domingo, 12 de agosto de 2007

A Outra

Perfil de Cleópatra em moeda DO TEMPO, para tentar responder à questão pertinentemente levantada pelo Carlos Portugal (acrescentado às 22.49H).

Imagem do Século XV, representando os suicídios de António e Cleópatra

Se a cobra que tentou Eva é a estrela maior de tais répteis, a que terá morto Cleópatra faz uma sombra condigna. Ambas serviram para matar e, curiosamente, prometendo a imortalidade, pois a áspide que terá servido para a rainha ptolomaica abreviar a existência era tida não só por insígnia da realeza, como a sua mordedura por garante da vida para além desta. O acontecimento é situado a 12 de Agosto e a romantização do réptil apertado contra o seio não mais do que uma projecção de desejos humanos no animal. Não só os entendidos dizem que a eficácia do veneno introduzido na face interna do braço seria maior, como os primeiros relatos afirmam expressamente que aí foram encontradas as marcas. Resta o problema da beleza, tão iludido pela frase de Pascal Se o nariz de C fosse mais curto a sorte do mundo teria sido diferente; ao contrário da leitura que hoje predomina, não é uma apreciação da atracção dos traços, mas um parecer técnico de Fisiognomonia, que sustentava poder a inexistência das dimensões e forma aquilina do apêndice, tal como nos é dado pelas moedas do tempo, traduzir-se numa obliteração do carácter forte e determinado de que seriam signos, mudando assim a História.
Resta o problema da beleza dela, desmentida desde logo por Plutarco. Considerando o que se diz dos homens de hoje, poder-se-ia afinal reiterar que o Poder é auxiliar de monta na busca e êxito das habilidades de leito. E que funciona para os dois géneros...
O que nos traz de novo à ilustração - na sua ingenuidade representativa, abstraindo de não terem sido simultâneos os suicídios da Egípcia e do Romano -, a duplicação do animal encarna a duplicidade presente na notícia dada antes do facto, na mira de ainda se reconverter em tentadora de Octávio, bem como o símbolo erótico que também é.
Na simplicidade se patenteia, às vezes a intuição mais sucedida.


Morte ou Glória?

Mas, Charlotte, o clássico da erudição sobre o tema é este. Tenho-o por cá, mas não consegui achá-lo, pelo que fui à net buscar a capa.

A Carga dos Burros

Estou sempre preocupado com o bem-estar da T, logo fiquei angustiadíssimo com a possibilidade de dois belos posts Dela poderem vir a ser alvo dos policiadores da correcção política.

Assim, dou em alternativa de trabalhador braçal esta marca que tanto alimenta o meu imaginário; e, desprovida de força muscular profissionalizada substituta da minha, descreve bem algumas saídas de livrarias a que mal sobrevivi. Recomendação, a propósito do postal concernido: jamais dar alguém de origem africana como carregador, sem pôr ao lado um médico ou um professor com características étnicas similares, pois o delírio interpretativo logo verá uma concepção de incapacidade para a actividade intelectual dos provenientes do Continente Negro...

Nunca, mas nunca, falar da tracção animal de veículos no mesmo plano do dos elementos mecânicos; a alternativa passável é demonstrar a confraternização entre bípedes e quadrúpedes, pelo que uma representação de Americano, dos tempos em que significava ser puxado por burro, em vez de, como hoje, arrastar os burros atrás de si, deve alinhar por este diapasão...

sábado, 11 de agosto de 2007

A Prepotência Mediática

Revolta de Tamara Gritzuk

Apesar de tudo, pensava que existisse mais contenção. Pondero seriamente não ver mais noticiários da TVI, desde que, hoje, assisti ao inqualificável, o reporter no terreno do caso Maddie, Amílcar Matos, insurgir-se contra as declarações de um elemento da Polícia Judiciária, que teria afirmado não serem suspeitos os Pais da desaparecida. O atrevimento chegou ao ponto de afirmar que não se percebe como estas declarações puderam ser feitas, porque as regras básicas de investigação criminal dizem que as pessoas mais próximas dos desaparecidos são sempre suspeitas. O Leitor está confuso? Talvez pense "De que título se poderá arrogar uma cadeia televisiva para ditar normas de investigação criminal?" Ou se terá a companhia em questão uma explicação suficientemente forte que indicie o casal inglês? Deixe-Se disso, a desrazão é mais simples e revoltante, considerando o que se procura deslindar. É que a entrevista policial foi negada à estação e dada a orgãos de comunicação social britânicos. A concorrência é guerra em que vale tudo.

A Mulher Ideal

Celebra-se hoje, graças ao talento benigno de Al Taliaferro, mais um aniversário de um Vulto amado por todos: sozinha desde há muito, dirige uma quinta com todas as dificuldades inerentes, então depois da PAC, revelando-se, literalmente, uma "mulher de armas" quando se torna necessário empunhar um velho bacamarte. Tem o sentido de Família, sendo refúgio, voz ponderada e acolhedora para todos os muitos descendentes que a procuram. Cozinha como ninguém, sendo o seu Manual o livro de culinária que mais leio. Acolhe um ganso imprestável, guloso e trapalhão, como muitos que andam por aí a grasnar, mas sem jamais lhe fazer ver isso, no que se revela muito mais caridosa do que o autor deste blogue. É, em suma, a imagem da independência feminina, digna de todo o culto, sem que por isso o réprobo, ou ela própria, se hajam tornado feministas. Conhecendo-a, ficamos cientes de que patos somos nós, que não temos alguém assim, por perto.

O itálico acima é uma paráfrase facílima de Salazar, aquando da entrada das primeiras Eleitas na Assembleia Nacional. Cito de memória: «Achou-se de grande vantagem que algumas senhoras estivessem presentes na legislatura, sem que por isso o Estado, ou elas próprias, se hajam tornado feministas». Hélas, vendo o que tive de modificar, l´État c´est moi. Fico inconsolável, não preciso de quem me insulte, basto-me amplamente...

