sábado, 7 de junho de 2008

Quem Se Lixa....

Lendo acerca do desespero do ingénuo vendedor ambulante de Sintra que pensa conseguir retomar a sua actividade, nestes tempos dados às grandes superfícies, armando (outra) barraca em frente ao par(a)lamento, veio-me à ideia uma remota conspiração na Lisboa do Tempo Áureo dos Pregões, de 1850 a 1910, em que foi vítima duns maiorzitos industriais de doçaria um benévolo e barbudo calmeirão que vendia uma pasta doce à criançada, quando não a dava, que o que pretendia, mais que o ganho, era ver a alegria nos rostos infantis. Era aquele que gritava:
- Vá branquinha alféloa, gergelim e amêndoa doce!

Nada como dar a palavra a Sousa Bastos:
Por aquele tempo havia em Lisboa muitos fabricantes de lindinhos, uma outra goloseima que teve grande voga. Eram feitos em forma, do feitio de chaves, sapatos, corações (urge psicanalisar estas formas, conectadas) e caras. Com qualquer preparo o açúcar ficava cor-de-rosa e transparente. Dentro tinham um líquido gorduroso, a que os fabricantes chamavam licor. Vi-os duma vez no preparo: tinham junto de si uma grande caneca com o repugnante licor, tomavam uma golada e mesmo com a boca iam cuspindo o tal líquido para dentro dos lindinhos. As crianças não pensavam noutra coisa, até que apareceu o homem da alféloa, que arrebanhou toda a freguesia, arrazando a indústria dos fabricantes de lindinhos. Estes juraram vingar-se, e, se bem o pensaram, melhor o fizeram. Meteram nas cabeças das crianças e nas do povinho que a alféloa era feita com os ossinhos tenros das crianças que o homem atraía a casa para as matar, cozer num caldeirão até se derreterem para o criminoso fabrico. Calculem o resultado de tal balela. O desgraçado já nem podia sair de casa: era apedrejado e corrido aos gritos de «morra»!
Como se vê, pouco mudou. Permanece a cor-de-rosa nas mistelas que se tentam impingir, embora, concede-se, haja sido eliminada a transparência. O Povo continua a ser usado, na democrática encenação de lhe dar voz. Para esmagar os pequenos inventou-se a ASAE. E alguém duvida de que, num caso destes, em ela falhando, o homem seria enxovalhado como... pedófilo?
Nada há de novo debaixo do Sol!

4 comentários:

marilia jackelyne disse...

POis é, Réprobo, ou, como diria a Meg, Querido Réprobo, não é de hoje que a livre concorrência não é tão livre quanto o Adam Smith gostaria...

abç


marilia

aindapodiaserpior.blogspot.com

O Réprobo disse...

Querisa Maria Jackeline,
diria a Meg e diz muito bem a Marília, porque este réprobo adora ser amimadinho pelas Amigas.
Claro, enquanto o mundo for mundo, a concorrência é uma bandeira para os fortes esmagarem os pequeninos. Em estes levando a melhor, acaba-se com ela, legal ou criminalmente, quando não das duas formas...
Beijinho

ana v. disse...

Uma pergunta, Paulo: a alféloa seria uma antepassada do algodão doce? Também é feito de açucar, e também cor-de-rosa...

O Réprobo disse...

Querida Ana,
ocorreu-me o mesmo, embora nunca haja comido coisa dando por tal nome. O Dicionário diz que é "massa de açúcar em ponto". Que diz a Especialista?
Beijinho