quinta-feira, 12 de junho de 2008

Cada Cabeça, Sua Sentença

Ainda um dia traçarei uma breve descrição do que foram os femininos e medievais Tribunais de Amor, em que, desde Leonor da Aquitânia a Joana de Nápoles, se discutia as problemáticas dos relacionamentos, com idêntica natureza, mas mais elevação, à dos debates de hoje, nas televisões. Para já, só quero dar conta de uma das deliberações, sobre o papel do Amor no casamento:
Dizemos e asseguramos, pelo conteúdo das presentes actas, que o Amor não pode estender os seus direitos sobre duas pessoas casadas. Em verdade os amantes põem-se de completo acordo mútuo e praticamente sem estar a isso obrigados por nenhuma necessidade, enquanto que os esposos, por dever, têm de sofrer reciprocamente as suas vontades e nada recusarem uns aos outros... Que esta sentença que damos com toda a prudência e conforme a opinião de um grande número de outras damas, seja para vós outros de verdade constante e irrefragável.
Assim julgado no ano de 1174, no terceiro das calendas de Maio, indicação VII.

Casamento de Mihail Aleksandrov

Ou seja, trata-se de uma escrita mais do que feminista, em tudo semelhante ao discurso de hoje, com a realização, na actualidade buscada na profissão, assente noutra "carreira", a do matrimónio, onde, aliviando-o do amor, não se nota qualquer nota da opressão apontada ao casamento burguês, em que, contudo - e por muito infirmado que fosse nos casos particulares - o ideal amoroso cercava o imaginário do enlace.
Ironia das ironias, elas libertaram o o dever marital do Amor, sublinhando-lhe as obrigações. Saiu agora o livro de um homem, que liberta o himeneu dos deveres, para salvar o... Amor que merece ao adúltero a família. Leiam esta terapêutica adulterina do Prof. Kirchenbaum, o qual diz que umas facadas fazem bem à aliança.
E aceito comentários sobre quem enganou melhor quem.

18 comentários:

Cristina Ribeiro disse...

Nem de propósito, tenho ainda bem presente, até porque o tenho à mão, o que sobre o adultério escreveu uma mulher- Agustina Bessa-Luís- no livro em que discorre sobre o « caso» Maria Adelaide Coelho, que dois doutos neurologista e psiquiatra, Egas Moniz e Júlio de Matos, explicaram como uma " enfermidade do sentimento":
"... o estado psíquico da mulher de ontem e de hoje continua a ser o mesmo: a carência afectiva é responsável pelos inúmeros transtornos sociais que não podem ser produzidos pela acumulação dum azar- um casamento malparado"- se não há amor no casamento, será esta uma forma de procurar trazê-lo para o seio conjugal?
No mínimo uma tese interessante.Polémica? Pois claro!...
Beijo

José Carlos disse...

Meu Amigo:

Desculpe lá, mas hoje só tenho olhos para a parte estética. Que pintor! Que Pªintura! E para mim totalmente desconhecido. Azar meu. Vou já investigar tudo o que possa sobre ele. Que misticismo, que Alma, que traço. Como dizia Dali, até sabe fazer o traço ...

Obrigado por mais esta surpresa. Não a vou desdenhar, antes pelo contrário...

Rudolfo Moreira disse...

S. A existência dos tribunais de amor é posta em dúvida por vários historiadores mas os textos que lhes atribuem têm muita graça.

ana v. disse...

E ainda lhe chamam Idade das Trevas...
;)

Júlia Moura Lopes disse...

Querido paulo, n�o concordo com a tese "umas facadas fazem bem � alian�a". Sou exclusivista o mais possivel e penso que essas facaditas s� acontecer�o se faltar alguma coisa na alian�a. Ficar� sempre na mem�ria do traido a dita facadita, mnando a dita alian�a.

