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quarta-feira, 2 de julho de 2008

A Paráfrase Que Facilita

O cadáver do rei deposto volta agora, por nossas mãos, à Pátria comum. Quem nos diz que este facto que da nossa parte, da parte do governo, não tem intuitos reservados, não sarará aquela ferida e não promoverá uma união mais íntima de todos os portugueses, fechando, definitivamente, o ciclo das convulsões em benefício da Pátria?
Salazar
A 2 de Julho de 1932 faleceu no exílio o último (por enquanto) Rei de Portugal. Acabadinho de chegar à liderança formal, o genial Chefe da Situação honrá-Lo-ia, dessa forma Se honrando e ao regime, Na própria nota em que assumia a realização das exéquias, as justificava pelo desejo do Monarca de descansar para sempre em solo luso e pelo Patriotismo que, na Guerra e na Paz, sempre evidenciara, nessa Inglaterra que o acolheu.
D. Manuel caiu vítima do regresso em força do multipartidismo, com seis presidentes de Ministério em dois anos, como doutra forma caíra Seu Real Pai, por não ter prescindido de um partido para apoiar uma ditadura, ao contrário do que tanto desejava, propunha e peparava o enorme Mousinho. Os partidos, um ou muitos, sempre o mesmo mal!
Não pode um miguelista desencantado há muito com os rumos que a sua Terra tomou deixar de se inclinar perante o Rei Constitucional, aqui significativamente retratado no uniforme de Generalíssimo talhado no do Seu Progenitor e Antecessor. Nem perante o Dirigente dum Poder Republicano que não hesitou no preito que unisse. Para que na Restauração que forçosamente há-de vir se possa gerar a união de que só se vejam excluídos os entusiastas das fracturas enquanto nessa infantil mas assassina disposição permanecerem.
António Lopes Ribeiro na Ericeira escreveu:

NA MORTE DE D. MANUEL II DE PORTUGAL

Daquela praia exígua se embarcou
o Rei de Portugal, naquele dia
em que a nossa inquietude renegou
as velhas tradições da Monarquia.

Partiu para Inglaterra - e não voltou
senão contido numa urna fria,
derradeiro sinal de simpatia
daquele reino em que tão mal reinou.

Morreu no exílio, o último Bragança.
E viveu exilado da esperança
de regressar à Pátria e ao Poder.

Mas nós os fortes, os que o exilámos
sem saber bem porquê - nunca olvidámos
o Rei moreno que sabia ler.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Fuga Sem Arte

20 de Junho é o primeiro do fatal acontecimento de Varennes. Não devemos lembrar tanto o folclore imaginado ou não de ter Luís XVI levantado uma cortina da janela da carruagem e ter sido reconhecido pela efigie nas moedas que corriam. São factos de que os relatos mais autorizados prescindem e, apesar do valor simbólico de a curiosidade ser fatal, para Reis como para o gato do provérbio, bem como de o dinheiro aparecer, recorrentemente como o maior inimigo da Tradição, o que devemos reter, para além da notória incompetência na camuflagem da viatura - que chamava todas as atenções e mais algumas - é que, depois de muito ceder já não rsetava capacidade mobilizadora de outros centros urbanos contra os revolucionários que dominavam totalitariamente Paris. A haver fuga, sempre pior que uma resistência heróica, que tivesse sido no princípio, como nesse Outubro de 1789 em que fora pensada. E não agora, quase dois anos depois, apesar de a mitologia revolucionária da traição cair pela base quando sabemos que a Família Real se encontrava prisioneira de facto, impedida de se deslocar até a cerimónias religiosas como a de Saint-Cloud.
A partir daqui, tudo estava perdido, porue o medo e o fracaso se prestam a todas as caricaturas, como a de a detenção se ter devido a uma permanência excessiva à mesa da hospedaria, já que a gula tinha caução expressa de Nostradamus quando escreveu deste Rei, Roy desrobé, trop de foy en cuisine, num passo próximo da expressa menção de Varennes, o que vai um pouco mais longe que o jogo interpretativo feito de literalidades e simbologias dos ditos proféticos, de modo a fazê-los encaixar.
Não era preciso ser profeta para perceber que a cedência em quem tem responsabilidades é a perda da cabeça. Literal ou metaforicamente.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O Peso da História

