sábado, 8 de setembro de 2007

Inquietação

O Meu Duplo? de Jos. A. Smith

Já me acontecera darem-me como parecido com outro, mas uma destas nunca me tinha sucedido. Dirigindo-me a uma Jovem Bibliotecária, por causa do meu cartão de leitor actualizado, pensando que o nome facilitasse a busca - e talvez por me repugnar ser identificado por mero número -, declinei-o.
- Eu sei - respondeu a Guardiã do Saber. - Lembro-me sempre do nome do senhor.

- (...) - tão embasbacado como sentindo lisonja, não sei se terei grunhido alguma coisa.

- É que eu também me chamo Paula

- Ah!

- E tive um professor parecidíssimo consigo...

- Que também era Paulo, imagino - adiantei para apagar a expressão apalermada e mostrar um pouquinho de sagacidade condescendente.

- Que também se chamava Paulo Porto!

Com esta é que fiquei varado. Não só a ideia de ser único ficava fortemente abalada, como me assaltaram todas as prevenções centro-europeias contra os momentos sinistros em que o nosso duplo, o doppelgänger, dá sinal de si, prenúncio de catástrofes, anúncio de tomada do nosso lugar e apagamentos semelhantes. Isto não é ficção, passou-se há um par de dias. Pela primeira vez agradeci aos Céus a parte de vigarista que há em mim, já que, para me tranquilizar, revelei-me um indivíduo pleno de recursos, ao insistir para comigo que, provavelmente, eu é que seria o "duplo do Outro" e estaria ainda para chegar o momento em que, manifestando-me, o fizesse passar por angústia paralela.
Neste contentamento de ser sombra persisto, faltando só que me leia o aludido e me desengane, recebendo esta boleia blogosférica em plena auto-estrada de mim.
Mas nas vias rápidas não se pode parar, ou pode?

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Atracções da Desagregação

Promete a Equipa do Corta-Fitas distribuída evocação das séries televisivas mais marcantes. Como tenho por indiscutível ser a melhor de sempre «Brideshead Revisited/ Reviver o Passado Em Brideshead», um dos raros casos em que o filmado é superior ao todavia excelente livro, aqui ficam umas palavras, não como substituição, mas à laia de aperitivo do que o talento de qualquer Deles nos possa trazer.
Um Jeremy Irons suficientemente novo para que os tiques parecessem contrapartida da falta de à vontade num meio diferente do seu tenta compensar a inexistência de uma família própria, reduzida a um pai (Sir John Gielgud) cheio de indiferença, demasiado ostensiva para não ser caricatural, mas sobejamente brutal para não ferir. Procura compensar(-se) através da intimidade com os elementos de uma aristocrática Casa da minoria católica inglesa, uma classe fechada sobre si por séculos de isolamento, em que, paradoxalmente, a homossexualidade era notoriamente abundante.
A proximidade com Lord Sebastian Flyte, um condiscípulo, - Anthony Andrews no papel da vida - levá-lo-á à propriedade de Brideshead. A partir daí a sua procura da felicidade, através da substituição do que lhe falta esbarrará na decadência da solidez do lar do Grande Nome. Descobrirá que lhe não pertence, quer pela vertente religiosa, mantida de pé pela mãe do amigo, quer pela união absoluta de uma atracção para além da camaradagem (Sebastian), quer pelo fracasso final da sua eventual porta de entrada nesses cumes sociais (Julia).
A chave, porém, residirá no conhecimento dos separados Marqueses de Marchmain. Ele, Olivier, divertindo-se com o facto de o jovem ter "tendência para se apaixonar pelos seus filhos" e, nessa Itália em que com outra Mulher se exilava, dando pistas da libertação que procurara fugindo daquela com quem casara. A Contraparte, Claire Bloom, na cena que encima, revelando a tragédia de uma Mulher que perde os três Homens que mais amara na vida, o Irmão mais chegado, o do amor carnal e o filho preferido, o qual por completo eclipsara a fatuidade sem magnetismo do primogénito, Bridy. A sua obsessão falhada por controlá-los tem tonalidades da tragédia shakespeareana em que os actores da geração menos nova desta série resplandeceram. E nem é essa que pode ser levada a mal pelo Narrador ou pelo público, mas sim aquele auto-controlo igualmente maníaco que transforma a Religiosidade, deformada a partir da perda da Alegria, num tirânico automatismo condicionado pela elegância.
O resto é o tom, o das perdas e memórias de período anterior a um cataclismo bélico, o do mergulho na atmosfera de desunião, essa patética fragilidade de todos os que não nos conseguimos livrar de certa superstição entranhada ao ponto de ganhar contornos de realidade: a de que o tempo das descobertas é aquele a que sempre voltamos.

