quarta-feira, 25 de julho de 2007

Matar o Pai?

25 de Julho. Dia de D. Afonso Henriques, pelo menos pela data atribuída à Batalha de Ourique, a partir da qual se intitulou Rei. Pouco importa que coincida ou não com a do aniversário, porque num Fundador o marco da soberania de um País é a data do seu renascimento, simbólica de um novo Chefe, como arauto dos que comanda. O próprio sucesso militar é exemplar e exemplificativo da distância entre o Homem de Acção de ontem e os esmiuçadores paralisantes de hoje. Aceite o combate a contragosto, tudo se fez para o diminuir. Os Adversários que nem seriam da condição nem do número da Lenda, as controvérsias sobre o lugar da luta para despromover uma concretização para onde virar os olhos a uma escaramuça como outras de série, a recusa do Milagre porque a História não o comporta, mesmo que tenha existido. O cúmulo é ver um Historiador reputado tentando diminuir o Vulto que nos gerou, nacionalmente, sublinhando a pequenez das forças. Não contesto que fossem pequenas, tiro é disso uma admiração maior por ver vencidas dificuldades assim acrescidas, em vez de concluir como parece querer o especialista, por menor dignidade do Biografado.
A pequenez seria tão insignificante, ao ponto de ter canalizado para a auxiliar um dos três ramos da Cruzada da pregação de São Bernardo, como parte da Cristandade Peninsular que detinha a iniciativa do ataque à moirama, enquanto os Nossos Outros Irmãos de Fé eram contidos pelo poderio Almóada?
À Carga, por San Tiago! Livrai-nos da confiança cega nos historiógrafos ideologizados, que com os Mouros pôde bem o Conquistador. Não será por essa nova via que algum Português se libertará. Foi-o pela outra, a de 1139.

8 comentários:

marta disse...

Querido Paulo


Sem querer estar a pô-Lo em causa, penso que esta notícia está retirado do contexto.

O Absorto, tem vindo a editar várias passagens da História de Matoso sobre D. Afonso Henriques e não fiquei nada com a impressão que ele não dignifique o nosso Primeiro Rei.


Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Marta,
falo deste passo específico, de desvalorização da dimensão do mérito militar. Não estendo ao Resto da acção do Conquistador.
Beijinho

cristina ribeiro disse...

Quando comecei a ler este texto,e vi a alusão à data,quis logo acrescentar-e é dia de Santiago(que festejamos aqui na aldeia);mas,depois,vi, de relance,a menção a este Santo,e pensei:pronto,o Paulo já o disse...
Beijo

O Réprobo disse...

Foi propositado, foi. Mas a Cristina disse melhor. Beijo

Bic Laranja disse...

A escolha dos excertos enferma de vícios do jornalismo corrente que faz sobressair o que é menor e excêntrico para dar impressão de inaudita novidade. Não há nada de bombástico na pequenez daqueles exércitos considerando o ermo que era todo o Ocidente da Espanha (entenda-se Hispânia, que falar do Reino de Espanha no séc. xii é anacrónico). Incluída a Galiza, imaginar nesta faixa ocidental meio milhão de habitantes naquela época é talvez pecar por excesso. As cidades tinham poucos vizinhos e não seriam necessários grandes hordas de guerreiros para a sua conquista; Lisboa e Badajoz seriam excepção, daí a especial dificuldade de sua conquista. Mas D. Afonso Henriques foi forte e exerceu autoridade real no seu reino; chamar-lhe caudilho é deselegante, embora em menor medida se adeque. Conquistador foi o cognome que a História deixou e considerando a sua política pergunto: não foi uma estratégia consciente acantonar os fidalgos nortenhos no Entre-Douro-e-Minho e na Galiza não repartindo o poder com eles no sul, especialamente se havia bandos de salteadores hábeis no fossado (a guerra eram essas correrias) e mais fáceis de fazer vassalos com menos risco para o poder real? Não tinha ele plena consciência do seu estatuto ao intitular-se 'Rex Portucalensis'? E se surge com menor pompa real não foi por ser um rei medieval, guerreiro? E aqui seria anacrónico pretender-lhe os modos de D. João V como se dá a entender com o 'anedótico'. Face a isto, 'caudilho', além de feio fica curto.

Não li (ainda) este livro do prof. Mattoso, mas do que lhe conheço é profundo sábio da nossa Idade Média, muito embora de escrita densa, mais própria para académicos. Custa-me aqui vê-lo ceder aos tiques do jornalismo, trocar as categorias medievais por lugares-comuns menos próprios da Idade Média como 'Chefe de Estado', ou trocar Leão por Castela no séc. xii. Mas insisto: a moda hoje são estes rebaptismos da História por pretensão fracturante (dizer-se heterodoxia é já impensável). E por fim, dizer Rei Conquistador como é da tradição também deve ser custoso. Mas não me espanta se me lembrar da heterogeneidade da História de Portugal que dirigiu (ai o vol. IV!...) Enfim!...

O Réprobo disse...

Meu Caro Bic Laranja,
magistral lição que o Meu Amigo nos dá. Devo esclarecer que não quero atacar Mattoso, por quem tenho respeito como estudioso da estrutura social e dos aspectos culturais dos alvores da Nacionalidade. Mas queria deixar claro que esta contestação à naturalidade bélica de uma instituição nacional começa a revestir-se dos tiques de uma obrigatoriedade PC que exige demarcação. Quanto a mim, tem duas fontes - a reacção contra o reducionismo à História-Batalha, que, nalguns inconscientes, leva à negação da importância dos confrontos militares. E um pacifismo educacional bem-intencionado mas algo "planta de estufa", à Alçada Baptista, o qual visa eliminar tanto quanto possível os motivos guerreiros da da exemplaridade pública, seja em hinos ou em vulgarizações historiográficas.
Abraço

Anónimo disse...

`Por menos na Arabia se amputam membros

Um gatuno da historia merecia algo semelhante amputar-lhe a lingua e os braços :)

O Réprobo disse...

Safa, Caro Anónimo, isso é que é fulgor no desacordo com o Historiador!
Não mos ampute a mim, ou ver-me-ei impedido de abraçá-lo.