quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A Sorte dos Números

Foi a Treze de Setembro que os Helénicos Avós da Liberdade do Ocidente lograram vencer a ameaça Persa nessa Maratona que iniciou outra, a da Herança Histórica, indicando o caminho para as condutas hoje exigidas, mas aparentemente postas de parte. A vitória de 20.000 contra 100.000 não teria sido conseguida por um comando repartido por dez. Por isso o Nobilíssimo Aristides deu o exemplo, logo seguido pelos restantes, de renunciar ao seu, em favor de uma decisão unificada centrada em Milcíades. Depois, voltou a Atenas, onde, hostil à Democracia, foi eleito Tesoureiro, grangeando reputação de ser o único homem honesto da Polis, aquele que de nada se apropriou, nem deixou que outros o fizessem. Apesar da aceitação geral do que ditou sobre a repartição de pagamentos de uma espécie de imposto de Defesa, teve a oposição dos Democratas de Temístocles, a quem apontara os casos concretos de corrupção, durante o primeiro mandato, sendo condenado a pagar uma pena pecuniária "por exceder as suas funções". Calou-se então, foi reeleito por larguíssima margem para um segundo mandato e elogiado por todos os lados. O que o fez dizer Quando cumpri a minha missão, dando o melhor de mim, vocês multaram-me e limitaram-me o cargo. Quando nada disse sobre o roubo dos dinheiros públicos vocês chamaram-me honesto e reelegeram-me. Quero que saibam que me envergonho mais da honra que me dais hoje do que da desonra que lançásteis sobre mim no ano passado. É uma vergonha que acheis melhor agradar aos viciosos do que preservar a nossa Cidade.
Ostracizado, como não poderia deixar de ser, consta que inscreveu o seu próprio nome no ostracon de um cidadão analfabeto que não o conhecia mas queria pô-lo fora, por estar cansado de ouvir todos dá-lo como justo. Quase tudo como hoje, enfim. O quase deve-se a ainda haver então UM Homem destes.
*
Foi também a treze de Setembro que morreu Andrea Mantegna, um dos meus Pintores preferidos, de data de nascimento ignorada. Depois do que ficou dito que melhor lembrança dele do que opor o Ideal ao Real e dar Minerva (Atena) Expulsando os Vícios do Jardim das Virtudes?

Cravo e Ferradura

O Ferreiro de Robert P. Kilbert

Os mandantes de hoje, entusiastas dos cravos de Abril ora dão nestes (que o que ficou foi profusão de pregos cortantes, não flores), ora nas ferraduras. Acocorando-se perante a vontade da Diplomacia Chinesa, ao não receberem o Dalai-Lama, podem ufanar-se de grandes amizades para com a China e, assim caucionados, levar para a frente a construção do ghetto. É asneira a todos os títulos. Além meterem o rabo entre as pernocas e subalternizarem um perseguido Símbolo Genuíno da Paz, perspectiva-se a edificação de um antro da criminalidade violenta dominado por máfias vingativas, precisamente o problema que falta às lojas sínicas actuais de cada esquina, operadas por comerciantes pacatos, apesar de inundantes.
A solução era simples: estabelecer abstractos patamares de qualidade no comércio a autorizar na Baixa Lisboeta, não cuidando de que os donos sejam Asiáticos ou Esquimós. Para além de conduzir a resultados, sem contra-indicações, não daria pretexto às gritantes e gritadas ficções anti-racistas do BE.

Causa e Feito

O que está feito, está feito.
(Lady) MacBeth

O Sargentão é conhecido por jogar bem com a psicologia dos que o apoiam e rodeiam, mas não é crível que a murraça no jogador sérvio tenha sido aplicada para injectar entusiasmo nos aficionados lusos. Cá para mim, pretende é dar um motivo de justa causa para despedimento, de forma a tentar a Federação a rescindir e já não estar ao leme da Selecção na parte final da periclitante campanha qualificativa, porque um "momento de cabeça perdida" é muito menos diminuidor de currículo do que o falhanço de um favorito. Os ratos são os primeiros a abandonar o navio, não é? Como se vê, não era de Espanha que eles ameaçavam mais, ao contrário do que temeram os agricultores transmontanos...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Que Farei Com Esta Frase?

Uma das formas antigas de adivinhação, a bibliomância consiste em abrir um livro ao calhas e, pegando na primeira frase completa, tentar adequá-la a uma predição do Futuro. O Islão usa para o efeito Sagrado Alcorão, presente em tudo na vida dos crentes. Na nossa civilização foi muito utilizada para o efeito a Eneida, em tempos e lugares que achavam o manuseamento da Bíblia para conhecimento de coisas humanas uma ofensa ao Texto Sacro. Um pouco como Portugal dos últimos séculos e certas zonas da Espanha Seiscentista, em que dar o nome de Maria foi fomentado e interdito, respectivamente, ambas as atitudes concorrendo no propósito de A honrar.
Sem curiosidade exsessiva pelo que vem já confessei numa corrente a que a Marta me chamou que tenho o hábito de abrir um variável livro à sorte e de meditar sobre a primeira frase com sentido que lá encontre. Por isso achei curioso o desafio deixado pelo Nils, de abrir o livro mais próximo, na página 161, retirar a quinta frase completa, colocá-la no blogue e passar a pasta a cinco Bloguistas mais. Acrescento um incentivo: que a relacionem com esta actividade blogadora, mas isso é tempero da minha responsabilidade.
Tinha à mão, sem me levantar, uns duzentos volumes. Escolho «Ficções», de Jorge Luís Borges, em edição da Livros do Brasil, para compensar Os que esperavam ver o Autor em listagem precedente.
obtive:
A esta visita seguem-se outras.
Ora que bem! Pois venham, que As receberei o melhor que saiba e possa.
Vou escolher apenas Senhoras, porque Elas são mais confiáveis do que os Homens, neste campo.
-T, regressadinha de férias há que pô-La a trabalhar.

-JúliaML , como "multa" afectuosa por ainda não ter dito a razão que terá identificado na minha relutância em listar Borges.

-Zazie, anda a trabalhar demais, há que distraí-La, ou as gárgulas devoram-Na.

-Charlotte, para introduzir uma variante na busca arbitrária dos significados oníricos.

-Marta, por amiga vingança e curiosidade acerca de que livrito estaciona mais perto Dela.

O Que É Doce Nunca Amargou?

Que há dias para tudo é facto indesmentível. Hoje, ao abrir a TV, num daqueles programas familiares, o da manhã da TVI, fui informado de que se celebra o Dia do Pão de Ló. Muito justo, que a Idade do Desperdício que atravessamos, sobretudo no que se refira à Classe Política, só suporta a descritiva comparação de mais valer sustentar (outros) burros a pedaços da obra de pastelaria mencionada. Mas tempos houve, não demasiado recuados, em que, fazendo jus à sua significação originária, a de tela pura e rara, se usava como auxiliar de comemorações, um pouco como o Champagne da primeira globalização, ou o nosso Vinho do Porto, tradicionalmente adstrito a momentos dignos de memória. Por isso também o invoco, visando celebrar o regresso da T, enquanto não nos dá notícia das leituras estivais. Nessa onda de festejo, a travessia do Canal da Mancha por Baptista Pereira foi comemorada pelo respectivo agregado com o famoso Pão de Ló de Alfeizerão, o tal que só tinha afamados rivais no de Margaride, perseguida terra que sob a designação de Felgueiras saltou recentemente para a ribalta por piores e criminais motivos, como no de Ovar, que, entretanto, tinha de suportar a concorrência de outras obras de doçaria.
Altura que considero conveniente para convocar uma entrevista de 1949 do Mestre Confeiteiro Severino Mateus, no seu tempo tido como recordista da produção de broas, bolo de coco e... pão de ló, os quais opunha aos cremosos produtos em ascensão entre a mocidade gulosa da altura. Confessava nem sequer os provar, circunstância que confere reforço de razoabilidade a quem advoga deverem os barmen ser abstémios.
E, para cúmulo, conta o episódio de uma encomenda para repasto solene a que compareceriam ministros e outros figurões do regime implantado em 1910. Em concorrência com duas casas rivais, lembrou-se de fazer em doce o busto da República. Diz que ficou muito bem, até que, à primeira facada, veio tudo abaixo, o que durante dias foi tido como sinal de uma tentativa de restauração Monárquica coeva que, segundo ele, fez a coisa estar "por um triz".
Caso para dizer que a previsão vai com noventa e tal anos de atraso. E ainda querem que goste de açucarices?

