quinta-feira, 19 de julho de 2007

A Aura da Incerteza

O Absinto de Degas

Tendo passado toda a vida a diminuir o papel da Natureza na Arte, Degas, cujo aniversário ocorreria hoje, contrapunha-lhe o artifício do Pintor como prioridade que excluiria o estudo da Natureza do papel primordial. Determinou que uma pintura exige um certo mistério, um tanto de vago, de fantasia. É neste contexto que interpreto a conhecida renúncia, pouco depois de passada a trintena de anos, em pintar auto-retratos, por já não conseguir extrair da própria figura e expressão o que quer que fosse de intrigante. Assim se compreenderia que tivesse voltado a retratar-se na velhice, facto pouco lembrado pelos que gostam de fazer divagações e divulgações, quer dizer, teses e notícias do passo anteriormente referido, por de novo lhe surgir uma quota de desconhecido a desbravar(-se). A contínua rivalidade que latentemente opunha, pelo que concebia, à Criação Originária explicaria também o porquê de, ao contrário dos outros Impressionistas, não diluir excessivamente os contornos na luz, pois a nitidez da forma é específica prerrogativa de quem faz, enquanto que o esbatimento cromático é confissão do que assume ver. Da mesma forma, a construção de corpos femininos pouco canónicos, não deverá ser levada à conta da misoginia que a biografia solitáriaa do Artista insinuaria, mas sim da concorrência geradora mencionada. A sua arrogante justificação do celibato, não querer acordar ouvindo a mulher dizer-lhe que pintara uma coisa linda, é tentativa de libertar a sua específica Estética da rotina que remetesse para o padrão alheio.
E assim, neste quadro. A tristeza da figura justifica-se pela hesitação em sorver e enfraquecer defesas que lhe provoquem cedência não desejada, ou abdicar de ingerir o líquido e não conseguir esquecer as agruras de que se desejaria evadir? A companhia do lado permite os dois caminhos, embora, da minha parte, arrume a questão com o sabor da beberragem...

2 comentários:

Terpsichore E. M. disse...

A tristeza... pois, assim nos refugiamos, na arte, da cegueira à direita e da cegueira à esquerda...A vidência, que habita no tal Graal, e que não tem lugar neste mundo de desgraçados perdidos...incomoda, como luz...

O Réprobo disse...

A Arte, ó Deusa, ainda é escapismo etéreo. Os copos são forma de alívio mais chã. Mas a relutância em mergulhar neles pode excitar a curiosidade pelo humano, que um naco de tristeza refreante revela em quem não o deixava antever.
O segredo estará em reciclarmos o nosso incómodo?
Beijo