, sempre o mesmo mal!
Não pode um miguelista desencantado há muito com os rumos que a sua Terra tomou deixar de se inclinar perante o Rei Constitucional, aqui significativamente retratado no uniforme de Generalíssimo talhado no do Seu Progenitor e Antecessor. Nem perante o Dirigente dum Poder Republicano que não hesitou no preito que unisse. Para que na Restauração que forçosamente há-de vir se possa gerar a união de que só se vejam excluídos os entusiastas das fracturas enquanto nessa infantil mas assassina disposição permanecerem.
António Lopes Ribeiro na Ericeira escreveu:

NA MORTE DE D. MANUEL II DE PORTUGAL

Daquela praia exígua se embarcou
o Rei de Portugal, naquele dia
em que a nossa inquietude renegou
as velhas tradições da Monarquia.

Partiu para Inglaterra - e não voltou
senão contido numa urna fria,
derradeiro sinal de simpatia
daquele reino em que tão mal reinou.

Morreu no exílio, o último Bragança.
E viveu exilado da esperança
de regressar à Pátria e ao Poder.

Mas nós os fortes, os que o exilámos
sem saber bem porquê - nunca olvidámos
o Rei moreno que sabia ler.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Não Ser de Modas

A Ampulheta de Vladimir PavjukNo passamento de Yves Saint-Laurent, breve reflexão sobre o cunho genérico do fenómeno da Moda. É, antes do mais, a ostentação dos sinais exteriores de fraqueza de tentar eximir-se à tirania do Passado, com as desilusões maiores ou menores que toda a Experiência traz; e à condenação do Futuro, ameaçador, com o inexorável arrastamento no turbilhão que impele os corpos, conjuntamente com as águas residuais, para o ralo da finitude.
Estar à la page simula uma confortante coagulação, como traço mais emblemático de todo o ilusório Presente que é: acompanhando as tendências, enganamo-nos, como se enganam os passageiros de duas viaturas paralelas à mesma exacta velocidade, que imaginam estar parados, apesar de se irem encaminhando velozmente para os respectivos destinos.
Oscar Wilde disse certa vez que a Moda era coisa tão detestável que era necessário mudá-la de seis em seis meses. Sabendo da obsessão que colocou em envergar gravatas e sobrecasacas do último grito, bem como da confissão de que aplicara na obra o seu talento e o génio na sua vida, somos obrigados a concluir que igualmente sentiu a necessidade de se transformar em cada semestre para conseguir suportar-se.Que é afinal o escape comum à maior parte de nós, os que não conseguimos evitar a penetrabilidade à influência do Actual.

sábado, 26 de abril de 2008

Ao Sabor das Viradeiras

Dia que se diz ter sido o da morte de Daniel Defoe. Já noutro lado falei das interpretações que lhe caparam a ironia, coisa que uma vida pública dúplice não fez senão favorecer. Queixava-se de que poucas pessoas, tanto como ele, teriam estado, alternadamente, nos píncaros ou na fossa, mas o certo é que foi fazendo por isso, ao desmerecer, com as transferências de campo sucessivas, quaisquer confiança e defesa firmes na e da sua pessoa. Justificou-se (e ainda hoje os admiradores o repetem), dizendo que procurou, em cada momento, o partido que melhor lutasse pelos seus princípios. Mas, é curioso, achou-o sempre naquele que se encontrava no Poder...
Fez escola, como todos sabemos. Embora a expressão vira-casacas, exprimindo uma realidade velha como o Mundo, lhe fosse anterior algumas décadas. Nasceu da contínua inversão da política de alianças do Duque de Saboia, Carlos Emanuel I, na imagem, que ora alinhava com a França contra a Espanha, ora se coligava com Esta, contra a Nação Gaulesa. Para maior conforto mandou confeccionar uma casaca a que hoje chamaríamos double face. de um lado branca, para os períodos de conluio com Paris, do outro vermelha, para as alturas de harmonia com a Potência Ibérica...