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Cont(r)a-Corrente

Desengane-se todo aquele que acredita ser apenas o calor humano a proporcionar conforto. O Dragónico preenche muito vantajosamente a função, ou não assentasse em labaredas. O Nosso Querido Amigo do grande e sem igual «DRAGOSCÓPIO» presenteou-me com a aliciante grilheta de responder acerca de livros que mudaram a minha vida, uma sã iniciativa, capaz de equilibrar a estagnação dos que não o fizeram, elencada uns postais atrás. Não os melhores que li, assim entendo, antes alguns que tenham revolucionado os hábitos desta fastidiosa biografia. Vou tentar dar notícia de uns quantos, não sem que estranhe a omissão da mesma pergunta, reduzida a um - convém não abusar da paciência das Pessoas Ocupadas -, dirigida ao Engenheiro Ildefonso Caguinchas. Estou mesmo a vê-lo com uma cajadada matar dois coelhos: respondendo o «Kama-Sutra», contestaria o desafio dos que não mudaram, porque já antes conhecia as posições todas; e dos que mudaram, por, apontando as ilustrações a colaboradoras abertas a novas experiências, ter conseguido obter desempenhos mais competentes.
Vamos então à vida, que a morte é certa:

1- Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas
Li-o numa versão juvenil, com oito anos, logo exigindo a integral. Não foi explicado no circunstancialismo histórico, como a «Guerra e Paz». Eis a obra que a didáctica Materna usou para me estimular ao uso de um dicionário, o velhinho «...Prático Ilustrado» da Lello, uma enciclopédia adulta, a «Grande (...) Portuguesa e Brasileira, como, com êxito mais diferido, das obras históricas que cá por casa havia. Fiquei tão fascinado com os Amigos de D´Artagnan que daí retirei uma aposta total na Amizade e no serviço ideal do Rei. Mais, recordo ter posto toda a criançada do externato que frequentava a brincar à Corte Francesa do Séc. XVII.

2- Assim Falava Zaratustra, de Nietszche
Acabadinho de chegar ao Liceu de S. João do Estoril, com catorze aninhos, vinha adorando-me, dado conhecer pouca gente mais. Calhou-me uma Professora de Filosofia sem habilidade de cativar, mas dotada de argúcia que detectava para onde os petizes se orientavam, ao menos a minoria que o fazia para algum lado. Falou-me do livro, dizendo que achava que coincidiria com as minhas ideias. Enlarachado por me ver reconhecidas algumas lá fui depositar um quarto da mesada na aquisição do volume. Devo-lhe muito - não o ter lido aos dezoito anos, onde a mossa seria muito maior. Julgo ter guardado dele alguma agilidade nos não-alinhamentos de que carecem muitos dos anti-nietszchianos primários. Mas evitei cair nas literalidades limitativas que a leitura à séria dele, na entrada na maioridade, provoca em tantos.

3- Servidão Humana, de Somerset Maugham
Também aos catorze anos, sem saber o que fazia. A inescapabilidade à perversidade essencial, que não epidérmica como no Sadismo, do outro lado da relação condicionou muitas das primeiras aproximações à atracção e aos temores das tentativas embrionárias junto do Belo Sexo. Estava sempre disposto a ver-me condenado a sofrer o ascendente de uma qualquer Mildred nuns beijitos batedores e anódinos. Como a Realidade se veio a revelar, nessa época, menos pesada, despachei as libertações para confirmação do final e o que correu bem para agradável desmentido do corpo do romance. Em tão infantil superficialidade estava encontrado um método!

4- Ao Princípio Era O Verbo, de António Sardinha
Salto de dois ou três anos. Já historiei o meu encontro com ele em encarnação bloguística pretérita, chamando-lhe "a minha Estrada de Damasco". Não que até aí fosse Republicano, necessariamente. Mas não o sendo, fazia-o por vaga concordância familiar e romântica fidelidade a um Trono desocupado criminosamente. Agora evidenciava-se um universo racional que, além do mais, me vacinava contra a Democracia de que me vinham cantando virtudes inexistentes.

5- Disparates do Mundo, de G. K. Chesterton
Dezoito anos, já na Universidade. Plena crise de Fé. Nunca tendo deixado de acreditar num Deus Criador, custava-me a entender a Divindade de Jesus. O que me chegara de Renan a fazer das suas, ampliado pela imagem de marca colada a maus Padres. Chesterton começou a inverter a noção de que a Alegria se encontrava na negação e, com a denúncia e exposição de paradoxos, mais tarde enformada pelos escritos traduzidos de C. S. Lewis, a demonstrar que a capacidade racional sem aborrecimento podia conduzir ao Catolicismo. Daí a quatro anos maturaria em pleno.

6- A Fera Na Selva, de Henry James
17-18 anos. Revelação que anexava a timidez minha à insensibilidade do Protagonista. Partilhada com alguém que desejava, ajudou na descoberta mais sublime. Indexado a esse primeiro êxito, tenho repetido a disponibilização da obra a cada novo episódio. Não é mera fidelidade a uma táctica ganhante, antes genuína forma de aferição da sensibiliade de Quem me desperta interesse. Não me tenho arrependido.

7- A Canção de Amor de Alfred J. Prufrock, de T. S. Eliot
O ridículo encontrou uma sublimação: não tivera pudor em aplicar-me e ao Amor que não tive, a recapitulação do que poderia ter sido, apenas legitimada pela idade de que igualmente carecia. Mas estava desbravado o caminho da fruição e o sentido do tempo e do aproveitmento dele. Viva Eliot! As obras maiores ainda hoje me dão solidez, motivo de reflexão e prazer.

8- A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós
Comecei a aperceber o que era a verdadeira Superioridade, inalcançável como demonstra o vício bloguista, mas sempre de reconhecer: poder e não se gastar nos triunfos ambicionados pelo vulgo. Ainda hoje, a todos os que increpam o Fradiquismo, por alienar talentos do serviço à Colectividade, tenho a opor o consolo de um exemplo que infirma a inlusão nas mediocridades de adesões cúmplices sempre presentes em obras de partido ou de escola que disputem, como de batotas naqueles que querem desmedidamente o favor público.

9- Eumeswil, de Ernst Jünger
21-22anos. A consagração da proximidade, observação e estudo, sem se deixar apanhar pela paixão dos mais inseridos pelos vários poderes. Como isolar-se sem ser associal ou apocaliptico. Seguir-se-iam milhares de páginas do Autor. Mas ainda hoje volto a estas.

10- O Resgate, de Joseph Conrad
Era o condimento que faltava. A absoluta fidelidade aos Afectos que em nós confiam, sem escamotear a forte possibilidade de tudo poder correr mal, apesar de nós. Mas garantindo que o importante é fazer a nossa parte.

E com todo este paleio quase esqueci de repetir que devo a estes, os integrantes de uma condição de primus inter pares, entre muitos outros, não a mudança da vida, mas a própria. Porquanto aos treze anos encarei, sem aguilhões especiais, mas quase esmagado pela divergência entre o que o Mundo é e deveria ser, a hipótese de voluntariamente o deixar. E disso desisti, em nome dos muitos livros que ainda tinha para ler. O que, Convosco, me vai mantendo por cá.
Não entrego o testemunho a Um, faço-o Aos que queiram nele pegar.

