quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Descanse em Paz

Leio no «Nonas» a triste nova da morte de Carlos Eduardo Soveral, cuja erudita escrita sempre li com proveito e deleite. Curvo-me perante a Sua Memória.

A Atenuante

Não me pronunciarei sobre esta notícia proveniente do Reino Unido, no que incida sobre a questão de fundo, de saber se o abandono de um posto em horário de serviço, ainda por cima de um local hoje particularmente sensível em matéria de segurança, como um aeroporto, é infracção disciplinar ou criminal.
Quero é contradizer a alegação do defensor do polícia que foi conhecer biblicamente uma Senhora, numa estação, em tais circunstâncias: que o seu constituinte haja sido penalizado pela natureza da ocupação a que se dedicou, infringindo os regulamentos, quando diz que, se ele tivese ido almoçar ou jogar golfe, o caso não teria sido levado a tribunal.
É que a especulação é reversível: a de que o brevíssimo tempo que o júri levou a ilibá-lo de violações criminais se pode ter ficado a dever a uma simpatia para com a realização sexual plena de cada um, com associadas fantasias, de que os fetichismos de um uniforme e acessórios de agente da lei poderiam ser exemplo...

Dilema Anunciado

Querida T, depois do alvitre do «Dias...» fico entalado entre duas obediências: não me dê como tapado, mas será que não chamando um Tapol não estarei a enjeitar a correcção que, na vertente política, é hoje exigida a cada um de nós? E esta notável companhia chegará aqui à Costa do Estoril? Beijinho de quem contina peão.

As Inspirações na Misturadora

Eu gosto de Balzac. Reputo mesmo um dos seus livros, «As Ilusões Perdidas» como dos melhores romances de sempre, embora já não tanto os «Esplendores e Misérias das Cortesãs», seu seguimento. A figura de Lucien, talhada com o duplo poder, raramente combinado, da observação e da criatividade, deveria ser vacina obrigatória inoculada em todos os rapazes que, na adolescência, esperam mais de e para si do que do conhecimento dos Outros e respectivo investimento neles. A explanação da fraqueza de carácter atolada na imprecisão megalómana das aspirações, dada a leitor sensível, cura muito anseio e prepara para dar à vida e dela agradecer as ofertas.
Mas eis que leio em Cruz Malpique que Balzac não dispensava duas coisas sobre a mesa de trabalho: a cafeteira com o seu cafèzinho quente, onde bebeu boa parte da sua lucidez mental, e o seu gato. Gostava de sentir, combinados, os dois perfumes: o do café e o desprendido pelo seu felino, um perfume almiscarado que lhe fazia dilatar a narina.

São, sabe-o Quem me costuma ler, duas das minhas pequenas mas constantes paixões. O que não me obrigaria a prezá-las em conjunto, pois também muito gosto de quase toda a fruta e desenvolvo alguma má vontade contra a salada das mesmas composta...
Mas, exercício ocioso, porém devoto, ponho-me a especular sobre a correspondência inspiradora desses dois afectos no grande Honoré. À primeira vista diria que o café, mantendo-o desperto, seria a alavanca que permitia activar o afamado realismo, enquanto que o bichano configuraria, pela volúpia subtil e bela dos seus movimentos, como pelo harmonioso ronronar do seu sono, a fantasia e excitação de sensibilidade imprescindíveis à obra prima.
Todavia, surgem-me segundos pensamentos quando leio as variações introduzidas pelo Autor, o que escreveu sobre a negra e aromática beberragem: Eu descobri um método terrível, ou antes, brutal, que recomendo apenas a homens de vigor excessivo(...) usar café finamente pulverizado, café denso, frio e seco, directamente no estômago vazio. (...)A partir desse momento tudo fica agitado. As ideias rapidamente tomam posição como os batalhões do Grande Exército para o seu legendário campo de batalha e a luta desencadeia-se. As memórias carregam, com os seus estandartes brilhantes ao alto. A cavalaria da metáfora desdobra-se num galope magnífico. A artilharia da lógica arremete, com um estrépito de atrelados e munições. Obedecendo às ordens da imaginação os atiradores de elite apontam e disparam. Contornos, formas e caracteres ganham corpo. O papel enche-se de tinta, pois o labor nocturno começa e acaba com torrentes desta negra água, como a batalha começa e se conclui com pólvora negra.
Vendo-me assim desmentido no papel que ao delicioso excitante conferia fico-me interrogando se à contemplação do sono da mascote não caberá porventura o desempenho de indução da serenidade no Artista, a tal sine qua non...
A imagem é O Gato de Balzac, de Jeffrey Wade Brown.


