quinta-feira, 3 de julho de 2008

Lisboa em Camisa

Camisa de Gary Benfield
Tempos houve em que o pudor era usado como cautela contra o calote, mas a mudança hoje visivel nas mentes não permite a mesma força. Uma norma antiga do Estado Norte-Americano de Rhode Island mandava que a viúva de qualquer homem que tivesse deixado dívidas, se quisesse contrair outro matrimónio, fosse obrigada a abandonar aos credores todos os haveres, excepto a camisa. E era apenas com essa diáfana peça que se dirigia à igreja, para ser re-casada, podendo os cobradores, com ou sem fraque, se lhe vissem a conservação de algum outro bem, mesmo que um gancho de cabelo, despi-la em público.
Claro que as antinomias do Puritanismo, querendo servir a dois senhores, os negócios e a ocultação dos apelos eróticos, não funcionariam, hoje por hoje, em que a assunção das fantasias é quase tão bem vista como o endividamento impagável, pelo que o despe & siga! poderia arvorar-se em rotineiro cenário.
Simplesmente, em matéria de contas públicas, vê-se quão premonitório foi o título de Gervásio Lobato, lido à luz da simpática tradição yank...

6 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

Quem ouviu o Primeiro Ministro falar ontem, sabe que pudor é uma coisa que, tanto ele como a"entourage", desconhece ;a estes, próximos que lhe são na falta dele,"despir" o que já está nu...
Beijo

Once disse...

Nos tempos que correm Amigo Paulo, o que eu acho é que há muito que as vestes são as da fábula do Rei .. convencido que ía vestido.

ana v. disse...

Lisboa em camisa, de facto. Ou mesmo sem ela... sempre acutilante, Paulo!

A verdade é que a nossa bela e pobre viúva endividada foi ainda mais longe na tradição yank e celebra agora casamentos no Maxime, onde a farpela será com certeza ainda mais exígua!
Beijinho

O Réprobo disse...

Isso, Querida Cristina:
esfolar os que são governados mas não os que estão governados!
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Once,
nas crónicas francesas antigas "levar Fulana em camisa" era eufenismo de fazê-la atravessar a via pública nua. Tudo se liga!
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Ana:
essa norma de Direito Civil da Nova Inglaterra foi contornada por um poderoso local, que, desejando desposar uma Senhora em tão desvalido estado, sem que ela fosse obrigada à contemplação por todos em trajos menores, lhe enviou um equipamento completo para a cerimónia nupcial, fazendo proclamar que eram objectos facultados a título de empréstimo e não doados. Assim se evitou a aplicação da previsão legal. Será que o Dr. Costa se inspirou no facto para tanto insistir na magnitude do empréstimo?

Quanto ao estabelecimento de comércio tradicional que refere, ainda haverá ingénuos que acreditem que os clientes não podem tocar nas artistas?
Beijinho