À Data

Pensando no 11 de Setembro de 2001 de Georg Spogahn

Sou o último a engrossar as fileiras dos que, por não apreciarem a ascensão Norte-Americana, excluem a Europa da solidariedade do Ocidente. Pode a experiência histórica de domínio pelo Novo Mundo consubstanciar aspectos nossos menos bons, mas, ainda assim, são parte de nós, como que um ramo da família algo afastado, de que não se gosta muito, mas família, ainda assim. Isto mesmo perceberam os radicais islâmicos, os mesmos que nos chamam "cruzados", sonham com restaurações Maometanas do Califado de Córdoba, ou, em versões mais atentistas, com submersões demográficas da Europa, resultantes de imigração e integração de populações Muçulmanas. Estes, os inspiradores doutrinários dos terroristas, tinham pontos de contacto que poderiam fazê-los mais benignos para com os EUA: tanto a Federação Americana como o Islão provêm de concepções predestinacionistas da relação entre Homem e Deus, o que é normal em culturas que fazem da admiração da força o seu principal sentimento. Não foi, por conseguinte, pelo propalado ateísmo que Nova Iorque e Washington foram escolhidos: foi por ali residirem as forças económica e política que poderiam fazer empalidecer o reconhecimento da de Allah. Os europeus, serventuários da Casa Branca no olhar dessa gente, ficariam com tragédias menores.
Desta maneira, em mais um aniversário dos ataques de 2001, há que pôr os olhos no Passado Remoto, já que o Presente é nulo. E lembrar que depois da viragem de Charles Martel houve a Reconquista, prolongada por ofensiva contra as armas do Crescente que ameaçavam, em muitos recantos do Mundo, como os séculos de refluxo do Império Otomano, após o sucesso da defesa de Viena. E concluir que foi nesses muitos anos em que nos coube a iniciativa que os nossos territórios permaneceram seguros, salvo ocasionais raids de piratas... Mas que a Guerra deve ser feita com dignidade e que não há que impor aos inimigos vencidos a humilhação, para qualquer Homem Digno, que é a Democracia.
As Lições da História estão lá. O aproveitamento escolar dos detentores do Poder é que confirma as estatísticas portuguesas da Sociedade em geral.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Bota-Abaixo

Vem Sir Derek Jacobi juntar a sua voz a uma conglomeração de desconfiados que quer à viva força que Shakespeare não tenha escrito todas as obras que lhe são atribuídas. Presume-se que ficariam de fora as melhores, claro. A coisa está longe de ser novidade. Têm sido inúmeros os nomes a beneficiar desse pretenso testa de ferro, nem escapando Isabel I, o que criaria, a ser credível uma só dessas hipóteses, dificuldades similares. Por isso Delia Bacon, na foto, avançou a fantasia agora retomada, de uma sociedade que juntasse os melhores espíritos da época. Tão fanática se mostrou nesta pré-concebida tese, que foi pioneira no método cada vez mais actual de adaptar as provas à ideia de partida, em vez de concluir em face do que a investigação lhe trouxera. Tanto que chamava sempre ao Bardo "esse impostor do Will". Não admira que, com contenção verdadeiramente puritana, Hawthorne tivesse dito que a demanda da vida dela lhe prejudicara o juízo, uma vez que a verdade parece dá-la é como inilidível consequência de uma perda da razão.
A tal ponto que a escola que deixou pretendeu ver num dos escritos shakespeareanos a mensagem escondida eu nunca escrevi o que assinei. Este delírio motivou um casal de ex-criptógrafos de uma agência de informação norte-americana a descobrir na mesma obra um outro código que diria eu, W. Shakespeare, sou o autor de todas as minhas obras.
O argumento da origem social é nulo. Quantas obras gloriosas não são provenientes de meios modestos? Esopo e Epucuro nunca poderiam ter produzido, claro. O conhecimento da vida das elites era naturalíssimo num director teatral que era celebrado e privava com a Aristocracia. Não referir a terra natal talvez se fique a dever ao facto de Veneza, Verona, a Roma de César, a Escócia Medieval serem cenários mais apetitosos do que um honrado mas pacatíssimo vilarejo inglês...
E depois, não se diz como figuras públicas tão diferentes se teriam conseguido coordenar nessa unidade, sem qualquer falha, se não de harmomia, ao menos de confidencialidade! Ná, estamos uma vez mais é diante do despeito negador do génio de um só.

A Felicidade Introuvable

Foi num Dez de Setembro que o anarquista Lucheni matou, com um estilete durante horas imperceptível, a Imperatriz Isabel da Áustria, a Sissi das histórias românticas. Se a Anarquia infunde hoje alguma simpatia, porque contraponto estrénuo ao estado de coisas demo-burocrático que nos rege, a obsessão contra a Realeza de fins de Oitocentos não gerava senão repugnância; e partia de equívocos originados pelas ideias feitas - e das piores, como activo tentame de denegar continuidades ditosas aos inimigos identificados como desfrutando-as. O assassino diria no seu julgamento que "pensava ter morto uma das Felizes deste mundo", ao que o presidente do tribunal que o julgava respondeu ter ele liquidado uma desesperada. A vida da Falecida, assaltada pelas tragédias familiares, havia muito tinha perdido o brilho da Esperança, abafado pelo romantismo incipiente dos ímpetos que a levaram a um casamento programado para a Irmã e que não conseguiu impor vida fora no que toca ao ambiente, apesar da constância da paixão do Imperador. Plenamente empenhada na fuga ao formalismo, a sua simpatia húngara em breve resvalava para a que tomasse por objecto os dois factores que acabariam com a felicidade dos Povos do Império, as erupções nacionalistas e as liberalizantes. Falta de afeição pelo dever de ofício da Coroa, muito bem apanhada por Cocteau - que Nela se inspirou - e por Antonioni, em «L´Aigle A Deux Têtes» e no decorrente «O Mistério de Oberwald». Neste dia ligado à celebração de diários cumpre recordar como a própria se viu: Perambulo solitária sobre a Terra há tempo, alienada da vida e do prazer; não tenho e nunca tive alma que me entendesse. Vício de época e de feitio que apenas vê amor nas erupções e manifestações exclamativas, sem o identificar na constância do serviço do Outro. Sempre o individualismo a tomar o lugar que por direito é da Individualidade.

La Crème de La Crème

Tentando libertar a T dos efeitos do choque petrolífero, faço ver que "um produto qualquer" aponta para um preparado como os outros. Enquanto que "um homem qualquer", no sentido de vulgar, ameaça com condição abaixo do que todo o despenteado mental presume de si. Qual quer?

domingo, 9 de setembro de 2007

Como Um Dia de Domingo

Manhã Quente de Domingo de Arne Westerman

Em boa hora Sua Santidade veio lembrar que o descanso semanal só ganha o seu pleno sentido se dirigido a uma dádiva de si. Ao Criador, de que é o Dia, à Família cuja reunião facilita, à Paz, suspendendo o bulício embrutecedor desses dias que por serem úteis não podem aspirar a voos mais altos.
É que se a circunscrevemos à órbita egoísta das nossas satisfações puramente imediatas e animais, ainda que de animalidade social, deixamos a essa folga o mero papel de interrupção do movimento acéfalo que se arroga condição natural da nossa vida, ao ponto de a sua falta redundar ou na dolência própria de animal de engorda, ou na saudade de emoções fortes, mesmo que cortantes, tão próximas do masoquismo, o qual procura no que pode ferir a confirmação da vitalidade.
É o interlúdio fatal, desprovido da generosidade vivificante, que vejo neste poema de José Bruges

INTERVALO

Hoje, nenhum sofrimento
Nem o mais leve motivo
De qualquer contentamento.
Hoje não vivo.

É intervalo este dia,
Nem adverso nem amigo,
Em que a dor e a alegria
Não são minhas, nem comigo.

Langues, mortais frialdades
Entorpecem o meu ser.
Que sono! E que saudades
De viver...

