domingo, 23 de março de 2008

O Império dos Ovos

Como chegou o ovo a simbolizar a Festa Pascal? A explicação não é pacífica, mas tudo parece indicar que se tratou de um pioneiro sincretismo, resultante de coincidência epocal das comemorações da Passagem do Egipto para a Judeia, entre os Judeus imigrados na Roma Antiga e os cultos de renovação - que hoje diríamos primaveris -, da altura do ano em que a vegetação floresce e muitos animais procriam. A decoração deles terá nascido durante o reinado de Alexandre Savero, em que uma galinha tresloucada ou benfiquista resolveu pôr um ovo vermelho. O prodígio fez a moda e, de aí em diante, toda a gente estimável começou a oferecer aos que prezava figuras ovóides da cor, em breve dando o salto para maquilhagens mais variadas e inventivas. A Santa Madre Igreja não viu nada de condenável numa celebração da Vida e da Luz, passando a promover o intercâmbio de ovos bentos, com a adição da Mensagem da Ressurreição e da purificação revivescente.
A sofisticação é uma fatalidade do Homem e em breve os artistas presentearam os Reis, ou quem eles favorecessem, com maravilhas de engenho e riqueza dentro da temática. A Francisco I de França foi por um escultor oferecido um que encerrava, por si talhados em madeira, todos os Mistérios da Paixão.
E para um Infante de Espanha, em esmalte foi confeccionado outro, estando no interior gravados os passos Evangélicos Pascais. No cimo havia um galo mecânico que cantava, pretendendo evocar o da negação de S. Pedro.
Breve a religiosidade seria passada para segundo plano, nesse Século XVIII que tanto A olvidou, acabando por pagá-lo bem caro: Luís XV ofereceu à Du Barry uma jóia oviforme mas já sem conexão sacra, no valor de 400 libras, fazendo Boufflers proferir a frase que entrou no adagiário: se o comerem quente, eu guardarei a casca.

Mas o cúmulo do esmero terá sido atingido com a companhia russa Fabergé, a quem Alexandre III, para agradar à Mulher, a Czarina Maria, pediu que fabricassem um ornato da célebre forma, visando homenagear o nascimento dela no campo que tão querido lhe era. A partir daí o não menos célebre ourives

passou a fabricar todos os anos pela altura das festividades correspondentes à de hoje uma pequena maravilha. O hábito continuou pelos soberanos seguintes, perfazendo 56 o total de produtos da célebre casa, dos quais os mais célebres são o da Coroação e um inspirado no do galicoque antes citado. Todos eles tinham uma surpresa dentro, sendo o primeiro que citei o revestimento de um sumptuosíssimo coche de ouro.
Objecto de meditação - um Imperador querendo o que todos os homens querem, cair nas boas graças de quem amam, recorrendo à alusão da mais simples e generalizada das mensagens. O artesão a quem foi dada carta branca aprisionando o Soberano no supra-sumo da artificialidade trabalhada. É na convergência destes movimentos, o dos Reis em direcção aos arquétipos enraizados nos Povos, como o dos Súbditos rumo à excepcionalidade que honra, que pode encontrar-se a receita mágica na harmonia das Nações.

2 comentários:

Once In a While disse...

fantástica explicação que li atentamente depois de ter sido submetida a interrogatório pela princesa lá de casa .. porquê os coelhos e porquê os ovos? .. a segunda parte está explicada ;)

Grata

O Réprobo disse...

Querida Once,
que bom tê-La de volta e aperceber-me de que fui útil à curiosidade da Princesa.
Sobre os coelhinhos, é a tal assombrosa capacidade reprodutora associada às renovações. A Nossa Colega do «Cocanha» fala a respeito.
Beijinho