segunda-feira, 19 de maio de 2008

Vapores & Carbonizações

Em comentários a outro postal o Nuno Castelo-Branco e a Ana Vidal confessam a sua afeição por comboios de outros tempos. Suponho o da Ana uma natural decorrência de Aficionada do Esmero que A conhecemos, pelo que não espantará a nostalgia de composições com serviço exemplar. Mas, fora dos despautérios psicanalíticos, por que gostarão tantos rapazinhos de prestar atenção aos veículos ferroviários? Também eu passei por lá: detestando pastilhas elásticas, ia, na minha infância, ordenadamente comprar as Piratas que davam cromos de trens do Mundo, colecção que completei e cuja caderneta ainda guardo algures.
Estranha esta atracção de rapazinhos por carris, quando a sua principal preocupação, poucos anos vencidos, em plena adolescência, é descobrir a melhor maneira de saírem da linha.

Os Povos são como os homens: conforme mostram as figuras anexadas, em 1840 a chegada do Caminho de Ferro era uma festa, por muitos vilarejos franceses. Por volta de 1870, inaugurações similares vinham a desenrolar-se em ambiente lúgubre, digno de exéquias fúnebres.
Na Alemanha, com unidade recente e exércitos numerosos e competentes para transportar, a ferrovia veio a tornar-se um importante factor de unidade nacional, fortalecendo a comunicação dos diversos Estados do Império e garantindo, através de impecável cumprimento horário, a acção concertada da Força Militar que dava nova expressão à conjugação de forças.


Num País sem problemas de Identidade Nacional, nem tropas de jeito ou política externa e de vizinhança que justificassem deslocações por trilhos, a inovação aproximou os comportamentos da população adulta dos das crianças e teenagers, à vez. No Portugal Oitocentista, a chegada da locomotiva a povoações relativamente isoladas fazia sonhar com o acesso fácil e rápido aos confortos e riqueza urbanos, não tardando a inverter o sentido do seu contributo, substituindo a promessa de trazer satisfações pelo cumprimento da ameaça de roubar populações. O Fontismo, com melhoramentos materiais inauditos, condenou o país a Lisboa e Porto, primeiro passo para condená-lo tout court. Também por isso os melhores intelectuais do tempo não o perdoaram, porque os pais que reduzem o cuidado com a formação dos filhos a presenteá-los com veículos desejados nunca conseguem melhor fama do que a de filisteus.

21 comentários:

Júlia Moura Lopes disse...

eu lembro de ir ver passar o Chefe de Estado passar no comboio.Eu em fila indiana com a turminha toda e com a minha mãe que era proessora.não gostei nada, devo dizer...
mas sempregostei de ver passar os comboios- risos- no Douro.

mike disse...

Caro Réprobo, os Caminhos de Ferro e os carris são-me tão gratos como o sair da linha. Nascido que sou no Lobito, numa cidade angolana de onde se iniciavam os Caminhos de Ferro de Benguela. Uma longa linha férrea que unia a Costa Ocidental à Costa Oriental desse imenso Continente. Já o sair da linha que com toda a propriedade menciona, são carris de outro rosário.

cristina ribeiro disse...

Comboios lindos, com aquelas locomotivas que já quase só se vêem em museus da especialidade, vi-os na Linha do Tua, que querem fechar.T~em um encanto que quisera qualquer TGV...
Beijo

Júlia Moura Lopes disse...

na linha do Tua, Cristina, contavam que saia-se para fumar, com o comboio a andar e apanhavam nas calmas o mesmo.risos

A viagem de comboio ao Tua é das mais lindas. Prometo que amanhã colocarei um video com essa viagem.

cristina ribeiro disse...

Para fumar não, porque não fumo, mas, Júlia, na época das vindimas, em Setembro,por mais do que uma vez, saí, nos apeadeiros, para colher uns cachos de uvas...

ana v. disse...

Tenho fascínio por viagens de comboio, e ainda um dia hei-de fazer a Rota da Seda de comboio. O Expresso do Oriente é um comboio mítico, Paulo. Impossível não me deixar levar pelo romantismo de uma viagem dessas. Com todo o esmero, como diz.
Já o TGV, confesso que não me comove...
beijinho

O Réprobo disse...

