domingo, 30 de março de 2008

Uma Data de Virtudes

Os mais dados a considerar as concidências astrológicas, na vertente solar, muito embora, poderão bem encontrar pano para mangas no facto de 30 de Março ser o dia em que vieram ao Mundo Van Gogh e Verlaine. Dois Autores, cada um no seu campo, cujas vidas tormentosas talvez tenham ajudado a promover as respectivas formas de expressão, contudo de qualidade inegável, qualquer delas. Mas a mitificação dos golpes auto-infligido ou dirigido contra uma relação em fuga, parecem-me ter assegurado uma perenidade a talentos que, sem elas poderiam ser sujeitos às sombras da datação estilística.
Neste dia de comemoração interessa-me ver como se projectaram no tratamento dos livros, assunto que me é sempre tão caro, as duas excessivas personalidades. Nos da pintura do grande Vincent, assim simplesmente intitulado, os seus três principais traços parecem-me poder ser encontrados. A pobreza que o afligiu encontra o alívio na abundância do acervo exposto; a solidão é contrariada pelo contacto espiritual com os autores de tantos escritos. E a procura de alguém com quem partilhar uma visão do Belo, visível nas transmissões estéticas que encerram, como na disponibilidade que a sua ordenação na tela evidencia. Querem algumas escolas psicologistas que a arrumação dos volumes traia carências afectivas. Neste caso, as proclamadíssimas e atestadíssimas do brilhante pintor terão encontrado a sua catarse na relativa desordem.

Já o Poeta, que desesperou de não poder controlar o Futuro, aproveita os amigos encadernados como imagem do reviver da parte de felicidade afectiva que lhe coube, através do renovado interesse das linhas outrora percorridas.:

BIBLIOPHILIE

Le vieux livre qu´on a lu, relu tant de fois!
Brisé, navré, navrant, fait hideux par l ´usage,
Soudain le voici frais pimpant, jeune visage,
Et fin toucher, délice et des yeux et des doigts.

Ce livre cru bien mort, chose d´ombre et d´effrois,
Sa réssurrection «ne surprend pas le sage».
Qui sait, ô Relieur, artiste ensamble et mage,
Combien tu fais encore mieux que tu ne dois.

On le reprend, ce livre en sa toute jeunesse,
Comme l´on reprendrait une ancienne maîtresse
Que quelque fée aurait revirginée au point;

On le relit comme on écouterait la muse
D´antan, voix d´or qu´éraillait l´âge qui nous point:
Claire à nouveau, la revoici qui nous amuse.

17 comentários:

av disse...

Realmente sou péssima em efemérides, Paulo! Faço hoje uma homenagem a Eric Clapton, também nescido a 30 de Março, mas não fazia a menor ideia de que este dia era também o destes dois Grandes da poeisia e da pintura! Enfim, mais uma coisa que aprendo consigo. E parabéns pela forma que escolheu para apresentar o talento de ambos, assim aplicada aos livros.
Um beijinho

fugidia disse...

Sim, caro Réprobo, também gostei de ler este post.
Gosto muito de Van Gogh e tive a sorte de já ter podido apreciar os seus quadros ao vivo.
:-)

av disse...

Acabei de saber que outro pintor - Goya - também nasceu neste dia. Aqui fica a dica.
Beijinho

cristina ribeiro disse...

Realmente, uma forma engenhosa de celebrar o engenho e a arte de um e outro.
Beijo

O Réprobo disse...

Ainda bem que gostou, Querida Ana. Já vou ver o E.C, pelas Suas mãos.

Quanto a Goya, é verdade, Querida Ana. Ainda há pouco mais de um ano tive na mão um exemplar da edição original dos «Caprichos».Infelizmente sem a possibilidade de adquiri-lo...
Mas é Artista por que tenho grande simpatia, afinal fez o meu retrato...
Beijinho

O Réprobo disse...

Sinto-me recompensado, Fugidia Amiga. E muito feliz pela interacção que nos relata. Viu este?
Beijinho

O Réprobo disse...

Obrigado, Cristina, estas apreciações até me convencem de que não saiu mal de todo. Mas o mérito é dos evocados...
Beijo

Anónimo disse...

