quarta-feira, 18 de junho de 2008

As Faltas Que o Povo Sente

Panem et Circenses de Whitney M. Hall

As duas maiores preocupa-ções nacionais das últimas semanas, os supermerca-dos vazios e o Campeonato Europeu de Futebol trouxeram-me à mente dois exemplos oitocentistas da aplicabilidade da máxima Pão e Circo, de Juvenal, à sociedade portuguesa contemporânea, a ponto de lhe fazer evaporar os brandos costumes.
Em 1855, tendo os padeiros resolvido elevar o pão de arrátel alfacinha a 30 réis, uma populaça enfurecida e capitaneada por um cabecilha de nome Hermenegildo Correia, encetou assaltos às padarias e tentou incendiar a casa do industrial José Maria Eugénio, tendo-o por monopolista de farinhas.
En 1876, porque a abertura do Passeio Público pelo concessionário não obedeceu aos requisitos legais, foi impedida pela Câmara na data marcada. A turba não quis sair, estava tudo iluninado, a banda tocava... Veio a carga policial que deitou sabradas a torto e a direito, deixando muitos feridos graves.
O primeiro episódio foi resolvido com recurso a um método mais de acordo com os hábitos governamentais do partido actualmente no Poder, com a atribuição ao cabeça dos revoltados de um belo emprego. Mas quantos camionistas haverá hoje em Portugal?

8 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

:) :) muito bem pensado, e, claro, exposto.
Beijo

Luísa disse...

Meu caro Réprobo, a melhor forma de amansar um dirigente sindical sempre foi a de lhe dar um alto cargo de chefia. Já vi algumas situações dessas e é interessante acompanhar os dilemas, ou talvez meras dificuldades de «gestão», de quem passa a ter de servir dois senhores. :-)

TSantos disse...

É, o velho adágio continua actual, mesmo depois de 2000 anos...No fundo, o raciocínio é o mesmo, não é? Manter a turba entretida e abastecida o suficiente para não ser tentada a revoltar-se...

Rudolfo Moreira disse...

Dez milhões. Ou não passamos a ser todos camionistas?

O Réprobo disse...

Sempre Magnânima, Querida Cristina. O certo é que para retirarmos lições da História convém conhecer-lhe pormenores como este.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Luísa,
está visto que há um padrão de conduta na transversalidade temporal. E deixe-me adivinhar, entre quem tem a faquita e o queijo na mão quanto ao poleiro apetecido e a solidariedade com as origens laborais...
...não há dilema que resista, era o que eu pretendia dizer.
Beijinho

O Réprobo disse...

Tenho sentimentos dúbios quanto à apetência das massas, Meu Caro TSantos, afinal atestar a pança com o mais essencial dos produtos e não se contentar com isso, procurando as compensações espirituais do espectáculo, indicia uma insatisfação com o que se é que poderia considerar-se louvável, caso as elites aproveitassem os instintos para burilar essa matéria bruta. E aqui é que a porca (a da Política, segundo Bordalo) torce o rabo. Nada de sofisticar as aspirações, satisfazê-las com grosseira prestação é muito menos perigoso.
Abraço

O Réprobo disse...

Meu Caro Rudolfo,
infelizmente a maior parte de nós não vê a vida andar sobre rodas e onde uns tinham as carripanas a abarrotar, encontraram os outros as despensas vazias.
Abraço