Voltando a Defoe, não conseguiu com a "adesividade" qualquer consideração dos grandes vultos das letras britânicas, de nenhum dos lados do espectro político. Swift, pelos Tories e Addison, pelos Whigs, referiram-se-lhe com desprezo, acentuando-lhe a agravante de escrever mal. Ao ponto de não podermos deixar de interrogar-nos se a sua «História Política do Diabo» não constituiria, igualmente, um episódio de jogo duplo. Ou não fosse o nome que mudou, de origem, Foe. E a quem é que chamam O Adversário, a quem é?
À atenção dos que seguem a vida pública portuguesa, que vai estando a abarrotar disso.

sábado, 5 de abril de 2008

Desgosto

Perdoarão os meus Leitores que hoje não poste mais, mas encontrei o meu querido Gold, o qual estaria prestes a fazer nove anos, morto, na varanda, a dois metros do local onde nasceu.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

As Grades do Inferno

Quem queira consolar-se com o pouco digno disso que nos resta, pode ir ver as fotogradias tiradas, por vezes, de S. Pedro de Alcântara pela Arte da Luísa, duma Lisboa diversa da da litografia de 1845 de Sousa e Barreto. Entretanto, no dia em que se noticiou a reabertura do passeio do Aqueduto, veio-me à lembrança falar de outro fecho dele e de uma sua macabra substituição pelo cimo da muralha de S. Pedro que comecei por referir. Tanto infeliz se julgou livrar da infelicidade esmagadora atirando-se de lá, que o altruísta vereador Ayres de Sá desencadeou uma campanha para colocar uma grade que obstaculizasse as tentações. Entre adiamentos de sessões camarárias e dilações se passaram alegres anos - menos para os espatifados e os que deles se apiedavam - de 1852, em que o gradeamento se decidira, até 1864, em que uma proposta contrária a ele unanimemente triunfou(!). Pelo meio, nada de ferros. Só em 1866 o bom senso voltou. Onde é que nós já vimos um país de adiamentos, oh, onde terá sido?
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Grades do Inferno pois lhes chamei, não por oprimirem, mas por tardarem desesperantemente em existir. Quem como grade funcionou, no que a Antero de Quental respeita, foi Oliveira Martins. Lembremos parte da carta a Eça em que à bala fatal se referiu:
Matou-o a sua imaginação exarcebada pelo capacete de ozone da ilha. Era uma tentação antiga: duas vezes o desarmei e uma no instante em que se ia matar. E então havia um motivo: mulher. O nosso pobre Antero não tinha a filosofia bastante para perceber que, a vida nem vale a pena de nos desfazer-mos dela. Era um alucinado da metafísica e provavelmente acabou julgando ir viver num mundo melhor.

O Penúltimo período do texto não se aplicará também a um blogue?

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Justiça!

Já uma vez falei da grande injustiça que a memória histórica, ou antes, a falta dela, fez ao enorme Cabo de Guerra e glorioso evadido que em idade avançada morreu na batalha de Pavia que hoje se comemora. A história é conhecida, embora controvertida, pois não se chega a acordo dobre ter sido uma calinada dos soldados ao comporem canção de homenagem ao notável Marechal de la Palisse, ou adulteração de copista das palavras de Francisco I, confundido com o valor de s que o f também tinha, ao tempo.
Fosse como fosse, Rei e peões se irmanavam no reconhecimento que o epigramismo oportunista de La Monnoye fez perder de vista. O que justifica plenamente o desagravo de Dumas Pai, quando, a este respeito, disse que a ingratidão não era um privilégio dos Reis, no caso foi-o da posteridade.


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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Provadores e Venenos

O Provador de Comida de Michael Anthony PagliaSempre me irritou a aceitação acéfala de versões conspirativas, segundo as quais este ou aquele governante teriam sido envenenados, um pouco ao sabor das preferências dos especuladores. Saúdo assim esses verdadeiros provadores a posteriori que são os cientistas que encontraram maneira de determinar a inexistência de ajuda ingerida no óbito do Bonaparte, uma das muitas malfeitorias atribuídas a essa Albion de costas largas. E exorto vivamente a que se efectuem exames paralelos aos restos de D. João II, D. João VI e D. Pedro V, entre outros, para acabar de vez com a dúvida entre o que é mito e não é. No caso do Príncipe Perfeito, por exemplo, Bramcamp Freire prova por A + B como a atribuição de autorias de assassínio são fantasias de historiadores imaginativos, mas não se lembra de pôr em questão o próprio pretenso envenenamento...
Fiat Lux!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Morte Irónica

