quarta-feira, 18 de julho de 2007

O Fado? Um Fado!

Passeio pela Feira do Livro de Cascais, pequenina mas merecedora. Enchi o saco, de maneira diversa da que costumo fazer aos Leitores, Sobre outras aquisições falarei mais tarde. Gostaria no entanto de referir o achado desta obra, que havia muito procurava, e descobri, autografada e tudo. Há em especial um capítulo de que não resisto a dar um cheirinho: é aquele em que o Autor não reconhece qualquer unidade espirtual nos Portugueses. Reza assim: Pensamento ou divisa, ideia comum ou sentimento abrangente, culto por um principio ou devoção por uma sintese, luzeiro que, com a mesma intensidade faça deslumbrar os milhões de almas que perfazem o rincão gentil que é Portugal, debalde o heis prescrutado.
O espirito cristão?
A saudade?
A aventura maritima?
O odio á Hespanha?
O culto de Camões?
Não vejo, não vejo com franquesa...
E analisando a hipótese do Fado, dando-lhe a qualidade de elemento em que se matamorfoseariam a Gesta e o cantar marítimos, o qual poderia sê-lo, se não redundasse em ferrente do declínio e do imobilismo. Conclui chamando-lhe uma modalidade flagrantíssima da ironia dolorida que morde atroz esta quadra já longa de defecção cívica(...)
Ora bem, eu creio haver uma unidade mental portuguesa. A Epopeia e o Fado são verso e reverso dela e ironia não há onde não exista facto que desminta o proferido. A crença omnipresente no Destino é o que é comum aos Portugueses do Passado e aos do Presente. Mas enquanto os Antigos o entendiam como Missão, os coevos vêem-no nas categorias sequenciais inelutáveis mas paralisantes de Progresso e Decadência. Sendo que as variações dominantes tendem a vislumbrar o quinhão possível da primeira na cópia dos outros e a segunda circunscrita a condenação à Indignidade dos Herdeiros que hoje deveríamos ser. É nesse consenso que estagnamos, com poucos querendo reagir sabendo como. E esgotando-nos na admiração inepta dos Maiores, ignorando que a maneira ideal de Os honrarmos seria canalizarmos o sentiento de referência para acção que conservasse. Porque da Nação se poderia dizer o que alguém disse da Nobreza: recebe-se e transmite-se, se não aumentada, ao menos não diminuída.

6 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

"...creio haver uma unidade mental portuguesa".Também eu acredito que ela exista,ainda que,demasiadas vezes,se não valorize,até ao limite de ser espezinhada,e não acarinhada,como lhe é devido.
Beijo

O Réprobo disse...

Esse menosprezo, Querida Cristina, faz parte, inclusivé, do que refiro - o diagnóstico automático de incapacidade aos conteporâneos.
Beijo

Terpsichore E. M. disse...

''Solzinho de Deus, esta expressão contém toda a alma do nosso povo'' - qualquer coisa assim escreveu Pessoa.
É, o tal coração...que ainda pulsa...que revivificará... quando deixarmos esse tal menosprezo,

''o diagnóstico automático de incapacidade aos conteporâneos''

Eis o cerne da questão. Eis o problema português.

Terpsichore E. M. disse...

Caro Paulo, e outros amigos com santa paciência:
Falando de grandes incapacidades, mas desta vez das minhas...lá no meu purgatório, quando encontrarem um quarto fechado à chave, o ''abre-te sésamo'' é ''Apeiron'',
Vou ver se consigo lá falar de algumas coisas de foro inteiramente pessoal.
Um pouco a propósito de (''quase entrevistas''), querer saber o que estudou... desabafos da minha parte que talvez ajudem a um rumo...enfim, se não melhor, pelo menos, mais em contacto com o meu País...e concerteza que tão sábios visitantes serão inevitavelmente uma fonte de inspiração.

Não digo mais, que já ocupei aqui espaço demais...
Obrigada pela paciência.

O Réprobo disse...

Penso, Insigne Terpsichore, que é, realmente, aí que bate o ponto. Tantos foram os maus exemplos oferecidos como espectáculo, que a população se viciou na descrença dos que a rodeiam e recusa janelas de esperança para não mais se deixar enganar.
Bj.

O Réprobo disse...

Obrigadíssimo! Já por um par de vezes me surgiu essa barreira. Agora com a chave-mestra tudo está facilitado.
Graças Vos sejam dadas.