
Desengane-se todo aquele que acredita ser apenas o calor humano a proporcionar conforto. O
Dragónico preenche muito vantajosamente a função, ou não assentasse em labaredas. O Nosso Querido Amigo do grande e sem igual «DRAGOSCÓPIO»
presenteou-me com a aliciante grilheta de responder acerca de
livros que mudaram a minha vida, uma sã iniciativa, capaz de equilibrar a estagnação dos que não o fizeram, elencada
uns postais atrás. Não
os melhores que li, assim entendo, antes alguns que tenham revolucionado os hábitos desta fastidiosa biografia. Vou tentar dar notícia de uns quantos, não sem que estranhe a omissão da mesma pergunta, reduzida a um - convém não abusar da paciência das Pessoas Ocupadas -, dirigida ao Engenheiro Ildefonso Caguinchas. Estou mesmo a vê-lo com uma cajadada matar dois coelhos: respondendo
o «Kama-Sutra», contestaria o desafio
dos que não mudaram, porque já antes conhecia as posições todas; e
dos que mudaram, por, apontando as ilustrações a colaboradoras abertas a novas experiências, ter conseguido obter desempenhos mais competentes.
Vamos então à vida, que a morte é certa:
1-
Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas
Li-o numa versão juvenil, com oito anos, logo exigindo a integral. Não foi explicado no circunstancialismo histórico, como a «Guerra e Paz». Eis a obra que a
didáctica Materna usou para me estimular ao uso de um dicionário, o velhinho «...Prático Ilustrado» da Lello, uma enciclopédia adulta, a «Grande (...) Portuguesa e Brasileira, como, com êxito mais diferido, das obras históricas que cá por casa havia. Fiquei tão fascinado com os Amigos de D´Artagnan que daí retirei uma aposta total na Amizade e no serviço ideal do Rei. Mais, recordo ter posto toda a criançada do externato que frequentava a brincar à Corte Francesa do Séc. XVII.
2-
Assim Falava Zaratustra, de Nietszche
Acabadinho de chegar ao Liceu de S. João do Estoril, com catorze aninhos, vinha adorando-me, dado conhecer pouca gente mais. Calhou-me uma Professora de Filosofia sem habilidade de cativar, mas dotada de argúcia que detectava para onde os petizes se orientavam, ao menos a minoria que o fazia para algum lado. Falou-me do livro, dizendo que achava que coincidiria com as minhas ideias. Enlarachado por me ver reconhecidas algumas lá fui depositar um quarto da mesada na aquisição do volume. Devo-lhe muito - não o ter lido aos dezoito anos, onde a mossa seria muito maior. Julgo ter guardado dele alguma agilidade nos não-alinhamentos de que carecem muitos dos
anti-nietszchianos primários. Mas evitei cair nas literalidades limitativas que a leitura
à séria dele, na entrada na maioridade, provoca em tantos.
3-
Servidão Humana, de Somerset Maugham
Também aos catorze anos, sem saber o que fazia. A inescapabilidade à perversidade essencial, que não epidérmica como no Sadismo, do outro lado da relação condicionou muitas das primeiras aproximações à atracção e aos temores das tentativas embrionárias junto do
Belo Sexo. Estava sempre disposto a ver-me condenado a sofrer o ascendente de uma qualquer Mildred nuns beijitos batedores e anódinos. Como a Realidade se veio a revelar, nessa época, menos pesada, despachei as libertações para confirmação do final e o que correu bem para agradável desmentido do corpo do romance. Em tão infantil superficialidade estava encontrado um método!
4-
Ao Princípio Era O Verbo, de António Sardinha
Salto de dois ou três anos. Já historiei o meu encontro com ele em encarnação bloguística pretérita, chamando-lhe "a minha Estrada de Damasco". Não que até aí fosse Republicano, necessariamente. Mas não o sendo, fazia-o por vaga concordância familiar e romântica fidelidade a um Trono desocupado criminosamente. Agora evidenciava-se um universo racional que, além do mais, me vacinava contra a Democracia de que me vinham cantando virtudes inexistentes.
5-
Disparates do Mundo, de G. K. Chesterton
Dezoito anos, já na Universidade. Plena crise de Fé. Nunca tendo deixado de acreditar num Deus Criador, custava-me a entender a Divindade de Jesus. O que me chegara de Renan a fazer das suas, ampliado pela imagem de marca colada a maus Padres. Chesterton começou a inverter a noção de que a Alegria se encontrava na negação e, com a denúncia e exposição de paradoxos, mais tarde enformada pelos escritos traduzidos de C. S. Lewis, a demonstrar que a capacidade racional sem aborrecimento podia conduzir ao Catolicismo. Daí a quatro anos maturaria em pleno.
6-
A Fera Na Selva, de Henry James
17-18 anos. Revelação que anexava a timidez minha à insensibilidade do Protagonista. Partilhada com alguém que desejava, ajudou na descoberta mais sublime. Indexado a esse primeiro êxito, tenho repetido a disponibilização da obra a cada novo episódio. Não é mera fidelidade a uma
táctica ganhante, antes genuína forma de aferição da sensibiliade de Quem me desperta interesse. Não me tenho arrependido.
7-
A Canção de Amor de Alfred J. Prufrock, de T. S. Eliot
O ridículo encontrou uma sublimação: não tivera pudor em aplicar-me e ao Amor que não tive, a recapitulação do que poderia ter sido, apenas legitimada pela idade de que igualmente carecia. Mas estava desbravado o caminho da fruição e o sentido do tempo e do aproveitmento dele. Viva Eliot! As obras maiores ainda hoje me dão solidez, motivo de reflexão e prazer.
8-
A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós
Comecei a aperceber o que era a verdadeira Superioridade, inalcançável como demonstra o vício bloguista, mas sempre de reconhecer:
poder e
não se gastar nos triunfos ambicionados pelo vulgo. Ainda hoje, a todos os que increpam o
Fradiquismo, por alienar talentos do serviço à Colectividade, tenho a opor o consolo de um exemplo que infirma a inlusão nas mediocridades de adesões cúmplices sempre presentes em obras de partido ou de escola que disputem, como de batotas naqueles que querem desmedidamente o favor público.
9-
Eumeswil, de Ernst Jünger
21-22anos. A consagração da proximidade, observação e estudo, sem se deixar apanhar pela paixão dos mais inseridos pelos vários poderes. Como isolar-se sem ser associal ou apocaliptico. Seguir-se-iam milhares de páginas do Autor. Mas ainda hoje volto a estas.
10-
O Resgate, de Joseph Conrad
Era o condimento que faltava. A absoluta fidelidade aos Afectos que em nós confiam, sem escamotear a forte possibilidade de tudo poder correr mal,
apesar de nós. Mas garantindo que o importante é
fazer a nossa parte.
E com todo este paleio quase esqueci de repetir que devo a estes, os integrantes de uma condição de
primus inter pares, entre muitos outros, não a mudança da vida, mas a própria. Porquanto aos treze anos encarei, sem aguilhões especiais, mas quase esmagado pela divergência entre o que o Mundo é e deveria ser, a hipótese de voluntariamente o deixar. E disso desisti, em nome dos muitos livros que ainda tinha para ler. O que, Convosco, me vai mantendo por cá.
Não entrego o testemunho a Um, faço-o Aos que queiram nele pegar.