Em 9 de Fevereiro de 1640 um governante que tinha proibido aos outros o álcool morreu, paradoxalmente, de cirrose do fígado, por dele não se ter abstido. Murad IV foi um precursor do Sr. Sócrates: proibiu também, além da pomada e do café, o tabaco. Isto numa megalómana tentativa de abolir todo e qualquer fumo, conhecendo que ele revelava fogo, pois ficara supersticiosamente traumatizado ao ver arder grande parte de Constantinopla, em consequência dos trabalhos de pirotecnia que celebravam o nascimento do primeiro dos seus filhos. Como não dispunha da ASAE, andava pessoalmente, à paisana, pela cidade a pedir uma porçãozita e, quando alguém lha dava, em troca da proto-beata ficava-lhe com a cabeça que pessoalmente decepava, exemplo para fazer pensar duas vezes antes de compartilhar o maço. Era homem confiante nas suas... desconfianças. Mandou desta para melhor o desgraçado que acrescentara um andar da sua casa, porque meteu na pinha que ele o fizera para espreitar para dentro do seu harém, ou seja, foi um puritano perseguidor do voyeurisme alheio. Deu chá de sumiço num grupo de mulheres que cantavam na rua, por lhe perturbarem o sossego, coisa que apeteceu a muitos forçados auditores de certos cacarejos, mas apenas em desabafo sem consequência. E tratou da saúde a um francês que se aproximara de uma turca para melhorar o seu conhecimento da língua, reafirmando uma acepção menos popularizada da sabedoria que nos diz pela boca morrer o peixe e servindo de referência ao Eliseu para não meter na cama da UE a versão actual dos Otomanos.
O Nosso Premier não é tão drástico, o tempo e o local são outros. Mas com a arbitrariedade interditante que exibe, quem sabe se não lhe estará reservado um outro género de morte, a política, em conexão com essa monomania?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Verbosidade Mortuária

Homenagem a Delacroix, de Fantin-Latour, sobre foto de NadarOuvida a Dr.ª Ana Gomes sobre Suharto e o que à minha consciência apetecia desbobinar sobre Habache, lutei toda a manhã com a tentação de botar faladura sobre dois recém-falecidos cujas vidas encerraram muitos actos que desaprovei. Não, o farei, porém. Não é por cedência à portuguesíssima e viciosa mania de dar todos os mortos por bons, compensando o mal que deles em vida se disse, muitas vezes por não melhor razão do que exibir-se forjando sagacidades que atraíssem cúmplices. Mas sempre vi como integrante do conceito de decência anglo-saxónico a identificação das palavras ditas nas exéquias com a Eulogy, uma universalização do elogio fúnebre que por outros lados se reserva a mortos mais ou menos eminentes. Não podendo dizer bem, o melhor é calar e reservar as forças da combatividade para ocasião mais própria do que a passagem deste Mundo a outro.
Ramalho Ortigão, transmitindo-nos impressões de França, escreveu:
Aqui há tempos em Marselha (cuido que foi em Marselha) morreu um procurador geral, cuja limpeza de mãos não era integralmente garantida. No dia em que êle se enterrou, estando já o cadáver na cova, aproximou-se um dos circunstantes e pronunciou perante a multidão silenciosa o seguinte discurso:
«Senhores! É perante a morte que a verdade se deve manifestar a tôda a sua luz. O cidadão que aí jaz exânime foi um patife. Tenho dito.»
A assembléia retirou-se abanando aprovativamente a cabeça como se fosse dizendo consigo: - O homem falou bem.
(...)
Falemos com franqueza: Para que há-de a gente malquistar-se com os vivos? Esta vida são dois dias. Esperem até depois de amanhã; deixem-lhe fechar o ôlho e saltem-lhe em cima.
Por êste modo a vítima não sofre as dores da operação, a sociedade desafronta-se e a moral jubila.
Está a ironia Ramalhal inteiramente conforme ao duelo contra Antero, em que, sacrificando as próprias sintonias de ideário, não pôde pactuar com ataque a Velho cego e doente, que, tal como os Finados, neste Mundo não tinha armas equiparaveis com que se defender. Uma razão que me leva a atacar Chávez e não já Fidel. É nesta Escola de comportamento que me filio.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Do Drama Ao Enjoo

