sexta-feira, 13 de junho de 2008

Ao Pé do Santo

Santo António como O viu Murillo

Da Hagiografia mais antiga colho aquele episódio que considero o mais explicativo de muita fama posterior do mais popular dos Santos:
Outro, ainda moço, da cidade de Pádua, chamaso Leonardo, se acusou de ter dado um pontapé em sua mãe, e dizendo-lhe o Santo que bem merecia cortado o pé com que ofendera sua mãe, foi para casa e cortou-o. Aos gritos do lastimoso moço acudiu a mãe, e vendo o caso, foi-se queixar do Santo, o qual saindo do convento a consolou, e foi com ela dar saíde ao filho, unindo-lhe o pé como dantes.
Torneando as explicações especializadas, julgo estar aqui toda a raiz da fama de taumaturgo de Santo António, a capacidade de reconduzir a um estado anterior de mais saúde, o que pareceria, à época, definitivamente prejudicado, ao decepar-se um membro. A partir da taumaturgia o salto para a crença de remediador de amores é fácil, pois ao Vulgo não custa considerar as dificuldades e aspirações nesse campo como peculiar forma de doença. Veja-se São Valentim, conhecido pelas curas de epilepsia, que, igualmente veio a desembocar no patrocínio dos apaixonados.
Outra ironia que dá que pensar é a da prevenção que o grande Lisboeta escreveu contra a parte escura de cada jornada diária:
A noite, que tira o nome do facto de fazer mal aos olhos, é a tribulação ou tentação que impede o olho da razão. Lê-se em Job: Seja aquela noite solitária e não digna de louvor. A noite da tentação é solitária, quando não encontra no homem consentimento; não é digna de louvor quando o homem não lhe sorri nem aplaude.
Tenho para mim que os animais ruminantes de discursos alimentados que são as audiências dos simples não atentaram em que o Antídoto contra a solidão tentadora que o Doutor da Igreja propunha era a procura de Cristo e se abalançaram em acompanhar-se com o que tivessem mais à mão, isto é as relações mundanas, com a iluminação que os festejos trazem, tomando o lugar que seria o da aproximação da consciência à Divindade. Mas daí não virá mal ao Mundo e, lá está, se não todas, muitas são as vias boas para se chegar a Deus.

15 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

Também acho que não virá mal ao mundo por esse lado, porque nestes festejos só há lugar para o bem querer de que a Júlia é a habitual mensageira nesta caixa, e que é a melhor via para Lá chegar.
Beijo, Paulo

O Réprobo disse...

Folguenos pois, Querida Cristina, apesar de São Nicolau andar mais nas boas graças vimaranenses, o patriotismo da Nefelibata decerto A impele a alguma boa vontade para com os Santos lusos.
Beijo

Cristina Ribeiro disse...

E são Gualter, Paulo.
São Nicolau é mais da devoção estudantil. O nosso Santo Popular é mais o patrono das festas Gualterianas, em Agosto, e, claro está, os Santos que patrocinam as muitas festinhas e romarias, como Sant'Iago ou Santa Marta- aí é um folguedo só :)

compulsão diária disse...

Rép, bela associação. O santo que cura promove o inferno amoroso? veja se agora entendi o jogo dos afrodisíacos;)lá do cummings

O Réprobo disse...

Ah bom, Querida Cristina, uma dupla protecção, à Juventude da Cidade-Berço, pois! Todos não serão demais, nestes tempos comlicados.
Beijo

O Réprobo disse...

É isso mesmo, Querida Bea, embora os que lhe fazem pedidos, pobres inocentes, pensem caminhar para o Paraíso! É dar-lhes tempo...
Beijinho

Carlos Portugal disse...

Caríssimo:

Escreve, como sempre, com imensa propriedade. Com efeito, o Caminho para Deus é múltiplo, pois reside na unidade (sob a Luz) da pluralidade de Vias; que são inúmeras.

Assim como não há grupos - nem povos - «escolhidos», nem Religiões particularmente abençoadas; todos são escolhidos, todas são abençoadas, desde que caminhem na Luz, e pratiquem o Bem.

Resta-nos a nós seguirmos a Via que sentimos mais apropriada ao nosso desenvolvimento espiritual, à nossa Tradição, à nossa Pátria e ao nosso Povo. A qual, neste caso, é o Cristianismo Católico, ou mesmo o da Igreja de Portugal, fundada pela Rainha Santa Isabel, e da qual ainda subsiste o culto do Sagrado Espíto Santo, nas Ilhas que envolvem a Ilha Perdida, a Ilha Branca, a Avalon das lendas e dos mitos.

Bem dizia Monsenhor Angelo Roncalli, na Sua oração à Virgem: «Só Vós conheceis a cadeia secreta que une as pessoas»...

Grande abraço, cheio de Paz, para Si e para os Seus.

Tiago Laranjeiro disse...

Cara Cristina, de facto o Santo "da cidade", aqui, é o São Gualter, companheiro de S. Francisco. Infelizmente, a sua santidade fica-se pelo culto popular, pois nunca foi canonizado... Também temos grande festarola com Santa Luzia, com as passarinhas e os sardões.

Curioso que as principais festas que os Santos motivam, aqui em Guimarães, se realizem no Outono/Inverno, e não no Verão... As Gualterianas, essas, são invenção recente, do início do século XX, obra dos caixeiros futricas, que precisavam de uma festa para responder à dos estudantes...

Caro Réprobo, nunca percebi bem, na devoção ao casamenteiro Santo António, que ainda sara males do corpo, se cura também cegueira de amor...

O Réprobo disse...

Meu Caro Carlos Portugal, até aceito isso como norma individual que preserve de conflitos, embora não ceda na legitimidade da Herança de Roma, Aquela que foi fundada por Jesus e única que recebeu os poderes de ligar e desligar.
Abraço

O Réprobo disse...

Meu Caro Tiago Laranjeiro,
é que essa é do espírito e passa com o tempo, sem precisar de milagres. Em subsistindo o Amor, não há cegueira, logo inexiste necessidade de cura.
Abraço

Anónimo disse...

Atrazadíssima embora, Paulo, deixe-me deixar os parabéns a sua Mãe - de cujo aniversário ocorrido há uns dias me acabo de inteirar após a leitura de imensos e excelentes posts seus - esperando que já esteja recuperada da queda sofrida.
Porque vejo um comentário de Carlos Portugal, com o qual concordo na totalidade, como sempre, aproveito esta oportunidade para lhe agradecer as bonitas palavras que me dirigiu há dias noutro Blog, o que não fiz na altura por absoluta falta de tempo.

Cumprimentos Paulo
Maria

Carlos Portugal disse...

Querida Maria:

Não tem nada que agradecer; as palavras que lhe dirigi foram sentidas e merecidas. Aliás, também concordo totalmente com os Seus comentários, os quais denotam uma grande consciência e conhecimento do que nos rodeia, aliados a uma extrema sensibilidade. Mais uma vez, parabéns.

Aliás, não seria de esperar outra coisa dos (das) visitantes desta excelentíssima Casa do Caríssimo Paulo.

Beijinho.

O Réprobo disse...

E é para mim gratíssimo ver compreensão e estima mútuos entre Dois dos Amigos desta casa cujo Espírito particularmente estimo, a Maria e o Carlos Portugal.
Beijinho e abraço

Carlos Portugal disse...

Obrigado, Caríssimo Amigo.

O Réprobo disse...

Por Quem sois!
Ab.