domingo, 18 de maio de 2008

Os Sons do Caminho

São cada vez mais os casos de automóveis que passam por este peão que irremediavelmente sou, com quem guia em plena fruição musical. Para mim, que amo a música de uma forma que exige conviver com ela em dedicação exclusiva, faz-me confusão. Proibidos os auscultadores que tornam certos pedestres com walkmen uma espécie de zombies, são os decibéis que pagam a factura da vingança. Vejo ambos os sexos conduzir discotecas ambulantes, havendo, não obstante, um pormenor que os distingue: nessa contradição da ameaça do stress as Senhoras soltam-se muito mais e é frequente vê-las a cantarolar por cima do fundo, entregando-Se por completo ao ritmo do que ouvem, enquanto que, no caso dos homens, permanecem mais hirtos.
Tenho o hábito como um perigo assombroso. Estou sempre à espera de que, completamente envolvidas, após uma percussão mais ribombante, ou uns acordes mais langorosos, a cadência, passando pela matéria condutora que é o corpo, chegue aos pedais ou ao volante, com pressões ou guinadas correspondentes. No resto é como se dançassem com a viatura, mas, ao contrário do baile mais popularizado, com Elas a conduzir.
Mecanismo de compensação? Pode ser. No entanto, por esta gravura se vê que, desde o Século XVIII, a distracção musical em estrada é uma constante, bem como se poder alegar o facto de o condutor ter deixado de virar as costas ao trânsito constituir progresso de monta...

27 comentários:

filomeno2006 disse...

Amigo Réprobo: En España se ha creado el "Hit Parade de las Gasolineras"........
Ab.

cristina ribeiro disse...

Que bela imagem, em que, ampliando-a, me parece que até o cavalo está deliciado com a trovadoresca Cantiga de Amigo tardia.
Beijo

Júlia Moura Lopes disse...

a mania dos MP3. eu distraida que sou , já me aconteceu fazer perguntas às pessoas com walkemen e até fico com remorsos, pq os obrigo a aterrar.


gostei foi da tag :-))

mulher?hummm injustiça...

fugidia disse...

Hum... (suspiro) :-)))
Que bela imagem, tão romântica (novo suspiro)...

Hum... o conteúdo do post, no que se refere às senhoras é que... hum...

Saiba meu querido Réprobo, que há alguns anos atrás, completamente parados numa fila de kms e kms de automóveis, numa auto-estrada de França, colocámos o "Chico Fininho" um pouco mais alto :-p e dançámos no carro :-D.
Primeiro os olhares eram incrédulos, depois tivémos de abrir os vidros da viatura para os "vizinhos" ouvirem e "dançarem" também :-)))

Beijinho e prepare-se que já estão escolhidos as quatro melhores mensagens...
:-)

mike disse...

Mas o que acabo de ver é perigosíssimo, meu Caro. E calculo que tenha como represália dizer adeus à carta de condução por muitos anos. Mas o casal não parece estar interessado nesse pormenor. Ele concentrado no dedilhar da guitarra e ela embevecida com a música que lhe é dedicada. Já o cachorro, esse sim, está concentradíssimo, parece-me, na perdiz que pende no arreio da mula. Aqui fica uma confissão: nem walkmen, nem mp3, nem nada que se pareça, aqui para os meus lados. Há quem me chame de velho... :)
Abraço.

ana v. disse...

Pois eu não dispenso o meu Ipod: nem no carro, em alta voz, nem nas minhas andanças a pé, com auscultadores (a não ser que tenha companhia, claro). Grande parte da minha música preferida está lá, é só ligar e... cantar por cima, que é uma coisa que eu adoro fazer.
E já agora, meu caro Paulo, as 3 palavras que classificam este post "Mulher, Música, Progresso" não podem ligar melhor, fique o meu amigo sabendo! Até que enfim que o vejo fazer uma associação de jeito, no que toca a mulheres...
LOL

estrelicia esse disse...

Caro réprobo, tenho-me cruzado várias vezes consigo e visitado regularmente o seu blogue. Hoje, deixo mensagem para agradecer (noblesse oblige!) a sua amável referência no blogue da Fugidia. Quanto à condução perigosa por excesso de música, não concordo inteiramente consigo. Acho que é um estimulante altamente eficaz e serve até como alerta à navegação. Quanto mais não fosse evita o stress das horas de ponta e é uma companhia agradável como disseram a Fugidia e a Ana V.