Tamanho É Documento

Nem que seja do ideal estético de cada época e vária geografia. Vai na blogosfera um vendaval de desabafos e opiniães sobre os peitos femininos, semióticas e atracções maiores que a eles vão beber. Tudo, quanto a mim, porque ainda vivemos numa idade em que o gosto é marcado ao ritmo da América do Norte, país que encontrou a apetência estética na considerável nutrição dessa parte anatómica, ainda que siliconeanamente burladora dos que hipnotizar se deixem. Agora, a conversa não é só deles, nem de hoje. Apenas lhe assestaram lentes de aumentar, consoante o gosto respectivo. Os Franceses, que durante tanto tempo se tiveram e foram tidos como os marcadores do ritmo da elegância, para compensar momentos de cabeça perdida, ergueram em norma de dimensões mamárias a taça de Champagne que teria sido moldada a partir dos seios da Pobre Maria Antonieta. Ao que numa inspiração publicitária, a marca Bravissimo, com o nome jogando, haveria de contrapor a confecção de novos vasos para ingerir o espumante, segundo e seguindo o volume patriótico, como se dizia na gíria lisboeta de décadas passadas, de Ronni Ancona. Transformação de uma copa A/B - 200ml em D - 550ml, a qual, por não ter passado do estádio de protótipo, se assegura prometida apenas aos happy few...
Mas claro que já em tempos de gosto menos discutido, a Grécia do Séc. IV a. c., se elevavam as medidas peitorais de Afrodite aos píncaros do invejável, idealizando-as sob o arquétipo do tamanho de uma maçã. Que, nos dias que correm, quer dizer tanto como nada, ao que se tira da imagem ao lado...

Bon Voyage

À Cristina Ribeiro que vai visitar, ou, quiçá, encarnar por uns dias no palco natural esta Senhora: Lorelei.
Beijo

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Cheiro a Esturro

Apesar das prevenções em contrário de Paul Valéry, a ambiguidade continua a ser na Arte um traço prestigiante. Talvez porque a aspiração ao pouco rotineiro, entre os fruidores, conjugada com alguma insegurança crítica, predisponha a ver subtileza no que seja deficiência ou jogo fácil. É que o que dispõe bem, porque transmissivo de vivacidade, numa conversa, ou num blogue, já na Literatura ou nas Artes Plásticas assemelha-se, nas mais das vezes, a um truque ligeirinho, que travestindo-se de mistério redunde em pista desviante da profundidade maior do Unívoco na intenção produtora, independentemente da liberdade interpretativa que se tome.
E na publicidade? Pareceria que o que não encerrasse sentido intangível seria mais prejudicial do que benéfico. Procurando entre anúncios a perfumes encontrei este que ostensivamente investe na ambivalência do termo francês para "defendido" e "proibido", como do prestígio que o fruto interdito encerra no hedonismo contemporâneo incapaz de se interrogar. Aquele que não vê outras duplicidades conectadas com o próprio nome da essência propagandeada: Eden é a consubstanciação terreal do Paraíso, sem a dignidade do Celeste - que encerra em si o vencimento da Culpa. E ao propor esse «paraíso possível», horrenda expressão de noticiário televisivo, indutora da desistência ou inconcreção do Mais Alto, a concepção do anúncio cai na sua própria armadilha: a de ter de recorrer a elemento etéreo para seduzir mais do que uma proximidade de corpos apenas libertos do Pecado por lhe serem anteriores. Adão e Eva não precisavam, ao princípio, de disfarçar os respectivos odores. Se tivessem sentido essa necessidade, o trabalho da Serpente teria sido muito mais facilitado e obrigaria a retórica menos grandiloquente.

As Formas em Fuga

De Sophia de Mello Breyner Andresen

Estranha noite velada
Sem estrelas e sem lua,
Em cuja bruma recua
Fantasma de si mesma cada imagem.

Jaz em ruínas a paisagem,
A dissolução habita em cada linha,
Enorme, lenta e vaga
A noite ferozmente apaga
Tudo quanto eu era e quanto eu tinha.

E mais silenciosa do que um lago,
Sobre a agonia desse mundo vago,
A morte dança
E em seu redor tudo recua
Sem força e sem esperança.

Tudo o que era certo se dissolve,
O mar e a praia tudo se resolve
Na mesma solidão eterna e nua.

Noite de Willem de Kooning

A angústia perante a invasão da penumbra não é o sinal mais irreversível da infelicidade. Bastará compará-lo com o do alívio pensável na dissipação dos traços e ocultação dos volumes. Aquele que espera o negro manto como um libertador é muito mais digno de compaixão do que se inquieta perante a perda que ele traz: é o eterno fugitivo em face da persistência da agressão das formas, não o proprietário delas, ao menos sob forma de imagens guardadas, que ainda tem algo a perder, por isso mesmo alguma coisa a que se agarrar. É que o que encontra lenitivo e paz na emergência da escuridão está também receptivo à Dama das Mãos Brancas, a qual, no seu caso, é desejada no estado de espírito pelo qual avança, em vez de receada pela efusão que manifestasse na dança, dada como mero espectáculo sem progressão. Signo desmesurado dos pavores que impelem para o fim, em que a insatisfação de si já operou toda a sementeira que não tardará a colhê-lo, enquanto que o lamento de uma confiança abalada transmite a certeza de uma vontade de continuar. E em que já se desespera do sonho como equilíbrio, o tal que ainda poderá desempenhar o seu papel vital na existência de quem se renderá a remissões para a suspensão do processo racional enquanto descansa, por muito impressiva e (im)pressionante que seja a imersão no contexto a tal adequado.

Ordem de Aviz

O que uma Grande Bloguista não faz para criar uma atmosfera e fazer passar uma mensagem, ludibriando os interditos dos poderes constituídos! Aqui está a mensagem subliminar a descodificar por detrás do inócuo. Para quem prefira os prazeres solitários ou a interacção. Ai! Mas que digo eu?!

