domingo, 8 de junho de 2008

Complexo de Escritor

Leitura de uma entrevista de Borges a Jacques Chancel:
Todos os jovens são barrocos. Por timidez. Cada um pensa: "Se eu digo exactamente o que quero dizer, toda a gente vai achar isso idiota..." É preciso esconder-se um pouco, disfarçar-se. Assim tornamo-nos barrocos. E depois, mais tarde, tornamo-nos mais orgulhosos: "Não, aquilo que digo talvez seja interessante, porquê mascarar-me, porquê ser um escritor do Século XVII? Por que não ser pura e simplesmente um contemporâneo..." Finalmente tornamo-nos mais simples.
O Escritor de Michaël Thomazo

A percepção do vício de tentar escrever raro, nos alvores da redacção está bem caçada. Mas nem sempre será por táctica que se tente impingir. Muitas vezes trata-se apenas de um equívoco que, considerando bem alto a Complexidade, julga, num momento em que pouco mais se conhece do que o seu próprio ego, por vezes nem isso, que complexificar a própria forma é a maneira de se elevar no relacionamento com quem leia. À medida que se vai conhecendo mais da Realidade, percebe-se que ela é tão multifacetada que o mais difícil está em simplificá-la, explicando ou procurando esgotar-lhe o sentido. E que essa tarefa, muito mais complexa do que o artificialismo antes incensado, é a que se mostra mais capaz de prender os sentidos dos mais capazes de entre os potenciais provadores.

10 comentários:

Cristina Ribeiro disse...
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fugidia disse...

Como poderei dizer melhor do que a Cristina?
Muito mais complexo, de facto, dizer tudo de forma simples, sem com isso se ser simplista.
Beijinho :-)

Luísa disse...

Meu caro Réprobo, na «mouche». Consola-me pensar que talvez ainda conserve a minha juventude de espírito, nessa timidez, nessa insegurança, nesse desejo de impressionar pelo «apuro» da forma… na falta de conteúdo. :-)
Presumo que, para se ser escritor, seja necessário, para além de ter ideias, ganhar confiança nos dedos. Ou talvez mesmo - como me pareceu poder deduzir das recentes entrevistas a Lobo Antunes e Saramago reproduzidas na revista Ler - algum excesso de confiança? :-)

ana v. disse...

Muito bem visto, Paulo, como todos já disseram. Só os Grandes escrevem com simplicidade e clareza, libertando-se da subalternidade de depender de uma opinião lisonjeira dos leitores. Essa liberdade é o mais difícil de tudo, julgo eu, mas quem a consegue atingir passa definitivamente a outro patamar.
Beijinho

marilia disse...

Oi, Repróbo! Acho que essa tal vontade de se afirmar que é que faz com que os juristas, por exemplo, não consigam pedir nada sem palavras difíceis e termos que nos últimos 200 anos somente eles têm utilizado... E que ninguém, às vezes nem eles, conseguem entender...
Acho que é por isso que continuo escrevendo "não direito". Preciso de exercício, pra não me viciar.

O Réprobo disse...

Cristina Ribeiro disse
Bem caçada "a percepção do vício", e bem explanada a reflexão posterior...
Beijo, Paulo

Ai, Cristina,
inadvertidamente eliminei o comentário! Felizmente ainda fiu a tempo de o copiar e colocar aqui.
Respondendo, agradeço a aprovação e peço que não pense que é troca de favores a homenagem do próximo postal.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
é a dificuldade que só se reconhece quando ganhamos profundidade e conseguimos ver um bocadinho das coisas, não somente olhá-las.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Luísa,
essa injecção de veneno justiceiro com a Sua inexcedível elegãncia, está muito boa, ehehehehe. Claro que há sempre a considerar o conflito entre a frescura e a técnica posta ao serviço de um pensar que não seja superficial, apesar de infirmações célebres como Rimbaud e o Valéry pré-hiato.

Nos dois casos referidos, não discutindo a qualidade da prosa, a própria cadência inovadora que nela se propõe estaria sujeita a acusação de imaturidade que os fãs não concederão, dizendo que é o melhor remédio contra a criatividade seca.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Ana,
nem todos acham assim, Agustina, por exemplo, diz da clareza que "é um subterfúgio do vazio". O empenho em tornear a própria escrita penso-o sempre como uma distracção das essências apreensíveis, por muito compensatório que seja, no plano puramente formal. Embora, muitas vezes, seja compensação a prazo.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Marília,
Ui, os juristas, a cáfila a que renegadamente pertence este Seu amigo! Aí o fito talvez seja mais de erguer moralhas, como na Filosofia e outras Ciências Humanas, com um jargão próprio que funcione como muralha que desanime os que tentem, de fora, meter o bedelho nessa coutada...
Quanto a procurar entre eles boa prosa, é como tentar descobrir agulha em palheiro. As muitas peças processuais que tive de ler encurtaram enormemente os meus anos de vida.
Beijinho