Pedem-me a Cristina Ribeiro e o Tiago Laranjeiro que dê conta dos 57 volumes que, ontem adquiridos, terão contribuído um pouco mais para me arrasar a coluna. Fá-lo-ei, à medida que os assimile e de acordo com o merecimento que lhes ache.
Começo com o que, fisicamente, menos pesou, embora outro tanto se não possa dizer, no aspecto espiritual. Estas 11 páginas de Alberto de Monsaraz não sei se serão raridade, mas foi a primeira vez que vi um exemplar delas. O Grande António Manuel Couto Viana não as refere na sua antologia «Poesia Monárquica Portuguesa», embora inclua nela versos posteriores - e melhores - do Autor.

Trata-se de um longo poema escrito na ressaca da implantação da República, datado de Outubro de 1910, em que as quadras tocam os pontos altos de cada um dos períodos da nossa História, durante os séculos de construção, pela Coroa. Não os transcreverei, por a dimensão de um postal não comportar. Mas posso dar-Vos a primeira e última, referentes à ruína destruidora que chegara:

Reino de Portugal, cumprem-se os fados,
Filho de heroes, baqueaste no caminho;
Vivias mal, por mal dos teus pecados,
E agora, morres misero e mesquinho

(...)

O´ desditosa Patria minha amada,
Epopeia do Povo e da Realeza,
Não tens Reis, não tens Povo, não tens nada...
Quebrou-se o encanto, Patria portuguesa!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Raridades

Um Caso Raro de Cultura e Dedicação Monárquicas que dá pelo nome de Cristina Ribeiro apresenta-nos, directamente da biblioteca familiar, que é uma das melhores de Portugal, um raro caso de Cultura e Dedicação ao País em que casou: o da tão Maltratada Rainha D. Amélia, na vertente plástica do Seu talento artístico, em exemplares de série especialíssima. Só dou um link, por preguiça, mas serve o presente para instar-Vos a ver os vários postais que a Nossa Generosa Amiga concebeu a tão tocante propósito.
Vá, despachai-Vos!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Estilo Manuelino

Não há muitos dias a Júlia Moura Lopes e a Equipa do Estado Sentido homenagearam D. Manuel II, a propósito da sua aclamação, nas circunstâncias trágicas em que acedeu ao Trono. A Uma e aos Outros quero dedicar esta breve evocação de Quem também foi ilustríssimo Bibliófilo, Autor de correspondência erudita sobre o tema.

Aquando do início do seu reinado, o próprio João Chagas reconheceu a coragem de um jovem, disposto a cumprir o Seu dever, não deixando que o terrorismo se transformasse em terror. Acrescentava mesmo que, no caso dele, se lhe tivessem acabado de matar o Pai e o Irmão, não teria coragem de sair à rua.
Não me custa portanto a mim, um velho miguelista, inclinar-me perante as Qualidades de um Homem, que também viriam a ser reconhecidas por Salazar, á frente de um governo Republicano, embora anti-jacobino. Mal iniciou o respectivo consulado, honrou-Lhe o patriotismo sempre reafirmado no exílio, mormente no período difícil da Grande Guerra. Pois eu quero relembrar a sua faceta de Amigo dos Livros. E, para tanto, publico cópia do Ex-Libris que adoptou.