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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Farsália e os Farsantes

Representação do Séc. XVI de Pompeu, fugindo após o desenlace do combate.

Ignoro se Cocteau, ao dizer que acreditava na sorte por de outra forma não poder justificar os êxitos daqueles de que não gostava, tinha em mente o caso de Bruto. Mas este, na miséria de Filipos, ao eliminar-se, enfim, teria, mau perdedor como a maioria das mentes sombrias, exclamado que a Sorte vencera a virtude. Sabendo-se que estivera presente entre os vencidos de Farsália, a 9 de Agosto comemorada, a conclusão que se nos impõe é que conspirar contra o César que então lhe perdoou é que deveria ter parecido ser abusar da sorte que então tivera. Mesmo para aqueles que neguem o estatuto virtuoso à grandeza do Perdão, como todos esses derrotados da batalha que se preparavam para, vencedores, justiçar o inimigo, sem transigências. Por não ter querido confiar à Sorte o seu destino, Pompeu entregou-se ao azar egípcio do assassínato traiçoeiro, o que lhe permitiu manter uma certa aura, como o apunhalamento do que sobre ele triunfou concorreu para a sua parte dela. É que como dizia Baltasar Gracian, a sorte que muito dura torna-se suspeita. Foram essas impressões da violência que fizeram a História, por muito que os hipnotizados pela Luta de Classes tenham, aliás justamente, batido, de aí em diante, na tecla única da oposição entre o partido Aristocrático e o Popular revigorado no Cesarismo. Era isso,mas não o essencial, porque se, no espírito, estavam presentes essas heranças, nos corpos combatentes imperava uma transversalidade diluente. A verdadeira grande oposição que pelo evento conformaria mil anos de obra e domínio era confiar num modelo de homem capaz de assumir responsabilidades diversas conforme as ocasiões, ou passar a prestigiar e entregar os destinos aos veteranos de guerra, constituintes a partir deste momento, de um grupo específico da Sociedade. Foi o segundo que fez valimento, até que, paulatinamente, viu o seu papel incarnado por hordas romanizadas mas não Romanas. É porém muito duvidoso que a emergência do entendimento contrário tivesse assegurado a grandiosidade subsequente.

Até Que se Torne Verdade...

O Papagaio de Van Gogh

Salienta o Amigo Bic Laranja a banalização do termo Criador, o que me trouxe à lembrança a história do papagaio de Psaphon: este africano da Antiguidade, que era avicultor, perdão, criador de pássaros, imaginou deificar-se ensinando uma multidão de papagaios a dizer «Psaphon é um Deus». Os indígenas da floresta onde largou a passarada, de tanto ouvirem aquela gritaria, breve ampliada pela população alada residente, convenceram-se do facto e prestaram o culto que julgavam devido ao embusteiro. É o que, com as possibilidades acrescidas da técnica, se faz ainda hoje. O problema é que não há só nativos ingénuos. Nem apenas papagaios, que repetem sem acrescentar. Há quem oiça, reproduza, mas denuncie a falsidade. Como o Ilustríssimo Confrade.

Quem Tudo Quer...

A obsessão açambarcadora tem destas coisas, fosse por pressa ou por relutância em deixar definitivamente uma imagem social; com a inovação dos paracasamentos no interior de um mesmo sexo, aumenta-se as hipóteses de fraude de quem quer comer do novo sem prescindir do antigo tabuleiro. Só me admira que a este respeito ninguém aluda à sobrecarga judicial emergente, ameaça tão invocada para justificar outras alterações legais, como consumos de droga e matança de indefesos concebidos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

A Linguagem Universal

Qual pensavam que era? A Knorr, ai a malandrice!

Desmitificação do Ogre

Quem leia a notícia como cá chegou pode ficar com a ideia de que a acção de Sarkozy agrada a Le Pen por alguma sintonia de programa. Não estará ciente de que a aproximação partiu de iniciativa do novo Chefe de Estado francês, no sentido de chamar a Frente Nacional à plena participação nas instituições. Cada vez mais o activismo da Esquerda partidária tem razão de se desgostar com o eleito. O espírito gauchiste precisa do confronto para sobreviver e até para se definir. As práticas de congregação e unidade do todo social são-lhe não só estranhas, como causadoras de alergia incurável. Logo, quando figuras da sua área do espectro político concordam em colaborar, em prol de um agir sem oposição a minar em função da rotulação, há um motivo de ódio surdo. Quando, porém, é eliminada a proscrição que lhes dava primazia vocal na vanguarda da luta contra um espantalho agitado a que colavam a capa ilegítima dos fascismos, soltam urros de dor. Cada vez gosto mais de Sarkozy, no plano da política interna.

A Culpa Em Directo



Desde o início temia isto: o facto de a Miúda que se busca ser de uma nação diferente da do País em que a fatalidade ocorreu, tarde ou cedo motivaria acusações de negligência ou incompetência da imprensa mais sensacionalista do mundo, a dos tabloids que catarticamente servem para uma população vazar os piores instintos, contendo-se no resto. A reacção das nossas televisões foi também a previsível. Depois de sorver até à última gota as imagens da infelicidade de um casal atraente e de vida desafogada, voltaram-se para o extremo contrário, com insinuações persistentíssimas de haver culpas paternas escondidas na evaporação da Pequena. Uma espécie de "postura vingadora dos humilhados e ofendidos", ansiosa por mostrar que não é só nos meios pobres, pouco letrados e compatriotas, que se encontram as Leonores Ciprianos deste mundo. Mas também uma recreação com o próprio poder, o de destruir de uma penada a popularidade que o mesmo audiovisual havia laboriosamente construído. Não sei se há ou não razões para condenar os pais da Maddie. Se houvesse, tornar-se-ia mais perceptível o frenesi das diligências mediáticas, para além de resultado da dor, tentativa de afastar suspeitas. Mas, caso contrário, o que pode comparar-se ao horror acrescido de uma difamação desse teor, somando-se à aguda perda sofrida? Como não hão-de sentir-se revoltados? Não meto prego nem estopa na formulação de palpites sobre a responsabilidade dos McCann. Dum grande culpado estou certo - a imprensa e as TV´s que têm vivido de uma possível e precoce morte.

