domingo, 26 de agosto de 2007

Singularidade Em Cerimonial

A Taça de Saké de Matina Theodosiu
Os vasos para saké que tenho e de que falei são mais deste tipo aqui ao lado, Querida T, apesar de lhes crer as cores preveríveis, embora um pouco sombrias.
E porque notei grande exigência protocolar no consumo da célebre aguardente de arroz japonesa, pareceu-me adequada esta imagem de dádiva sacral: Um Sacerdote Xintoísta Oferecendo Saké aos Espíritos, estampa do Barão Von Raimund Stillfried. Como sou mais ambicioso, ofereço antes ao Espírito, quer dizer à T e à JúliaML.

sábado, 25 de agosto de 2007

Imagens da Leitura 7

Jorge Luís Borges escreveu certa vez que concebia o Paraíso como uma espécie de biblioteca. Endosso sem reservas o entendimento e contribuo com duas achas para a fogueira: logo à chegada às Portas Celestiais deparam-se os suplicantes da admissão com uma prometedora cena em páginas alicerçada - o Arcanjo Metatron devorando no Livro da Vida os pormenores do nosso Deve e do nosso Haver. E com a Autoridade que assiste a um réprobo em matéria de Infernos, dificilmente posso, por outro lado, imaginar danação maior que o encerramento em profundezas de que os códices estejam excluídos.
Até porque o Demo não pode ser grande leitor. Quando perde o seu tempo sorvendo um calhamaço, produto do espírito do Homem, em vez de tentar que os humanos assinem os pactos pelos quais vendam as almas, revela-se um mau profissional: mesmo tratando-se de utilitários manuais, como este diabrete de vocação enganada, lendo o que o ajude a assustar em vez daquele que o ensinasse a cativar.
Mas deixo à consideração de Quem por aqui passe uma proposta escatológica que não prescinda do critério discriminador, como em tudo defendo para a Vida: Céu e seu Reverso como depósitos de alfarrábios - o primeiro de todos os exemplares de escrita estimável, o segundo das traidoras desgraças que, por inépcia autoral, tornem penosa a descodificação...

Quem Parte e Reparte...

T na Máquina do Tempo: Dama Vertendo Chocolate (La Chocolatière) de Jean-Etienne Liotard

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

E Se Fossem Estes Bombeiros, Marta?

Imagens da Leitura 6

A Leitura de Bruneau Carcel

O alto conceito em que se tem aquilo que é publicado em livro pode bem levar a um apequenamento de si pelo Leitor, ciente de que a procura da plena absorção do espírito que gerou a obra estará acima das suas faculdades. É muitas vezes uma ilusão, mas, por ser encomiástica de outrem e expressar modéstia, não de condenar. O escritor enfrentra muitos perigos, tal a coagulação pela pompa da estatuária ou das instituições, tão perigosa para o intercâmbio entre quem escreve e lê. Por possuir maior difusão reveste-se, inclusivé, de risco maior do que as infecções de que o público é portador, o sentimentalismo popularucho, as marcas deformadoras das interpretações deficientes e a miopia psíquica que não deixa abarcar o conjunto.
Ler é como conversar, dançar com um par, ou amar: o segredo está no encaixe das concepções e do ritmo que conduz à harmonização, não tolerando o solipsismo e as paragens que procuram ampliar os detalhes, a ponto de os isolar.

A Doce Mendicidade


Claro que os chocolates, em tablette ou bombons são um luxo de certos Dias. Vejam só o aparato de uma degustação dele de que a T e as Amigas se rodearam para levar a cabo a prova. Só que surgiu lá um réprobo terrorista, suicida como se demonstra pela confecção do presente postal, a exibir o seu cinto de explosivos, que ameaçava fazer rebentar se lhe não dessem um docinho...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A Vida ou o Luxo