Preferências Ancilares

"Frescas", no caso, não se refere à conservação do corpo, nem a disponibilidades ousadas. Simplesmente reconhece que são as únicas a quem o tempo não consome ao ponto de não poderem ficar em casa, esperando por uma referência no blogue de Quem incensa e utiliza...

Axiologia da Dissuasão

Medo de Guido Viaro
Atribui-se aos Romanos a conformação com a máxima se queres a paz, prepara a guerra. Para quem cresceu num ambiente ensombrado pela contenção de uma potência ideologicamente expansionista por um guarda chuva nuclear, uma dualidade de alternativas em que era impossível não perder, faz pena ver o Ocidente desorientado e insistente na exclusão da Rússia da participação em escudos defensivos que projecta instalar às portas dela. Não há razão para tal: nem existe já a ameaça da Revolução satelizante exportada para os quatro cantos do Mundo, nem a situação em meros termos estratégico-nacionais é preocupante, com Ucrânia, Bielorrússia & C.ª constituindo-se em almofada de segurança contra qualquer devaneio de alargamento territorial à custa da NATO.
Assim, os bombardeiros de que Putin fez recomeçar os passeios merecem alguma condescendência, porque reacção dissuasora de quem sente apertados os calos. O que é novo e triste, triste e novo, é a tónica da ameaça tirar o seu alcance maior dos custos que intercepções de rotina implicam. Em tempos idos os Citas enviaram aos Persas - que supunham preparar-se para invadi-los - uma carta "ideogramática" composta por uma ave, uma toupeira, uma rã e cinco setas. O significado seria Persas, sabeis voar como as aves, esconder-vos sob a terra como as toupeiras, saltar pelos pântanos, como as rãs? Se não, não nos façais guerra, porque as nossas setas vos arrasarão. Há um significado profundo a retirar da diferença entre ontem e hoje: a prevenção firmada na tecnologia de antanho aludia ao conhecimento dos limites humanos, a sua epígona deste segundo Milénio refere-se somente ao solitário aspecto a que a demo-tecnocracia presta atenção - as possibilidades da respectiva bolsa. Até que alguém inove e vá para a guerra a crédito.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Da Impassibilidade

Retrato de Maquiavel na maturidade, com o
trajo de corte que sempre envergava para
redigir as suas obras

A defesa mais sólida e constante de Maquiavel diz que ele não desejava, do coração, a amoralidade do Príncipe, apenas enunciava a condição do êxito dele, dentro do universo político que observava. O perigo maior, todavia, não se reclinava nesse princípio da falta deles, viria com a idade, através do esbatimento das adesões e repulsas que Bem e Mal despertam, ou devem despertar. Com efeito, o Tratadista escreveria que um homem de merecimento, que conheça o Mundo, à medida que o tempo passa, sente-se menos tocado pelo Bem e menos ferido pelo Mal que vê no mundo. É este daltonismo moral que eu recuso. Não gostaria de que, progressivamente, a evaporação das surpresas ditada pelo pessimismo quanto ao que a Espécie nos reserva viesse em redundar em indiferença sentimental.
Mas ocorre-me que a frieza marmórea é um traço dos formalistas. O reputadíssimo Maestro Von Büllow, se não envergava de forma extraordinária farpela de gala para produzir, pois era essa a habitual exigência de indumentária para um chefe de orquestra, calçava sempre negras luvas para dirigir a Marcha Fúnebre, de Beethoven. E também era homem de renúncia às reacções apaixonadas. Se faz impressão a forma como abdicou da Mulher, por reconhecer os Direitos do Génio a esse Wagner que lha surrupiou, já fica muito melhor na fotografia pelo que retorquiu aos incorrectos que vaiavam uma obra de Liszt por si conduzida: Não é costume nestes concertos assobiar. Os Senhores assobiadores tenham a bondade de retirar-se. O que insinuava não estarem os manifestantes a ensaiar um protesto, mas a tentar fazer música, irremediavelmente inepta.
Conclusão a retirar: a fleuma vai tanto melhor quanto menos substantivas forem as circunstâncias.