Carlos Portugal disse...

Caríssimo:

Aqui pelas bandas de Cascais, muito próximo do meu Amigo, é muito frequente ser incomodado por essas discotecas ambulantes passeadas geralmente por indivíduos de determinado extracto social relativamente baixo, mormente usando (dentro do carro) um boné posto ao contrário e conduzindo um Seat Ibiza ou um Peugeut 206, em substituição dos anteriores Opel Corsa, Fiat Uno ou Renault 5, que entretanto entregaram a alma ao Criador (que me perdoem os proprietários de viaturas destas mesmas marcas e modelos que me estejam a ler, pois estou certo não pertencerem ao grupo dos «bonés ao contrário»).

É todo um processo de frustração, de tentar dar nas vistas a todo o custo, ou de tentar incomodar quem eles julgam mais abastado do que o seu grupo social.

Se interpelados, respondem com uma alarvidade boçal do género «estou a controlar as garinas»... Enfim, de acordo com os acordes (ou antes, a batida), quase sempre idênticos, monótonos e imbecilizantes, a saírem pelas janelas sempre abertas (mesmo com chuva).

A brutalidade e a boçalidade associadas a um vazio absoluto em termos espirituais. Só me admiro (ou não) é com a falta de estudos psicológicos acerca do fenómeno.

Quanto às mulheres, Deus nos livre daquelas condutoras (relativamente poucas, felizmente) que conduzem a pensarem (?) em tudo menos naquilo que estão a fazer. Então, certas «tias» do recente novo-riquismo são absolutamente impossíveis de aturar. Histéricas ao volante, penteiam-se, limpam as unhas, gesticulam, dão «pinchos» no assento ou, como o meu Caríssimo Amigo diz, seguem a abanar ao ritmo da música «fast-food» que ouvem (e o carro a ziguezaguear em acompanhamento).

Mas que as ilustres Comentadoras desta ilustríssima Casa não me fuzilem já, pois há mulheres a conduzirem muito bem, mesmo ouvindo música, e sem os tiques histriónicos de muitas galinholas que emparelham com o bando dos bonés ao contrário e das «cervejolas» na mala, embora queiram parecer de uma classe social superior (se é que ainda poderemos falar disso, já que a verdadeira superioridade reside na Alma, e depois no Sangue e na Educação). Mentalmente, estarão ao mesmo nível.

Quanto à belíssima e saudosíssima gravura, receio bem que em breve estaremos reduzidos a velocidades semelhantes, com as imbecilidades que os (ir)responsáveis pela circulação rodoviária nos querem impor, ao jeito da famigerada Lei da Bandeira Vermelha, na Inglaterra Victoriana.

Grande abraço.

O Réprobo disse...

Meu Caro Filomeno,
pois nós por cá, todos mal! Com aumentps de combustível duas vezes por semana, fica mais barato frequentar sítios de dança dispendiosos do que gozar as delícias da música dentro das viaturas. O que não obsta a que se tenha abanado o capacete nas filas em bombas da gasolina para obter mais um enchimento o preço em extinção, ou nos postos de reabastecimento espanhóis, onde é mais barato; e se consuma dois num: em cada automóvel o som escolhido e a música que os políticos nos dão.
Abraço

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
é bem possível, neste tempo os cavalos eram de maior qualidade, embora em menos quantidade. Um pormenor importante: pelo menos o condutor adoptava linguagem muito mais maviosa do que os obcecados com a condução alheia.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Júlia,
não digo que todas as Mulheres são assim, senão que vejo cada vez mais nessa linha. E sim, os walkmen, associados aos grandes óculos de sol, tipo mosca, quebram completamente a natural estada no Mundo de cada um, parece que há uma fuga permanente que exige deixar de prestar atenção ao Próximo...
Beijinho

Nuno Castelo-Branco disse...

Bolas, acabei de me recordar do episódio do tunning!

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
céus, já? Entramos então na perigosa fase decisiva.´Vou ver como estão as coisas.
Quanto ao reparo, vale o que disse à Júlia. Mas, pelos vistos, Esta Mulher com quem falo no momento é, um tanto, assim...
Mas engarrafada, ainda vá. A maior velocidade é que...
Beijinho

O Réprobo disse...

Meu Caro Mike,
ora bem, aqui está otro velhadas, então. A Música é coisa tão bela que merece lugar próprio para ser escutada, julgo.
Quanto ao trovador retro-asinino, para que quer ele cartas, salvo as que escreva à Amada? Pois se já é um amoroso encartado!
Abraço

O Réprobo disse...