Querida Cristina, a Augustina n�o � propriamente amiga das mulheres, pelo contr�rio , tem muito m� opini�o de n�s. :-)

beijinho e b.q

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
conheço bem o caso de Adelaide Coelho da Cunha, cuja parte da vida pós-adultério com o motorista passou a se uma tentativa de convencer a opinião pública de que sempre estivera no uso da razão.
Possuo os dois livros dela
«Doida Não!» e «Doida Não e Não!».
E, não o possuindo, já li a réplica do marido, com um título que reproduzo de cir, mas é qualquer coisa como
«Infelizmente, Irremediavelmente, Doida».
Compreendendo o desejo de suavizar a culpa nm estrato social que não estava habituado à afixação pública dela nestas matérias, sou muito hostil a tudo o que diminua a responsabilidade.
Beijo

O Réprobo disse...

Meu Caro José Carlos,
tenho vindo a descobrir pintores eslavos em actividade, de um interesse extremo! É como se a Pintura tivesse estiolado no Ocidente, reservando-se o direito de florescer em iriginários, ao menos genealificamente, de gelos por desbravar.
Abraço

O Réprobo disse...

Eu acho muita graça é a esses historiadores, Caro Rudolfo. Ninguém duvida dessas reuniões, obsta-se à força vinculativa das decisões. Nem por isso duvidam da existência de certos tribunais internacionais de hoje que possuem menos poder de impor as respectivas sentenças do que uma pulga. Claro que a submissão era voluntária, mas tida como factor de honra do Perfeito Cavaleiro. Se de Ricardo Coração de Leão se pode dizer que se submeteu para honrar um passatempo querido da Mãe, a adesão dos Reis de Aragão ou do Imperador Frederico Barbarossa não caem nesse simplismo explicativo.
Abraço

O Réprobo disse...

Querida Ana,
é um mito que já aqui expliquei e impugnei, à conversa com a Cristina. Regine Pernoud, por exemplo, para nos atermos a obras de divulgação, deu cabo de tão superficiais preconceitos.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Júlia,
eu também não concordo! Por isso exponho o "inovador" neste pelourinho, como pena infamante a que o sujeitem os Leitores das «Afinidades...». Dizer que se molha o bico por fora por se amar o que está dentro é puro farisaísmo, no mau sentido que o termo tomou. E é pôr o Amor em bolandas que nem os ultra-românticos aventuraram, pois justificavam as quebras dos compromissos por uma promoção absoluta da Paixão, localizada no pólo exterior que atraía.
Beijinho

cristina ribeiro disse...

Como me parecia: uma tese muuuito polémica!
Claro que estou consigo Júlia: "exclusivista o mais possível", o que não retira interesse teórico àquela. Antes sou pela via de "saltar fora" se faltar essa coisa, vital, que chegue ao extremo de negar a dignidade da outra pessoa; parece-me, isso, Paulo, parece-me uma atitude responsável
Quanto ao caso da Maria Adelaide só conheço o caso ficcionado, o que é, manifestamente pouco.
Beijos

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
é um caso em que a Realidade supera a Ficção, mesmo com a base fáctica lamentável em que assenta.
Quanto à exclusividade, já se sabe, divirtam-se antes, respeitem depois.
Beijo

Júlia Moura Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Réprobo disse...

Ora, Júlia, deixe. Claro que a desconformidade Pa palavra dada só é uma ofensa quando o Outo não aceita. Costumava pensar que seria sempre assim, nos dias que correm, mas a observação levou-me a testemunhar um par de casos em que não se ligava meia e, paradoxalmente, havia afecto.
Beijinho

O Réprobo disse...

PS: idolatrar a Júlia não é coisa difícil de acreditar...

Cristina Ribeiro disse...

Paulo: mas,também penso assim.
Porém, como depreendo destas palavras da Júlia, o respeito supõe respeito- na acepção lata de consideração; e, não sendo esse o caso...; é muito mais responsável do que as tais facadinhas, que procuram " lamber as feridas"; isso é que não.
Beijo

Júlia Moura Lopes disse...

enfim...� melhor nem falar mais.


beijinho aos dois

O Réprobo disse...

Marota! Não é que apagou mesmo o comentário?!
Beijinho