Reabilitação do Kitsch

Pavaroti conta que um seu ascendente, já não sei se o Pai ou o Avô, embora sentisse muito orgulho na carreira do rebento, tinha as próprias cordas vocais em conta inultrapassável. Tanto que diria frequentemente ao célebre Artista: Ah, Luciano, o que poderias ter feito se tivesses a minha voz! Estou na mesma, até onde Vermeer poderia ter ido, se pudesse dispor deste modelo! A obra é da Pintora do Massachusetts Carol Lew.

Tem Razão, Tem Muita Razão...

... No que diz, T. Mas ainda porfiei em ir ali buscar mais um bocadinho, para Lhe dar. E consegui evitar as dores de cabeça, sendo certo que continuo sem perceber como poderia passar pela cabeça de alguém "calcular o reumatismo", a ponto de motivar este desmentido!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A Amadora dos Fenómenos

Duas notas a posts da T: Um - mesmo em tempo algo longe já era alvo de troça e pesar a vila ex-Porcalhota: em 1961 escreveu-se um artigo numa revista cultural contra a primícia do horror que era o Gótico da Amadora, monstruosidade gerada pelo saudosismo inculto, peça de cenário que é a negação da própria arquitectura.
Dois - E, tendo em mente o que aqui descobri, mais um mobil para perceber a publicação desta imagem deliciosa. Mas, Querida Amiga, não havia um meio menos arriscado de pedir boleia?

O Lenço Encharcado

O Adeus do Cavaleiro à Sua Montada de Jack Butler Yeats

Preferi titular assim porque "o lenço que se agita", importado do Desporto, poderia dar ideia de contentamento com tal despedida. O Miguel Castelo-Branco também celebra o segundo aniversário do Combustões e anuncia o fim próximo dessa sela que é um blogue. Peço que reconsidere e que das longínquas paragens a que se destina continue a empreender os raids que nos têm maravilhado. Um cavalo, perdão, um blog, com o tempo, torna-se um amigo. E estes não devem ser abandonados, incluindo-me assim, manhosa e abusivamente, no número dos que imploram a continuidade valendo-se dessa condição. Se Esta Página não existisse, com toda a sua originalidade bem fundada e melhor defendida, há muito que teria deixado a blogosfera para sempre. Não nos despreze, parafraseie facilmente o Engenheiro Sócrates, torne com os seus posts o Mundo mais pequeno, como ele quer fazer de Portugal, mas, no caso do Miguel, sem o risco de o apequenar no sentido de amesquinhar. Grande abraço.

Fogo do Artifício

Uma intuitiva apreensão de Toygun Orbay

Miss Pearls faz dois anos. Por que gostam os homens das ostras e as Senhoras das pérolas? Porque a Parte Feminina da Humanidade tem por bem cuidar de si, a preservação do que de eterno há na elegância, enquanto que nós, pobres insatisfeitos, procuramos sempre a excitação do incerto, a de confirmar a existência ou não da Preciosidade, assim como a de consumi-La inapelavelmente. Na ostra que é a blogosfera portuguesa descobri a Pérola por excelência. Obrigado, Isabel.

As Ondas

Charlize Theron faz anos. A vestimenta com Einstein é dificilmente não-comparável a Marilyn lendo Joyce, tentativas de infirmação da imagem de loura burra, pela colagem a dois cérebros que se fornecessem como caução de os crânios das Meninas serem tão admiráveis por dentro como por fora.
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Nem se pense que a pose de leitura quase acabada difere muito da passagem de modelos com a reprodução do cientista. Este, em vida, submetera-se a testes que mediam as ondas emitidas pelo seu cérebro. Nada de espantar que se tivesse pensado que da colocação de uma cópia colada ao corpo também resutasse algum ganho. Coisa, afinal, não tão diferente do que homens de ciência fizeram aos miolos do formulador da Teoria da Relatividade, sob o pretexto de aferições, um roubo e um esquartejamento quase similares aos procedimentos da indústria de talismãs...

Avatares da Mobilidade

Muitos bons Amigos meus encontram no Verão um outro flagelo, o da proliferação do livro de bolso, que consideram atentatório da dignidade do volume. Devo dizer que, neste caso, tamanho não ser documento parece máxima de duvidosa aplicabilidade para quem, antes do mais, dirige a sua veneração para o recheio. O pior desse difundido auxiliar das férias é ser muita vez exemplo de edição pouco cuidada, quer dizer, a não seguir. Mas julgo que nem esses Bibliófilos exarcebados da minha roda íntima deixariam de se comover perante uma quinhentista edição de Petrarca, quase uma miniatura, de que Vasco Graça Moura falou certa vez, numa entrevista que me concedeu, classificando-o como um pioneiro da edições de algibeira hoje em voga e dizendo o quanto o deliciava imaginar que Camões tivesse andado pela Índia com um igual, na roupa guardado.