A Metáfora Viva

A Torre de Nesle de Israël Silvestre

Lamenta o Amigo Bic Laranja não conseguir localizar com precisão a Villa Balzac em que o João da Ega de «Os Maias» habitava, na zona da Penha de França. Sempre solícito, este demoníaco intrometido que me esforço por ser aponta um caminho a desbravar: Carlos da Maia, tendo batido à porta do Amigo, não recebe resposta, apesar de ter ouvido, pouco antes, o ruído de rolhas de garrafas de Champagne a saltar, pelo que conclui que aquela morada tinha um ar suspeito de Torre de Nesle. Ora, o que eu proponho é passar à metáfora um atestado de literalidade e, do torreão que apenas a lenda consagra como local de orgias duma Rainha de França, se parta para a semelhança arquitectónica. Descubra lá, Amigo Bic, se alguma das edificações guarda parecença com este elemento da antiga muralha de Paris.
Tanto mais que a mesma imprecisão, uma metáfora do adultério, diria ser uma das noras de Filipe o Belo, a ter o costume salutar de para lá levar os amantes, após o que os lançaria ao Sena, ensacados. Em bom rigor, se alguma agiu assim, poderia desculpar-se, por os seus parceiros a terem deixado de saco cheio. Assim como o alter ego de Eça, não respondendo, estaria a recusar qualquer possibilidade de um amigo ser associado ao fastio de encher o saco...

sábado, 8 de setembro de 2007

Escola Adrago

Dragão Ensinando a Criança

Se quer ver o Génio que o presente publicita, faça a fineza de dirigir-Se aqui.

Handicap

A Quem lembra escolher o Estádio da Luz, o Ninho da Águia, para jogar contra uma Selecção Polaca cujo símbolo é essa nobre Ave? Quem manda passar quase dois terços da joga com dez, ou menos, considerando a quantidade de golos feitos que o Sr. Nuno Gomes deitou a perder? A quem lembra pedir ao Sr. António Tadeia para fazer previsões? Eu até gosto de o ouvir analisar o que se passou, salvo quando branqueia o mencionado falhanceiro. Mas se lhe pedem opinião sobre o que poderá seguir-se, é descalabro certo.
Nada de novo, os apuramentos de Scolari têm tradição de ser muito sofridos, sempre conseguidos in extremis. Bom manipulador dos entusiasmos que é, reserva os brilharetes para as fases finais.

Inquietação

O Meu Duplo? de Jos. A. Smith

Já me acontecera darem-me como parecido com outro, mas uma destas nunca me tinha sucedido. Dirigindo-me a uma Jovem Bibliotecária, por causa do meu cartão de leitor actualizado, pensando que o nome facilitasse a busca - e talvez por me repugnar ser identificado por mero número -, declinei-o.
- Eu sei - respondeu a Guardiã do Saber. - Lembro-me sempre do nome do senhor.

- (...) - tão embasbacado como sentindo lisonja, não sei se terei grunhido alguma coisa.

- É que eu também me chamo Paula

- Ah!

- E tive um professor parecidíssimo consigo...

- Que também era Paulo, imagino - adiantei para apagar a expressão apalermada e mostrar um pouquinho de sagacidade condescendente.

- Que também se chamava Paulo Porto!

Com esta é que fiquei varado. Não só a ideia de ser único ficava fortemente abalada, como me assaltaram todas as prevenções centro-europeias contra os momentos sinistros em que o nosso duplo, o doppelgänger, dá sinal de si, prenúncio de catástrofes, anúncio de tomada do nosso lugar e apagamentos semelhantes. Isto não é ficção, passou-se há um par de dias. Pela primeira vez agradeci aos Céus a parte de vigarista que há em mim, já que, para me tranquilizar, revelei-me um indivíduo pleno de recursos, ao insistir para comigo que, provavelmente, eu é que seria o "duplo do Outro" e estaria ainda para chegar o momento em que, manifestando-me, o fizesse passar por angústia paralela.
Neste contentamento de ser sombra persisto, faltando só que me leia o aludido e me desengane, recebendo esta boleia blogosférica em plena auto-estrada de mim.
Mas nas vias rápidas não se pode parar, ou pode?

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Atracções da Desagregação

Promete a Equipa do Corta-Fitas distribuída evocação das séries televisivas mais marcantes. Como tenho por indiscutível ser a melhor de sempre «Brideshead Revisited/ Reviver o Passado Em Brideshead», um dos raros casos em que o filmado é superior ao todavia excelente livro, aqui ficam umas palavras, não como substituição, mas à laia de aperitivo do que o talento de qualquer Deles nos possa trazer.
Um Jeremy Irons suficientemente novo para que os tiques parecessem contrapartida da falta de à vontade num meio diferente do seu tenta compensar a inexistência de uma família própria, reduzida a um pai (Sir John Gielgud) cheio de indiferença, demasiado ostensiva para não ser caricatural, mas sobejamente brutal para não ferir. Procura compensar(-se) através da intimidade com os elementos de uma aristocrática Casa da minoria católica inglesa, uma classe fechada sobre si por séculos de isolamento, em que, paradoxalmente, a homossexualidade era notoriamente abundante.
A proximidade com Lord Sebastian Flyte, um condiscípulo, - Anthony Andrews no papel da vida - levá-lo-á à propriedade de Brideshead. A partir daí a sua procura da felicidade, através da substituição do que lhe falta esbarrará na decadência da solidez do lar do Grande Nome. Descobrirá que lhe não pertence, quer pela vertente religiosa, mantida de pé pela mãe do amigo, quer pela união absoluta de uma atracção para além da camaradagem (Sebastian), quer pelo fracasso final da sua eventual porta de entrada nesses cumes sociais (Julia).
A chave, porém, residirá no conhecimento dos separados Marqueses de Marchmain. Ele, Olivier, divertindo-se com o facto de o jovem ter "tendência para se apaixonar pelos seus filhos" e, nessa Itália em que com outra Mulher se exilava, dando pistas da libertação que procurara fugindo daquela com quem casara. A Contraparte, Claire Bloom, na cena que encima, revelando a tragédia de uma Mulher que perde os três Homens que mais amara na vida, o Irmão mais chegado, o do amor carnal e o filho preferido, o qual por completo eclipsara a fatuidade sem magnetismo do primogénito, Bridy. A sua obsessão falhada por controlá-los tem tonalidades da tragédia shakespeareana em que os actores da geração menos nova desta série resplandeceram. E nem é essa que pode ser levada a mal pelo Narrador ou pelo público, mas sim aquele auto-controlo igualmente maníaco que transforma a Religiosidade, deformada a partir da perda da Alegria, num tirânico automatismo condicionado pela elegância.
O resto é o tom, o das perdas e memórias de período anterior a um cataclismo bélico, o do mergulho na atmosfera de desunião, essa patética fragilidade de todos os que não nos conseguimos livrar de certa superstição entranhada ao ponto de ganhar contornos de realidade: a de que o tempo das descobertas é aquele a que sempre voltamos.

Preferências Ancilares

"Frescas", no caso, não se refere à conservação do corpo, nem a disponibilidades ousadas. Simplesmente reconhece que são as únicas a quem o tempo não consome ao ponto de não poderem ficar em casa, esperando por uma referência no blogue de Quem incensa e utiliza...