Querida Ana,
quanto ao deleite não tenho dúvida! Arreceio-me é da consequência rodoviária de transportes que excedam a noção do veículo. Mas estou certo de que a Ana consegue conciliar ambas as actividades. Pudera eu estar tão certo noutros casos...

O progresso referia-se ao abandono das costas voltadas à Estrada. Aposto à Culminância que é a Mulher, só teria legitimidade se referido a movimento masculino a Ela direccionado. Porque o que é Perfeito não pode progredir.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Esterelícia Esse,
muito obrigado for dignar-Se comentar. A referência foi acto de justiça elementar, não mais!
Espero, com a força de que sou capaz, que todas as Senhoras consigam retirar do fundo sonoro esse plus de concentração que refere. Claro que para isso Se terão de impermeabilizar ao seguimento da melodia para além de um certo limite...
É possível que o consigam. Mas lá que infundem em quem atravessa uma rua os receios de que dei conta...
Mais uma vez bem-Vinda!
Beijinho

O Réprobo disse...

Meu Caro Carlos Portugal,
antes do mais, congratulo-me por ter estado na base desse remate fantástico sobre a limitação de velocidade, que nos trouxe.
Depois, as anerrações que refere devem ter cá um êxito nos propósitos controleiros... Mas enfim, há gostos para tudo. E aqueles casos de que falei no texto, esteticamente, não tinham nada a apontar, até, muitos, eram bem agradáveis de ver, com as Protagonistas, aparentemente, menos na defensiva.
O pior´era a segurança que a acção delas punha em dúvida. E a descrição dos solavancos que faz corresponde bastante aos meus temores!
Será que isto se deve a uma errada interpretação da recomendação feita aos Exemplares do Belo Sexo de "se abanarem um bocadinho para se fazerem valer"?
Abração

O Réprobo disse...

Raios, Meu Caro Nuno, não queria avivar essas infaustas lembranças!
Detenha-Se na contemplação da gravura, pessoas com outro gosto e educação podem redimir a Estrada.
Abraço

Nocas Verde disse...

Caro Réprobo,

Sou (in)felixzmente daquelas (outras) que ouvem música em todo o lado. Enquato peão, com o walkman (que ain da sou do tempo da K7), depois do cdwalkman e agora do mp3. É porque considero a música tã bela e brilhante (bem, não toda, obviamente) que a trasnporto comigo... sempre. Mesmo aqui tenho o meu pequeno rádio que me acompanha as longas horas de trabalho. Talvez porque tenha sido criada com música (filha de tocador de bateria amador, amante das tardes radiofónicas em desconsideração de um tal canal televiso)com música clássica, e outros tipos que me abstenho aqui de emncionar. Perigo na estrada? Não necessariamente! Não haverá relação directa de música/acidente... o mesmo talvez não aconteça com o "boneco" descrito pelo Sr. Carlos Portugal... A imagem, a imagem... tive as minhas serenatas mas na praia (hihihih) ao ouvido (bem juntinho) que ele tem uma voz deliciosa para se ouvir assim... juntinho...

O Réprobo disse...

Querida Nocas Verde,
nada tenho contra a imersão na múcica onde quer que seja, apesar de, para quem está de fora, poder ser vista como ensimesmamento exagerado. Eu é que não o conseguiria, preciso de uma certa paz e ambiente para em completo mergulhar na beleza dos sons, nunca fui tão dado a criar essas condições através do que se ouve. Talvez por ter a Música em tão alta conta que acho que merece ser servida, antes de nos servir.
O perigo do desastre é que faz de porca a torcer o rabo: ou se está completamente imerso no que se escuta e a ameaça é real, ou consegue-se não sucumbir a tão delicioso império e está-se a atentar contra o merecimento da Arte. Na zona indistinta entre ambas talvez resida a morte de outro artista, o pobre que com as Visadas se cruze.
As serenatas! Do melhor que a vida tem, sem alcatrão.
Beijinho

Luísa disse...

Na minha experiência, meu caro Réprobo, a música (se o ritmo é vivo, contagiante) exalta os sentidos. Deve, por isso, melhorar os reflexos. Mas também não gosto de discotecas ambulantes – que vejo, acrescento, geralmente entregues às mãos de jovens e altaneiros machos… ;-)

Carlos Portugal disse...