Claro que no Século XVI, havendo os volumes adequados, poderia era faltar a cavidade onde os colocar. Nas calças, pelo menos, tem-se o esse grande costureiro que era Miguel Ângelo como génio incomparável também por ter desenhado para a papal Guarda Suíça um modelo de calções tufados que permitisse, no futuro, guardar nos respectivos bolsos armas de fogo; mas a introdução desses receptáculos parece ter sido diferida para bastante mais tarde. O que tinha havido entre os séculos XIII e XV era a moda dos livros de cintura.
Esta engenhoca, com uma cauda que permitia prender a encadernação ao cinto e transportar o volume através de extensas caminhadas teria até o condão de assemelhar o inqualificável réprobo a este Santo Homem de Bosch. E fantasio uma nova significação alusiva para a expressão jogo de cintura, a qual passasse a designar o proveito que cada leitor retirasse do que, no momento, estivesse lendo.
Eis como me vejo irmanado aos cultores da forma, que prezam talvez excessivamente a obra escrita na vertente estrita de objecto. Com efeito, adoraria ter um destes. Mas espero bem que tal amor à antiguidade jamais venha a determinar um embaraço como o que segue representado:

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

No Abanar Está o Segredo

Noticiam-nos que se pretende um objectivo estranho, o de uniformizar os contudo importantes sistemas de refrigeração das unidades de saúde alentejanas. Não salta à vista a importância deste "fardamento nivelador", ao ponto de nos interrogarmos se o milhãozito de custo anunciado não poderia encontrar melhor destino. Cheira a obra de pavão e, examinando-lhe a bela cauda, lembra-se um estratagema refrescante que na morfologia dele terá, segundo muitos, buscado inspiração.
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Retrato de Senhora com Leque de Alexei Kharlamov

Se no Egipto e na Suméria antigos eram interditos às Damas de Qualidade, já que, como instrumentos de esforço, estava o seu porte reservado à classe escrava que melhoraria a vida das Amas, agitando-os, passou mais tarde a ser a sua principal função a indicação de estatuto, superior, mais do que qualquer utilidade prática. É tudo um produto da liderança e imitação no construcionismo dos signos sociais: quando as classes médias começaram a sacudir desesperadamente os abanos trabalhados para se promoverem, as Marcadoras da vanguarda da Moda passaram a usá-los para a comunicação secreta dos jogos amorosos. Mediante a colocação virada para cima, baixo, esquerda ou direita, cada qual com cinco variantes, obtinha-se um código correspondente a vinte letras do alfabeto. Desgraçadamente a iliteracia mascuina era grande e teve de se fazer neste campo o que noutros se usa para os analfabetos: simplificar os sinais. Assim, à passagem dos dedos pelas varetas convencionou-se atribuir o valor temos de falar. Pôr o leque na cabeça era não te esqueças de mim. Abanar-se com a mão esquerda, não estejas com essa mulher; ir à varanda, refrescando-se com o dito instrumentozinho, Espera por mim, saio já.
Importa ainda considerar que uma das mais persistentes versões da origem deste acessório o faz remontar a Kan-Sin, filha de Mandarim num baile imperial, a qual, não se conformando com o calor suportado pelas outras meninas sob as fantasias, teria retirado a máscara e, para não ser reconhecida e falada, de imediato a havia colocado à frente da cara e movido para cima e para baixo, com tanta força que obtivera o duplo ganho de se não revelar e aliviar-se da canícula.
Moral da história: para o Belo Sexo o leque é como tudo o mais, tanto serve para expressar-se como para esconder-se.

O Avesso das Férias

Férias de Verão de Dmitry Alekseev

A nossa época consagrou como um dos mais inalienáveis o direito às férias, pelo que há que equilibrar as coisas e denunciar aqui o avesso das mesmas. Não gosto delas. Quando as fazia verifiquei que, à semelhança de turistas ou outros deslocados sazonais por lazer, me comportava de forma menos compatível com a exigência própria, do que no maioritário período do ano. Tendo renunciado a retiradas estivais, não pude perdoar-lhes a maldade de arredarem as pessoas que estimo do meu convívio, durante um mês inteiro. Acresce que quando as interrogo sobre o que fizeram durante essas expedições punitivas da rotina, obtenho um rol de factos que me fazem acreditar ter sido tempo muito mal empregadinho. Mas reconheço a todos a necessidade de descansar de mim, coisa que, caso pudesse, também faria.
O que não quer dizer que tenham razão as quimeras das "férias de sonho". Estas, conforme são propagandeadas e desejadas, resumem-se ao exotismo enquadrado por um luxo de dedo. Desafortunadamente, não o que se revela no critério da escolha, sim o que se ostenta como ancoradouro do chinelo mais reduzido em que se esvai esse tempo.
Em tal contexto, lamento que os políticos, Durão Barroso ontem, Sarkozy no momento, não tenham mais contenção no desvelar dos refúgios privilegiados para onde abalam. É que as gentes gostam de pensar os que as governam em razão de papel por si passado como devotados e esforçados, não como banhistas estirados em espreguiçadeiras de locais inacessíveis para o Comum. Esse é o natural das Famílias Reais, que não têm vida privada e que estão condenadas à nascença a essa limitação, não chegando à notoriedade por escolha periódica dos súbditos. E o das estrelas de cinema, criadas para animarem os nossos momentos de ócio, não para determinarem a globalidade da vida.
No entanto, embora gostasse de ver remetidos a maior modéstia os eleitos, não creio que o ataque dos socialistas franceses ao repouso veraneante do actual Presidente colha. Se contra Balladur o discurso inventado por Chirac serviu, é porque apresentou, em golpe baixo típico, o seu dia-a-dia luxuoso e protegido como incompatível com a compreensão das dificuldades dos franceses. Por ser regra e não momento de excepção. É que este, apesar da desconfiança que gere, passa depressa, porque se inclui no ápice de fantasia que, com inúmeras variáveis, cada qual também sonha para si. Apesar de o desejo de ser outro, trinta dias por ano, encontrar contraponto no de ver o responsável público como o mesmo, sempre.

