sábado, 21 de junho de 2008

Dor em Verbo

Em Memória de Mary Daniel HobsonA partir de que momento se torna a dor insuportável? Os primeiros choques que ferem podem ser trancados numa arrecadação cuja porta se teme abrir, ou simplesmente lançados à brisa, para que os afaste. Pretender superá-los pelo esquecimento é, porém, forçar-se e enganar-se, já que cada bote ficou marcado e a sua repercussão aguarda momentos de menor inexpugnabilidade para fazer a reentrada em força numa existência que, pouco a pouco, se deixou reger pelo conceito falso da luminosidade desmentida.
Há sempre o momento em que todo o penoso acervo, paulatinamente acumulado, forma um texto impossível de ignorar, como, ao contrário, acontecera com os elementos soltos do Passado. E são esses regressos paroxísticos, algo descongelados, que juntam a Sobrevivência ao Fracasso. De Sylvia Plath, traduzida por Mário Avelar

PALAVRAS

Machados,
após o golpe seco a madeira reverbera
e os ecos!
Ecos partindo
em fuga de um centro, como cavalos.

A seiva
flui como lágrimas, como a
água lutando
para refazer o seu espelho
sobre a pedra

que tomba e dá lugar a
uma caveira branca
devorada por ervas daninhas.
Anos depois,
encontro-as na estrada -

palavras secas e selvagens,
o infatigável bater dos cascos.
Enquanto
do fundo da lagoa, estrelas imóveis
governam toda uma vida.

14 comentários:

Júlia Moura Lopes disse...

oh, Querido Paulo, post mais lindo!

dói lê-lo

beijo por ele

fugidia disse...

Bonito, Rép.
Beijinho :-)

O Réprobo disse...

Obrigado, Júlia Queridíssima, a Plath tem muitas vezes este efeito de levantamento da lebre que é a dor.
Beijinho

O Réprobo disse...

Obrigado Fugi Mia.
A infelicidade que dá melhor Poesia é da dureza semelhante a esta, não é a chorona, coisa que os Românticos não perceberam. Mas alguns conseguiram, ainda assim ser bons poetas.
Beijinho

fugidia disse...

É verdade, Rép.
Dói mesmo esta poesia dura.
Mais um beijo, de boa noite :-)

Júlia Moura Lopes disse...

é verdade, Paulo, partilho essa definição de boa Poesia :-)

Eu gosto muito de Plath, tenho-a nos links e na minha estante, também.

Nelsinho disse...

Soa estranha, mesmo que excelente, toda a tradução de Plath!

Grande abraço

ana v. disse...

A densidade de Silvia Plath, sempre trágica e transgressora... gostei muito, também.
Beijinho

O Réprobo disse...

Obrigado, Querida Fugidia,
e esse miminho é antídoto contra qualquer dureza.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Júlia,
é um caso incrível: nada na personalidade conturbada dela me atraía, alérgico que sou, por princípio, a utra-sensibilidades que se remoam de forma a repercutir-se na perturbação dos que gostam do ser que se auto-tortura. Mas a escrita que nos deixou, o essencial, é um verdadeiro íman que não me deixa despegar.
Beijinho

O Réprobo disse...

Meu Caro Nelsinho,
este poema retirei-o do livro de que Lhe falei no outro dia, o qual inclui uma pequena antologia, felizmente bilingue, para obviar à estranheza que bem identifica.
Grande abraço, também, ao Plathiano-Mor da Roda

O Réprobo disse...

Querida Ana,
transgressora, sim, até na superação da incomunicabilidade (no sentido de contaminação) de um sentir específico, o desespero, contrariando um pouco o verso também excepcional de Gedeão, que diz que "cada qual tem o seu, pessoal e intransmissível".
De cada vez que a releio não saio indiferente. E não por via de empatias. É um caso raro.
Beijinho

ana v. disse...

Acha um caso raro, Paulo? Comigo acontece frequentemente ser "abanada" por escritores (poetas, no caso) com quem não estabeleço quaisquer empatias. O contraste e o choque podem ser mais fortes e maiores reptos do que as empatias, pelo menos comigo.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Ana,
comigo nem tanto. Há-os, mas como excepções, normalmente visões e comportamentos transpostos para a obra que me repugnem conduzem à rejeição, mesmo que reconheça a qualidade técnica e seriedade de propósitos. Mas há casos de força agitadora de convulsões interiores a cujo imperial alcance não resisto, como neste.
Beijinho