segunda-feira, 5 de maio de 2008

Mergulhos no Lodo

Visionamento, como passou a dizer-se, do DVD com um filme cuja existência me passara ao lado. «Eu, Peter Sellers», sofre de dois defeitos, como biografia: dos saltos cronológicos que escamoteiam partes da vida do actor e do enfeudamento a uma tese, a de ter sido moldado pela mãe, para não deixar que os laços com os que o amavam lhe empecilhassem a carreira, progredindo da ambição à insensibilidade e desta à crueldade. Como corroboração, o nexo simplista a uma deficiência de personalidade confessada e assumida na facilidade com que dava expressão a uma multiplicidade de caracteres, bem como a necessidade quase patológica de mudança de casa.
Um intérprete que se prestigiou por uma comicidade sem caretas vê desta forma desvirtuada a sua capacidade de representar, reenviada para insuficiências pessoais. No fim de contas, Sellers é mais o pretexto, o que acaba por ser pintada é toda a nossa época, com a obsessão da carreira a secundarizar todo o resto da vida, maxime a parte afectiva. Com a fatal insatisfação emergente, que, no caso do biografado, se plasma na aspiração a passar da Rádio para o Cinema e deste para um registo menos apalhaçado do que o da série da Pantera, de Blake Edwards. Como é tradução fiel, não só do homem, como do tempo, a permeabilidade às previsões de um parapsicólogo charlatão que lhe orienta as opções.
É o liliputiano mundo em que nos movemos - os grandes objectivos fixados, subsidiários do egoísmo, à mercê da exploração "sobrenaturalista" de quem saiba friccionar a vaidade. Vidinha sem coração, vidinha sem ver Deus.

6 comentários:

Rudolfo Moreira disse...

S. Nunca gostei de Sellers porque o achava muito parecido com o intelectual que desviou a Lolita.

filomeno2006 disse...

En el doblaje español le ponían hablar lento.......

O Réprobo disse...

Meu Caro Rudolfo Moreira,
aí está uma fira que nem aparece neste tentame biográfico. E nada menor...
Eu gosto de P.S., principalmente num filme que julgava o derradeiro, «Bem-vindo Mr. Chance» e é afinal indicado como penúltimo. Do Dr. Strangelve, claro. E de umas comédias inglesas em que a sua inserção na atribulada classe média não trai a persona apatetada de outros filmes.
Abraço

O Réprobo disse...

Meu Caro Filomeno,
na personagem de Chance Gardner isso parece-me mais do que adequado!
Ab.

av disse...

Também não vi este filme, Paulo. Fico curiosa, depois desta sua bela análise.
Beijinho

O Réprobo disse...

Obrigado, Querida Ana. Faltou dizer que Rush funciona bem no papel de Sellers, sendo que o ponto forte continua a ser a discutibilidade ou não da tese e a inserção deste comportamento na normalidade coeva. E pronto, lá incorri em desgraça junto das paroles do Pedro Correia!
Bjinho