"SE"

ADAPTAÇÃO FRANCESA

Si tu peux voir détruit l'ouvrage de ta vie
Et sans dire un seul mot te mettre à rebâtir,
Ou perdre en un seul coup le gain de cent parties
Sans un geste et sans un soupir;
Si tu peux être amant sans être fou damour,
Si tu peux être fort sans cesser d'être tendre
Et, te sentant haï, sans haïr à ton tour,
Pourtant lutter et te défendre;

Si tu peux supporter d'entendre tes paroles
Travesties par des gueux pour exciter des sots,
Et d'entendre mentir sur toi leurs bouches folles
Sans mentir toi-même d'un mot;
Si tu peux rester digne en étant populaire,
Si tu peux rester peuple en conseillant les rois;
Et si tu peux aimer tous tes amies en frère,
Sans qu'aucun d'eux soit tout pour toi;

Si tu sais méditer, observer et connaître,
Sans jamais devenir sceptique ou destructeur;
Rêver mais sans laisser ton rêve être ton maître,
Penser sans n'être qu'un penseur;
Si tu peus être dur sans jamais être en rage,
Si tu peux être brave et jamais imprudent,
Si tu sais être bon, si tu sais être sage,
Sans être moral ni pédant;

Si tu peux rencontrer Triomphe après Défaite
Et recevoir ses deux menteurs d'un même front,
Si tu peux conserver ton courage et ta tête
Quand tous les autres les perdront
Alors les Rois, les Dieux, la Chance et la Victoire
Seront à tout jamais tes esclaves soumis,
Et, ce qui vaut mieux que les Rois et la Gloire,
Tu seras un Homme, mon fils!

(Les Silences du Colonel Bramble)

André Maurois

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Paulo, a tradução deste poema directamente do francês, deixo aqui amanhã.
Maria

Once In a While disse...

os amigos encadernados são eternos .. :)
Gostei de ler.

O Réprobo disse...

Muito grato, Querida Maria, parece realmente uma leitura muito... francesa de um reputado anglófilo, coisa rara naquelas bandas.
Esperarei então pela versão na nossa língua para colocar a remissão para aqui, no postal devido.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Once,
são duas homenagens de dois Artistas... de tomo, o que julgo ser a expressão que melhor honra amantes dos livros.
Beijinho, muito agradecido

Meg (sub Rosa) disse...

Belíssimo, soberbo post!
Um beijinho

Anónimo disse...

"SE"

TRADUÇÃO DO FRANCÊS

Se podes ver desfeita a obra da tua vida
E, impassível, tornar ao sonho que se esvai...
Perder sùbitamente a batalha vencida,
Sem um gesto ou um ai;
Se podes ser amante e não morrer de amor;
Ser forte e ainda terno em teu rude lidar;
E, odiado, sem jamais a ninguém ter rancor,
Defender-te e lutar;

Se podes suportar que sejam malsinadas
As tuas intenções para os tolos iludir,
E, ao ver que estão mentindo essas bocas danadas,
Nem uma vez mentir;
Se tu podes ser digno, à modéstia sujeito,
Aconselhar os reis, ao povo dando as mãos,
E os teus amigos, sem que algum seja o eleito,
Amá-los como irmãos;

Se sabes reflectir, observar, conhecer,
Sem por isso acabar céptico ou destruidor;
Sonhar! Pensar! - porém no sonho não viver,
Ser mais que um pensador;
Se podes ser severo e não mostrar-te horrendo,
Corajoso e fugir à imprudência brilhante,
Se tu podes ser bom e ser sábio, não sendo
Moralista ou pedante;

Se podes reaver, sem que o orgulho te afronte,
Triunfo após Derrota, ilusões que sossobram...
Manter o ânimo firme e altiva a tua fronte,
Quando os outros se dobram;
Então Reis, o Destino, os Deuses, a Vitória
Teus escravos serão para que a teus pés se domem,
E - o que vale ainda mais do que os Reis ou a Glória -
Filho, serás um Homem!


FERNANDO MAYER GARÇÃO

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Maria

O Réprobo disse...

Obrigado, Querida Meg.
Os Abordados prestavam-se...
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Maria, muito, muito obrigado, vou colocar o link para aqui.
Beijinho

Anónimo disse...

Paulo, só hoje voltei aqui (e as estas horas!) depois que coloquei a última versão do poema, não só para ler os seus imensos posts entretanto colocados, mas principalmente para agradecer a sua resposta.
Tenho a tradução literal deste poema da autoria de Pedro (não, do Fernando)
Mayer Garção, que na minha modesta opinião está bastante bem traduzido, muito embora pessoalmente eu não aprecie os poemas traduzidos literalmente. Qualquer dia transcrevê-lo-ei por curiosidade apenas, se o Paulo achar por bem.

Cumprimentos Paulo.
Maria

O Réprobo disse...

Muito obrigado, Querida Maria, os Seus contributos serão sempre desejados e entusiasticamente acolhidos.
Beijinho