Não, Querida T. Não posso aceitar um sabonete, fico apenas com o brinde. É que cá por casa, desde tempos ante-diluvianos, havia estrito apartheid entre os sabonetes usados pelos dois Géneros. Apesar de a bateria de cosméticos materna encerrar coisas melhores e mais variadas, para as higienes que davam solidez às toilettes, no dia a dia íntimo os homens usavam Lifebuoy, como o José Águas; e a Senhora Lux, como a Amália e a Jane Russell. Já não me lembra estas anunciadeiras, embora ainda recorde mais do que bem a Natalie Wood, a Pfeifer - que ainda não era o que se tornou - e a Victoria Principal, a espumarem com ele. Mas isso foi em dias que voaram há menos tempo. Ia a dizer que era o comportamento familiar antes da cedência à mariquice do gel, a cuja tirania, porém, também sucumbi. Mas lembrei-me das origens do sabão, conhecido na Babilónia e na Judeia remotas, embora, até ao nosso Séc. XIV, com outros fins - empastar o cabelo à laia de brilhantina, ou tingi-lo de... ruivo, como faziam Gauleses e Germanos. Diria a Bomba Inteligente: "uaaaaac!"
E depois, o sabão, mesmo na suave vertente cosmética, é artigo perigoso. Duas escolas lhe disputam a origem do nome nas línguas latinas: a que a faz derivar da famosa fábrica de Savona e a que lhe quer encontrar raiz comum a outros idiomas no facto de terem sido encontrados restos suspeitos de haverem dado corpo a esta substância junto do Monte Sapo, onde, na Roma Antiga, eram sacrificados animais, vindo, segundo a tese, as suas gorduras, misturadas com cinzas, a gerar o produto de aaaargh beleza. Duplo "uaaaaac!".
A insensatez dos sábios chegou a um desafio para duelo entre os linguístas adeptos de uma e outra opções. Felizmente não se chegou a efectivar.
Enfim, uma espuma, dos Dias! Viva o Luxo e o Seu Repuxo.

Imagens da Leitura 5

O Filósofo (O Leitor no Parque) de Carl Spitzweg
Habituados estamos a ver pelos jardins públicos que teimam em contrariar o cogumélico betão pessoas imersas nos seus livros. Fazem-no na mira de se impregnarem da calma e beleza dessa natureza podada e circunscrita, para melhor aproveitarem o que vão lendo. Poder-se-ia porém esperar de um filósofo atitude diferente, com idênticos elementos. A saber, a utilização dos escritos problematizantes como doping, na actividade de interrogar e explicar a Natureza. Por isso mesmo uma representação de um desses porteiros do intelecto talvez ganhasse em pintá-lo com um livro entreaberto e olhos fixos na vegetação circundante, não de costas voltadas para um busto feminino incerto, ao qual podemos atribuir a carga simbólica da Sabedoria.
Contudo, tendo em conta a proximidade das posições, variando apenas o momento eleito para a captação, podemos repousar sobre a conclusão de que os portadores de textos editados, quando em encontros imediatos com o mundo vegetal, tanto podem ser homens procurando ser sábios, como sábios empenhados em não fazer esquecer a sua condição de homens. E quem sabe se uns e outros não se encontrariam no escapismo, caso as leituras empreendidas pelos representantes de ambas as categorias, no caso, fossem, por exemplo, romances policiais?
A Leitura tem como principal propriedade garantir a suportabilidade da Vida. Cowley disse:
Deixem a Natureza e a Arte fazer o que lhes agrade,
Depois de tudo feito, a vida é doença incurável.
O que nos leva à certeza de que a escrita não é mera prescrição contra as dores, mas verdadeira condição da sanidade. E que a desistência de a redigir ou consumir será o começo do arrastamento para o fim certo.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Mais Vale Prevenir

À T, porque com nervos d´aço nem as picadas causam males maiores...
Não evita é ferroada deste insecto que vai postando: "em vez do café", ehehehehehehe!

Sobrou-lhe um "I"zinho Assim...

Na véspera do jogo contra a Arménia a argúcia de Scolari fez com que alertasse o público português contra os perigos que à representação do País o Estádio Republicano, bem visto como "tapete remendado", acarreta. Tivesse o Seleccionador suprimido o "i" da primeira palavra da perigosa entidade e, como ensina a outra do anúncio, sobre isso nada haveria a dizer.