Felizmente Há Luar!

A Amizade encerra duas coisas: um sentimento agradável e um desejo de felicidade relativo ao seu objecto.
Dugald Stewart
Selene lançando maravilhosa luz contida e subtil sobre os afectos.
Amitia, desenho quinhentista de Lambert Lombardo

Luciano Pavarotti 1935-2007

Quando um Grande atinge o Sono Eterno permaneçam velando-O todos os que amam a Música.

(DES)CULPA!

Porém, se procurarmos com afinco um livro - não já uma leitura - que, verdadeiramente, não mudou a minha vida, temos de pôr os olhos neste, oferecido aos catorze anos por uma Colega de Liceu que acreditou ser eu capaz de escrever um. Permanece com o interior tão imaculado como então. Desiludir aqueles que em mim depositaram esperanças vem sendo, muito mais do que gostaria, uma constante biográfica minha.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O Misoneísmo Encartado

Conhecível de Samuel Bak

Melhor seria dizer Editado e Encadernado, pois pede-me Este Blogador de Excelência que indique dez livros que não mudaram a minha vida. A bem dizer a resposta, para ser honesta, teria de incidir sobre os que não li. Cada um dos que acabamos deixa sempre ficar qualquer semente que frutifica, mais que não seja uma opinião, fruto inaproveitável, é certo. Mas há um sentido útil para a lista: o de volumes nos quais tinha depositado expectativas que viriam a sair furadas, após a leitura. Assim, de repente, lá vão:

«Um Olhar Para Trás», de Lou Andreas-Salomé. Presumo que terá sido a obra que menos prazer me deu ler. Tanto que prometi nunca voltar à Autora, promessa que infringi descaradamente, pelo que a minha vida não mudou. E o pior é que os resultados foram aproximados aos da primeira vez. Há domínios em que a experiência não contribui, é o que é.

«Folhas Caídas», de Garrett. Estive quase a vetar a Poesia do concerto dos meus interesses. O advérbio constituiu-se em tábua de salvação. Aquilo é tão enjoativamente perfumado como imagino o Homem.

«Confissões» de Rousseau. Tinham-me dito que muita gente aderia emocionalmente à sinceridade do escrito. Onde se via tal suspeito eu de encenação em letra de forma, mas é indiferente para o caso. Há escritores anteriores ao meu tempo cujas ideias condeno, mas cujo estilo estimo muitíssimo - Voltaire, Diderot. Jean-Jacques deixou-me gelado e apetece dizer-lhe, quanto à produção literária, o que a cortesã lhe aconselhou, tendo-o por estudante, acerca da habilidade no leito: "Estuda a Matemática, Jacobo, estuda antes a Matemática...".

«...Werther», de Goethe. Entendamo-nos, percebe-se por que teve o livro a saída que o celebrizou. Mas, prevenido por Napoleão Bonaparte de que era um perigo para os exércitos franceses, ao levar ao suicídio tanto adolescente, senti-me completamente defraudado. Li-o pelos dezessete anos, já tinha passado, algures entre os treze e catorze, a inevitável tentação do suicídio que a maioria dos rapazes atravessa. Não me fez renovar a apetência. Tudo na mesma, como a lesma.