Axiologia da Dissuasão

Medo de Guido Viaro
Atribui-se aos Romanos a conformação com a máxima se queres a paz, prepara a guerra. Para quem cresceu num ambiente ensombrado pela contenção de uma potência ideologicamente expansionista por um guarda chuva nuclear, uma dualidade de alternativas em que era impossível não perder, faz pena ver o Ocidente desorientado e insistente na exclusão da Rússia da participação em escudos defensivos que projecta instalar às portas dela. Não há razão para tal: nem existe já a ameaça da Revolução satelizante exportada para os quatro cantos do Mundo, nem a situação em meros termos estratégico-nacionais é preocupante, com Ucrânia, Bielorrússia & C.ª constituindo-se em almofada de segurança contra qualquer devaneio de alargamento territorial à custa da NATO.
Assim, os bombardeiros de que Putin fez recomeçar os passeios merecem alguma condescendência, porque reacção dissuasora de quem sente apertados os calos. O que é novo e triste, triste e novo, é a tónica da ameaça tirar o seu alcance maior dos custos que intercepções de rotina implicam. Em tempos idos os Citas enviaram aos Persas - que supunham preparar-se para invadi-los - uma carta "ideogramática" composta por uma ave, uma toupeira, uma rã e cinco setas. O significado seria Persas, sabeis voar como as aves, esconder-vos sob a terra como as toupeiras, saltar pelos pântanos, como as rãs? Se não, não nos façais guerra, porque as nossas setas vos arrasarão. Há um significado profundo a retirar da diferença entre ontem e hoje: a prevenção firmada na tecnologia de antanho aludia ao conhecimento dos limites humanos, a sua epígona deste segundo Milénio refere-se somente ao solitário aspecto a que a demo-tecnocracia presta atenção - as possibilidades da respectiva bolsa. Até que alguém inove e vá para a guerra a crédito.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Da Impassibilidade

Retrato de Maquiavel na maturidade, com o
trajo de corte que sempre envergava para
redigir as suas obras

A defesa mais sólida e constante de Maquiavel diz que ele não desejava, do coração, a amoralidade do Príncipe, apenas enunciava a condição do êxito dele, dentro do universo político que observava. O perigo maior, todavia, não se reclinava nesse princípio da falta deles, viria com a idade, através do esbatimento das adesões e repulsas que Bem e Mal despertam, ou devem despertar. Com efeito, o Tratadista escreveria que um homem de merecimento, que conheça o Mundo, à medida que o tempo passa, sente-se menos tocado pelo Bem e menos ferido pelo Mal que vê no mundo. É este daltonismo moral que eu recuso. Não gostaria de que, progressivamente, a evaporação das surpresas ditada pelo pessimismo quanto ao que a Espécie nos reserva viesse em redundar em indiferença sentimental.
Mas ocorre-me que a frieza marmórea é um traço dos formalistas. O reputadíssimo Maestro Von Büllow, se não envergava de forma extraordinária farpela de gala para produzir, pois era essa a habitual exigência de indumentária para um chefe de orquestra, calçava sempre negras luvas para dirigir a Marcha Fúnebre, de Beethoven. E também era homem de renúncia às reacções apaixonadas. Se faz impressão a forma como abdicou da Mulher, por reconhecer os Direitos do Génio a esse Wagner que lha surrupiou, já fica muito melhor na fotografia pelo que retorquiu aos incorrectos que vaiavam uma obra de Liszt por si conduzida: Não é costume nestes concertos assobiar. Os Senhores assobiadores tenham a bondade de retirar-se. O que insinuava não estarem os manifestantes a ensaiar um protesto, mas a tentar fazer música, irremediavelmente inepta.
Conclusão a retirar: a fleuma vai tanto melhor quanto menos substantivas forem as circunstâncias.

Felizmente Há Luar!

A Amizade encerra duas coisas: um sentimento agradável e um desejo de felicidade relativo ao seu objecto.
Dugald Stewart
Selene lançando maravilhosa luz contida e subtil sobre os afectos.
Amitia, desenho quinhentista de Lambert Lombardo

Luciano Pavarotti 1935-2007

Quando um Grande atinge o Sono Eterno permaneçam velando-O todos os que amam a Música.

(DES)CULPA!

Porém, se procurarmos com afinco um livro - não já uma leitura - que, verdadeiramente, não mudou a minha vida, temos de pôr os olhos neste, oferecido aos catorze anos por uma Colega de Liceu que acreditou ser eu capaz de escrever um. Permanece com o interior tão imaculado como então. Desiludir aqueles que em mim depositaram esperanças vem sendo, muito mais do que gostaria, uma constante biográfica minha.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O Misoneísmo Encartado

Conhecível de Samuel Bak

Melhor seria dizer Editado e Encadernado, pois pede-me Este Blogador de Excelência que indique dez livros que não mudaram a minha vida. A bem dizer a resposta, para ser honesta, teria de incidir sobre os que não li. Cada um dos que acabamos deixa sempre ficar qualquer semente que frutifica, mais que não seja uma opinião, fruto inaproveitável, é certo. Mas há um sentido útil para a lista: o de volumes nos quais tinha depositado expectativas que viriam a sair furadas, após a leitura. Assim, de repente, lá vão:

«Um Olhar Para Trás», de Lou Andreas-Salomé. Presumo que terá sido a obra que menos prazer me deu ler. Tanto que prometi nunca voltar à Autora, promessa que infringi descaradamente, pelo que a minha vida não mudou. E o pior é que os resultados foram aproximados aos da primeira vez. Há domínios em que a experiência não contribui, é o que é.

«Folhas Caídas», de Garrett. Estive quase a vetar a Poesia do concerto dos meus interesses. O advérbio constituiu-se em tábua de salvação. Aquilo é tão enjoativamente perfumado como imagino o Homem.

«Confissões» de Rousseau. Tinham-me dito que muita gente aderia emocionalmente à sinceridade do escrito. Onde se via tal suspeito eu de encenação em letra de forma, mas é indiferente para o caso. Há escritores anteriores ao meu tempo cujas ideias condeno, mas cujo estilo estimo muitíssimo - Voltaire, Diderot. Jean-Jacques deixou-me gelado e apetece dizer-lhe, quanto à produção literária, o que a cortesã lhe aconselhou, tendo-o por estudante, acerca da habilidade no leito: "Estuda a Matemática, Jacobo, estuda antes a Matemática...".

«...Werther», de Goethe. Entendamo-nos, percebe-se por que teve o livro a saída que o celebrizou. Mas, prevenido por Napoleão Bonaparte de que era um perigo para os exércitos franceses, ao levar ao suicídio tanto adolescente, senti-me completamente defraudado. Li-o pelos dezessete anos, já tinha passado, algures entre os treze e catorze, a inevitável tentação do suicídio que a maioria dos rapazes atravessa. Não me fez renovar a apetência. Tudo na mesma, como a lesma.

«Amor de Perdição». Eu gosto muito de Camilo. Mas quem inventou ser aquele o opus magnum deveria ser condenado à exposição no pelourinho enquanto lesse, repetidamente, até às cem vezes, «A Rosa do Adro». Tenho de agradecer aos programas liceais terem-me desenganado logo a seguir, com o magnífico «A Queda de Um Anjo», ou ainda hoje jazeria no desconhecimento de tanta outra obra-prima. E não me venham com o argumento de que só o entendem "aqueles que sabem amar". Ou ainda recorro ao vocabulário do Capitão Haddock.

«Fernão Capelo Gaivota» de R. Bach. O meu Amigo Alce diz muito bem que só Mulheres gostam daquela xaropada.- Felizmente não todas, longe disso. É uma das raras ocasiões em que me orgulho da minha insensibilidade.

«Porque Não Sou Cristão», de Bertrand Russell. Prezando-lhe os outros livros, que não a figura, pois não o considero um cavalheiro, por muito aristocrático berço que o tenha gerado, fiquei completamente desiludido por adiantar argumentos que, salvo uma ínfima porção impenetrável a quem não tenha conhecimentos científicos suficientes, são os que ocorrem infantilmente na idade do Armário, logo sendo, pelos espíritos não-atrofiados, alvo de ultrapassagem.

«O Triunfo dos Porcos» de Orwell. Nada contra os alertas do Autor, mas nunca dei tanta razão a Baudelaire quando fala no carácter cansativo de ter de dizer às pessoas o que todos deveriam saber. Não gosto nem um bocadinho de pessoa com sentido de humor embotadíssimo para Inglês e tão hostil ao Desporto, o que explica muita coisa.