Imagens da Leitura 4

Depois de ter postado, em três dias, exemplos de Grande Arte, não resisto a dar esta imagem, por polémica que possa ser. Não me motiva o fito de abastecer libido padrão do Tempo. O que me move é tirar da postura em análise uma dupla dimensão para os coleccionadores destas impressões estivais. Está longe de ser a Bibliotecária que se vê a ideal para o ofício. Essa tenho-A como uma Querida Amiga que se não deixa fotografar em tais preparos, preparados, ou... preparativos. Mas penso que podemos retirar do "boneco" dois dos mais insistentes dons da Leitura: a devoção que gera solidariedades entre os consumidores livrescos cujo entusiasmo atinja o culto; e o Eros, no sentido de fecundidade consequente, que se desprende de qualquer absorção de texto, quer dizer, da acção sobre o sujeito, de trechos que, ao contrário de tantos outros, não resvalam pela rampa fria do adormecimento espiritual intocado, logo, do que inactivo permanece. É uma condição necessária à actividade mental a que algo escrito subjaz.
Entretanto, considerando o dado histórico de os hábitos monacais femininos serem decalcados dos trajos das Viúvas de outrora, uma terceira linha de raciocínio se faz valer: a de ser o livro o substituto ideal do ente vivo que infirma a Solidão. Razões mais que bastantes para lhe agradecer.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Há Que Tê-los?

A Violação de Picasso

Pegando no que o Çamorano diz de Camacho, "no seu sítio e bem grandes", essa crua metáfora da coragem? Sim e não, como um só facto comprova. A afirmativa vale para o Presidente Sarkozy, que exibiu o arrojo de se pronunciar pela castração química (consentida) dos delinquentes sexuais perigosos que queiram ser devolvidos à liberdade: não apenas demonstrou fibra para introduzir a inovação num país latino, o que era dado como impossível, culturalmente, como desafiou, proclamando "não ter medo das palavras".
No respeitante à negação... vai inteirinha para o tipo de prevaricadores visados. Com esta reactividade, as violações já evidenciaram muito melhores cores, o que picasseanamente vemos profetizado.
Será que o Chefe de Estado Francês apostou em fazer-me dizer demasiado bem de um político democrata? Irra, já nem me reconheço!

Imagens da Leitura 3

A razão profunda de as Mulheres prezarem tanto as crianças não residirá só no enlevo perante uma inocência idealizada a partir da relativa fragilidade. Vive sobretudo do prolongamento de Si que nelas vêem, enquanto os carregamentos de experiência e noções não moldam uma pessoa diferente. Contrapartida da inquietude masculina perante esses seres meios loucos, sempre ensombrada pela incerteza do concreto em que se tornarão os seus herdeiros, donde a preocupação maior em fortalecê-los, para que uma continuidade honrosa seja garantida.
Está pois garantido o sucesso da representação desta imagem junto de ambos os géneros: a velocidade do aperfeiçoamento indiciada pela leitura precoce, por um lado, a impossibilidade de manter durante mais tempo a concentração, pelo outro. Ou uma substituição de outra metamorfose ambiental por outra - a narração do livro cedendo o lugar à potencialidade do sonho, correspondendo afinal à pessoalíssima volição que, intimamente, os adultos dirigem ao menino, o que nele encontram de próprio e o que para ele desejam.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Surpresa Pelo Tarde

Surpresa na Tarde de Georg Fenkl

O Marido é o último a saber? Coisa do Passado, agora essa posição de lanterna vermelha cabe ao treinador do Benfica. Pelo menos se for o simpático e recto Engenheiro que ocupou esse lugar até hoje. Não se põe em dúvida a honestidade do Homem. Mas o meu Jardineiro também é honestíssimo e não lhe vou dizer para treinar o Clube. Longe de mim duvidar do saber futebolístico, dentro dos limites técnicos, de Fernando Santos. No que parece totalmente incapaz é de correr riscos no lançamento de jogadores e no entendimento do que se esperava do trabalho dele. No ano transacto, só com muita lesão e depois de ter desviado Katsouranis, se dispôs a lançar David Luiz, o melhor defesa central da equipa desde Mozer e Ricardo Gomes. Tem uma obsessão por um plantel pequeno, o que estará bem para o Estrela da Amadora, mas é incomportável com a carga de jogos dum Benfica. Acaba, por conseguinte, a dispensar jogadores, sem verdadeiramente os testar, como Stretenovic, ou o Diego que brilha no Brasil; e como quase ia acontecendo a Dabao. Tem uma fixação em Nuno Gomes, quer dizer, em entrar em campo com dez. Quando decide mudar a posição natural de um jogador faz disparates inacreditáveis, como o de forçar o pobre João Coimbra a ala esquerdo! Mas, acima de tudo, quando começa com os esgares de angústia e a embirrar diante do aperto do colarinho dá aos jogadores uma mensagem que é o contrário da confiança.
O facto de ter declarado que é surpreendente o despedimento de quem não perde há 22 jogos na Liga demonstra bem que não entende o que se espera do orientador do Glorioso. Que não viva de empatar, mas da empatia que gere.