A Lição de Ontem

Duas garras de Águia mais velha impediram, para já, que o pé dinamarquês esmagasse o ovo de que pode nascer a presença na Champions. Imagem assassina sobre todas: a que, após o golo da vitória, focou, na assistência, o Comentador Joe, aquele que denegriu Rui Costa, por causa da idade. Mas semelhante cara de pau ainda é capaz de vir dizer que foi estratagema para picar o Maestro e fazê-lo superar-se...

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A Coerência Democrática

A 14 de agosto de 1945 um tribunal constituído apenas parcelarmente por magistrados, sendo as restantes partes dele parlamentares hostis e resistentes, com um presidente e um procurador que exprimiram antecipadamente a convicção da culpabilidade do Acusado, condenou o Marechal Philippe Pétain, salvador do País em 1918 e em 1940, quando mais ninguém queria pegar no poder, à morte (comutada em prisão perpétua). As acusações? 1- Ter excedido os poderes conferidos pela Assembleia Nacional, que tinham sido os «plenos», recorde-se, entrando assim da forma mais triste na renovação da língua. 2- Ter aceite a derrota como definitiva, quando as testemunhas inglesas, de acordo com o próprio Churchill explicaram ter sido tudo combinado com Londres, para evitar que o armamento, Império Colonial, economia e território franceses ficassem completamente na mão do inimigo. 3- Ter colaborado com o ocupante, fornecido tudo o que ele exigia e de que necessitava, não considerando minimamente as toneladas de papel que evidenciavam o constante regatear das condições impostas, quando não a sabotagem do seu preenchimento.

Que espanta? Nas letras Claudel também publicou um poema laudatório dirigido ao Condenado, quando ele estava por cima. E quatro anos depois, outro, ao político que mais pesou neste exemplar acto judicial...
Ao contrário, o Réu, como única defesa, proferiu:
Ao vosso julgamento responderá o de Deus e o da posteridade. Eles serão suficientes à minha consciência e à minha memória. Confio-me à França.
Apesar da odiosa fantochada nunca se alterou.

A Batalha Real

Gravura seiscentista de Pedro de Villa Franca, de Madrid, para a obra de Rodrigo Mendes da Silva «Vida y Hechos del Gran Condestable de Portugal»
Dia de Ajubarrota. Escreveu Carlos Bessa que os Portugueses mantiveram a memória da Batalha no duplo enquadramento de afecto e de advertência. Compete conservar esse património espiritual no que nos infunda auto-estima precatada, no primeiro caso, sem a insistência nas identificações que levam ao ódio cego. E, no segundo, extrair dele as cautelas que nos fortaleçam contra as ameaças efectivas que espreitam, não nos esgotando nas defesas assestadas a repetições literais, elas sim o perigo maior, por abrirem a guarda contra os adversários novos que se perfilam. Se não devemos ver o Presente com o Passado a servir de antolhos, também não devemos focar os acontecimentos pretéritos com a luz alterante do que lhe sucedeu. Momentos menos dignos de lembrança omitidos das visões celebrativas, como o do massacre de prisioneiros, não nos devem estigmatizar demasiado, por serem consequência do duro dilema de matar ou morrer que a sua conservação impunha, embora convenha lamentar ter-se verificado embaraço tão penoso. E a aliança inglesa não tinha então, já e ainda, o conteúdo de procurar não imiscuir-se nas lutas europeias, pois esse fora o princípio norteador da neutralidade de D. Dinis, D. Afonso IV e D. Pedro I, alterado por D. Fernando, nisto seguido, nesta fase, pelo Mestre de Avis, sendo, à época, a Inglaterra um poder continental, com restos dos interesses consideráveis que mantivera no território francês actual e com o Duque de Lencastre disputando o Trono de Castela. Para além do posicionamento perante a luta de Papas versus Anti-Papas.
Por isso, o grande significado de Aljubarrota deve ser outro: o de retirar a lição de como a iniciativa e a escolha do ponto em que se dá combate pode neutralizar as diferenças de efectivos, conduzindo a um equilíbrio no instante decisivo. E a garantia de que a coesão entre as nossas linhas permitirá colmatar as rupturas nelas provocadas pelos primeiros embates, assim mudando a sorte da luta.
Foram a concentração e o cuidado em não permitir ao Inimigo tirar partido da vantagem numérica global princípios importantes quer na saga asiática do Século XVI, quer na ocupação africana oitocentista. Mutatis mutandis é, no tabuleiro, supra-nacional em que nos enredamos, a condição da sobrevivência.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Sonata à Luar

Luar de Anthony Benton


Homenagem deste réprobo à nossa Colega que continuadamente deseja o melhor para os nossos ócios, tendo em mente a preocupação perante o Historial de uma intervenção, que Se dignou testemunhar-nos, hic et nunc.