É minha grande felicidade possuir uma obra que, não sendo rara, é importante; e que pertenceu ao Martirizado D. Carlos, conforme se vê no monograma, antes de passar para as mãos do último Rei. Sendo a Monarquia a quintessência da continuidade, ter nas mãos volumes que sei Realmente manuseados reforça toda a vinculação à Herança do meu País, para além do próprio umbigo sujo a que a nossa época cinge o olhar. Da marca pessoal Dele salientaria a paráfrase, difícil, essa, de Luís XV. Dois Manuéis, pelo que, depois do Primeiro, Ele. Não foi o dilúvio, não, esse estaria guardado para o passo seguinte.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Estatura de Estadista

Volta a imprensa gratuita de hoje à carga com o tamanho exagerado dos saltos que Sarkozy usa para emparceirar bem com a Carla, referidos também nesta peça jornalística. Deixemos as desconfianças de despeito, é evidente apequenamento de um político reduzir os terrenos que pisa aos centímetros dos respectivos tacões. Mas tentemos arranjar qualquer confrontação útil para trazer a este candente tema. E, bem procurado, vê-se, pelo famoso retrato de Luís XIV por Rigaud que não se trata de coisa a que os Franceses não estejam habituados na chefia do seu Estado, mesmo em melhores dias. Como olhando para os artefactos que Bogart usou em «Casablanca», para ter uma medida ideal ao contracenar com Bergman, esta característica não é de molde a prejudicar a imagem pública...

segunda-feira, 21 de abril de 2008

"A Mãe Tinha Razão"

A Rainha Isabel e o Príncipe Filipe no anúncio do noivadoQuem leia o livro completo onde se contém a Lei de Murphy, encontrará, como um dos derivados, o título deste postal.
Vem isto a propósito da notícia de que, em mais um festejo do aniversário da Rainha Elizabeth II de Inglaterra, o que devia ser festa familiar se acha ensombrado pelos desentendimentos adventícios entre o Príncipe de Gales e a inefável Camila. Bem dizia a Soberana ao filho para que não casasse com ela, comprovando-se agora a inadequação da con(muita)sorte para o cargo e tendo-se perdido a oportunidade de fazer crescer a popularidade do Herdeiro com uma abstenção de voltar ao matrimónio, depois da experiência infeliz. Desconfio de que muita da fascinação exercida sobre este homem fraco por aquela mulher se devia à tentativa de desafiar o sentimento generalizado de rejeição dela. Triunfante, estabelecido o matrimónio pela teimosia, soltam-se todas as fontes de incompreensão que a cegueira da insistência toldava.
Esperemos que o Extraordinário Exemplo Real de sacrifício pelo seu País e de estabilidade no próprio himeneu não venha a revelar-Se igualmente certa quando defende o salto geracional para William na Sucessão do Trono.
Por agora, o momento é de felicitações por mais um ano de Dever cumprido.

domingo, 20 de abril de 2008

Maurras e o Tempo Dele

Mais um ano passado sobre o dia do nascimento de Maurras, a quem haverá sobretudo a reprovar o não ter sabido ser suficientemente maurrasiano. Desde logo por não ter conseguido manter a sua aversão ao conceito Romântico da Nação. Havendo doutrinado tantos jovens sobre a necessidade de fazer recuar o Nacionalismo às origens, a Bodin, com a significação profunda da aliança entre Rei e Povo - a primeira Frente Popular, lhe chamou -, contra os interesses particularistas e de facção, deixou-se cair na armadilha anti-dreyfusard de ver na condenação um julgamento nacional, expressando um sentir colectivo que era o sentimentalismo de apenas uma metade da França. Foi precisamente a persistência de querer ter diante dos olhos o significado genérico, antes do julgamento individual com a aplicação prevista das audiências e recursos, que traiu o mecanismo de segurança tradicional que sempre havia exemplarmente defendido. Assim como, invocando o valor aglutinador do Rei e o civilizador da Igreja contra os partidos e facções, se deixou escorregar para o conflito com o Herdeiro da Coroa, ou para a luta pela condenação da irritante Democracia Cristã de Sangnier, transformando-se em chefe partidário e no alvo de todos os ódios clericais que conduziram a uma marginalização descoroçoante e terrível para o seu combate.
Como, no fim, partindo da justa posição da solidez do Seu País na solidão num conflito mundial em que já não contava como força de primeira grandeza, deixando-se cair no que esse Pétain a que sempre continuou fidelíssimo evitou totalmente: transigir em que a aversão aos Britânicos se equiparasse à animadversão alimentada para com a Alemanha, ao ponto de o próprio interesse e posição da sua Pátria passarem para um plano de atrofia.
No fundo, algumas das suas qualidades, a fidelidade à outrance a amizades e aversões foram a grande limitação que o condicionou, na medida em que impediram a coerência da acção com os fundamentos teóricos de um pensamento poderosíssimo, o qual sempre tivera como fim a promoção da paz e coesão interiores e o poderio afirmativo (embora não-expansionista) na Política Externa.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Dia das Verdades

