segunda-feira, 9 de junho de 2008

Os Cílios e as Páginas

Um esquecido Gabriel Legouvé imaginou em verso uma anedota representativa que rezava assim.

ANECDOTE

Une Laïs perdit l´amant le plus fidele
On la disoit en pleurs: un ami court chez elle;
Il la trouve riant en face d´un miroir:
«Vous me surprenez fort, dit-il à la donzelle;
«Je vous croyois au désespoir.
«Ah! lui répond soudain la belle,
«C´est hier qu´il falloit me voir!
»

Claro que é, por sua, vez o espelho deformante da visão masculina que devolve uma certa imagem da Mulher. Mas continuando nessa impertinente vereda, detecto comparável tendência na Poesia que prende o Universo Feminino. Cada Exemplar do Belo Sexo que lê um poema é-lhe tanto mais sensível quanto apreenda a imagem da sua alma reflectida por ele, resultando essa cativação numa vulnerabilidade conforme interaja com o instante biográfico que atravesse.

Enquanto que o sentimento predominante no Espirito Feminino que se debruça sobre uma obra de ficção é diferente, o seu interesse depende de se deixar envolver por um apelo consequente e indutor da entrega, que consiga reconhecer, independentemente do desfecho, que não terá pudor em considerar ou não impossível, de acordo com o conhecimento que tenha dos sentimentos e reacções correlatas. Ao contrário da abertura masculina, sempre disposta a aceitar o acidental e o externo na conformação das sequências narrativas, buscando a adesão no nexo entre o princípio actuante e a resistência espiritual. Entre as Filhas de Eva o que leva a melhor é a dialéctica entre a latência do seu estar e a instintiva mensurabilidade do sentir que corresponda.


A pintura é de Pino Dangelico

6 comentários:

mike disse...

Uma imagem perfeita, Caro Réprobo, envolvendo-nos no mistério e deixando-nos a sós com a interrogação não respondida. O que será que ela lê? Uma obra de ficção ou um poema?

ana v. disse...

O que quer que fosse a história já chegou ao fim, e deixou-a a roer as unhas...
;)

Luísa disse...

Gostei muito da anedota, caro Réprobo… a que, felizmente, não foi adicionado nenhum segundo final. :-) Quanto à continuação do «post», metendo por «impertinente vereda», encontra-se em processo de digestão. Processo um pouco difícil para uma mulher, quando não reconhece imediatamente o reflexo da «imagem da sua alma»… ;-)

O Réprobo disse...

Meu Caro Mike, A Ana já respondeu, tudo aponta para a ficção. E até se ligarmos ao que escrevi...
Abraço

O Réprobo disse...

Querida Ana,
nada Lhe escsapa! Foi precisamente o que tive em mente como ilustração da entrega que não chocasse os Espíritos mais recatados!
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Luísa,
é, o índice de malvadez reprobábel está em queda...
Digira bem, que o almoço pede o sistema a 100%. Que outra empatia típica sugere então, como alternativa ao reconhecimento desses contornos anímicos reflectidos no verso? A pura absorção da imagem do rosto?
Beijinho