«Amor de Perdição». Eu gosto muito de Camilo. Mas quem inventou ser aquele o opus magnum deveria ser condenado à exposição no pelourinho enquanto lesse, repetidamente, até às cem vezes, «A Rosa do Adro». Tenho de agradecer aos programas liceais terem-me desenganado logo a seguir, com o magnífico «A Queda de Um Anjo», ou ainda hoje jazeria no desconhecimento de tanta outra obra-prima. E não me venham com o argumento de que só o entendem "aqueles que sabem amar". Ou ainda recorro ao vocabulário do Capitão Haddock.

«Fernão Capelo Gaivota» de R. Bach. O meu Amigo Alce diz muito bem que só Mulheres gostam daquela xaropada.- Felizmente não todas, longe disso. É uma das raras ocasiões em que me orgulho da minha insensibilidade.

«Porque Não Sou Cristão», de Bertrand Russell. Prezando-lhe os outros livros, que não a figura, pois não o considero um cavalheiro, por muito aristocrático berço que o tenha gerado, fiquei completamente desiludido por adiantar argumentos que, salvo uma ínfima porção impenetrável a quem não tenha conhecimentos científicos suficientes, são os que ocorrem infantilmente na idade do Armário, logo sendo, pelos espíritos não-atrofiados, alvo de ultrapassagem.

«O Triunfo dos Porcos» de Orwell. Nada contra os alertas do Autor, mas nunca dei tanta razão a Baudelaire quando fala no carácter cansativo de ter de dizer às pessoas o que todos deveriam saber. Não gosto nem um bocadinho de pessoa com sentido de humor embotadíssimo para Inglês e tão hostil ao Desporto, o que explica muita coisa.

O livro de Borges Graínha sobre as origens da Maçonaria em Portugal. Como História só pode ser ficção. E dentro desta não tem estilo que redima. Um homem capaz de sugerir que Gomes Freire era anti-napoleónico também poderia dizer que eu sou, sei cá, sportinguista. Lagarto, lagarto, lagarto!

«Guerra e Paz», de Tolstoi. A Minha Mãe deu-mo a ler aos dez anos, apesar de ser uma leitura enquadrada, explicando quem era o Kutusov, o Bonaparte, etc. & tal. Ainda hoje digiro mal Tolstoy, por causa dessa intoxicação alimentar, apesar de lhe reconhecer a grandeza. E não mudou uma palha na minha existência porque continuo a precisar de ajuda para compreender muito do que leio. Da Vossa, para começar.

Nomear outros é que não. Recuso mais correntes que aprisionem escravos das respostas. Quem se der por Chamado Que Se Haja por Escolhido.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Beef(a)eater e o Sem-Funda

Dia negro para a Tradição em Inglaterra, com dois Camerons na berra. O Leader conservador, David, porque veio uma figura importante do seu partido dizer que está a delapidar a herança Tory no que toca a impostos, Europa e Família. E a Moira, a primeira Mulher aceite entre os Beefeaters, os alabardeiros que guardam a Torre de Londres.
A primeira é uma falsa questão. O eleitorado natural que disputaria, quanto a liberalismo económico, sente-se melhor servido com os Trabalhistas da Terceira Via; e a respeito de UE pelas listas que contra ela especificamente se apresentam. E um escocês que casou aos cinquenta anos, pela primeira vez, com a Secretária, Brown, dizem as más línguas que para compor uma imagem primo-ministeriável, demonstra sempre ter a respeitabilidade familiar em melhor conta do que um jovem mimado que passou por todos os prazeres proibidos dos universitários da sua geração. Pouco importará, portanto, a alteração programática.
Já as Jóias da Coroa parece terem garantida a segurança: a neófita não será um modelo de aprumo militar na formatura, mas a expressão que arvorou fá-la assemelhar-se amplamente às gárgulas caçadas por Esta Senhora, com toda a capacidade de afastar os indesejáveis. Pelo menos.