Cara Nocas Verde:

Geralmente, quando conduzo, coloco quase sempre no leitor um CD de música clássica, ou quando muito um Vangelis, um Mike Oldfield, um Jarre.

Também me habituei a estudar e a trabalhar com música - se esta for oposta do ruído, como convém. Contudo, certas músicas de que gosto (mesmo clássicas) são de tal modo absorventes que provocam distracção. E isso, na condução, é muito grave.

Razão teriam na época do Classicismo, quando se compunham peças - admiráveis, algumas - para acompanhamento de reuniões sociais, soirées, ou mesmo espectáculos de fogo-de-artifício. Verifiquei que, no caos do trânsito citadino actual, essas peças relaxam sem serem enfadonhas, e não nos distraem do que estamos a fazer - o que é primordial.

Quanto aos decibéis ululantes das discotecas ambulantes da tribo dos bonés ao contrário (e não só), acho que são, para além de uma tentativa absurda e negativa de chamar a atenção, uma espécie de droga. Aqueles indivíduos escolhem o atordoamento para não terem, simplesmente, que pensar. Assim como acontece nas discotecas propriamente ditas. «Tu, que atravessas esta porta, deixa aqui toda a esperança de conseguires falar ou pensar», deveria estar afixado por cima da entrada das ditas. E os porteiros deveriam ser todos da Charon, a condizer com a entrada do Hades.

Posto tudo isto, volto a dizer que música na condução, SIM, mas há que a escolher - tanto de acordo com o nosso gosto, estado de espírito, cansaço ou condições de circulação. Pode-nos alegrar, alertar os sentidos (em longas viagens, principalmente, e com os limites de velocidade absurdos que nos impõem), ou pode-nos enervar ou distrair ao ponto de termos um acidente.

Beijinho.

Nocas Verde disse...

Querido Réprobo,
Aqui volto para acrescentar uma coisinha ou duas... permite-me? (avanço, pode ser ?)
Durante as minhas incursões como profissional da dança - vulgo bailarina - aproveitei esses tempos verdadeiramente mortos para ouvir, escutar (que são sempre duas coisas diferentes, não?) e estudar as músicas, muitas que dancei ou coreografei, outras tantas mais, imensas à procura da Inspiração. Como peão, claro. Parada nas paragens, etc. Outras realidades... Devo dizer que para mim a música é tão, tão preciosa para mim que tanto a posso e devo ouvir com extremada e devocional atenção, como trazê-la - sempre - junto de mim... como Aquela amiga que me anima, chora comigo, ri por mim, fala. Como condutora - as minhas Crias que o digam - o trânsito e a condução absorvem 99% da atenção e, por isso, reduzo-me a zonas musicais mais simples (não simplistas) que sem serem (nunca, por Deus!) banais serão mais inócuas ou inofensivas. Perdoe-me... mas é de facto assunto que me fascina a percepção da e para a música... tenho que me lembrar disto lá do meu lado.
Caro Carlos Portugal:
De acord, de caordo e.. de acordo. Haverá coisa mais enervante que procurar uma qualquer estação de rádio (do meu velhiiiiinho carro sem leitor de cds) e encontrar... blargh... sabe do que falo!... a última vez que isso me aconteceu ía caidno do banco do condutor(!)...

O Réprobo disse...

Querida Luísa,
e garante-me que essa excitação sensorial não levará a uma alteração da normalidade da condução que possa prejudicar os outros?
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Nocas Verde,
pleaaaaase, be my Guest. Gostei muito de seguir o Seu diálogo com o Carlos Portugal. Sua forma de amar a Música está explicada - é deformção profissional, ehehehehehe. Como eu estaria do lado dos espectadores que A aplaudiriam, exijo as infra-estruturas correspontentes para os prazeres da audição.
Beijinho

ana v. disse...

"o que é Perfeito não pode progredir"

Safa-se sempre com elegância, hein?
Muito bem, Paulo. A propósito de música, dá-nos violinos para acalmar as hostes femininas...

Também preciso de concentração para ouvir alguns tipos de música. Outros, no entanto, são um fundo precioso mas que não me distrai do essencial: guiar, no caso.

O Réprobo disse...

Ora, Ana,
a aficcion e respeito pela verdade passam agora por elegância?

Ainda bem, mas algumas Congéneres que vi em certas performances oscilantes...
Beijinho