Penso naquelas peculiares formas de usurpação, em que os arrivistas fingem recusar a coroa que extorquiram à Legitimidade, ficando-lhe com os poderes e com as mordomias. Júlio César violentando a vaidade para não concitar a hostilidade dos Patrícios, mero adiamento do seu fim trágico; Cromwell recusando sentar-se no trono que, literalmente, decapitara, mas guardando o tratamento da Alteza e a hereditariedade da Transmissão...E voam os meus pensamentos para o 1 de Abril de 1641, em que desse imenso Brasil cujos Leitores quero, nesta hora, homenagear, surgiu uma notável recusa de pactuar com uma traição ao Soberano, alicerçada pioneiramente no ódio anti-jesuítico que, noutras latitudes e datações, viria a provocar tantos males. Amador Bueno, nesse dia memorável, vendo-Lhe oferecidas as insígnias da Realeza Brasileira, recusou-as e, ali mesmo, se proclamou leal vassalo de El-Rei D. João IV.
Para que sirva de esperança - como um Exemplo individual pode domar um movimento de desagregação!
Assim seja.

terça-feira, 25 de março de 2008

Coroa e Significado

Coroação da Virgem pela SS. Trindade de Agostino Masucci (Palácio Nacional de Mafra)
A 25 de Março de 1646 se publicou a carta de lei que encerrava a deliberação das Cortes dos Três Estados do reino, pela qual se escolheu Nossa Senhora da Conceição para defensora e protectora de Portugal. Foi também pronunciada a fórmula do juramento de vassalagem, sob pena de expulsão dos domínios portugueses e de perda do trono dos súbditos e soberanos que não o acatasem, respectivamente. A partir de então os nossos Reis não mais cingiram a Coroa, nesse preito de submissão, ficando nas ocasiões solenes, numa almofada à sua direita, como se vê no retrato de D. João VI. A iniciativa que outro João, o Quarto do Nome, teve por bem levar a cabo não fazia esquecer que a Coroação por antonomásia, no que à Virgem toca, era a retratada na pintura à esquerda.

Mas tinha a virtude de unir elites e massas na compreensão e devoção a um mesmo Ideal, pois o Gesto Real era de todos compreendido e por todos fora intitucionalizado. Não se afastava da Mãe de Jesus o Povo arredio dos enclaves em que as Belas Artes eram fruídas. E quando surgiu Fátima, em resposta a agressões continuadas, ganhou-se sentimento popular, mas afastou-se, mesmo dentro do Catolicismo, algumas elites enjoadas da mistura, que, muito carecidas de Rei, não percebiam o que percebeu Amândio César:

NOSSA SENHORA DO REGRESSO


Depois que Deus criou a terra e o céu
e no céu pendurou imensos luminares
e na terra fêz o homem à sua semelhança,
andaram profetas afirmando em profecias
que virias!
Não vieste...
Não vieste, ah não vieste, ao menos para nós...


Que mal eras chegada
fecharam-Te, Senhora, em oleo e tinta
nos salões escuros dos Museus
e puseram empregados,
fardados,
a cobrar quantias a quem quisesse ver!...
- Por isso o povo, o povo não Te viu...

Senhora e Mãe!
Os que Te foram visitar,
os que pagaram a cota
para entrar,
não foram lá por Ti
nem por tua bondade e mansidão sublimes...
É que a tua prisão escura tinha nomes,
nomes célebres que eram chamariz
- Murillo, Velasquez, Rubens, Miguel Angelo -
e por isso o povo não te quis...

