quarta-feira, 16 de abril de 2008

Centúria(s)

Centenário de António Lopes Ribeiro. Do Cineasta outros, com mais talento e saber, falarão, como sobre demais cordelinhos que ele tocou poderiam discorrer, não fora a sua intimidade com o mundo da tela magnetizar as atenções. Nessa manifestação, como aliás no seu todo, o jogo de forças entre o genuíno sentir percebido por todos e o domínio das correntes estéticas mais em vista, vanguardistas de outras margens incluídas, obteve especial consagração em «A Revolução de Maio» que trata o triunfo da devoção comunitária sobre as importações que pretendiam instaurar a convulsão no grupo.
Mas também nas outras vertentes o enfrentamento entre a alteração estimada e uma realidade em fuga está presente, quer na observação sagaz das mudanças de velocidades sociais, quer na crítica benevolente dos grandes princípios de informação artística, patentes em dois bons livros de crónicas, «Esta Presssa de Agora» e Belas Artes, Malas Artes», respectivamente.
É porém como Poeta que hoje o quero relembrar, em dois momentos de rara felicidade na abordagem da eterna problemática da vita et moribus, com o alistamento de um sentido vital necessário. Sobre o Futuro em realização, este poema de ressaibos pessanhianos:
DESCOBRIMENTO

Há-de haver, pelo menos, uma ilha
que eu possa descobrir no mapa-mundo;
um mar ignoto, reservado à quilha
da minha nau, que não pode ir ao fundo.

Preparem um padrão de maravilha
que assinale o meu feito sem segundo!
(Clara certeza de aventuras, filha
da minha inquietação de vagabundo).

Onde será? Que feio Adamastor
guardará pela fôrça e por terror
o tormentoso cabo que me cabe?

Ignoro a latitude, a longitude...
Mas sei tomar a olímpica atitude
de saber coisas que mais ninguém sabe.

E acerca da programação do fim, com a eleição bibliómana do desejo que se não sabe último, mas castra a impotência da luta contra a brevidade da passagem, pela paz interior que a fruição, ou a mera perspectiva dela, permite proclamar, à guisa de rejeição da revolta que procurasse, mesmo num acto abreviador, usurpar a regência do Destino.
EMPENHO

Tenho a certeza de morrer vestido.
Tarde ou cêdo, não sei - nem me interessa.
Se fôr dum tiro - morro mais depressa.
Se fôr na guerra - morro mais vencido.

Se tiver tempo de reler o Eça
(pelo menos o livro preferido),
já me valeu a pena ter vivido
e ter sabido como se começa.

É fácil acabar. Os dias vãos
correm velozes pela vida fora,
desafiando a morte que me espera.

Quando chegar a inevitável hora,
gostaria que fôsse primavera
e que não fôsse pelas minhas mãos.

22 comentários:

Once In a While disse...

eu .. que fiquei presa no detalhe da Primavera, espanto-me com a informação que encontro. E não é que o destino lhe fez a "vontade"? ..

cristina ribeiro disse...

Dele tenho uma memória de extrema simpatia : em meados dos anos oitenta, vinha eu de comboio para Lisboa e, no Porto, ele entrou e sentou-se a meu lado. Fascinante a conversa que então mantivemos, até o destino,evidenciando-se a sabedoria que a idade e cultura lhe tinham dado, aliada a uma simplicidade que só possui quem como ele é grande...
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Once,
bela observação! A Minha Querida Amiga, Que é uma Amadora bem profissionalizada da Poesia, diga-me cá se estes versos não têm uma qualidade imprevista num Intelectual que aparentemente se daria como mais vocacionado para a prosa e para a criação plástico-fílmica?
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Cristina,
nunca conversei com Ele (era muito tímido, quando mais novito), mas em duas ou três conferências a que ambos assistimos, lembro-me de ter aproveitado o conhecimento de algum dos integrantes de grupos que o rodearam, no fim, para, como todos os outros, lhe beber as palavras. Lembro, particularmente, as genuínas memórias de outros grandes que conheceu.
Beijo

Once In a While disse...

sem dúvida meu amigo .. eu que mais amadora é impossível, gostei também da certeza expressa como se de uma carta de intenções se tratasse, compromisso de cavalheiro assumido com "algo" tão imprevisto como a morte.