O livro de Borges Graínha sobre as origens da Maçonaria em Portugal. Como História só pode ser ficção. E dentro desta não tem estilo que redima. Um homem capaz de sugerir que Gomes Freire era anti-napoleónico também poderia dizer que eu sou, sei cá, sportinguista. Lagarto, lagarto, lagarto!

«Guerra e Paz», de Tolstoi. A Minha Mãe deu-mo a ler aos dez anos, apesar de ser uma leitura enquadrada, explicando quem era o Kutusov, o Bonaparte, etc. & tal. Ainda hoje digiro mal Tolstoy, por causa dessa intoxicação alimentar, apesar de lhe reconhecer a grandeza. E não mudou uma palha na minha existência porque continuo a precisar de ajuda para compreender muito do que leio. Da Vossa, para começar.

Nomear outros é que não. Recuso mais correntes que aprisionem escravos das respostas. Quem se der por Chamado Que Se Haja por Escolhido.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Beef(a)eater e o Sem-Funda

Dia negro para a Tradição em Inglaterra, com dois Camerons na berra. O Leader conservador, David, porque veio uma figura importante do seu partido dizer que está a delapidar a herança Tory no que toca a impostos, Europa e Família. E a Moira, a primeira Mulher aceite entre os Beefeaters, os alabardeiros que guardam a Torre de Londres.
A primeira é uma falsa questão. O eleitorado natural que disputaria, quanto a liberalismo económico, sente-se melhor servido com os Trabalhistas da Terceira Via; e a respeito de UE pelas listas que contra ela especificamente se apresentam. E um escocês que casou aos cinquenta anos, pela primeira vez, com a Secretária, Brown, dizem as más línguas que para compor uma imagem primo-ministeriável, demonstra sempre ter a respeitabilidade familiar em melhor conta do que um jovem mimado que passou por todos os prazeres proibidos dos universitários da sua geração. Pouco importará, portanto, a alteração programática.
Já as Jóias da Coroa parece terem garantida a segurança: a neófita não será um modelo de aprumo militar na formatura, mas a expressão que arvorou fá-la assemelhar-se amplamente às gárgulas caçadas por Esta Senhora, com toda a capacidade de afastar os indesejáveis. Pelo menos.

Espécie Em Vias de Extinção

O Beijo de Picasso

Não trazem coisa de que não se desconfiasse, porém as descobertas científicas agora anunciadas sobre o beijo têm alguns efeitos (co)laterais.
Em primeiro lugar, justificam a maior saída dos filmes pornográficos entre o público masculino, pois, na melhor distinção que conheço entre erotismo e porno no Cinema, de uma escritora espanhola, nos eróticos a câmara mexe e há beijos. Nos pornográficos nem uma coisa, nem outra.
Depois, vêm mostrar que o pretenso totalitarismo macho, de beijocar para "ir ao que interessa" era mera coisa de amadores. Estaria assim como o Maoísmo chinês para o regime dos Khmers Vermelhos Cambojanos, porque as Senhoras usam esses inocentes sinais de afecto nada menos que como termómetro da relação em todos os aspectos da vida!
Finalmente, com a conversa da importância dada ao hálito, à respiração e ao alinhamento dental, cheira-me que se quer acabar de vez com o gesto intergéneros. É o que sou forçado a concluir, face à diferença abissal de cuidados e de alimentação que se constata entre ambos os sexos.
Já era! Ai tempos, ai costumes!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O Volume No Máximo


A Tebaida de Paolo Ucello
Desdramatizou o Santo Padre em boa hora a confissão de Madre Teresa em que se queixava da distância que sentia de Deus. Nem todos os crentes podem ser místicos e só perspectivas enviesadas e divisionistas pretenderão tirar ausência de Fé do que, afinal, são os solavancos mais fortemente comprovativos dela. Quem não se revoltou perante os horrores do Mundo, e teve a tentação de sentir um adormecimento divino diante da não-intervenção sobrenatural que os evitasse?
É sintoma da nossa impotência. Bento XVI terá mesmo sucumbido brevemente à forma mais rebatível dela, perante a maldade do Homem, que só a este pode ser imputada. Mais difícieis de compreender, mas de natureza similar, são as misérias sem culpas determináveis, como a que Madre Teresa toda a vida minorou. E um patamar ainda mais árduo de superar é o das causas naturais conducentes à monstruosidade, a que afinal está no espírito do observador que também sou, incapaz de convenientemente amar o que o choca. Quantas vezes não berrei já pela ausência de Socorro ou Conforto Divinos, perante deformidades com que deparei?
O facto sobejamente consabido de o Reino de Deus não ser deste Mundo é em nós inconscientemente combatido pela repercussão que a nossa acção nele virá a ter no Outro, ao ponto de crermos, em contrapartida, poder reivindicar o Milagre, se não como regra, ao menos em jeito de satisfação das excepções por nós seleccionadas...
É que não é só o vício que ensurdece. Servir o Outro, dar-se continuamente na senda do Bem, conduzirá decerto à Bem-Aventurança, mas, ruído imenso que é, poderá endurecer o ouvido para a Cristalina Voz das Alturas, ao colocar a Dor à frente da Serenidade. Contra isso se criou a tradição monacal, digna herdeira dos Anacoretas Antigos, incompreendida até por um São Francisco, que amava demasiado a Vida para prezar uma regra de isolamento.
A extinção da Revolta é o primeiro passo para sermos melhores. Mas a compaixão perante os que a sentem, sem a ela cedermos, está um degrau acima.

Olá, O Efeito Camacho

Que bom foi verificar ontem, no jogo contra o Nacional, que refrescar o onze benfiquista passou por um correcto preenchimento da Extrema-Direita, através desse Maxi Pereira que provou não ser um perna de pau, como outros que por lá passaram.

Polícias e Ladrões

A demissão de Senador dos Estados Unidos por Larry Craig, Republicano do Idaho, põe em evidência perversões que devem ser consideradas de muito maior monta que a pálida eventualidade de conduta sexual que as despoletou. Antes de mais, uma prevenção - trata-se de um político que não aprecio, por razões completamente diversas das emergentes do incidente.
O legislador foi preso por um polícia à paisana, acusado de "emitir sinais de demanda de contacto sexual" nos lavabos masculinos do Aeroporto de Mineapolis, conhecido local de contactos gay proibidos pelos regulamentos. Concordou em considerar-se culpado de comportamento incorrecto num local público, em troca de não ser acusado de irregularidades mais graves. Foi suficiente para lhe pôr termo à carreira.
A sexualidade do homem público não me interessa, o seu currículo de oposição às reivindicações de direitos da comunidade homo também não, pois aceito perfeitamente que um decisor homossexual entenda que à sua preferência não devam ser dados mais direitos. Julgo, por outro lado, que mentir quanto à respectiva orientação, o que não está absolutamente provado que tenha acontecido, pode ser relevante, mas apenas eleitoralmente, dentro do sistema norte-americano.
O que me parece de proscrever é uma prática dos agentes de autoridade daquele País: a de se disfarçarem de prostitutas, ou de jovens que se oferecem, para caçar os incautos proto-prevaricadores atraídos por esse isco. Parece-me imoral excitar apetites postos em sossego, pressionando-os com forças capazes de romper contenções frágeis. Além de, no limite, como agora se diz, parecer uma modalidade te tantalização...
O outro ponto que me revolta é a negociabilidade das acusações. Em primeiro lugar porque a estrutura que equivalha ao Ministério Público deve fazê-las a propósito de todos os comportamentos de que pense o suspeito culpado, independentemente da facilidade ou da dificuldade da prova. Depois, porque muito boa gente, e outra, menos boa, tenderá, sob a pressão das circunstâncias, a declarar-se culpado de coisas que não fez, para se livrar de piores lençóis, em que lhe dizem estar metido.
Concluindo: nem a Instituição Policial deve adoptar comportamentos indignos, para além a infiltração em organizações criminosas, nem a Justiça deve regatear.
Ah, embora não me veja a fazer brincadeiras de pé e de mão como as da imagem, nunca mais usarei WC´s de aeroportos. Prefiro fazer nas calças, saaaafa!