Espécie Em Vias de Extinção

O Beijo de Picasso

Não trazem coisa de que não se desconfiasse, porém as descobertas científicas agora anunciadas sobre o beijo têm alguns efeitos (co)laterais.
Em primeiro lugar, justificam a maior saída dos filmes pornográficos entre o público masculino, pois, na melhor distinção que conheço entre erotismo e porno no Cinema, de uma escritora espanhola, nos eróticos a câmara mexe e há beijos. Nos pornográficos nem uma coisa, nem outra.
Depois, vêm mostrar que o pretenso totalitarismo macho, de beijocar para "ir ao que interessa" era mera coisa de amadores. Estaria assim como o Maoísmo chinês para o regime dos Khmers Vermelhos Cambojanos, porque as Senhoras usam esses inocentes sinais de afecto nada menos que como termómetro da relação em todos os aspectos da vida!
Finalmente, com a conversa da importância dada ao hálito, à respiração e ao alinhamento dental, cheira-me que se quer acabar de vez com o gesto intergéneros. É o que sou forçado a concluir, face à diferença abissal de cuidados e de alimentação que se constata entre ambos os sexos.
Já era! Ai tempos, ai costumes!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O Volume No Máximo


A Tebaida de Paolo Ucello
Desdramatizou o Santo Padre em boa hora a confissão de Madre Teresa em que se queixava da distância que sentia de Deus. Nem todos os crentes podem ser místicos e só perspectivas enviesadas e divisionistas pretenderão tirar ausência de Fé do que, afinal, são os solavancos mais fortemente comprovativos dela. Quem não se revoltou perante os horrores do Mundo, e teve a tentação de sentir um adormecimento divino diante da não-intervenção sobrenatural que os evitasse?
É sintoma da nossa impotência. Bento XVI terá mesmo sucumbido brevemente à forma mais rebatível dela, perante a maldade do Homem, que só a este pode ser imputada. Mais difícieis de compreender, mas de natureza similar, são as misérias sem culpas determináveis, como a que Madre Teresa toda a vida minorou. E um patamar ainda mais árduo de superar é o das causas naturais conducentes à monstruosidade, a que afinal está no espírito do observador que também sou, incapaz de convenientemente amar o que o choca. Quantas vezes não berrei já pela ausência de Socorro ou Conforto Divinos, perante deformidades com que deparei?
O facto sobejamente consabido de o Reino de Deus não ser deste Mundo é em nós inconscientemente combatido pela repercussão que a nossa acção nele virá a ter no Outro, ao ponto de crermos, em contrapartida, poder reivindicar o Milagre, se não como regra, ao menos em jeito de satisfação das excepções por nós seleccionadas...
É que não é só o vício que ensurdece. Servir o Outro, dar-se continuamente na senda do Bem, conduzirá decerto à Bem-Aventurança, mas, ruído imenso que é, poderá endurecer o ouvido para a Cristalina Voz das Alturas, ao colocar a Dor à frente da Serenidade. Contra isso se criou a tradição monacal, digna herdeira dos Anacoretas Antigos, incompreendida até por um São Francisco, que amava demasiado a Vida para prezar uma regra de isolamento.
A extinção da Revolta é o primeiro passo para sermos melhores. Mas a compaixão perante os que a sentem, sem a ela cedermos, está um degrau acima.

Olá, O Efeito Camacho

Que bom foi verificar ontem, no jogo contra o Nacional, que refrescar o onze benfiquista passou por um correcto preenchimento da Extrema-Direita, através desse Maxi Pereira que provou não ser um perna de pau, como outros que por lá passaram.