Júlia Moura Lopes disse...

Eu tenho uma historia pessoal dele engraçadita, dos meus 20 anitos.

cristina ribeiro disse...

Errata: "ia" de comboio...
Mas, Paulo, era tão afável...; foi ele que começou a falar comigo- eu não me atreveria...

Anónimo disse...

era muito tímido, quando mais novito)

o grande Réprobo de passarinho passou a passarão...

av disse...

Conheci-o pessoalmente e guardo dele a melhor das lembranças. Não sabia da efeméride, um dia destes escrevo alguma coisa sobre ele lá no Porta do Vento. Era um homem encantador. O que não sabia é que era também Poeta, e tão bom! Quando fizer o meu post venho aqui roubar-lhe um soneto, Paulo. Posso?
Beijo

fugidia disse...

Também desconhecia que ele era um Poeta.
Gostei muito do "Empenho", particularmente do "É fácil acabar"...

Difícil pode é ser, como diz a Sophia de Mello Breyner, acabar com a sensação de "uma vida limpa, um tempo justo"...

Beijinho.

O Réprobo disse...

Na verdade, Querida Once, é uma morte pactada, mas a que o verso derradeiro elimina a identificação com o sentido rotineiro da expressão.
Beijinho

O Réprobo disse...

Querida Júlia,
conte! Conte!
Há pedaço fui ao «Privilégio dos Caminhos», mas não estava lá.
Beijinho

O Réprobo disse...

Acredito, Querida Cristina. Também guardo tal recordação do modo dele, mesmo em face do silêncio com que participei dessas rodas.
Bj.

O Réprobo disse...

Querida Ana,
por Quem é! Leve o que queira! Mas fico arrasado: Muitas das Minhas Amigas esiveram na órbita do Homenageado, ao que vejo: a Cris, a Júlia, a Ana...
Faltou dizer que foram ambos retirados de «O Livro das Histórias», editado pela Portugália em 1940. E que deixei um terceiro, menos pesado, muito embora, na caixa de comentários do «Cinco Sentidos».
Beijinho

O Réprobo disse...

O «Empenho» resplandece particularmente, Querida Fugidia. Mas encontro no «Descobrimento» um verso assombroso no ritmo e no que implica:
"o tormentoso cabo que me cabe".
É quase uma preparação do outro poema.
Beijinho

nonas disse...

Um excelente postal!

O Réprobo disse...

Obrigadíssimo, Caro Nonas, mas o único mérito meu terá sido o de não tê-Lo esquecido. O resto - que é tudo - está na fascinante personalidade que Ele foi.
Abraço

Júlia Moura Lopes disse...

eu conheci-o no Porto. Ria-se para mim, dizia coisas engraçadas, e eu não o reconheci, mas achava-lhe graça, por ser velho, já se vê. :-))
Um dia uma amiga disse-me quem era.

O Réprobo disse...

O gosto não escolhe idades, comprova-se mais uma vez, Querida Júlia.
Beijinho

Júlia Moura Lopes disse...

Mas tinha charme, e eu achava que o conhecia de algum lado,mas não sabia de onde, até lho disse uma vez.:-))

beijinho

O Réprobo disse...

O que ele se deve ter rido, lá com os seus botões...
Beijinho, Querida Júlia

Júlia Moura Lopes disse...

Sim, ria,acho que se divertiu à minha custa :-))

Eu segui o meu instinto,sentia também que ele era boa onda e que não fazia mal dar-lhe conversa, porque ele era só um bom comunicador.

beijinho, queirdo Paulo e um bom resto de domingo