domingo, 5 de agosto de 2007

Anatomia da Ilusão

Combatendo o Nosso Engano (Ilusão) de Terry MacCallum

É por demais evidente que a consciência de um mérito que ficou por reconhecer, essa dívida persistente da esfera psíquica, pode levar o credor frustrado ao desencanto que um investimento falhado sempre acarreta. A percepção latejante de "não ter sido merecido" pela roda em que se movera é então o derradeiro meio de se ressarcir. Mas são múltiplas a fontes da fuga ao fisco da atribuição de recompensas espirituais: não somente o querer mal ao que surge como superior, presente apenas nos piores elementos da sociedade. Também, mais do que a cautela papalva em prestar tributos, de que tenho falado e muitos ingénuos continuam a ver como o melhor meio de, aparentemente, se eximirem a esse epíteto de inocência. E, na maior parte das pessoas, a esterilização da porfia em valorizar o Outro, que vive muito de crer a acção louvável deste pensada em razão de um qualquer proveito, que, obtido ou não, é resultado de jogo aparentado com o de azar. Conceito informe que terá alguma base, salvo se a determinação actuante do ser em evidência repousar numa impoluta concepção desportista de aplicação própria, da qual resultem irrelevantes - embora não indiferentes - aplausos ou apupos, colocados no seu devido canto pela tranquilidade realizada de ter feito. Solitária maneira de evitar um balanço desapiedado dos outros e apiedadíssimo de si como o que fez um Estadista a que a Pátria muito ficou a dever, nestes versos, o Conde da Ericeira:

Desalento

Vi que o favor da corte era vaidade,
Achei no amor desdéns, sustos, enganos,
Gastei no estudo a vista, o gosto e os anos,
Encontrei inconstâncias na amizade.

Astúcias me ofenderam a bondade,
Ao benefício ingratidões e danos.
Teve o valor por prémio desenganos,
O conselho queixosos da verdade.

Julgou-se a cortesia abatimento,
E chamaram lisonja ao que era agrado,
Dissipou-se no gasto o luzimento.

Cortou-me a inveja o espírito elevado,
Não sei se me ficou o entendimento
Só para conhecer-me desgraçado.


A Paga e a Praga

O Dr. Paulo Macedo retoma o paleio do aumento salarial dos políticos, coisa que me obriga a antecipar um pouco a pensada visita a momento esquecido da nossa História: aquele 8 de Agosto de 1827 em que os Ministros do Reino se dirigiram à Regente, D. Isabel Maria, solicitando que os seus ordenados fossem reduzidos de oito contos de reis por ano a quatro contos e oitocentos mil reis. Mesmo sabendo que entre os demandantes estavam alguns dos que se haveriam de locupletar aquando da venda dos bens expropriados a Clero e Miguelistas, notava-se, ao menos, o empenho em mostrar desapego, enquanto que hoje é o contrário que é enaltecido. A ideia de que aos titulares de cargos públicos conviria receber mais do que o auferido no sector privado é uma regressão ao espírito das sociedades primitivas, prolongado ainda na actualidade em conhecidas e tentaculares seitas, segundo o qual o chefe tem de ser, por isso mesmo, o mais rico. No caso dos Parlamentares, então, o despudor é total; sendo os únicos trabalhadores (vá lá, finjamos) que decidem unilateralmente os respectivos vencimentos, exigir-se-ia, se qualquer sentido de missão restasse, que nunca votassem no sentido de os melhorar. Mas, continuando assim, acabam como Midas, aqui pintado por Tournier, castigado pela ganância: o vinho que tentava ingerir, transformado em ouro, torna-se impossível de beber. Também no Portugal de hoje o reconhecimento dos Eleitores se achará transmutado nas transferências bancárias chorudas e, tarde ou cedo, deixará de correr.

sábado, 4 de agosto de 2007

O Truque da Xaropada

Incapaz de publicar uma prova de pureza comparável à que a água oferecida pela T exibia, esta aglomeração calórica recorreu às formas invejáveis da piquena com que parafraseou o nosso H2O, moldando com elas a garrafa, visando convencer ao consumo da sua versão mitigada. E (re-)vivam os Police!

O Final Suplente

A Declaração de Amor de Jean François de Troy

A reacção contra o fatalismo da escola Romântica, que só se confessava sentir bem fingindo assumir-se desditosa, fez com que toda a dificuldade a vencer nas lides do coração terminase com o nó a que se convencionou filmicamente chamar final feliz. Difundindo-se assim a excepção do fundamento matrimonial residente no Sentir exacerbado, espicaçava-se a vontade para aí direccionada com os óbices que precedesssem, pois desde sempre se soube que o acicate de uma relação ganha com as barreiras levantadas no percurso. Eliminava-se a nociva sentimentalidade da "paixão exemplar na morte terminada", salvando-se a eternidade do sentimento. Mas foi sol de pouca dura. O matrimónio não conseguiu suportar durante muito tempo o peso da nova tarefa que lhe cometiam. E, assim, desabou, como instituição, deixando na missão de única perenidade afectiva a parcela de memória que há numa desilusão. Paradoxalmente, ao desmentir a parte de felicidade que integra a expressão happy end, sublinhando o vocábulo final, em anunciado e diferido momento, reconheceu-se o quão certa estava a mais lacrimosa das correntes artísticas na detecção da infelicidade íntima. E massificou-se o conceito, antes restrito à elite.
Escreveu Carlos Drumond de Andrade

BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS IDADES

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei,brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro
flagelo da tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
p´ra te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou ser freira...
fiz tudo para impedir.
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

