terça-feira, 1 de julho de 2008

Sobre a Cinza do Tédio

Tédio por Dave (David Lawrence)Talvez por uma interiorização espúria de que tomar posições é mais glorioso destino do que nantê-las, cada homem chega a um ponto em que, saturado do que tem, o vê como infelicidade contraposta à ditosa atracção de uma qualquer nuance. É o enjoo a que só os marinheiros são poupados, no mar, porque aptos a ver na imensidão aos outros sempre igual as particularidades de cada circunstância renovadora do elemento a que se uniram.
É da incapacidade dos restantes que nasce o desejo de oposições à sua habitualidade, indução possível de rupturas e abismos, como do simples turismo de descanso, nuns casos, de conhecimento noutros. Sabendo-se feito de acordo com a Figura Divina esquece a cláusula de alteração de circunstâncias que, pelo pormenor da Queda, o Criador pode invocar. E, quanto ao Demónio, estamos com Dostoievski, se foi o Homem a criá-lo, fê-lo à sua imagem e semelhança. Não admira portanto que Neles projecte as suas frustrações, para nobilitar a incapacidade de satisfação que o aflige.
De Cruz e Sousa

SPLEEN DE DEUSES

Oh! Dá-me o teu sinistro Inferno
dos desesperos tétricos, violentos,
onde rugem e bramem como os ventos
anátemas da dor, no fogo eterno...

Dá-me o teu fascinante, o teu falerno
dos falernos das lágrimas sangrentos
vinhos profundos, venenosos, lentos
matando o gozo nesse horror do Averno.

Assim o Deus dos Páramos clamava
ao Demónio soturno, e o rebelado,
Capricórneo Satã, ao Deus bradava:

Se és Deus e já de mim tens triunfado,
para levar o Mal do Inferno e a bava
dá-me o tédio senil do céu fechado...

2 comentários:

Rudolfo Moreira disse...

Os entes eternos não têm naturalmente uma paciência infinita?

O Réprobo disse...

Assim Os concebo, Caro Rudolfo, ou decerto não quereriam os homens para companhia eterna, na Salvação, ou na Perdição. E jamais (sem Linos) Se cansam!
Abraço