O Suicida

Dia do aniversário de Manet. Converge um dos seus quadros mais poderosos com um estudo sueco, que me insatisfaz, para me fazer abordar o tema. Não vejo, pela condensação transmitida na Imprensa, que se posssa, de uma mera constatação estatística, tirar da presença ou não de uma substância química um padrão de probabilidades de suicúdios futuros, em função do peso ao nascer. Toda a minha observação diz que a principal causa suicidária radica na concepção que cada um faz de si, do que lhe falta, do que merece, do que teme. Cioran dizia que só um optimista se suicidaria, é o único que acredita ir desta para melhor. E não sei já quem tinha alertado para que se nem todos os motivos de suicídio são maus, há sempre coisas melhores para fazer... o que, em última análise, remete o acto fatal para um privilégio mais dos desocupados,
Quereria acrescentar uma nota sobre o tema na Pátria do Pintor: os Franceses são pródigos em reverter para os Ingleses tudo o que desconsideram. Mesmo coisas que lhes sáo geralmente atribuídas. A sífilis, conhecida em todo o lado como Mal Francês, é dada por eles como Mal Espanhol, pretendidamente trazida pelos companheiros de Colombo para Nápoles, pelo que igualmente lhe chamam Mal Napolitano. Toda a outra gente diz que sair sem se despedir é fazê-lo à francesa; mas lá estão eles a contrariar, dizendo que é à inglesa. Seria ainda mais ocioso que suicidar-se - e, em todo o caso, fazê-lo como escritor credível - tentar imputar aos habitantes da Albion a prática, no seu todo. Mas Etienne de Jouy não hesitou em dizer que a maior objecção contra o suicídio é que ele encontra frequentemente a fonte numa vil mania que nos vem de Inglaterra e que nós tomámos por moda, como os jockeys e os cavalos de cauda curta, as «Noites» de Young e spencers. Os ingleses matam-se para se desenfastiar. Deixemos-lhes esse passatempo que não convém ao nosso carácter nem ao nosso clima.
E, contudo, o delírio como prefácio acaba por ser truque expedito para transformar uma sentença moral de conclusão quase num dito de espírito:
o suicídio é frequentemente um crime, por vezes uma mania, raramente uma desculpa e quase sempre um erro de cálculo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Xeque

Concentração de Richard Earl ThompsonTotalmente colhido de surpresa pela notícia do passamento de Bobby Fischer e não estando na minha mão devolver ao Génio o sopro vital, resta-me o consolo de, a Seu respeito, haver em devido tempo subscrito a petição contra as confusões da Política Internacional e do Desporto do Intelecto.
Como Lord Dunsany escreveu, pensando no epitáfio para Capablanca:
Now rests a mind as keen,
A vision bright and clear
As any that has been
And who is it lies here?

One that, erstwhile, no less
Than Hindenburg could plan,
But played his game of chess
And did no harm to man.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Os Sentidos Nas Alturas

Sir Edmund Hillary por Edward J. HallidayNuma velha fábula chinesa, usurpada por Mao Tse Tung, o Velho Louco, convencido de que conseguia mudar as montanhas, mandava os filhos desbastarem-nas um pouco cada dia. E quando o Velho Sábio dele troçou, disse-lhe que as elevações não podiam crescer mais, enquanto que as sucessivas gerações que abatessem um pouco de cada vez poderiam acabar por retirá-las do caminho. Tanta perseverança teria comovido Deus, que mandou dois anjos removê-las.
Em período interiormente conturbado não consegui ontem elaborar, como queria, um post em honra de Sir Emund Hillary, entretanto falecido. Faço-o hoje, que ainda é tempo. Para sublinhar as diferenças - onde o revolucionário oriental queria forças que arrasassem o que estava no alto, nivelando horrendamente, o Alpinista Neo-Zelandês procurava no respeito pelo Existente e pelo esforço pessoal, elevar-se a níveis difíceis de atingir. E como o próprio deixou claro:
Não são os picos que se conquistam, mas nós próprios.