Eu gosto de Camacho e não só na vertente humana, como no caso do despedido.

Imagens da Leitura 2

A Lição de Leitura por Delacroix, de A Educação da Virgem

Meditação sobre o Transcendente do lido.
Sendo - como somos - um dos ramos das Religiões do Livro e, considerados os três grandes monoteísmos, o que mais cumpre a virtualidade Dele, universalmente aberto a quem o queira ler e ao complemento por outros - a escrever e folhear -, importa determo-nos na função de "Espelho da Mediação" entre o Incorpóreo Divino e a Humanidade Que Dele carece: os Instrumentos da Salvação face às Páginas da Revelação, ou seja, a Mensagem de Deus na dupla inteligibilidade, o Transmitido, pelo Verbo Transcrito; e a Extensão Carnal que O mira: Santa Ana ensinando as primeiras letras a Maria e a Passagem do Testemunho Dela ao Fruto Que Redime, atestado pela aprendizagem na condição humana a que descera para abrir o Caminho pelo Exemplo.
Na estrita óptica do Ledor comum, tendo presente o Demónio dos Tipógrafos, referido por Anatole France como o que os assalta adulterando o intuito do imprimido, cumpre invocar a Intercessão de Nossa Senhora, talvez nas Vestes do Socorro, contra o que poderemos chamar o Demónio dos Leitores, o que desvirtua o sentido das páginas que em cada caso tentamos assimilar.
Quem nunca se viu apoquentado por este Tentador que atire a primeira pedra.

A Madona do Livro de Filipepi (Botticelli)

domingo, 19 de agosto de 2007

Prenda de Anos

O Meu Amigo Pedro Guedes, no seu resistentíssimo «Último Reduto» celebra hoje um aniversário mais. Noutros anos já disse o quanto Lhe devia. Como no meu anterior poiso teve a bondade de confessar como detestava cobras, a propósito de uma foto de Nastassja Kinski enrolada numa, tenho o grato prazer de ofertar uma filmagem do triste fim de um exemplar dessa espécie. Sublinhe-se a frase final: "the eagle wins". Contra todos os venenos, Pedro, como o Teu Blogue.

Imagens da Leitura 1

94 Graus à Sombra
Ora então que proponho, para manter a ligação nestes dias de repouso? Em cada dia uma imagem de Leitura que me haja seduzido, retomando com Setembro o padrão habitual.
Assim, começo por pensar na debandada para o campo, com a consequente alteração da própria pele, depressa coberta por aquele pó que inexiste na cidade, maneira extrema de nos sentirmos outros e de escaparmos às rotinas que oprimem, como, em certa medida, ao horror da ausência delas, expresso na condenação a permanecer numa metrópole abandonada por aqueles com que habitualmente convivemos e a tornam passável.
Como a imersão num livro, fuga às caras anónimas que somos forçados a contemplar em cada dia útil, essa condição incompatível com o Belo. E, adicionado a ele, o Bucolismo acentuado pela Literatura, transportando duplamente a nossa personalidade a metamorfoses e ambientes extraordinários, os quais, como o sonho, contribuem para o equilíbrio mental - que não prescinde de se visitar numa forma de si diversíssima da que, nos outros meses do ano, nos cansa.
Por isso gosto tanto deste quadro de Alma-Tadema: a sombra não se aplica apenas à do Astro-Rei; é também a da Amizade a que acabo de me acolher, como dela se poderia dizer ao calor, de resto.

sábado, 18 de agosto de 2007

Estado Em Que Se Encontra Este Blogue

O Espírito da Contemplação de Albert Toft

Sempre soube que ler é melhor do que escrever. Mas alimentei a esperança de que um blogue fosse momento de diversão, mesmo tratando de coisas sérias, por vezes. Não quereria ser motivo de enfado, muito menos magoar alguém; e sinto que as presentes e prementes indisponibilidades não me permitem prosseguir com êxito a via de, modestamente, trazer momentos bons Aos que deram a honra de ler-me. Vamos então parar até 2 de Setembro.Depois decidirei entre a retoma e a retirada. Até lá, boas férias de mim.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Da Barbárie à Barbaridade

