terça-feira, 27 de maio de 2008

Palavras Sobre Canhões

A 27 de Maio de 1941 foi afundado o couraçado alemão Bismarck, depois de três dias antes ter infligido igual sorte ao cruzador de batalha britânico Hood. Mais do que o interesse bélico, ficou-nos o do valor simbólico e propagandístico desses tristes fins. O problema maior foi o prestígio acumulado durante uma vintena de anos pelo vaso inglês, entre os dos das duas guerras mundiais, como o maior navio de combate do Mundo, apesar de deficientemente reforçado na bjindagem, o que não transparecera. O público passou a ver nele toda a Royal Navy, e como nesta lia a sua sobrevivência, a rever-se no navio. Por isso Churchill, sabendo do seu fim às mãos do inimigo, deu a ordem Afundem o Bismarck por todos os meios, dizendo, em voz mais baixa, para o Secretário da Guerra: No dia em que as pessoas não confiarem mais na Marinha a guerra estará perdida. Como o intervalo foi de três dias apenas, conseguiu-se uma extraordinária reconversão anímica, fazendo suceder o triunfalismo da vingança ao que mal tinha começado a conhecer-se como desmotivação do desastre. E, por uma vez, a propaganda falou verdade, ao inculcar a ideia de que, com o emprego aeronaval que Hitler não aprovara em larga escala no curto prazo, a sorte do domínio dos mares estava favoravelmente decidida. Neste evento, a morte do colosso alemão começou pela acção certeira dos aparelhos transportados pelo porta-aviões Ark Royal. No imaginário popular estava garantido o fogo que informaria a própria letra de canções como a de Johnny Horton.

8 comentários:

Carlos Portugal disse...

Caríssimo, só um reparo:

O meu Amigo escreveu «Neste evento, a morte do colosso alemão começou pela acção certeira dos aparelhos transportados pelo porta-aviões Ark Royal.» Acção certeira? Desculpe, mas de certeira nada teve! Os poucos ultrapassadíssimos Fairey Swordfish que sobreviveram ao ataque ao couraçado até tiveram dificuldade em regressar, e o torpedo que empenou o leme do navio alemão atingiu-o por mero acaso. Como há bem pouco demonstrou James Cameron, os torpedos lançados por aqueles aviões de lona (e depois, na batalha final) não conseguiram penetrar o total de 1,20m de blindagem do duplo casco (60cm em cada casco, à linha de água).

Foi, portanto, uma questão de sorte (para os ingleses) e de infortúnio (para os alemães), não de precisão certeira. Esta tinha-a o Bismarck, pois era o único navio do mundo na época a possuir computador de tiro (electromecânico, pois então). Daí a sua vitória retumbante sobre o Hood.

Agora, o computador de pouco valeu contra uma frota inteira e - principalmente - estando com o leme avariado pela tal questão de sorte. Com as superstruturas a arder, o almirante Lütjens e o comandante Lindemann não tiveram alternativa senão abrir as válvulas do fundo e afundarem o navio.

O que foi criminoso foi a acção inglesa da frota, que deixou morrer mais de 1000 tripulantes nas águas geladas, com a desculpa de lhes parecer terem visto um «periscópio»...

Grande abraço e bem-haja pela lembrança.

Carlos Portugal disse...

Perdoe-me, Caro Amigo: errei grosseiramente na blindagem do Bismarck (devido à noite de insónia!). Cada casco tinha, à linha de água, 32 cm, totalizando 64 cm, metade do que escrevi. Mesmo assim, o peso da blindagem ultrapassava as 17.000 toneladas...

Abraço.

O Réprobo disse...

Meu Caro Carlos Portugal,
isto de imputar à sorte os resultados desejados tem muito que se lhe diga. A acção dos dois Swordfish que lançaram os torpedos sobre o gigante dos mares não podia ter sido mais... certeira, pois onde se lhes pedia que degradassem as defesas inimigas, conseguiram deixá-lo à mercê do HMS Rodney & companhia, que acabaram o trabalho. Ser certeiro é empregar os meios adequados e, com eles, atingir ou superar um objectivo. Cair em desmerecer os processos é muito reversível argumentação - tentando diminuir quem os desencadeou, acabaria por rebaixar quem sucumbira, não à competência do adversário, mas ao proprio contrário dela...
Abraço

Carlos Portugal disse...

Caríssimo Amigo:

Perdoe-me se desmereci a actuação inglesa; mas, na verdade, o último ataque foi feito por quinze Swordfish, e não dois, sendo já o terceiro ataque, e o material britânico era tão mau que - outra vez por uma questão de sorte - nenhum dos torpedos lançados por engano contra o HMS Sheffield num ataque anterior explodiu. Assim, dos três ou quatro torpedos que atingiram o Bismarck, apenas o que lhe empenou os lemes (falhou por pouco, já que fora lançado para o atingir a meia-nau) lhe causou o estrago que lhe seria fatal. Os outros rebentaram contra a cintura couraçada, não conseguindo senão estragos menores.

Aqui, como deve ter compreendido, as minhas simpatias vão claramente para o Bismarck - não por questões ideológicas, mas por ter grande admiração por essa jóia da engenharia naval, como actualmente já não se fazem, e pelo seu galante último combate.

Grande abraço.

O Réprobo disse...

Mas com toda a certeza que também admiro o valor dos Marinheiros Alemães e da Engenharia Naval germânica, Meu Caro Carlos Portugal. A celebração do mérito combatente, de ambos os lados, deve fechar os olhos à enformação política. No caso, tanto me inclino diante dos que souberam vencer, como dos que tiveram um dia menos bom.

Uma única nota - falei em dois Swordfish porque OS TORPEDOS QUE ATINGIRAM RELEVANTEMENTE O ALVO partiram apenas de dois dos que compunham o grupo atacante.
Abraço

Carlos Portugal disse...

Got it!

Abraço.

tsantos disse...

Tanto quanto me recordo, a intervenção dos Swordfish do "Ark Royal" tinha como objectivo uma tentativa desesperada de retardar o "Bismarck", de forma a permitir à Home Fleet dar cabo dele a tiro (o que efectivamente aconteceu). Era ainda a ideia da supremacia dos couraçados sobre todos os outros navios que imperava, então, em todas as marinhas (mesmo na do Japão).

Apesar do sucesso de Tarento e Pearl Harbour, a mudança de paradigma que impôs o porta-aviões como O navio de linha, só se deu mais tarde, durante a guerra do Pacífico. O porta-aviões era considerado mais como um meio de fornecer protecção aérea aos navios de linha (e aos desembarques) do que um meio de ataque em si mesmo, como se veio a tornar a seguir à 2ª Guerra.

O Réprobo disse...

É isso mesmo, Meu Caro TSantos. E a Kriegsmarine tinha no seu programa de reequipamento previstos cinco porta-aviões modernos. Não teve foi os doze anos para executá-lo. Mas claro que a definição das prioridades se revelou erro clamoroso, pela viragem que recordas.
Abraço