Polícias e Ladrões

A demissão de Senador dos Estados Unidos por Larry Craig, Republicano do Idaho, põe em evidência perversões que devem ser consideradas de muito maior monta que a pálida eventualidade de conduta sexual que as despoletou. Antes de mais, uma prevenção - trata-se de um político que não aprecio, por razões completamente diversas das emergentes do incidente.
O legislador foi preso por um polícia à paisana, acusado de "emitir sinais de demanda de contacto sexual" nos lavabos masculinos do Aeroporto de Mineapolis, conhecido local de contactos gay proibidos pelos regulamentos. Concordou em considerar-se culpado de comportamento incorrecto num local público, em troca de não ser acusado de irregularidades mais graves. Foi suficiente para lhe pôr termo à carreira.
A sexualidade do homem público não me interessa, o seu currículo de oposição às reivindicações de direitos da comunidade homo também não, pois aceito perfeitamente que um decisor homossexual entenda que à sua preferência não devam ser dados mais direitos. Julgo, por outro lado, que mentir quanto à respectiva orientação, o que não está absolutamente provado que tenha acontecido, pode ser relevante, mas apenas eleitoralmente, dentro do sistema norte-americano.
O que me parece de proscrever é uma prática dos agentes de autoridade daquele País: a de se disfarçarem de prostitutas, ou de jovens que se oferecem, para caçar os incautos proto-prevaricadores atraídos por esse isco. Parece-me imoral excitar apetites postos em sossego, pressionando-os com forças capazes de romper contenções frágeis. Além de, no limite, como agora se diz, parecer uma modalidade te tantalização...
O outro ponto que me revolta é a negociabilidade das acusações. Em primeiro lugar porque a estrutura que equivalha ao Ministério Público deve fazê-las a propósito de todos os comportamentos de que pense o suspeito culpado, independentemente da facilidade ou da dificuldade da prova. Depois, porque muito boa gente, e outra, menos boa, tenderá, sob a pressão das circunstâncias, a declarar-se culpado de coisas que não fez, para se livrar de piores lençóis, em que lhe dizem estar metido.
Concluindo: nem a Instituição Policial deve adoptar comportamentos indignos, para além a infiltração em organizações criminosas, nem a Justiça deve regatear.
Ah, embora não me veja a fazer brincadeiras de pé e de mão como as da imagem, nunca mais usarei WC´s de aeroportos. Prefiro fazer nas calças, saaaafa!

Da Rússia Com Humor

A Estimadíssima Miss Pearls deixou-se entusiasmar pelos adereços femininos que a pequena Olga, vencedora da MARCHA nos Mundiais de Osaka, ostentou, em plena competição. Que dizer então do comprimento dos saltos (não, não inverti a ordem das palavras) que estas compatriotas dela usaram, em CORRIDA?!
É fazer como a vencedora, treinar muito, a caminho do trabalho...

domingo, 2 de setembro de 2007

O Atavismo da Destruição

2 de Setembro é dia propício para desmascarar a sede de sangue e de cinzas em que se fundam as Democracias tendendo para Repúblicas. No de 1642 os Puritanos do mesmo parlamento que tentava, concomitantemente, extinguir poderes do seu Rei mandou fechar os teatros ingleses, a começar pelo Globe de Shakespeare, a maior glória literária nacional. A motivação era dupla - por um lado arrasar a alegria e a elevação das Artes, por outro afrontar um domínio, o cultural, protegido pela Coroa. Era o triunfo das verborreias instiladas contra tudo o que pretendesse levantar os olhos do chão, que se congratulava com o facto de em Inglaterra as Mulheres não poderem pisar o palco, mas não se contentava com tal; e que, com o infame Gossom pretendera abolir a própria poesia, ele, um protegido de Sidney, reiterando uma vez mais a omnipresença da ingratidão contra os benfeitores e pondo em xeque alguns simpatizantes da causa, Milton, por exemplo.
Mas quem atenta contra o espírito em breve exige o corpo. No Século seguinte, em França, corria 1792, tiveram lugar os tristemente célebres Massacres de Setembro, nos quais quase 1500 inocentes foram vitimados pela fúria sanguinária despoletada por Marat e pelos meios facultados por Danton, através das tenebrosas visitas domiciliárias. Era o entendimento da Liberdade e Fraternidade que considerava uma ocorrência necessária à campanha eleitoral em curso para a Convenção a resposta às exigências de morticínio em assembleia formuladas expressamente por Tallien e C.ª. Nesse evento que deu ao verbo enlargisser uma triste e nova significação, a da entrega das vítimas à populaça excitada, fica a memória da pobre Princesa de Lamballe, morta ao recusar jurar o ódio à Rainha que literalmente lhe exigiram. O seu corpo profanado e mutilado é a marca de fogo do carrasco aposta nos ombros infames da Democracia.
Estes tristes precedentes deveriam servir para afastar qualquer pessoa de Bem desta maldita invenção, hoje instituída. Será certo que, no momento, não se praticam com normalidade, tais atropelos. Mas não condenar sem esmorecimento essas origens e abdicar de demarcar-se delas define o ódio latente nos dominadores de hoje e a falta de escrúpulos que os faz gozar proventos emanados da hediondez aqui lembrada. Por isso digo uma vez mais: essa gente não é a minha.