Senhora e Mãe!
Nas fábricas enormes saltam êmbolos,
pentes separam e o tecido cresce...
Dos lugres salta o dori,
o arpão rasga
e a pesca cresce, cresce...
Nas debulhadoras giram as correias,
as pás lançam espigas
e cresce o cereal...
É assim em toda a parte!
Porém, longe de Ti...
Os homens afastaram-se porque Te fecharam!
Mas nesse ranger de êmbolos,
correias e motores,
há uma prece rezada mui baixinho
que dia a dia se vai avolumando...
E a prece vai crescendo
como o tecido,
vai rasgando a alma
como o arpão,
vai separando aos poucos o joio do trigo loiro
como a debulhadora...

- Senhora!
É a hora,
a tua hora:
- Vem de novo, Senhora, sem profetas
para o meio daquêles que tanto, tanto
de Ti precisam
e, ignorando-o,
por Ti anseiam,
há séculos, há dias, há milénios...
Então um côro novo,
o côro dos libertos que foram oprimidos
ressoará pelo universo inteiro:
- Salvè Senhora, Rainha da Manhã
Mãe de tudo e tudo quanto existe!
Tu és a esperança
de quantos algum dia tiveres acarinhado,
de quantos para Ti lançam os olhos,
cheios de súplicas e rezas de perdão!
Salvè estrêla ou sol
que luziste em vermelho na Batalha,
com teu manto,
azul e branco,
ao vento,
a fundir-se no azul do firmamento
e que de novo voltas
a ser entronizada
neste reino de teu mando,
a tua pátria amada.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Boys And Girls

Muito instrutiva a leitura de uma autobiografia, com um nome que vai a matar, sendo o Autor um músico. De Bruno Walter, «Theme and Variations». Como se sabe, o grande Maestro Mozarteano foi um activo militante da Social-Democracia, numa época em que ela era muito marxisticamente mais assanhada do que hoje. Daí o valor do seu relato, versando o comportamento das elites no Império Austro-Húngaro, tão oposto à distribuição de jobs à clientela que o PS de cá levou a um paroxismo bem conhecido.
Conta o memorialista que, sendo Director da Ópera da Corte, Mahler foi abordado pelo Chefe da Casa do Imperador, o Príncipe de Montenuevo, no sentido de empregar na Instituição uma cantora pela qual se interessava uma Alta Personagem, tendo a pretensão merecido a concordância de Francisco José. O demandado recusou, por critério artístico e, perguntado se para ele não contavam interesses tão altamente colocados, respondeu que certamente se conformaria a tais vontades, desde que recebesse uma ordem do Soberano.
Oiçamos o resto:
Montenuevo disse a Mahler que tinha dado ao Imperador um relatório verbal das suas palavras e que o velho cavalheiro respondera: "Bem, com certeza que eu não ordenarei uma coisa dessas!". E assim Mahler triunfou numa questão a que atribuía a máxima importância.
Tal qual a persistência do compadrio partidocrático que conhecemos...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Treino de Pacheco

Monumento ao Lugar Comum de João Câmara LemeClaro que há imbecis em todos os credos políticos, mas reduzir os Monárquicos a exibicionistas ocos é simplesmente incompatível com a esmagadora maioria dos que conheço. E, em todo o caso, as pequenas vaidades acidentais só podem ser erguidas a traço distintivo do grupo pelo decadentíssimo e esgotado Pacheco Pereira para disfarçar a característica essencial do sistema de que tanto gosta - a ambição desenfreada e o carreirismo.
Por outro lado, se dar missas rezadas por Almas como esconjuros de jacobinos e carbonários não espanta em quem só crê neste triste mundo, desdenhando a Função Espiritual de que troça, até para um espírito tão opaco deve ser evidente que escrever esse dislate no momento da recusa parlamentar do pesar pelo crime é opção imoral pela aconselhabilidade do mesmo.
O mal dos pachecos deste mundo é pensarem que Portugal seria um grande país, se todos fossem como eles. O do Conselheiro Pacheco do Eça estava também em "o seu imenso talento" ser insuspeitado por quem melhor o conhecia. O deste pobre epígono é, desde há anos, já ninguém ter para o ouvir, nem a conselheiro chegar.
Numa coisa o escrito é verdadeiro: o autor já conheceu melhores dias.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Influências