O Mito Na Sua Razão

Alcácer-Quibir, por Manuel de Macedo

4 de Agosto, dia da hecatombe. Muito por culpa do que nos tornámos é hoje o Sebastianismo saco para toda a pancada, a antítese mais radical do pau para toda a Lusa Obra que os seus cantores queriam. As contrafacções da História da Mentalidade ajudam a tanto, segundo a conveniência do momento. Guerrear a moirama no Norte de África não era mais do que a continuidade estratégica e doutrinária do que os Antecessores da Dinastia de Avis haviam feito. E, de resto, era o que concitava a concordância de Povo e intelectuais, irmanados na opção, um pelo sentir palpitante da necessidade de dar luta ao inimigo conhecido e os outros pela tangibilidade pensável desse teatro de guerra, numa altura em que as Descobertas eram domínio reservado da Ordem de Cristo, alfim encaixada na Coroa ponto por ponto, sem extensão ao entusiasmo coevo da Grei.
Aontecido o desastre, ergueu-se a esperança no regresso do Desejado não como mais tarde se tornou, e já o Grande Je Maintiendrai, em texto inesquecível, zurziu - a demissão patética do esforço, vivendo do sonho irrealista. Na altura, sem quadros militares, era o refúgio possível para não aceitar a derrota. E onde a minha própria família política quer ver uma manifestação da subsistência da Ideia Nacional, projectada numa grandeza sorelianamente mítica, a informar a acção futura, vejo eu apenas a fidelidade ao Senhor, que já não pouca honra seria: os povos não costumam amar os venidos, por que o fariam neste caso? Porque a construção da biografia real pós-batalha dava o Rei como penitente, coberto das culpas da Derrota, não desejando reocupar o trono por se dele crer indigno. Na atmosfera ultra-cristã daquele fim de Quinhentos a expiação pessoal em prol da felicidade do seu Povo encontrava a retribuição imediata na assimilação ao Salvador e correlata recusa da adoração dos deuses impostos de fora. Para os menos piedosos, a comoção em face do sofrimento auto-imposto e arrastado gerava o perdão. Durante dois séculos a acção própria não foi travada pela Referência sempre viva, apesar da sobrevinda impossibilidade física do Resgate do Regresso. Só ao vitimar-nos o internacionalismo centralista e ávido de comparação e seguidismo em face do Alheio é que a Referência Sebástica deixou de ser estímulo do esforço para se transformar na nostalgia lunática que artificialmente permitia abstrair da decadência que entrava pelos olhos dentro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A Esquerda (Cabis)Baixa

As Primárias levam a erros... primários: O Senador Obama, herói da facção esquerdista dos Democratas deserdada do aparelho tanto quis encostar Hillary às cordas da imitação de W., o qual, inicialmente, apoiara no Iraque, que tentou equilibrar o discurso pacifista radical a respeito, dizendo que interviria militarmente no Paquistão para caçar terroristas, com ou sem concordância do Governo daquele país. Os seus apoiantes ficaram transidos: nem Hitler, que publicou o seu programa de recuperação da Alemanha perdida "por todos os meios" pormenorizara uma violação do Direito Internacional, em campanha. Os paquistaneses já protestaram, oficialmente. A infelicidade de se chamar Obama, nome demasiado parecido com o de Bin Laden, Osama. Para se diferenciar há que recorrer às palavras que arrasam os apoiantes.

Concursos Pueris

O trabalho infantil antes de Sócrates. Dois golpes publicitários que deram brado. O segundo bem pode alegar que com ele não se faz farinha, mas deveria antes capacitar-se de que não nos come as papas na cabeça. Nada dessa problemática atingia a outra propaganda, a da Nestlé, para acrescentar ao aqui revelado. A relação do desenvolvimento duplamente acentuado do pequerrucho com o produto a vender era facilmente apreensível...

Genalogia da Póvoa

Povoa de Varzim, gravura Pedroto 1868

Já que temos Duas Ilustres Visitas Poveiras, Uma de raiz, Outra de adopção, gostava de saber se consideram essa terra tão irmanada ao meu Estoril pela celebridade da histórica posse de paredão e casino, além da condição de estância balnear apetecível, como tendo ido buscar o nome ao Cônsul romano Caio Varizimo, seu mítico edificador, ou mera corruptela de Varzinha, o que também muito boa gente defende. E, já agora, se a designação que ainda persistia ao tempo de D. Dinis, Varezim de Jusão, não tinha outro sal...
Beijinhos a Ambas

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Se Um Luizão Incomoda Muita Gente,...


...dois Luizões incomodam muito mais. Sabe-se como não sou entusiasta do que já cá havia. Espero, agora, que não se confirme o que é dito da actuação do novo reforço Benfiquista no útimo Campeonato de camadas jovens em que o Brasil não impressionou como costuma: que era o elo mais fraco da defensiva que integrava.

Da Erupção

O meu Amigo João Villalobos lançou-se num novo blogue que denominou Debaixo do Vulcão. Não caí em O considerar mero parafraseador de Lowry, já que conheço suficientemente a Figura para saber que Ele a tinha fisgada. Achei: uma tentativa de que a famosa D.J. uruguaia Tania Vulcano Lhe desse música, agora que se encontra vulnerável pela queima dessa Ibiza em que vivia. No mais não me meto, por cima ou por baixo é ao critério de cada qual.
Mas quem o pode censurar? O que corre do vulcão é Lava, o preciso nome deste modelo de bikini. Não concebo alguém que não desejasse estar dentro dele...

Sonata do Sal Em Sol Maior

A minha posição sobre a praia já a dei a saber em tempos, mas repito-o com nova ilustração e argumento - embora compreenda o prazer que nadar dá é-me estranho o de torrar na areia e considero como de segunda uma água que trai a sua função, a que obriga, de seguida, a tomar banho noutra.
.

Lendo num artigo de Lourenço Rodrigues que na Centúria de Oitocentos os chamados banhos de mar eram, na sua maioria, tomados por indicação médica, reforço as razões para, também neste campo, me abster: em matéria de remédios convém não criar habituação...

É T.

Não me refiro a Spielberg, não. Há que atentar no acento e na falta do pontinho. O anúncio é síntese do que já se podia tirar: quem lesse o comentário da T. a este post perceberia a razão de ter publicado estoutro... Está tudo ligado.