Da Rússia Com Humor

A Estimadíssima Miss Pearls deixou-se entusiasmar pelos adereços femininos que a pequena Olga, vencedora da MARCHA nos Mundiais de Osaka, ostentou, em plena competição. Que dizer então do comprimento dos saltos (não, não inverti a ordem das palavras) que estas compatriotas dela usaram, em CORRIDA?!
É fazer como a vencedora, treinar muito, a caminho do trabalho...

domingo, 2 de setembro de 2007

O Atavismo da Destruição

2 de Setembro é dia propício para desmascarar a sede de sangue e de cinzas em que se fundam as Democracias tendendo para Repúblicas. No de 1642 os Puritanos do mesmo parlamento que tentava, concomitantemente, extinguir poderes do seu Rei mandou fechar os teatros ingleses, a começar pelo Globe de Shakespeare, a maior glória literária nacional. A motivação era dupla - por um lado arrasar a alegria e a elevação das Artes, por outro afrontar um domínio, o cultural, protegido pela Coroa. Era o triunfo das verborreias instiladas contra tudo o que pretendesse levantar os olhos do chão, que se congratulava com o facto de em Inglaterra as Mulheres não poderem pisar o palco, mas não se contentava com tal; e que, com o infame Gossom pretendera abolir a própria poesia, ele, um protegido de Sidney, reiterando uma vez mais a omnipresença da ingratidão contra os benfeitores e pondo em xeque alguns simpatizantes da causa, Milton, por exemplo.
Mas quem atenta contra o espírito em breve exige o corpo. No Século seguinte, em França, corria 1792, tiveram lugar os tristemente célebres Massacres de Setembro, nos quais quase 1500 inocentes foram vitimados pela fúria sanguinária despoletada por Marat e pelos meios facultados por Danton, através das tenebrosas visitas domiciliárias. Era o entendimento da Liberdade e Fraternidade que considerava uma ocorrência necessária à campanha eleitoral em curso para a Convenção a resposta às exigências de morticínio em assembleia formuladas expressamente por Tallien e C.ª. Nesse evento que deu ao verbo enlargisser uma triste e nova significação, a da entrega das vítimas à populaça excitada, fica a memória da pobre Princesa de Lamballe, morta ao recusar jurar o ódio à Rainha que literalmente lhe exigiram. O seu corpo profanado e mutilado é a marca de fogo do carrasco aposta nos ombros infames da Democracia.
Estes tristes precedentes deveriam servir para afastar qualquer pessoa de Bem desta maldita invenção, hoje instituída. Será certo que, no momento, não se praticam com normalidade, tais atropelos. Mas não condenar sem esmorecimento essas origens e abdicar de demarcar-se delas define o ódio latente nos dominadores de hoje e a falta de escrúpulos que os faz gozar proventos emanados da hediondez aqui lembrada. Por isso digo uma vez mais: essa gente não é a minha.

Post Scriptum

Tendo trazido aqui tanta conversa acerca do Lido, não me perdoaria a maioria dos Leitores que não aludisse a este. Mas talvez as Leitoras preferissem assim. Não se pode agradar a Gregos e Troianos, está visto!

sábado, 1 de setembro de 2007

Setembro

Woody Allen captou bem a melancolia que emana do mês, no filme homónimo. Para mim, que ainda não empreendi os balanços íntimos a que os personagens se prestaram, há muito que essa tonalidade lhe estava adstrita: era a altura do retorno anual aos ciclos interrompidos, com os nostálgicos temores da irrepetibilidade dos momentos bons e o infantil receio da repetição dos maus.
Neste de 2007, o primeiro sem meu Pai, invade-me o desconsolo da devastação ígnea da Terra a cujo Passado real e miticamente vinculamos o melhor de nós. Além de diminuir os Vivos de hoje, ameaça mais uma profusão de indícios desses tempos gloriosos tão afastados. São apenas ruínas que desaparecem? Mas as Ruínas constituem pilares do culto e da especificidade, como resistências à erosão deles.
Somos nós que nos perdemos, pela cosumpção das referências, neste nono mês em que damos por uma outra significação de "fogo grego", depois de haver sido arma e metáfora do Espírito.

Imagens da Leitura 14

O Velho Erudito
Nem tudo são rosas, todavia, na dedicação porfiada à Leitura. Há dois vícios de sempre que, fazendo o sujeito alojar-se nela, acabam por lhe perverter as virtualidades. Trata-se da imitação, força motora de tantas deglutições de páginas, que pode incidir apenas sobre a selecção das obras a ler, ou ir até às conclusões a tirar; e da avareza, o Leitor sério que procurou satisfazer aspirações intelectuais autênticas, mas se torna tão cioso do que sorveu que o quer guardar para si, sem o pôr sobre a mesa dos contactos sociais, como tentativa de interessar, melhorar os que com ele convivem, pelo conhecimento e sensibilidade que directa ou indirectamente acrescente, bem como a si, através dos contributos que aqueles com quem contacta possam somar ao proveito que tirou. É o ciúme, esse shakespeareano monstro de olhos verdes dirigido aos livros e não suportando outras proximidades que a dual entre volume e possuidor, no sentido físico como no espiritual do termo.
Ambas as degenerescências mencionadas são macaqueações. A que cegamente decalca o comportamento, pela característica principal atribuída aos símios. A dos Tios Patinhas livrescos pela impossibilitação de usar a linguagem logicamente organizada, restringindo a parecença com os comportamentos humanos aos gestos, desprovidos de essencialidade discursiva.
*
Neste domínio, como em todos os da vida, há que seguir a velha regra legada pelos Árabes de tempos mais civilizados: O homem que não sabe que não sabe é um tolo, evita-o; o que não sabe e sabe que não sabe é um ignorante, instrui-o; o que sabe e não sabe que sabe é um adormecido, acorda-o; o que sabe e sabe que sabe é um sábio, segue-o.
Resta tentar não fazer diagnósticos errados. Sobre os outros e sobre nós.

Farejando a Pista

Mas tem alguma dúvida? A Senhora vai comprar este perfuminho. Optar por Mousse é dizer "espuma", a dos Dias, segundo Vian. Mas também quer dizer "grumete", o que em linguagem chic dará mandarete, velha predilecção da Remetente, revelada a propósito de Africanas Casas; e até paquete, que já Se confessou predisposta a admitir nas esvoaçantes jornadas que anima. Não pode rejeitar floreados destes, subsumíveis à síntese «Quando o Alvo Era Espelho».

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Imagens da Leitura 13

A Leitura de Molière de Troy

A leitura partilhada é hoje, tal como foi ontem, propiciadora de fortalecimento das relações estabelecidas entre as pessoas. No entanto, perdido o hábito de a família se reunir para ouvir um dos seus ler, passou-se ao incremento do que já existia fora dos penates tranquilos que facilitam a assimilação. Hoje, quase exclusivamente, o intercâmbio das preferências literárias é mais um ramal do processo de progressão e conhecimento nas relações amicais ou amorosas. Assim, em vez de interpretar o papel da semente lançada no solo adubado da calma instituída, passou a ser o adubo - mas não o estrume - que ajudará a tornar fecundo um solo recém-adquirido. E nesta diferença vai residindo muito do fundamento de, fora do meio profissionalmente ligado ao livro, diminuir a capacidade de aproveitamento do lido, apesar dos progressos nominais da alfabetização. A instrumentalidade na solidificação de laços entre estranhos que querem deixar de o ser, por muito desejável que se evidencie, joga de forma diversa com as disponibilidades e expectativas. O proveito virá dos entendimentos que gere nas sintonias e atracções pessoais, em vez do entendimento facilitado pela atmosfera adquirida e menos dinâmica do lar. É a diferença entre um digestivo e um tempero.

Retrato de Uma Senhora

Ou o Confessionário ilustrado...

