quinta-feira, 8 de maio de 2008

As Cores do Desejo

Uma Gota dos Meus Sonhos de Shahla RosaLendo esta justaposição da actividade onírica e do cinema, tergiverso para uma questão que respeita a ambos, a de serem a cores ou a preto e branco. Os cientistas dizem que 80% dos nossos sonhos são coloridos, correspondendo aos períodos de imersão mais porfunda, contrapostos aos periféricos, nos tons sem cromatismo variado dos filmes de outro tempo. Os mais radicais chegam a contestar a possibilidade, fisiologicamente, de sonhar a preto & branco, o que, dadas as muitas confissões de experiência em contrário, remeterá para a incapacidade dem neste âmbito, memorizar certas frequências do espectro.
A meu ver a culpa cabe toda ao velho Artemidoro, que inaugurou o tratadismo de oniromância, associando significados às pedras preciosas sonhadas. Daí às cores delas foi um ápice. O que julgo não fazer qualquer espécie de sentido, já que determinar uma cor que haja ocorrido durante o torpor do reino de Morfeu parece um contra-senso, uma vez que, pelo menos a mim, elas aparecem todas misturadas, segundo a ordenação que têm na vida desperta, não me lembro de alguma vez ter produzido uma sequência num fundo de coloração única, como que submetida a um filtro fotográfico.
Pelo que me parece que a questão não será tanto física como cultural. Salvo para os que sofressem de uma qualquer deficiência de captação no sistema de distinção, de cones e bastonetes, ou no da sua transmissão ao cérebro, duvido que alguém, antes das filmagens a P&B se popularizarem, pudesse ter, adormecido, visto o que quer que fosse, reduzido ao condicionamento alvinegro com a corte de cinzentos.
O mal está na citada vontade de, sonhando, se adivinhar o Futuro; como também na Psicanálise, em que através da comunicação desses registos se tenta deslindar o Passado. Alguém que o analista E. Levi conheceu diz que, quando sonha "sem arco-íris", sabe que daí resultará um qualquer cunho profético. Aqui está alguém mais pessimista do que eu: concede a faculdade de predição apenas às tonalidades sem alegria.
A minha biografia diz-me que até aos 24 anos sonhava - ou lembrava-me dos sonhos - a preto & branco. A partir daí tornaram-se coloridíssimos. Mas nunca tentei deles retirar indicações sobe os períodos menos próximos, para a frente, ou para trás. O que faço é verificar que de cada vez que sonho com um afastamento maior da lógica, misturando pessoas, estados e épocas, a minha capacidade de concentração, no dia que sucede, está muito mais apurada.
Um campo há em que a coloração dos sonhos parece relevantíssima. É o da sinatriana canção que inclui os versos

The shadow of your smile
When you have gone
Will color all my dreams
And light the dawn

Mas aí sonho é desejo, o contrário da imposição.
E pronto, contem-me dos Vossos. Não quero bisbilhotar os factos, mas gostava de lhes ver boas cores...

16 comentários:

cristina ribeiro disse...

De que cor são os meus sonhos? Sinceramente não sei. Acho que,de tanto pedir para não me lembrar deles, porque, quando criança era assaltada por pesadelos, nem isso ficou.Agora, por vezes tenho a nítida sensação de que estou a deleitar-me com o sonho, mas passado um mísero milésimo de segundo depois de acordar já de nada me lembro, por mais que me esforce...; olhe refugio-me no sonhar acordada, e, aí, claro que lhe empresto as cores mais maviosas
Beijo

fugidia disse...

Creio que são como as cores da realidade...
Posso dizer-lhe amanhã, se me lembrar? :-p

Beijinho.

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
a lembrança dos meus costuma persistir até ao duche. Depois, vai-se. Quererá isto dizer que são sujidade?
Mas então os pesadelos eram assim tão frequentes?
Bem, não é que eu não os tenha, perdem-se é algures. Digo isto porque, segundo parece grito aflitivamente enquanto durmo. E de manhã não tenho noção dessas angústias.
Ah, são esses períodos de doces matizes que fazem a Nefelibata?
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
claro que pode. Também precisei de ter a questão engatilhada de véspera para notar como se manivestavam, no meu caso.
Beijinho

cristina ribeiro disse...

Paulo, acho que aqueles episódios não eram pesadelos, antes medos nocturnos, porque estava bem acordada quando me sentia assim angustiada. Mas não nego que gosto muito de sonhar acordada, nas nuvens, claro está :), e então entro em cada filme, com as cores mais suaves que encontre na paleta :)
Mais um beijo

Júlia Moura Lopes disse...

são os melhores sonhos, Cristina, aqueles que a gente tem acordada. Os outros, como diz o nosso amigo Paulo, são o xixi do subconsciente.

ps- os meus pesadelos tb eram no mesm género :-)

fugidia disse...

Querido Répbrobo,
não sei se sugestionada pelo post, se porque estou muito angustiada com uma catrefada de coisas para fazer, a verdade é que me fartei de sonhar esta noite.
Não eram a preto e branco mas não me lembro que cores tinham... :-(

Beijinho de bom dia :-)

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
essa inquietação nocturna sucede em muitas crianças sensíveis. Quantoao technicolor vital da vagabundagem interior, talvez seja a melhor receita para escapar à infelicidade.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Júlia,
eu posso tê-lo dito, mas nunca com a feliz expressividade da Júlia.

Pensemos pela positiva: pesadelos desses são uma doce alternativa à fatalidade que torna a vida num...
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Fugidia,
possivelmente cm as cores naturais com que, normalmente, vemos as coisas...
Daí a menos impressiva gravação na memória.
Beijinho retributivo do voto. E não abuse do labor. Blogar é que é essencial!

Once In a While disse...

sonhos .. palavra que me é grata ou não tivesse até tentado compor uma espécie de conto envergonhado a este tema.
Os meus, concordando na íntegra com a Cristina, são mais acordados. Chamo-lhes objectivos, projectos, propostas. Coisas que me esforço por alcançar, concretizar.
Os outros, ao contrário dos seus Caro Paulo, normalmente nem chegam ao "duche" (risos)

Desejo-lhe um excelente "and real" fim-de-semana :)

O Réprobo disse...

Também para a Querida Once. Mas isso é que é uma capacidade rara de fazer resvalar para a irrelevânia os assaltos mentais a que, dormindo, nos deixamos à mercê!
Beijinho

Once In a While disse...

(rindo) .. mais precisamente porque de mercê se revestem meu Amigo .. que relevância poderá ter algo em que o meu espirito participa sem o meu "consentimento"? ;)

O Réprobo disse...

Querida Once,
eu também acho, nas psiiiiiiiu, falemos baixo, não vamos ferir os sentimentos de algum Leitor "Psi" de formação (ou até de deformação)
Bj.

av disse...

Os meus sonhos são coloridos, tanto quanto me lembro deles. E de muitos lembro-me durante dias seguidos, ao contrário dos meus amigos, que os deixam no duche ou até na almofada... Também eu tinha pesadelos (recorrentes, ainda por cima) quando era adolescente, e de tal maneira me angustiavam que até tinha medo de dormir. Mas agora é raro tê-los, felizmente.

O Réprobo disse...

Está visto que todos tivemos onirismos conturbados na adolescência, Ana. E vejo que seria uma dádiva para qualquer analista, também num sentido diferente do que já é para todos nós, comuns mortais.
Beijinho