domingo, 29 de junho de 2008

Quando Um Dia é Algo Mais

Ter um dia determinado, por sobre múltiplas más vontades, pode também ser o reconheccimento duma elevação. Assim o Vinho, que a 29 de Junho tem a sua lembrança.
Vinho é poesia, que ambos transmitem os transportes libertadores da mediocridade rotineira da vida, desde que se saiba num e noutro avançar. Um paralelo interessante ocorreu com a expressão Chave d´Ouro, empregue nas regras da versejação e tendo correspondente num hábito vínico luso hoje um tanto esquecido, o do vinho da chave doirada. Por emprego semelhante ao dos poemas se distingia, já que a vila de Mação, onde o produziam, o usava para obsequiar visitantes ilustres ou amadores reconhecidos, não para inundar o circuito comercial. Talqualmente se saca da imaginação poética, frequentemente, para honrar os destinatários. Era feito de uvas brancas de selecção rigorosíssima e muito maduras, não se podendo tocar no mosto guardado cuidadosamente numa vasilha fechada com chave de metal amarelo, a que deve o nome. Todos os anos se retira uma porção de vinho, não superior a um terço, acrescentando-se, em substituição, equivalente quantidade de mosto. A fama do néctar originou uma tradição de peregrinação apeada, remontando a lendário voto de um capitão-mor de Abrantes, de virar uma dúzia de taças da preciosidade em honra da báquica divindade. Eram cinco ou seis dias em que os devotos invadiam pacificamente a terra, com um jeito bem oposto aos dos soldados de Massena que, por malvadez e selvajaria pura, espalharam pelo chão a valiosa porção então acumulada.
O Triunfo de Baco de Ciro Ferri

António Diniz da Cruz celebrou-o:

Não quero Borgonha;
não quero Champanha;
não quero Tockai;
nem vinho do Cabo:
os vinhos estranhos
não provo, não gabo.
Quero vinho que alegre, que aquente:
dá-me desse, que guarda na cuba,
doce sumo Mação excelente,
camarista estimado, e valido
de Évio Lísio, na casa enramada,
por isso chamado
da chave dourada.

8 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

Olá, Paulo!
Quando vi a referência a Mação, ainda pensei que quisesse nomear o vinho típico da zona de Monção, que, não sendo verdadeiramente maduro, muito se lhe aproxima; e o Alvarinho é, em qualquer circunstância, uma autêntica "chave d'ouro"...; ou seja: não é, mas podia bem ser :)
Beijo

O Réprobo disse...

Gosto bem dele, Querida Cristina, mas esta história é de mais cá para baixo. Curioso é vermos, neste confronto que estabeleci entre ambos, como o vinho, ao contrário da polémica estéril sobre muita Poesia, nunca dispensa o metro e a... rima.
Beijo

Júlia Moura Lopes disse...

énivrez vous, como dizia Baudelaire!

tchin,tchin,Paulo!

O Réprobo disse...

"...para não serdes os escravos martirizados do tempo, de vinho, de Poesia, ou de virtude, à vossa escolha..."
À Sua, Querida Júlia!
Beijinho

ana v. disse...

A proósito, aqui deixo mais uma contribuição:

Da vida sábia e sem perda
Melhor exemplo não topo
Que um livro na mão esquerda
E na mão direita um copo.

Com igual fervor constante
Tua mão colide e agrega
Bons livros, na tua estante
Bons vinhos, na tua adega!

(A. Cardoso Marta)

À vossa, amigos.
Beijinho

Cristina Ribeiro disse...

Ah, volto cá para brindar também, no dia do Santo a quem deve o nome...
Beijo

O Réprobo disse...

Grande prova de sabedoria, Querida Ana, belo contributo. Tentarei sempre conformar-me com a injunção.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
muito obrigado! Tinha prometido um desagravo a S. Pedro, mas não encontro o local de onde retiraria uma citação essencial! Desolado.
Beijo