Querida Júlia, mas, pelo visto, passou a infância a fazer coisas de que a Mãe gostava e a Julinha não: ainda recordo a 1ª Comunhão em hábito de Freira...
Claro que outro galo cantaria, se fosse um Rei a passar...
Beijinho

O Réprobo disse...

Ah! É, Caríssimo Mike? Pois o Seu comentário é tão rico que vai ser respondido em post.
Abraço

O Réprobo disse...

É um Paraiso, Cristina! Temos no TSantos outro aficionado do trajecto, desde já convocado para partilhar as respectivas impressões com a Roda.
Beijo

O Réprobo disse...

Vou já espreitar o cumprimento da promessa postadora, Júlia
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Ana,
só os maníacos da Velocidade se comoveriam... o aproveitamento da paisagem é uma das mais-valias, como agora se diz do comboio. E eu sou hostil à pressa, em quase tudo.
Beijinho

Nocas Verde disse...

Tive um comboio na minha infância!. Sim porque menina que fui tive muitos daqueles brinquedos mágicos que pareciam só destinados aos "machos". Era vermelho e criámos, o Pai e eu, árvores de papel, montes de almofadas e sei lá que mais. Um dia estragou-se o mecanismo e o Pai (=Pardal) ligou-o a um secador de cabelo. Fazia mais barulho que andava... mas amei esse comboio, ou melhor "pacóio" como dizia a CV. Numa era de e com velocidade, ainda é mágico deixarmos o carro nalgum lado e viajarmos no(s) velhinho(s) pacóios. Está prometida por estes lados viagem maior, porque "quero ver as árvores a passar, tu - tu - tu - tu e as terras a virem e a irem" (sic - CN)...

O Réprobo disse...

Querida Nocas verde, também conservo um, desses tempos. Tem uma locomotiva a imitarc as de carvão e ontra, vermelha, cópia das diesel.
Mas claro que parece mais vocacionado para brinquedo de rapaz, para mais quando a Menina é Grácil e dada ao ballet...
O que não obsta à alegre descoberta das alegrias paisagísticas e de cumplicidade viajante nos verdadeiros. Pacóio está o máximo!
Beijinho

atrida disse...

Algo injusta a crítica ao fontismo. Foi já no consulado do prof. cavaco que se começaram a encerrar diversas linhas de CF que a monarquia houvera levado ao interior.

O Réprobo disse...

Meu Caro Átrida,
ninguém nega a importância dos melhoramentos. O que a Geração de 70 apontava ao António Maria era a redução da Ideia Nacional a eles.
Abraço

atrida disse...

Certo, meu caro, mas eu peguei foi na tua asserção de que o fontismo teria reduzido o país a Lisboa e Porto, algo que só a democracia efectivamente alcançou, de resto no período em que chovia dinheiro.
Um abraço.

O Réprobo disse...

Caríssimo,
esse foi o culminar do longo processo de esvaziamento iniciado pelo alargmento ferroviário. o Êxodo Rural nem parou no Estado Novo, canalizando-se para a emigração. Os carris foram o princípio do fim.
Abraço

tsantos disse...

"na linha do Tua, Cristina, contavam que saia-se para fumar, com o comboio a andar e apanhavam nas calmas o mesmo.risos"

Essa, Caríssima Júlia, posso eu confirmar...Bem, não exactamente para fumar, mas para ir às laranjas, em pleno Verão. Era só dar uma palavrinha ao condutor...

Confesso que estou muitíssimo apreensivo com o futuro daquela Linha. E falo com conhecimento de causa, infelizmente...

Bjos
T

ana v. disse...

Aqui em Sintra foi há pouco tempo restaurado e posto a circular de novo outro símbolo romântico dos carris: o eléctrico que vai até à Praia das Maçãs. Lembro-me bem, quando era miúda, de andar nele e de apanhar marmelos e laranjas pelo caminho, tão devagar ele ia também.

O Réprobo disse...

Donde, conjugando os comentários do TSantos e da Ana, antes da velocidade é que era muita fruta!
Beijinho e abraço

tsantos disse...

"Aqui em Sintra foi há pouco tempo restaurado e posto a circular de novo..."

Claro, a Linha do Tua fica suficientemente longe de Lisboa para não ter interesse do ponto de vista turístico, não é?