«Nada de Novo Debaixo do Sol»?

Salomão pareceria bem certo. Dois castings tomaram as atenções dos observadores de passarinhos deste verão: a das novas três amigas da TV Cabo e a das Cheerleaders do Benfica. Dá-se aqui uma ideia das diferenças de exigência entre um e outro dos certames. Há um afastamento atroz de dimensão entre imitar a campainha de um telefone antigo e, huuuum, não comprometer a coreografia linkada. A que implica puxar pelo corpo, justamente.

Mas tais selecções são pouco menos antigas do que o Mundo. A primeira creditada, como se vai dizendo agora em vez de "consagrada na História", foi a de Zeuxis, esse Pintor notável da Grécia Antiga que, para executar uma encomenda de pintura do motivo de Helena de Tróia, exigiu à contraente cidade de Crotona o envio da fina-flor da sua juventude feminina, tendo em vista a escolha de cinco, a partir de cujas perfeições pudesse compor a mítica causadora da Guerra.

Eis o episódio, por sua vez pintado por Long, no momento da selecção, acima; e do resultado final, mais abaixo. Como se vê, tudo como dantes, quartel-general em Abrantres. Mas será? Nem por sombras, o Sol que nos dá vida é, já o sabia Mestre Piçarra, o Glorioso Sport Lisboa e Benfica. Pelo que se nada inova sob ele, a encarnação e ampliação da sua Luz Intensa é a Boa Nova por que se espera. Coisa uma vez mais provada pelas imagens...
coisas fanáticas, não há?

Duas Rodas

A do Desporto e a dos Amigos, aqui nos blogues:
Poderia ir, mas só se venderem destes veículos, Querida T. Não que haja por cá necessidade absoluta de um transporte assim, mas ouvi dizer que modelos familiares ficam muito mais económicos. É a célebre bicicleta Eclipse de M. H. I. von Scheidt, que eclipsa qualquer concorrência...

Embora deva dizer que a oferta desta casa estrangeira me pareça muito mais susceptível de fornecer o que preciso. Nem se diga que "o que é nacional é bom", pois o estabelecimento sugerido nos «Dias...» vivia das representações...

E fico aparvalhado como uma Cliente com o refinamento da T prefere a cópia importada ao original parisiense... Até a estética do reclame é decalcada, não?


Já respondendo ao Caro Bic Laranja, sempre direi que também sou um fervoroso aficionado do ciclismo, ao ponto de desejar avidamente este calendário...
Mas podemos ir mais atrás - por altura dos meus sete anos estive hospedado umas Férias Grandes inteiras, com os meus Pais, no saudoso Hotel Neto, em Sintra, onde poisou também a equipa do Sporting, que disputava a Volta a Portugal. Descarado como então era, o petiz foi entabular cavaqueio com os ciclistas, que se divertiram a arreliá-lo por causa da vocação benfiquista. No fim, assinaram fotografias, dizendo que me tinha de contentar com o que havia: e assim possuo, até hoje, um autógrafo do Joaquim Agostinho...

Biografia da Vergonha

Em 13 de Agosto 1961 a primeira das paliçadas históricas que muraram Berlim era erguida pela calada da noite, para impedir a deslocação até aí habitual da população da cidade. Como na Tróia da Arqueologia outras construções mais recentes lhe sucederiam, sem variar na função ou, significativamente, na geografia, com as quais duas décadas se habituaram a desmascarar desejabiliades que precisavam de assim forçar ao respectivo consumo. A luta contra a tenebrosa parede viveu quase todo o tempo de uma solidariedade expressa por oca mentira, a condição berlinense de Kennedy, a qual não levou a lado algum. Até que alguém disposto a enfrentar a besta de frente conseguiu, num ápice, transformar um apelo tido por fantasista em profecia próxima, trazendo a realidade da demolição sonhada. Há sempre vantagem em lutar.

domingo, 12 de agosto de 2007

Uma Mina!

O Dentista de Gerrit van Honthorst

O Clínico anunciante não queria ser assimilado a estes prospectores de dentes de ouro...

A Outra

Perfil de Cleópatra em moeda DO TEMPO, para tentar responder à questão pertinentemente levantada pelo Carlos Portugal (acrescentado às 22.49H).