Depois das «Memórias...», leitura deste diário do Grande Clínico e Patriota que foi o Conde de Mafra. Bons retratos dos influentes daqueles conturbados tempos, que ele conheceu bem, fala-nos da cobardia das gentes, apavoradas pelo terror dos Republicanos, sem ousarem sequer assistir a missas por alma de D. Carlos e D. Luís Filipe. E traz-nos um retrato de Soveral, com qualidades e defeitos: a persistência da sua presença na Política Britânica, após a morte do seu Real Amigo, sem fortuna e já cargo oficial; o seu dedo na confecção da declaração desgraçada do exilado Rei D. Manuel II contra a abrangência dos legitimistas pelo Movimento de Couceiro, fazendo-o assim alinhar com o interesse britânico de pacificar, mesmo que à custa da aceitação do triste fruto revolucionário
(...)Como sei que posso absolutamente contar com a dedicação de muitos, a estes me dirijo, para lhes declarar que reprovo completamente o carácter "neutral" do movimento e que repudio igualmente qualquer espécie de acordo com o partido miguelista, com o qual nunca tive entendimento algum.
E no entanto... no mesmo local somos postos a par do papel que o grande Diplomata desempenhou em libertar o Rei da aceitação acrítica dos conselhos femininos que, não querendo verter mais sangue, O tinham feito concordar com a transigência da Acalmação:
O Marquez de Soveral teve o grande mérito de tirar o Rei D. Manuel debaixo das saias da Rainha D. Amélia, da Condessa de Figueiró e da D. Izabel Ponte.
Dizem que entre o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 e a proclamação da república em 5 de Outubro de 1910, as ordens no Paço Real foram dadas superiormente por estas três Senhoras.

Somos assim levados para a posição muito mais nacional que culminou nos acordos de sucessão ao Trono que extinguiram a Questão Dinástica em Portugal. Tudo somado, a prova de que a aprendizagem e experiência de um Rei também devem a quem momentaneamente errou.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Memória e enjoo

Lisboa é uma terra tão extraordinária que, depois, mais tarde, quando veio a República, apareceram várias pessoas gabando-se de que tinham entrado no regicídio.
Raul Brandão

Que um governo escolha a neutralidade entre a homenagem e o crime, proibindo a força armada de prestar honras a um Chefe de Estado assassinado, define-o, como definidos estão os governantes da Acalmação, quando proibiram o desfile diante dos corpos do Rei e do Príncipe Real e contemporizaram com as romagens aos túmulos dos regicidas. As desculpas são fáceis de arranjar, mas são dos que pagam pouco e mal: "prevenir ofensas ao cadáver, evitar excitação que derramasse sangue...". Num caso e noutro, medo de usar a polícia para o que, afinal, deve servir.
Que naquele tempo houvesse demasiados admiradores dos criminosos e hoje apenas uma vintena mal contada, nada diz de emenda das gentes, apenas dá conta do ensimesmamento delas.
D. Carlos foi vítima de ter acreditado poder regenerar os partidos fazendo-os rodar, ao abrigo de uma leitura interventiva do Poder Moderador. Como Soberano, apesar de Lhe reconhecer a obra diplomática, não me é especialmente simpático, tanto pela minha fé Legitimista, como pelo anti-clericalismo que também abraçou. Nunca O serviria, mas jamais me alegraria com a morte Dele, como fizeram, arrastados na voragem do tempo, alguns outros.
O Filho foi, nos seus poucos anos, o símbolo da própria fidelidade: em 1907 ficou representando a Coroa e, numa récita no teatro D. Amélia, aos inimigos paternos que O aclamaram como D. Luís II, terá chorado e dito:
- Como me julgam capaz de por uns vivas atraiçoar meu pai? Que Deus lhe dê muita vida!
É tempo de acabar. Com o colchão do Arsenal da Marinha em que depositaram os restos moribundos da Vítima, fica a imagem da prostração de Portugal, só momentaneamente resgatada por um Génio que, posteriormente, passou. Hoje, sem Trono, cada vez vejo menos governo, salvo se por isso se entender a delegacia de poderes supra-nacionais. Que condiz perfeitamente com a receptação dos proventos das balas do Terreiro do Paço.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um 31 dos Antigos