Escrito no Vento

Claro que sim, Dona T, no Oriente homem que usasse leque estava até a ostentar sinais de categoria social. Mas fui ver o que significa na linguagem dos abanos "propor um leque". Obrigado, muito obrigado, é mais do que recíproco!

As Ilusões das Aparências

Impressionadíssimo com a abertura demonstrada pela Júlia ML às mensagens que acompanham os cosméticos, atrevo-me a redigir umas linhazitas de férias sobre o tema. Todas as comunidades do Extremo Oriente se celebrizaram pelo seu uso consagrado, mas este é um âmbito em que não divergem de outras civilizações, conforme demonstra a reprodução desta maquilhada suméria. Mais, o recurso a tais artefactos e artifícios, para agradar, era, na Antiguidade, extensivo ao género masculino, nos últimos dois séculos restringido ao after shave , pasta de dentes, sabão e fixador. Quando, nos nossos dias, se dá como "adição da personalidade" um perfume está-se a sugerir a fragrância como individualização, dentro de uma roda estrita, porque é difícil pretender que uma marca produza em exclusividade, coisa aliás contraproducente em matéria de reconhecibilidade do estatuto emergente dos odores conceituados. Mas não assim na Judeia Antiga, em que Salomão, David e os seus ministros tinham, cada qual, o seu cheiro único, pelo qual esperavam ser precedidos, notados e identificados.
Na Assíria-Babilónia-Caldeia inventou-se a máscara de beleza nocturna. As más notícas para as minhas Leitoras é que essa garantia da juventude da pele era obtida à custa de untar o rosto com gordura de cabra, durante o descanso. Não farei piadas duvidosas sobre a influência que as conotações caprinas possam ter tido nas condenações puritanas posteriores.
Os Etruscos deram especial atenção às modificações e acentuações das linhas dos olhos, que eram famosos, pela intensidade e forma, em toda a Península Itálica. E Roma viria a fazer com este ramo o que fez com as religiões: incorporar e disponibilizar ao público todas as importações dos países com que contactava.
Há a salientar uma oposição curiosa. Na Grécia Clássica ricos e pobres eram pressionados a não comparecerem nas festas em honra de Niké ou de Minerva sem que tivessem tomado um banho perfumado. Já na Inglaterra Isabelina lavar-se era gesto suspeito, dando-nos as crónicas como uma higienista a Rainha, por insistir em ter uma banhoca de quatro em quatro semanas, quer fosse necessário, quer não. Mas os perfumes desfrutavam de grande voga e um dos votos pios que a Virgem anglicanamente Coroada fez, no leito da morte, foi o de renunciar aos seus.
Nas mesmas Ilhas, aliás, em época tida por pouco constrangedora, o Parlamento votou uma lei, de 1770, que permitia anular todos os casamentos que uma Mulher tivesse conseguido com o auxílio de cremes, perfumes, saltos altos e outras artes do Demónio. Para além de ser uma universalização da liberdade de dissolver o matrimónio muito mais ampla do que o divórcio litigioso de hoje, é de notar que a condenação da publicidade enganosa se direccionava para os produtos de beleza, no seu conjunto, não já para aqueles que prometessem falsamente resultados.
Concepções da Verdade variando pelas realidades em que se quer confiar, hoje o consumismo, ontem a Pessoa, no seu todo...

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Uma Chapelada!

A Imaginosa T achou que o desguarnecido alto da minha cabeça não se encontra luzidio o bastante e, Amiga fiel que é, tentou abrilhantar-me de qualquer forma e feitio. A atitude evidenciando tanta lata só poderia responder com a oferta duma laca. Mas, sabendo-A letrada, receei este resultado...
Ná, o melhor é mesmo um chapeuzinho, sobre o que já falámos, quer sejam as próximas umas férias costeiras, como em Lendo à Beira-Mar, de Charles S. Pearce,
quer fique pelas esplanadas, como em Leitura Agradável, de Hua Chen. Há é que não ser dominado pelo vento que corre, como não cessa de sugerir a moldura deste blogue.

Filosofia À Flor da Pele

Eis um anúncio artilhado. Propagandeia uma melhora do físico, apelando à capacidade especulativa, quer dizer, ao intelecto. Desde logo quando diz ser o ideal da (e não para a) pele. Como se esta se deitasse a conceber o que melhor lhe assentaria. Depois, por jogar com a associação do ineditismo da fórmula, assegurado pelo parêntese do texto, facilmente associável nos inconscientes em que pretende agir à mocidade que encanta. Mas, para sossegar os misoneísmos que estivessem alerta, o parentesis do cartaz indica o registo, logo, a aceitação etabelecida.
Entretanto, o melhor vem do jogo entre os nomes do produtor e as atitudes filosóficas perante a vida - ao garantir que interessará aos que compreendem a "beleza" como um factor importante da razão da existência, joga em vários tabuleiros. Apela ao primado da Estética, mas não negligencia o da Ética, pelas aspas que relativizam. E, para cúmulo, insinua-se junto dos que privilegiam a procura, quer nos que rumam à busca da Felicidade pacífica, com a graça Ventura, quer dos existencialistas, que premeiam a Angústia, através do apelido Pena.
À atenção de Duas Consumidoras Potenciais, a T e a Júlia ML

Imagens da Leitura 12

Eis o exemplo em que a T pôs os olhos para as férias que se avizinham...
Uma combinação alternativa que igualmente conduz à perfeição.
E, por fim, a razão de não temer a morte: não é só enquanto há vida que há esperança. Mas não é necessário descurar a alimentação, o que poderia acelerar o estado de coisas que se vê.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Banho d´Ouro

Deu-se hoje a Águia, ao entrar na Liga Dourada. Camacho faz a diferença, por enquanto não na escolha da linha, mas por ser um treinador que infunde ânimo, não um tímido sempre a sentir o perigo do pescoço apertado, enervando os jogadores. Apenas o vi desmoralizado numa circunstância; e que só abona em seu favor - aquando do comentário à morte em campo do Jogador do Sevilha, episódio que não tem cabimento no universo do jogo.
Hoje Katsouranis foi o melhor, não só pelo golo, mas pelo que defendeu, em lugar que não é o seu. Mas gosto à brava de Cardozo - salvou uma muito difícil e ajudou a marcar outra, dando água pela barba a uma defesa inteira. Houve algum leite à mistura, mas prefiro queixar-me dele do que do azar.

Imagens da Leitura 11

Requer o ideal que fazemos do Leitor que a assimilação da obra se equilibre entre a profundidade da interacção com o texto e a manutenção da dose de independência que se traduza na manutenção do espírito crítico. A pura cedência à devoradora sede de conhecer pode congelar o crescimento espiritual que se espera como proveito a retirar de um livro; tal como a Mulher de Lot se viu transformada em estátua de sal, por não ter resistido a olhar para trás, também aquele que apenas procure saciar ligeiramente o bichinho que o vai roendo pode ver-se metamorfoseado metaforicamente numa imobilidade solidificada em materiais perecíveis.
Mas há a pecha contrária: a do que ama tanto os livros que do que segue no papel faz sair a diluição da sua personalidade, fundindo-se inteiramente com o que por outrem foi redigido. Apesar de ser perigo contraposto ao estatuto de perfeição na Leitura, não deixa de inspirar o prestígio que, romanticamente, as grandes paixões ainda despertam. Sendo que aos olhos desses bibliófilos radicais ninguém, salvo os próprios, sabe amar a Escrita.
O Bibliófilo de Ernesto Montenegro

Ó da Guarda!

O Guarda-Livros Que Sonha Durante o Dia de Norman Rockwell
"Quem não quer ser guarda-livros?", pergunta bem a T. Ninguém, ao menos pelo que os pintores viram nas duas acepções da expressão. Num exemplo, o sonho que supera o ramerrão das contas diárias; no outro, a imanência que faz deitar contas à vida e... sonhar, contornando a abstracção que o nosso preconceito daria por incompatível!
Guarda-Livros de Courtney Fischer