quinta-feira, 1 de maio de 2008

Nó(s) de Víboras...

Cinderela de Cheryl GagePoint de milieu: l´hymen et ses liens
Sont les plus grands ou des maux ou des biens.

Voltaire
Chegados a Maio, dito o Mês das Noivas, desde o Paganismo, alfim reformulado pela Santa Madre Igreja para o Culto Mariano. Gosto deste quadro de Gage, porque dá a nota de total abertura na acção, o que, até em linguística, é o contrário da intriga: no tabuleiro de xadrez em que se transformará cada casamento, a luta constante entre o romance motivador e a desilusão do quotidiano doméstico, expressa nas rotinas cansativas dos pequenos trabalhos, a que, contudo, engenhos maiores permitem escapar, rumo à felicidade.
São Tomás Moro dizia do homem que casa que é como um imbecil metendo a mão num saco para retirar dele uma enguia que se encontre sozinha no meio de uma centena de víboras. As probabilidades são de cem contra um em como será uma víbora que ele agarrará.
O que mais espécie me fez foi saber que o Canonizado Chanceler de Henrique VIII era casado, e não constar que tivesse sido o matrimónio a ocasião em que perdeu a cabeça, separação adiada muitos anos. Até que descobri! Ao contrário do que parece, a frase não é assim tão pessimista, pois todos sabemos que as enguias dão choque. O que o Grande Humanista terá querido dizer é que más surpresas na conjugalidade, lá pelo Século XVI, só num em cada cento de outros casos.
Dedico este postal a Todas e Todos que se aventuraram nas águas profundas desse Himeneu a que (ainda) não desfraldei as velas.

4 comentários:

Luísa disse...

Meu caro Réprobo, uma visão pragmática do casamento e um sentido de investimento (num certo futuro) são, creio eu, muito úteis à sua sobrevivência. O romantismo é como um adereço decorativo numa casa: embeleza, valoriza, mas não é indispensável. Parece-lhe horrivelmente fria esta minha perspectiva? :-)
P.S.: Se acho que o casamento sobrevive à falta de romantismo – e acho mesmo que só sobrevive se não resvalar num excesso de ilusões românticas – já penso que não tem hipóteses se não houver amizade e respeito. Será que esta perspectiva me reabilita? :-D

O Réprobo disse...

Querida Luísa,
como ousa falar em reabilitação a Seu Propósito? Se a Minha Amiga não levasse a boa vontade a admitir azuis e castanhos combinados, seria Perfeita!
Note-se que não prescrevi um "tónico de Romantismo" para todos os enlaces, pretendi fazer uma constatação ahaaaam sociológica de uma representação que está presente no princípio de muitos, ao menos na parte feminina.
Agora segue o argumento porco: a desilusão que identifiquei foi aquela que corresponde à luta contra as exigências da lida da casa de que a Luísa, aqui mesmo, também se confessou vítima...
Beijinho

fugidia disse...

Bom, eu confesso um bocadinho de cada coisa, incluindo o romantismo, é indispensável.
Tal como aprendi que não são os pedregulhos, mas as pequeninas coisas, os pequenos grãos de areia, que podem fazer parar a "máquina"...

Beijinho, querida Luísa.
Boa sorte, querido Réprobo... :-p (esta é uma língua de fora para si, o Senhor desta casa...) :-)

O Réprobo disse...

Mas é disso que eu falo, Querida fugidia! O flagelo da rotina não reside na avalancha dos grandes blocos, é consequência da acumulação das poeiras...
Beijinho