A 31 de Janeiro de 1891, no Porto, sucumbia definitivamente a primeira tentativa Republicana séria, após o partido ter ganho audiência, com o Ultimato. A propaganda, que só encontrara até então orelhas moucas, passou a germinar junto das classes citadinas que, por lerem jornais, se consideravam letradas e portadoras da Salvação da Pátria. O grande estandarte haveria de ser a colonização como as dos outros, atacando a política Monárquica de alianças com as chefias indígenas como fraqueza e nem considerando hipóteses de integração como a posteriormente tentada pelo Estado Novo. A incapacidade associada a opção diversa da exploração pura e dura estaria doravante em todos os discursos.
O golpe, propriamente dito, escapando à hierarquia pelas mãos da baixa oficialidade e pela agitação dos sargentos, foi teatral de uma ponta à outra, desde o empolamento do discurso de Alves da Veiga à ideia de desfile armado que brindou a Guarda Municipal, a fiel de todos os governos, com um alvo facilitado.
Mas estava criada uma mitologia mobilizadora, fornecendo a preceito heróis e símbolos. A própria bandeira verde-rubra foi buscar a sua génese à dos revolucionários de então, trazida de um misto de Maçonaria e Positivismo que era o Centro Democrático Federal.
Apresenta-se assim mais uma lição da História: a falta de jeito do momento pode, desde que aplicada nalgum fragor de mudança, vir a ser semente que frutifique. Um exemplo a tomar pela Causa que valha a pena, ou seja, a inversa do acontecimento lembrado.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Da Inconstância ao Martírio

Passou ontem mais um aniversário sobre a decapitação do Rei Carlos I de Inglaterra, o qual, vendo correctamente a Sua Real Missão de resistência à centralização parlamentar que serviu a instauração da tirania puritana, teve, no entanto, contra si a iniciatvia absolutizante e divinizadora do Direito dos Stuarts, a mudança contínua, da recusa à cedência, face às aspirações da Escócia e da Igreja, a tibieza de deixar cair Strafford e Laud, os amigos em que se podia fiar.
A fantasia de Alexandre Dumas fê-lo pôr na boca de Mazarino, numa das sequelas de «Os Três Mosqueteiros», a frase os ingleses são um mau povo, que corta a cabeça aos seus Reis. A ironia, dado o momento em que escreveu, não se circunscreve ao que aconteceu um século e tal depois da execução, em França, após uma catadupa de erros semelhantes, sem guerra de religiões, mas com guerra contra a Religião: também inventou ser o Remember gritado pelo Monarca, imediatamente antes da machadada final, alusivo a um depósito secreto de ouro que permitisse ao Filho levantar exércitos para retomar o Trono. Não o seria. Com toda a probabilidade, referia-se às palavras que proferira antes, em que assumia o seu sacrifício por defender os Direitos do Povo. Substituir a obsessão do serviço dos Súbditos pela segurança do dinheiro é a mais irónica das liberdades do ficcionista.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Consumo Público

Hã, hã, será que foi mesmo isto que o Presidente Francês anunciou? Se assim foi, está-se a recuperar outro hábito do Trono de S. Luís, em que a consumação dos casamentos régios era até testemnhada, para que dúvidas não restassem. A página 14 nada diz, é inteiramente composta por anúncios. Pensando melhor... diz muitíssimo, está tudo ligado.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Solução de Recorte Antigo