Imagem do Século XV, representando os suicídios de António e Cleópatra

Se a cobra que tentou Eva é a estrela maior de tais répteis, a que terá morto Cleópatra faz uma sombra condigna. Ambas serviram para matar e, curiosamente, prometendo a imortalidade, pois a áspide que terá servido para a rainha ptolomaica abreviar a existência era tida não só por insígnia da realeza, como a sua mordedura por garante da vida para além desta. O acontecimento é situado a 12 de Agosto e a romantização do réptil apertado contra o seio não mais do que uma projecção de desejos humanos no animal. Não só os entendidos dizem que a eficácia do veneno introduzido na face interna do braço seria maior, como os primeiros relatos afirmam expressamente que aí foram encontradas as marcas. Resta o problema da beleza, tão iludido pela frase de Pascal Se o nariz de C fosse mais curto a sorte do mundo teria sido diferente; ao contrário da leitura que hoje predomina, não é uma apreciação da atracção dos traços, mas um parecer técnico de Fisiognomonia, que sustentava poder a inexistência das dimensões e forma aquilina do apêndice, tal como nos é dado pelas moedas do tempo, traduzir-se numa obliteração do carácter forte e determinado de que seriam signos, mudando assim a História.
Resta o problema da beleza dela, desmentida desde logo por Plutarco. Considerando o que se diz dos homens de hoje, poder-se-ia afinal reiterar que o Poder é auxiliar de monta na busca e êxito das habilidades de leito. E que funciona para os dois géneros...
O que nos traz de novo à ilustração - na sua ingenuidade representativa, abstraindo de não terem sido simultâneos os suicídios da Egípcia e do Romano -, a duplicação do animal encarna a duplicidade presente na notícia dada antes do facto, na mira de ainda se reconverter em tentadora de Octávio, bem como o símbolo erótico que também é.
Na simplicidade se patenteia, às vezes a intuição mais sucedida.


Morte ou Glória?

Mas, Charlotte, o clássico da erudição sobre o tema é este. Tenho-o por cá, mas não consegui achá-lo, pelo que fui à net buscar a capa.

A Carga dos Burros

Estou sempre preocupado com o bem-estar da T, logo fiquei angustiadíssimo com a possibilidade de dois belos posts Dela poderem vir a ser alvo dos policiadores da correcção política.

Assim, dou em alternativa de trabalhador braçal esta marca que tanto alimenta o meu imaginário; e, desprovida de força muscular profissionalizada substituta da minha, descreve bem algumas saídas de livrarias a que mal sobrevivi. Recomendação, a propósito do postal concernido: jamais dar alguém de origem africana como carregador, sem pôr ao lado um médico ou um professor com características étnicas similares, pois o delírio interpretativo logo verá uma concepção de incapacidade para a actividade intelectual dos provenientes do Continente Negro...

Nunca, mas nunca, falar da tracção animal de veículos no mesmo plano do dos elementos mecânicos; a alternativa passável é demonstrar a confraternização entre bípedes e quadrúpedes, pelo que uma representação de Americano, dos tempos em que significava ser puxado por burro, em vez de, como hoje, arrastar os burros atrás de si, deve alinhar por este diapasão...

sábado, 11 de agosto de 2007

A Prepotência Mediática

Revolta de Tamara Gritzuk

Apesar de tudo, pensava que existisse mais contenção. Pondero seriamente não ver mais noticiários da TVI, desde que, hoje, assisti ao inqualificável, o reporter no terreno do caso Maddie, Amílcar Matos, insurgir-se contra as declarações de um elemento da Polícia Judiciária, que teria afirmado não serem suspeitos os Pais da desaparecida. O atrevimento chegou ao ponto de afirmar que não se percebe como estas declarações puderam ser feitas, porque as regras básicas de investigação criminal dizem que as pessoas mais próximas dos desaparecidos são sempre suspeitas. O Leitor está confuso? Talvez pense "De que título se poderá arrogar uma cadeia televisiva para ditar normas de investigação criminal?" Ou se terá a companhia em questão uma explicação suficientemente forte que indicie o casal inglês? Deixe-Se disso, a desrazão é mais simples e revoltante, considerando o que se procura deslindar. É que a entrevista policial foi negada à estação e dada a orgãos de comunicação social britânicos. A concorrência é guerra em que vale tudo.