À Sagrada Memória de Meu Pai

Waldemar Deseado da Cunha Porto 1919-2007Há precisamente um ano, tinha eu outro blogue, vivi aquele que foi, até agora, o pior dia da minha vida.
Na Blogosfera encontrei a solidariedade de Tantos que, em escritos nela, ou por correspondência de vários suportes, por via telefónica, ou, até, presencialmente, me ajudaram a cumprir a obrigação de continuar a viver.
Muitos podem achar que não é aconselhável a exposição de sentimentos deste género numa página multifacetada e aberta. É reserva que respeito, mas há muito que passei a idade da timidez no reconhecimento das minhas dívidas espirituais.
No que me toca, quer no sentido do que me concerne, quer do que me comove, quero que se saiba que nada esqueci do Bem que me fizeram. Não Lhes porei aqui os nomes, porque foram Muitos. E cada um sabe a quota de Bondade que Lhe cabe. Foi em grande parte pelo reconhecimento devido que voltei, num momento em que não tenho disponibilidade nem leveza comparáveis.
Que os Afectos que reuni neste meio e incorporei na minha pessoa, pela Quantidade, mas, sobretudo, pela Qualidade, me possam tornar menos indigno Dele.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Contraponto

Os caprichos do Tempo são assim: uma a seguir à outra, deixaram este Mundo as duas vozes mais notoriamente alevantadas contra os prémios literários, depois de Gracq, Luiz Pacheco. Sempre achei que era uma peleja escusada, acerca de um assunto sem importância. Nunca a atribuição de um prémio me decidiu a ler qualquer livro, ou, pelo contrário, a deixar de fazê-lo. E não discuto concessões dessas, ou quaisquer outras recompensas, mesmo a contemplados de que desgoste. Fazê-lo seria, paradoxalmente, deixar-se prender demasiado ao mundo que se diz rejeitar. Foi esta uma das contradições insanáveis do Autor agora falecido, com um talento mais forçado pelas leituras do que espontâneo, o que em nada diminui, no conceito de quem ponha muito alto o amor aos livros. Às pequenas misérias se prendeu, ao fazer da maledicência assente nos conhecimentos que coleccionara o prato forte da recordação maior que deixará, para além da actividade editorial: as entrevistas. Um panfleto como o do «Sonâmbulo Chupista» soa demasiado tautológico, por a denúncia de plagiato nobilitada por publicação autónoma não fazer mais do que reafirmar o que é evidente à primeira olhadela - a incomensurável superioridade como escritor de V. Ferreira sobre Namora.
E nessas conversas em que largou aquilo que o tornou mais visível, a marginalidade que tentou encarnar, negava-se, na própria concessão das declarações, agravada pela prisão no personagem que se criou. Dir-se-á que todos, mais, ou menos. Mas não está assim tão universalizada a proclamação invariável da contestação das amarras sociais.
Dessas grilhetas auto-impostas só a morte o libertaria. Foi ontem. Dito isto, tenho de deixar claro que continuo a lê-lo, o que não faço a escritas que não me interessem. E esta não é pequena forma de sentir pesar.
...............................................................-2008