O Repasto dos Filósofos de Huber

Não cesso de me abismar com a estranheza que certos comportamentos provocam nas Pessoas, como se fossem grandes inovações, quando a História está pejada deles. Ecoa a net uma ensurdecedora algazarra sobre a alteração dos verbetes da Wikipedia por entidades tão conspícuas como CIA, FBI, Vaticano e o Partido Democrático Norte-Americano. Deixemos de parte a alteração preconizada a partir da Santa Sé, uma limpeza do curriculum de Gerry Adams, última recorrência da urbanidade estabelecida para com tanto terrorista que chegou ao Governo, de todos os quadrantes ideológicos e coordenadas geográficas. Os outros casos apresentam-se como suavização de acções próprias pouco dignas e de insultos aos adversários. Em nada espanta, pois, que o gabinete do Sócrates que nos rege tenha seguido esta linha de comportamento - fez as alterações que lhe convieram na triste história das vaidades académicas, consubstanciando, em simultâneo, com a eliminação da engenharia, uma dura qualificação daquele que se revelou o maior inimigo do actual PM: ele próprio.
Entretanto, o uso e abuso de "repositórios de saber" pretensamente neutro para veicular ideias ou noções que conquistem para a parte dos autores é coisa velha de séculos. Já Diderot, D´Alembert e seus cúmplices, aqui retratados por Huber, o fizeram, através da célebre Enciclopédia, preparatória da Revolução. Que as ideias, artes e ciências tenham dado lugar a apagamentos de prisões, documentos falsos ou a classificações fáceis traduz apenas a degradação que as compilações de saber pronto a usar sofreram. Que espanta? Se as televisões e as universidades, proliferando, deram no que deram, por que raio a abertura da redacção enciclopédica a qualquer bicho careta poderia suscitar outras expectativas? Um banquete parece então muito apropriado para ilustrar as constantes de um comportamento que espera que papemos os mais subversivos cozinhados. Vandalismo informático? Talvez, mas, acima de tudo a consagração das subjectividades mais interessada e interesseiramente deformadoras.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Condolências a Satan?

Um Anjo Caído de Jack Paul Sanders

Pouco importa que as sapiências especializadas nos esclareçam de que o Satan adorado pelos Yazidis, alvos dos últimos atentados mortíferos mo Iraque, seja diverso do que conhecemos e corresponda, sim, a um anjo caído, mas que invertera a marcha por um diluviano arrependimento. Ao excluírem a capacidade interventiva de Deus neste Mundo e atribuírem o supremo governo dele a uma entidade que proclamam ter conhecido o Pecado, não há como escapar ao reconhecimento de adoração do Mal, seja por Muçulmanos, seja por Cristãos. E ao, comunitariamente, participarem em práticas ainda recentemente reiteradas, de apedrejamento até à morte de raparigas que queiram casar noutra religião, essa seita mergulhada no secretismo deveria suscitar a repugnância, a condenação e a intervenção de todos os Ocidentais, religiosos ou não.
Significa isto simpatia para com as explosões da Al-Qaeda? Nem por sombras, pois a fecundidade criadora e fantasista do radicalismo islâmico que a informa facilita a identificação de cultos diabólicos noutras paragens, começando pelo nosso património espiritual, para além de assassinatos em massa poderem sempre atingir elementos isolados não-comprometidos nos crimes das suas colectividades.
Mas é significativo que a União Europeia tenha condenado com tanta veemência o castigo dos adoradores do Diabo. Se acreditasse nele, provavelmente, até lhe enviaria um cartão expressando os seus sentimentos. Simpatia que, do ponto de vista muçulmano maioritário, será um indício mais para determinar a natureza maléfica dos poderes que nos regem. Da qual, aliás, não tenho dúvida, mas que deve ser atribuída aos tentados em vez de se procurar para ela a (in)dignidade terrífica do Tentador.
Um caso de venda da alma, então? Talvez não, mais de aluguer do corpo. É que a política escancarada de imigração sem discriminações de segurança permitiu uma comunidade considerável de membros Yazidi na Alemanha. Com a liberdade de circulação, quer dizer à nossa porta.