É a única capaz, provada pelo tempo, sem os contras da inventona. Não chega cá muito do que se passa na Georgia, mas parece viver-se turbulência escusada com a disputa extremada da Chefia do Estado. Curiosamente, há em cima da mesa política uma proposta para a restauração Monárquica, com recurso à antiga Casa Reinante de Bragation, lançada prlo Patriarca Ortodoxo. Teve eco em importantes dirigentes oposicionistas e mesmo o partido no poder disse ser desejável, mas só quando estivesse consolidada uma sociedade com menos problemas. É visão que também se comprende, mas esta situação faz pensar que a mudança da Forma de Estado pode ser a resposta imediata ao grande problema pendente, o da discussão da legitimidade presidencial.Num velho calhamaço encontrei este recorte de jornal que dá conta da aliança entre a Família Real Espanhola e a que ocuparia o trono de Tiblissi. Aqui fica, como talismã.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Memorial

O Príncipe de Espanha expressando as condolências à Família do AssassinadoNo dia em que se lembra o infame assassinato de Luís Carrero Blanco pelos etarras o Filomeno teve a bondade de me enviar este testemunho de um Neto do Estadista assassinado, no sentido de contrariar as teses que dizem que Carrero poderia ter sucedido a Franco, evitando a Restauração.
O texto tem ainda a virtude de transcrever parte de uma entrevista que infirma o entendimento do Amigo Jansenista, acerca de ter o Rei D. Juan Carlos "traído" a obra do Caudilho. Com efeito, Franco foi um Ditador no sentido clássico do termo, que aceitou uma missão para fazer face a uma crise sanguinolenta em que a tranquilidade do culto, pessoas e propriedade dos Espanhíos não era respeitada. A Instituição da Ditadura era comissarial. E se no caso vertente a comissão se tornou de jure vitalícia foi porque o Chefe de Estado sabia muito bem que em Democratas não se confia, eles não respeitam acordos, veja-se o caso de Pinochet.
Mais ambicioso foi o Estado Novo Português, acreditando perpetuar-se, para além de Salazar. Não percebeu que é difícil encontrar dois génios de enfiada. Nem que a salvaguarda institucional contra a agitação demo-liberal só pode ser eficazmente garantida pela força da hereditariedade de um Trono. Desde que o amparo das instituições rodeie durante tempo significativo a acção do ocupante deste, o que faltou no caso Espanhol, em que do Príncipe, como sucessor designado, sem exercício no quadro legal vigente, seria facilmente previsível marca modificativa.

A Duração

A Rainha por Dorothy WildingA Rainha Isabel II tornou-se a mais idosa Monarca do Reino Unido. O estatuto actual dos Monarcas Britânicos pode ser prejudicado por uma prensa, tendo de um lado os que ambicionam testemunhar o confronto e a recriminação em todos os patamares institucionais; e do outro aqueles que desejam ver na Realeza a força de coesão que se substitua aos partidos destruidores na orientação do Poder. Acredito que são os Segundos que têm a razão, só podendo uma Nação ser feliz quando os governantes forem chamados, a partir de Cima, em vez de tentarem escalar à custa de campanhas mobilizadoras contra compatriotas seus.
Mas isso não obsta a que repudie veementemente todas as manifestações de desapreço ou desprezo pelas Coroas em que as eleições partidárias dominam. O conforto de um Ser Humano que, sem ter escolhido carreira, se devota às obrigações de continuidade que minorem os sobressaltos de um Povo é instância apaziguadora em todos os que sentem dissipar-se a memória dos que nos geraram, ofuscada pelas notícias tumultuosas da Actualidade. Saber que somos súbditos de Quem Pais e Avós também foram e que idêntico vínculo nos prolonga retrospectivamente na relação com os antepassados do Ente Reinante é, dentro da Espécie, a melhor maneira de combater os avatares da brevidade - modas de ideias, sufrágios de mudança, consumismo, divórcios, mobilidades forçadas de empregos e residências.
Os parabéns que são reafirmados referem-se sempre à duração, que é o contrário da vergonha de si. E que aqui ficam dados