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Cosmos Pessoano

de Stuart?
30 de Novembro é também a data da morte de Fernando Pessoa. Passo os olhos por uma carta, então inédita, publicada pela «Colóquio Letras» Nº 45 de Setembro de 1978, em que oferece a Unamuno o primeiro número da «Orpheu». Depois de uma provocatoriamente altiva, quase publicitária, assunção da sintonia com as vanguardas literárias europeias, sem que se perdesse o cunho original, arroga-se de cosmopolitismo:
Baseados n´isto e como seja nosso intuito estender quanto possivel a nossa influencia, e conseguir, atravez da nossa corrente - a mais cosmopolita de quantas teem surgido em Portugal - uma approximação de espiritos, tão pouco tentada ainda, com a Hespanha, pediamos a V. Ex.ª nos desse a sua opinião sobre a nossa revista e a literatura que contém - opinião essa que, se pudesse ser dada atravez da imprensa, como julgamos que a nossa iniciativa merece, duplamente nos seria grata. Nada nos é tão sympáthico como a agitação de idéas e é porisso que sobremaneira agradeceríamos que tornasse pública a sua opinião - seja ella qual fôr - sobre nós.
O carácter penoso de todo o pedido daquele que começa a um estabelecido, em três tonalidades desgostantes: o fale-se bem ou mal de mim, mas fale-se, a promoção da irreverência do movimento a factor de qualidade e, acima de tudo, a auto-proclamação do cosmopolitismo. Este pode, desde que não esmague os laços de originalidade, ser factor de engrandecimento espiritual e criativo, ampliando as referências. Mas só se reconhecido e creditado por outrem. Na boca própria soa sempre a provinciano antigo contando na terra as "maravilhas" que viu na cidade grande. Pessoa era muito maior do que se pintava ao Consagradíssimo Escritor Espanhol. Mas este é um mal impossível de evitar, quando se juntam dois voluntarismos: o da juventude e de empreendimento colectivo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Filantropia e Vampirismo

Quem leia a necrologia em que se insere a morte do Drácula a que tínhamos direito ficará ciente da diferença entre um rebento da autêntica linhagem e um adoptado: este recolhia sangue alheio para dar vida a outros, os verdadeiros para satisfazerem necessidades próprias. Assim como uma Vamp que se dedicasse a sugar as forças vitais de um homem para distribuir o dinheiro que dele recebesse pelos pobres e para lhe esgotar as energias doutra forma aplicadas em acções criminosas.
Valha a verdade que a descendência legítima de Vlad podia orgulhar-se do carácter sanguinário do seu avoengo, mas não propriamente da ingestão da seiva alheia. O ofício dele era empalar, como fez aleatoriamente a um décimo do seu exército para demonstrar aos restantes o que lhes sucederia se não lutassem bem. Um doping imagético, portanto, ou a invenção do retrovisor, num sentido diverso do que ficou. A sua lenda cruzou-se com a da Condessa Bathory, a qual, ao castigar uma criada de forma mais cruel do que o benévolo João Villalobos costuma, viu umas gotas do sangue dela espirrarem para o pulso que apresentava um ar mais jovem do que o resto, no dia imediato. A partir daí multiplicaram-se as virgens sangradas até à morte, para obter um cosmético que não lembraria à Júlia ML. Castigada foi com o emparedamento em vida.
Voltando ao falecido, já nem os vampiros são como antigamente: enquanto os de antanho aplicavam as dentuças em pescoços apetitosos, este ofereceu o seu aos insaciáveis credores que o deixaram na miséria. E o facto de ter sido candidato pelo Partido Liberal alemão é muito elucidativo das causas do declínio eleitoral deste. O exemplo colorido dos Radicais italianos não colhe em terras mais sisudas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Morte de Um Lutador

Ian Smith ajudou muito Portugal e eu diria bem do próprio Diabo, caso ele me ajudasse, o que não quer dizer que alinhasse com ele. Claro que por interesse, pois a Rodésia precisava do apoio de Moçambique. E não esqueço o mau exemplo que deu às populações de origem europeia das nossas Províncias Ultramarinas, semeando-lhes secessionistas fantasias de independências brancas. Lamentável foi que a sua escorregadela para a órbita Sul-Africana conduzisse à adopção de segregacionismo racial. Mas é bom não esquecer que essa aberração foi motivada pelo demissionismo de Londres em garantir uma nacionalidade comum integradora. Os governantes britânicos pagam, ainda hoje, com Mugabe, o preço do seu engano, tendo feito passar de uma frigideira restritiva de acesso ao Poder e às relações sociais, para o fogo em que a própria vida privada e propriedade são postas em causa, pela cor da pele, tendo apenas mudado os poderosos. Bom é não esquecer que o primeiro sistema jurídico de discriminação racial moderno não foi o do pós-guerra boer de Verwoerd e Fouché, nem a consagração repugnante da acumulação consuetudinária dos estados sulistas dos EUA, mas a da Libéria oitocentista, em que estavam vedados aos negros não-provenientes da América os direitos políticos e aos brancos a propriedade.
Com Smith morreu um lutador que não se calou, até ao fim, à imagem dos batedores Selous que a sua amada terra consagrou como uma elite militar superlativa.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Lei da Amnésia Histórica