Post Scriptum

Tendo trazido aqui tanta conversa acerca do Lido, não me perdoaria a maioria dos Leitores que não aludisse a este. Mas talvez as Leitoras preferissem assim. Não se pode agradar a Gregos e Troianos, está visto!

sábado, 1 de setembro de 2007

Setembro

Woody Allen captou bem a melancolia que emana do mês, no filme homónimo. Para mim, que ainda não empreendi os balanços íntimos a que os personagens se prestaram, há muito que essa tonalidade lhe estava adstrita: era a altura do retorno anual aos ciclos interrompidos, com os nostálgicos temores da irrepetibilidade dos momentos bons e o infantil receio da repetição dos maus.
Neste de 2007, o primeiro sem meu Pai, invade-me o desconsolo da devastação ígnea da Terra a cujo Passado real e miticamente vinculamos o melhor de nós. Além de diminuir os Vivos de hoje, ameaça mais uma profusão de indícios desses tempos gloriosos tão afastados. São apenas ruínas que desaparecem? Mas as Ruínas constituem pilares do culto e da especificidade, como resistências à erosão deles.
Somos nós que nos perdemos, pela cosumpção das referências, neste nono mês em que damos por uma outra significação de "fogo grego", depois de haver sido arma e metáfora do Espírito.

Imagens da Leitura 14

O Velho Erudito
Nem tudo são rosas, todavia, na dedicação porfiada à Leitura. Há dois vícios de sempre que, fazendo o sujeito alojar-se nela, acabam por lhe perverter as virtualidades. Trata-se da imitação, força motora de tantas deglutições de páginas, que pode incidir apenas sobre a selecção das obras a ler, ou ir até às conclusões a tirar; e da avareza, o Leitor sério que procurou satisfazer aspirações intelectuais autênticas, mas se torna tão cioso do que sorveu que o quer guardar para si, sem o pôr sobre a mesa dos contactos sociais, como tentativa de interessar, melhorar os que com ele convivem, pelo conhecimento e sensibilidade que directa ou indirectamente acrescente, bem como a si, através dos contributos que aqueles com quem contacta possam somar ao proveito que tirou. É o ciúme, esse shakespeareano monstro de olhos verdes dirigido aos livros e não suportando outras proximidades que a dual entre volume e possuidor, no sentido físico como no espiritual do termo.
Ambas as degenerescências mencionadas são macaqueações. A que cegamente decalca o comportamento, pela característica principal atribuída aos símios. A dos Tios Patinhas livrescos pela impossibilitação de usar a linguagem logicamente organizada, restringindo a parecença com os comportamentos humanos aos gestos, desprovidos de essencialidade discursiva.
*
Neste domínio, como em todos os da vida, há que seguir a velha regra legada pelos Árabes de tempos mais civilizados: O homem que não sabe que não sabe é um tolo, evita-o; o que não sabe e sabe que não sabe é um ignorante, instrui-o; o que sabe e não sabe que sabe é um adormecido, acorda-o; o que sabe e sabe que sabe é um sábio, segue-o.
Resta tentar não fazer diagnósticos errados. Sobre os outros e sobre nós.

Farejando a Pista

Mas tem alguma dúvida? A Senhora vai comprar este perfuminho. Optar por Mousse é dizer "espuma", a dos Dias, segundo Vian. Mas também quer dizer "grumete", o que em linguagem chic dará mandarete, velha predilecção da Remetente, revelada a propósito de Africanas Casas; e até paquete, que já Se confessou predisposta a admitir nas esvoaçantes jornadas que anima. Não pode rejeitar floreados destes, subsumíveis à síntese «Quando o Alvo Era Espelho».