A Mulher Ideal

Celebra-se hoje, graças ao talento benigno de Al Taliaferro, mais um aniversário de um Vulto amado por todos: sozinha desde há muito, dirige uma quinta com todas as dificuldades inerentes, então depois da PAC, revelando-se, literalmente, uma "mulher de armas" quando se torna necessário empunhar um velho bacamarte. Tem o sentido de Família, sendo refúgio, voz ponderada e acolhedora para todos os muitos descendentes que a procuram. Cozinha como ninguém, sendo o seu Manual o livro de culinária que mais leio. Acolhe um ganso imprestável, guloso e trapalhão, como muitos que andam por aí a grasnar, mas sem jamais lhe fazer ver isso, no que se revela muito mais caridosa do que o autor deste blogue. É, em suma, a imagem da independência feminina, digna de todo o culto, sem que por isso o réprobo, ou ela própria, se hajam tornado feministas. Conhecendo-a, ficamos cientes de que patos somos nós, que não temos alguém assim, por perto.

O itálico acima é uma paráfrase facílima de Salazar, aquando da entrada das primeiras Eleitas na Assembleia Nacional. Cito de memória: «Achou-se de grande vantagem que algumas senhoras estivessem presentes na legislatura, sem que por isso o Estado, ou elas próprias, se hajam tornado feministas». Hélas, vendo o que tive de modificar, l´État c´est moi. Fico inconsolável, não preciso de quem me insulte, basto-me amplamente...

Tamanho É Documento

Nem que seja do ideal estético de cada época e vária geografia. Vai na blogosfera um vendaval de desabafos e opiniães sobre os peitos femininos, semióticas e atracções maiores que a eles vão beber. Tudo, quanto a mim, porque ainda vivemos numa idade em que o gosto é marcado ao ritmo da América do Norte, país que encontrou a apetência estética na considerável nutrição dessa parte anatómica, ainda que siliconeanamente burladora dos que hipnotizar se deixem. Agora, a conversa não é só deles, nem de hoje. Apenas lhe assestaram lentes de aumentar, consoante o gosto respectivo. Os Franceses, que durante tanto tempo se tiveram e foram tidos como os marcadores do ritmo da elegância, para compensar momentos de cabeça perdida, ergueram em norma de dimensões mamárias a taça de Champagne que teria sido moldada a partir dos seios da Pobre Maria Antonieta. Ao que numa inspiração publicitária, a marca Bravissimo, com o nome jogando, haveria de contrapor a confecção de novos vasos para ingerir o espumante, segundo e seguindo o volume patriótico, como se dizia na gíria lisboeta de décadas passadas, de Ronni Ancona. Transformação de uma copa A/B - 200ml em D - 550ml, a qual, por não ter passado do estádio de protótipo, se assegura prometida apenas aos happy few...
Mas claro que já em tempos de gosto menos discutido, a Grécia do Séc. IV a. c., se elevavam as medidas peitorais de Afrodite aos píncaros do invejável, idealizando-as sob o arquétipo do tamanho de uma maçã. Que, nos dias que correm, quer dizer tanto como nada, ao que se tira da imagem ao lado...

Bon Voyage

À Cristina Ribeiro que vai visitar, ou, quiçá, encarnar por uns dias no palco natural esta Senhora: Lorelei.
Beijo

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Cheiro a Esturro

Apesar das prevenções em contrário de Paul Valéry, a ambiguidade continua a ser na Arte um traço prestigiante. Talvez porque a aspiração ao pouco rotineiro, entre os fruidores, conjugada com alguma insegurança crítica, predisponha a ver subtileza no que seja deficiência ou jogo fácil. É que o que dispõe bem, porque transmissivo de vivacidade, numa conversa, ou num blogue, já na Literatura ou nas Artes Plásticas assemelha-se, nas mais das vezes, a um truque ligeirinho, que travestindo-se de mistério redunde em pista desviante da profundidade maior do Unívoco na intenção produtora, independentemente da liberdade interpretativa que se tome.
E na publicidade? Pareceria que o que não encerrasse sentido intangível seria mais prejudicial do que benéfico. Procurando entre anúncios a perfumes encontrei este que ostensivamente investe na ambivalência do termo francês para "defendido" e "proibido", como do prestígio que o fruto interdito encerra no hedonismo contemporâneo incapaz de se interrogar. Aquele que não vê outras duplicidades conectadas com o próprio nome da essência propagandeada: Eden é a consubstanciação terreal do Paraíso, sem a dignidade do Celeste - que encerra em si o vencimento da Culpa. E ao propor esse «paraíso possível», horrenda expressão de noticiário televisivo, indutora da desistência ou inconcreção do Mais Alto, a concepção do anúncio cai na sua própria armadilha: a de ter de recorrer a elemento etéreo para seduzir mais do que uma proximidade de corpos apenas libertos do Pecado por lhe serem anteriores. Adão e Eva não precisavam, ao princípio, de disfarçar os respectivos odores. Se tivessem sentido essa necessidade, o trabalho da Serpente teria sido muito mais facilitado e obrigaria a retórica menos grandiloquente.