Mais um 20 de Novembro. Que dizer que não esteja já dito? Honrar os dois Grandes Mortos do dia, Caídos pela unidade, grandeza e liberdade do seu País, ameaçado pelas hordas ateístas, plebeístas e internacionalistas de vermelho tintas ainda antes de se banharem no mar de sangue que provocaram.Na tentativa de encontrar qualquer coisa para denegrir Franco, até se lembram de invocar a antipatia que o Caudilho e José António tinham, em vida de ambos, um pelo outro, confrontando-a com o culto prestado pelo Estado durante o Franquismo. Não percebem que se enterram e que não é hipocrisia, senão sublimidade de alma não transpor as questões pessoais para a justiça do reconhecimento de um sacrifício de Alguém extraordinariamente meritório.
E a i -maginar-me um puro cantor da Reacção, sempre me afastei da ilusão agitada e com olhos fixos no Futuro que faz a agitada prática milicial do Fascismo, mesmo lapidada pelos laços telúricos e respeito religioso que enformaram as sobras dele no ideário da Falange. Nunca poderia seguir o Ausente, quando disse se Franco intentasse realizar uma restauração, ou lograsse levá-la a cabo, eu voltaria ao cárcere. Se não a este, a outro E, desde logo, estou em desacordo completo com tudo o que se refira a voltar a tempos passados. Mas nem por isso deixo de render homenagem a Quem se sacrificou, podendo não o fazer, como aos seus Camisas Azuis, alvos prioritários do morticínio Rojo.
Pelo que faço votos de que a "Lei da Memória Histórica", que não visa coisa outra que dificultar a ligação dos Assassinados à Cruz Por que tombaram, fracasse absolutamente nessa nauseabunda tentativa de fazer esquecer um canto da prisão de Alicante onde as balas derrubaram o corpo, mas não o Exemplo de um Grande de Espanha. Dos Maiores.
Aos Meus Leitores Espanhóis

domingo, 11 de novembro de 2007

Restos de Vergonha

Foi 11 de Novembro, a data do Armistício que pôs termo à mais nefasta de todas as guerras, a Grande, de 1914-1918, que os Franceses escolheram para inaugurar a permanência cultual ao seu Soldado Desconhecido, aderindo à tradição das Ilhas Britânicas. Devo dizer que conhecendo os locais de homenagem correspondentes de Itália, Reino Unido e Portugal, se abstrairmos de serem ou não nossos os Caídos, julgo a mais tocante a da Abadia de Westminster, sem o triunfalismo francês, o cenário prejudicial italiano, ou a história triste da intervenção e importação da nossa Sala do Capítulo, na Batalha. Com efeito, a nossa participação europeia no conflito não se justificava e foi decidida por caciques jacobinos para prestigiarem um regime que bem precisava, não se importando com o sangue que derramariam, ou com a renitência dos Aliados em aceitar o irresponsável oferecimento em que insistiram.
Na altura da criação da homenagem ao Combatente, por cá, optou-se então pela originalidade de duas sepulturas, uma para um Desaparecido na frente europeia, outra para um da africana. Como que procurando contaminar de dignidade decisória de um sacrifício necessário à defesa de território a exigência irresponsável que levou a derramamento de sangue inútil para a Pátria.
Prestar culto á Sinédoque de um Homem que é, por sua vez, a de todos os Mortos no Conflito traduz-se nos restos de vergonha que fazem inclinar-se perante os Restos da Honra.