A Insaciável Procura

Agosto, tempo de sede. A física, decerto, mas, ainda mais, a devoradora da curiosidade. Releio as «Viagens de Gulliver» e não cesso de me espantar com o facto de apenas ter sobrevivido no imaginário universal, o comum aos que as leram e aos que o não fizeram, o episódio de Lilliput. Sinal, crê este psi-réprobo, de que a nossa pequenês actual procura escusas inconscientes nas ficções que considerem uma dimensão maior como forçosamente extravagante.
Muito mais pano para mangas fornece o passo de Glubbdubdrib, onde os dominadores feiticeiros da região permitem aos convidados escolher os personagens históricos falecidos e por eles serem servidos. O viajante de Swift optou, entre outros, por Alexandre O Grande, que lhe garantiu ter morrido de febre e não envenenado, Bruto e César, em excelentes relações por haver o primeiro libertado o seu apunhalado Pai Adoptivo das grilhetas do exercício do Poder, Homero e Aristóteles, absolutamente impossíveis de identificar pela multidão de comentadores seus com quem o protagonista das viagens os queria confrontar...

De repente parei de ler e dei comigo a cismar: quem escolheria da História para interrogar sobre alguma coisa? Salazar, para que aconselhasse os actuais governantes? Nem pensar, tenho sempre presente o Evangelho segundo São Mateus, no passo das "pérolas aos porcos" atiradas. Algum dos muitos vultos que se pensa terem sido vítimas do veneno? Nem por sombras, nutro dúvidas persistentíssimas inclinando-me a não admitir que a maior parte dos assassinados por esse processo se tivesse dado conta da causa do seu fim, ao contrário da confiança na ficção alexandrinamente depositada. Invocar um Santo? Nunca, precisamos de Todos Quantos haja para que rezem por nós. O Infante D. Henrique, então? Seria o cúmulo do sadismo, obrigá-Lo a ver o rumo que a Obra de Sagres tomou.
E, assim, cingia-me a:
- D. Sebastião, cuja identificação do respectivo corpo aqui se dá, pintada por Cândido Costa Lima, para que dissesse se tinha realmente ficado no Norte de África.

- António Sardinha, pois gostaria de saber se teria aderido a Salazar, ou, como julgavam os seus companheiros Integralistas e a viúva, se oporia ao Estado Novo.

- Martim de Freitas, para lhe dar um abraço.

- William Shakespeare, visando esclarecer se escreveu, de facto, o que lhe foi atribuído, ao contrário do que tanto investigador conclui, distribuindo os seus livros por Bacon, Rainha Isabel, Raleigh, Marlowe, Spenser, academias de sábios e tudo o que seja bicho careta isabelino.

Não me sinto com forças ou legitimidade para inaugurar nova corrente. Convido é os Amigos desta casa a, nas caixas de comentários ou nas suas páginas, darem conta de quem gostariam de trazer do Passado para interrogar. Agosto é o tempo ideal para o efeito.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Requiem Por Uma Geração

Hoje no poder onde está a frescura auto-proclamada da parte maioritária da geração que tinha 20 anos na década de 1960? Um pouco por toda a parte foram ultrapassados no acesso aos cordelinhos da governação por gente mais nova. Causaram muito mal, sob a capa de "época de transição", não deixando legado alternativo que se veja. Que dose de amargura lhes restará? Ou aproveitarão a ligeireza da embriaguez multifacetada que publicitaram para fugir também à insatisfação de si na recapitulação?
Jane Birkin em «Ex-Fan des Sixties»

Para Não Ser Apanhado Descalço(a)

A Bomba pode fazer o que quer. Mas a Average Girl, menos explosiva, tem de ter em conta estas variáveis...
E, Querida Miss Pearls, não era preciso chegar a tal extremo...

A Conquista a Saque

Máquina concebida por um Engenheiro (autêntico)
pisano e usada pelos Cruzados no assalto a Lisboa

O Dr. António Costa aproveitou o defeso para anunciar a contratação do Zé que promete fazer muita falta ao eleitorado sempre contestatário que o elegeu. Nada de irremediável, pois, provando ele não servir, pode-se sempre introduzir um reforço substitutivo na época especial de inscrições, no Inverno. É pena é que estas negociatas não estejam sujeitas a fiscalização de uma qualquer congénere da CMVM, ao contrário do que sucede com as transacções de certa SAD objecto de OPA...
Mais tarde ou mais cedo o novo Senhor de Lisboa terá de voltar-se para as listas independentes. As lições da História dizem-nos que D. Afonso Henriques usou uma máquina para tomar a Cidade, vencendo a altura aparentemente inexpugnável das muralhas. O Presidente da Câmara Socialista tresleu o relato do sucesso e propõe-se submeter a Capital à máquina patidária de um concorrente, depois de este tudo ter feito para lhe dificultar o feito. Qualquer negócio com outro partido terá sempre um preço político que seria impossível de existir em acordos com Carmona e Roseta, por a ausência de aparelho tornar a estes a cobrança extremamente difícil.
Lendo as condições impostas e aceites importa fazer outro paralelo: o nosso primeiro Rei deixou que os Cruzados que o ajudaram se apropriassem dos bens dos lisboetas inimigos sob condição de embarcarem e não voltarem. O novo Autarca cede às reivindicações de ajudante cujo suporte foge da Cruz, para que ele permaneça nos Passos do Município. Cada Idade tem o Conquistador que merece.

A Preciosidade Irredutível

Quando surge a notícia do lançamento da Semana Mundial da Amamentação não posso deixar de publicar uma impressionante fotografia, que vem desmentir a ideia propalada de que o cuidado com os animais é resultante de sociedades já içadas a um certo patamar de satisfação material, procurando compensar com o alívio da regulamentação e oferta de bem-estar a alguns bichos a crise de outro tipo de valores espirituais e os atentados que promove contra a indefesa sobrevivência de tantos outros seres.
É na extrema carência que se pôde encontrar este paroxismo da comunhão e do respeito, promovendo o pequeno quadrúpede de mera mascote a membro de pleno direito do grupo familiar. Lição a apreender por tanta gente que, podendo fazê-lo naturalmente, se refugia na comodidade das aleitações substitutas e da consideração de companheiros vivos como um brinquedo mais.