sexta-feira, 6 de junho de 2008

Fintar o Despeito

Eduardo Abranches de Soveral, num capitalíssimo artigo que publicou em 1954 sobre «O Futebol e a Sociologia», escreveu lapidarmente:
Na verdade, quem quiser compreender uma época histórica e não deseje cometer o pecado democrático do racionalismo igualitário que leve o pecador, por exemplo, a só entender D. Nuno Álvares Pereira como um epiléptico porque ardeu no desejo indomável de se realizar como cavaleiro, como herói e como santo; os descobridores portugueses como gananciosos e lucro, que doutra forma teriam ficado em terra; e os Papas magníficos da Renascença como perdulários megalómanos porque não investiram em obras de fomento o dinheiro gasto em obras de arte - tudo isso por julgar em função das suas preferências, convencido de que o faz em nome de ideias intemporais - terá que repetir, a cada momento, esta pergunta indiscreta: - Que teria verdadeiramente interessado Nuno Álvares, Vasco da Gama, Leão X; quais os valores a que, como homens da sua época, teriam sido particularmente sensíveis?
E partindo da visualidade que realça nas partidas futebolísticas chega à osmose que imagina contraditória, entre público e jogadores, inermediados pelo dirigismo desportivos na identificação com um emblema, contornando o ressentimento que entende à partida esperável no êxito de uma modalidade que não exige anatomias específicas.

Ora Bem, o que permite esse alinhamento sofredor e torcedor é um sentimento não tão generoso como isso. Ao contrário do Atletismo e da Natação, em que as puras capacidades físicas originárias e de aproveitamento do treino estabelecem um diálogo primeiro com uma superação individual de uma marca, rumo ao preenchimento de uma Excelência perfeccionista, num jogo colectivo de homens comuns nivelados pela cor das camissolas, o mais do que comum homem nas bancadas sente-se próximo dos atletas, por os imaginar seres não tão afastados de si pelo físico que o berço deu e, pelo escudo que prefere, crer-se guindado ao nível dos que o defendem. Com o adicional sabor de, quer no drible quer no golo, estar sempre presente em primeira linha a habilidade de enganar o adversário, que é, inconscientemente, a forma mais fácil que a mediocridade encontra para se transfigurar. Na época em que surgiu em força um quarto elemento que Soveral não tinha como tratar, o empresário, a própria contratação disputada deste ou daquele futebolista inicia a psicologia da finta expressa no "comêmo-los bem", a de ver enganados os rivais.

2 comentários:

Rudolfo Moreira disse...

S. Onde vem o texto? A parte do interesse geral podia interessar para a tese.

O Réprobo disse...

Talvez, Caro Rudolfo, embora o Ensaísta haja revertido logo para a cumplicidade futebolística. O extracto é da revista «Esmeraldo» Nº2, de 1954.
Abraço