terça-feira, 17 de julho de 2007

Na Bagagem da Essência

Montlosier visto por Daumier

Há doutrinadores monárquicos de envergadura a que eu seja hostil? Há. Montlosier é um deles. A bem dizer, nem o considero Monárquico, apesar das difíceis e múltiplas tomadas de posição em contrário; mas sim ferozmente aristocratizante, com o Rei a reboque. O que De Maistre e todos os mais viram, que a Democracia só é desejável em Inglaterra, País inimitável, este ignorou. Queria importá-la para França, com uma Coroa a caucionar a destruição da Igreja como apoio e Guia da unidade espiritual do Povo e a mitificação da classe regente como racialmente mais apurada, sem sequer a desculpa reactiva de Gobineau. Deixou uma divisa que passaria por estimável, para o que não a pensasse duas vezes: Quem põe o Espírito à frente do bom senso põe o supérfluo à frente do essencial. Há que contrapor Wilde: Nada há de mais essencial do que o supérfluo. Porque essencial é o que nos define, mas, igualmente, o que nos faz participar de categoria maior. E a orgulhosa atomização perseguida pelo teórico em desapreço é o contrário disso mesmo.

10 comentários:

JSM disse...

Caro Paulo Cunha Porto
Vim ler o postal que não posso comentar com à vontade porque não conheço nem o homem nem a obra. Mas confio na sua sabedoria e finura e se bem entendi tocou num ponto essencial e que não raras vezes serve de arma de ataque contra a Igreja Católica por causa da Instituição Real e contra a Instituição Real por causa da Igreja Católica! Mas quase sempre contra ambas. Os jacobinos jogam aí as suas cartadas mais fortes quando falam em 'religião de estado' num estado maioritáriamente católico. Mas não o fazem em relação a Inglaterra onde o Rei é o Chefe da Igreja! Mentem de propósito. Sabem perfeitamente que a hierarquia depende do Vaticano e que não eram os reis portugueses que designavam os Papas. Mas uma mentira muitas vezes repetida...
Um abraço.

Cristina Ribeiro disse...

Pergunto-me se a especificidade do sistema inglês(tradicionalmente,se bem que se ouvem ecos de que"a tradição já não é o que era")não advirá em grande parte do facto de terem à cabeça uma cabeça coroada,mesmo Constitucional;claro que isso não explica tudo,pois não me estou a esquecer do nosso "Rotativismo".

(Mas estou como o Paulo,mesmo apreciando a Inglaterra,e gostando de lá ir,não estou a ver-me aguentar mais do que quinze dias longe da "terrinha"...)

O Réprobo disse...

Sendo, Caríssimo JSM, que o anti-clericalismo deste homem público ia para além da hostilidade aos desvios`ao galicanismo estabelecido.
Abraço

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
claro que quando a Inglaterra voltasse a ter uma República passaria a ser outra cosa qualquer, como já foi, com Ceomwell. O pensamento que aqui abordei estava muito enfeudado à importação do sistema britânico, pela parte que conservava de poder das classes tradicionalmente dominantes, em vez de, como na tradição lusa e... francesa de antes do Absolutismo, defender um Poder Real em íntima conjunção com o Povo, superador dos atritos entre as classes pela repressão de abusos e com a instituição da Nobreza como corpo e missão.
Beijo

Terpsichore E. M. disse...

A última parte do comentário da Cristina, faz-me acrescentar ''o quanto custa o exílio forçado''...
:)
... e pensei recentemente que poderia acabá-lo, mas helás!, ...tenho que ter mais paciência...
Sabendo que não foi isso o que a Cristina disse - hoje em dia, em que se espalha a ilusão de que tudo o que cada um tem ou faz é sua livre escolha, estar-se involutariamente exilado pode aparentar erradamente menor amor à Pátria...
:)

cristina ribeiro disse...

Cara Terpsichore vivo numa zona em que,dia a dia, aumenta a consciência de que a livre escolha está muito condicionada.O fenómeno da emigração,em busca de uma vida melhor,voltou em força.Não tenho,pois,essa ilusão.

O Réprobo disse...

Não quero pensar isso, Oh Musa! sem a consagração cultural, pense nos nossos Emigrantes, sempre roídos de saudades da terrinha, apesar dos mundos e, sobretudo, dos fundos que contam dos e nos países de acolhimento.
Sério, sério, o português é capaz de ser o que mais sofre com a distância pátria depois do Russo, o qual, longe dela, muita vez definha e morre.
Beijinho

O Réprobo disse...

Ah sim, Cristina? No Minho também? Tinha ouvido uns zunzuns sobre o que resta da Beira, mas pensava que o vitalismo de Braga continuasse a manter na Província a População dessas belas terras.
Beijo

Cristina Ribeiro disse...

É uma sangria,Caro Paulo!
E concordo que o português convive mesmo muito mal com esse exílio forçado.A saudade está-nos no sangue.
Beijo

O Réprobo disse...

Vem a calhar, o tema do postal que acabo de colocar versa-a.
Beijo